“Depois dos cinquenta, deixei de acreditar em qualquer coisa romântica”: Até que fiz uma viagem para solteiros 50+ e conheci o Mário

Depois dos cinquenta anos deixei de acreditar em tudo o que era romântico: até sonhei que viajei numa excursão para solteiros 50+ e conheci o Manuel

Já não acreditava em grandes amores. Após o divórcio, houve algumas tentativas, encontros constrangedores, flirts descomprometidos nada que mexesse realmente comigo. Depois, simplesmente deixei de tentar. Para quê? Os filhos estavam criados, netos a caminho, o trabalho seguia no seu compasso. À noite, novelas, às vezes um livro. A vida transformou-se numa planície lisa e previsível. Segura.

Até ao dia em que, estranhamente, uma brochura apareceu-me nas mãos: Viagem para solteiros 50+. Alentejo. Passeios entre vinhas, jantares à luz das velas, grupos pequenos, sem pressa. Ri sozinha. Jantares à luz das velas? Com esta idade? Mas algo vibrou em mim. Talvez precisamente por soar tão ingénuo, quase como um daqueles romances (nos quais já não me deixo enganar). Ou talvez simplesmente porque estava cansada desta segurança.

Marquei o meu nome.

No primeiro dia, convenci-me de que tinha cometido um erro. No autocarro, quinze pessoas. Três divorciados, algumas viúvas, outras solteiras por opção. Todos simpáticos, sorrisos educados, mas no ar pairava um cuidado discreto. Ninguém queria parecer desesperado.

O Manuel sentou-se ao meu lado ao jantar no segundo dia. Era grisalho, tinha uma voz rouca e aquele jeito de olhar como quem escuta de verdade. Não fazia conversa fiada, nem elogios, nem parecia procurar aventura. Estava apenas ali. Quente, tranquilo, atento.

Não és daquelas que vêm de férias para se apaixonar disse, meio a brincar.

Não. Sou das que vêm para se lembrar que ainda estão vivas.

Sorriu. E algo em mim amoleceu. Não foi riso, nem emoção foi alívio. Alguém percebia.

Nos dias seguintes, falámos cada vez mais. No terraço debruçado sobre as vinhas, no autocarro, a passear por castelos caídos de sono. Falávamos de tudo, dos livros, do que nos irritava, dos filhos distantes, ainda que ligassem ao domingo. Falávamos da solidão, da dificuldade de recomeçar depois dos cinquenta. E de como talvez nem seja preciso começar tudo outra vez basta dar-se um bocadinho. Espaço. Presença.

Na última noite antes do fim, sentámo-nos num banco junto à piscina. À volta, um escuro de silêncio, só interrompido pelos grilos e o farfalhar da água. E o Manuel disse então:

Olha, nunca pensei voltar a sentir-me assim ao lado de alguém. E agora tenho medo de voltar para casa. Tenho medo que este encanto desapareça assim que pusermos os pés no avião.

Olhei o negrume. O coração batia descompassado como na adolescência. E embora quisesse responder algo sábio, algo adulto só consegui dizer:

Também tenho medo.

Não planeámos nada. Ao regressar, não houve promessas. Escrevíamos mensagens. Vieram depois os passeios juntos, os cafés partilhados. Às vezes o silêncio mas aquele bom, sem cobranças. A seguir veio um beijo. Hesitante, um tanto atrapalhado. Mas verdadeiro.

Não sei no que isto vai dar. Não tenho a menor vontade de voltar a planear a vida toda de novo. Mas sei que voltei a saber rir. Que me apetece sair de casa. Que há alguém que pergunta como foi o meu dia e ouve mesmo a resposta.

E sei que talvez seja isto o amor. Não desses de borboletas e dramas de novela. Mas um amor sereno, maduro, sem pressas, que aquece ao invés de queimar. E que não chega fora de tempo.

Às vezes dou por mim a sorrir sem razão, a sair mais cedo só para não perder o nosso passeio pelo Jardim da Estrela. E olho outra vez para o espelho, vejo uma mulher que não desistiu de si própria.

Não esperava nada de especial da vida. Só queria sossego. Mas o destino trouxe-me mais uma pessoa que não me tenta consertar, nem julga. Só está. Ao meu lado. Com a atenção que sempre me fez falta.

Se hoje alguém me perguntar se ainda vale a pena acreditar no amor depois dos cinquenta, respondo: não só vale a pena, como é obrigatório. Porque às vezes é justamente nessa altura que aprendemos a amar de verdade com consciência, maturidade, sem ilusões mas com esperança.

Porque o amor não tem idade. E a vida ainda sabe surpreender-nos quando já pensávamos que era tarde demais.

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