«Deitem abaixo a barraca!» — gritava o empresário, sem imaginar que já se aproximava do casebre um oficial da GNR

“Deitem abaixo o barraco!” berrava o empresário, sem perceber que já vinha aí um agente da PSP à paisana.

António detesta novembro. Em novembro, a lama cola-se aos sapatos como alcatrão e o céu baixa tanto que quase roça as copas dos sobreiros. O autocarro deixou-o na curva, envolto numa nuvem de fumo, e sumiu-se pela estrada coberta de nevoeiro.

Faltava pouco menos de dois quilómetros a pé até à aldeia. A mochila, já costumeira, pesava-lhe nos ombros levava doces para a avó: um xaile de lã, uma caixa de rebuçados que a avó Olinda tanto gostava, e um frasco de café solúvel bem forte. António não lhe telefonou. Queria ver-lhe o olhar quando entrasse pelo portão. Três anos de missão, ferimentos graves, meio ano em fisioterapia estava esgotado. Só queria silêncio, o crepitar da lenha no fogão a lenha e o cheiro dos bolos de forno feitos pela avó.

Só que silêncio era coisa que não havia.

Antes sequer de chegar à Rua do Ribeiro, já sentia o ronco pesado. Soava a motor a gasóleo a trabalhar em vazio tenso e constante. António apressou o passo, saltando poças pelo caminho. O portão, que ainda se lembrava de pintar de verde há quatro anos, jazia agora caído no chão.

Junto ao portão aberto estava um jipe preto imponente. Dois tipos grandes, de casacos de cabedal, trocavam o peso de uma perna para a outra, cuspindo caroços de tremoço para a lama. Mais adiante, à entrada do alpendre, um homem de sobretudo cor de camelo fazia sombra à figura pequena e corcunda da avó Olinda de casaco velho.

Ó velha, perdeste a cabeça de vez? a voz do homem ressoou, tensa como corda de guitarra. Dei-te uma semana! Uma semana! As máquinas estão paradas à tua custa, os meus investidores estão fartos!

Filho Para onde hei de ir eu? a voz da avó Olinda tremia, quase a chorar. No inverno, com os animais O António foi criado aqui

Vais para um lar, pois claro! berrou o homem, atirando um pontapé ao velho balde de lata nos degraus. O balde rebolou barulhento pelo quintal. Deitem já o barraco abaixo! ordenou aos dois das casacas, que mastigavam tremoços. Se ela não entende por bem, percebe por mal!

Um dos capangas riu e avançou.

António não gritou. Não correu. Entrou no quintal sem fazer barulho, como lhe ensinavam. Deixou suavemente a mochila na relva.

O tipo percebeu a presença de António apenas quando este já estava a menos de dois metros.

Ó amigo, tu és quem? começou, mas não acabou.

António avançou rápido, imobilizou-o com um único gesto preciso. O homem contorceu-se, a ranger os dentes de dor. O outro hesitou ao ver o olhar de António.

Nos olhos de António não havia raiva. Apenas um cansaço gelado, morto, de quem já viu mais do que devia.

Quietos, murmurou António.

O homem do sobretudo virou-se num sobressalto. O rosto liso, bem barbeado, ficou desconcertado.

E tu, de onde brotaste? Quem és tu, pá?

António aproximou-se da avó. Ela olhava-o de baixo, incrédula, as mãos trémulas apertadas no peito.

Toninho sussurrou. Estás vivo

Apertou-a num braço, sentindo como agora era tão frágil. O cheiro dela era o de sempre gotas de ervas e lã antiga.

Vivo, avó. Vai para dentro. Põe água ao lume, faz um chá.

Ouve, Rambô! o homem avançou, cuspindo palavras. Com quem é que tu achas que estás a brincar? Eu sou o Eduardo Ribeiro! Mando nisto tudo! Vais pagar pelo meu segurança!

António virou-se devagar, chegando-se quase à cara dele. Era alto, mas recuou, sentindo o perigo no ar.

Ouve lá, Eduardo, disse António, voz quase sussurrada. Pega nos teus palhaços. Mete-te no jipe. E em um minuto nem o cheiro do teu perfume quero sentir por aqui.

Ribeiro ficou roxo de raiva.

Estás a ameaçar-me? Amanhã mesmo venho cá com máquinas e rebento esta cabana! Contigo dentro!

Virou costas. Chamou os capangas (o imobilizado já mal se aguentava) e foi para o jipe. A porta bateu, assustando um bando de pardais do telhado. O jipe resmungou, espezinhou a sebe da entrada e arrancou, desaparecendo estrada fora.

Dentro de casa estava calor, mas António sentia-o frágil, inconstante. Havia batatas fritas arrefecidas na mesa. A avó Olinda, atarefada, punha pickles, cogumelos e couve em conserva. Mas as mãos tremiam tanto que a faca tilintava nos pratos.

Eles apareceram há um mês, contou ela, olhando a rua. Primeiro foram simpáticos, queriam comprar o terreno, davam tostões. Depois este Ribeiro veio. Disse que iam construir um resort para ricos, por causa do rio. E assustaram toda a gente.

Muita gente vendeu? António bebia chá, forte e doce como na infância.

Quase todos, meu filho A vaca dos Leitão desapareceu, só a encontraram no pinhal Os Silvas tiveram um incêndio em casa de noite. Ninguém quer problemas, Toninho. O irmão do Ribeiro trabalha na Câmara, o sobrinho na GNR. Que podemos nós, velhos, fazer?

António sentia uma mola a apertar-se dentro de si. Conhecia aquela gente só param quando são obrigados. Se o Ribeiro disse que amanhã voltava, ele vinha mesmo. E não vinha sozinho.

Onde estão os papéis da casa?

Na caixinha da cómoda. Está tudo bem, filho.

Vai descansar, avó. Eu fico de vigia.

António não dormiu nessa noite. Patrulhou o quintal. O portão era só nome, e pelas traseiras só pinhal, qualquer um podia chegar sem ser visto. A casa era velha, de madeira, arderia num instante.

Foi ao alpendre, acendeu um cigarro. O sinal de telemóvel mal apanhava, teve de subir ao sótão.

Ligou. Toques longos.

Sim? voz desperta, mesmo sendo três da manhã.

Rui, sou eu. O “Calado”.

Calado! Onde andas, pá? Pensava que ainda estavas em recuperação.

Estou em casa da avó, na Ribeirinha. Isto está feio O cacique local perdeu a vergonha, amanhã disse que traz máquinas para derrubar a casa. Faz o que lhe apetece.

Quantos são?

Eram três hoje. Amanhã deve trazer mais. E tem amigos na polícia. Pela lei não se faz nada.

Manda a localização. Nós estamos em Santarém, chegamos rápido. De manhã estamos aí.

Rui, com calma. Sem barulho a mais.

Estás a ver quem somos, António? Sempre discretos.

António desceu. Faltavam quatro horas para o sol nascer.

A manhã amanheceu cinzenta, húmida. O nevoeiro cobria o rio. António sentou-se no alpendre, cortava uma maçã com a navalha. Convenceu a avó a não sair do quarto.

Vieram mesmo às nove em ponto. O Ribeiro não mentiu.

Primeiro ouviram o rugido. Depois, emergiu do nevoeiro um bulldozer amarelo, pá levantada. Atrás, dois jipes pretos e um furgão.

Pararam à porta.

Ribeiro saiu na dianteira. Hoje tinha só um casaco, e ao lado dele surgiu um brutamontes com cicatriz na face devia ser o chefe dos seguranças. Do furgão saíram uns doze homens. Gente de todo o género: camisolas desportivas, camuflados. Trazendo tacos de basebol e pedaços de ferro.

Então, herói? sorriu Ribeiro, largo e cínico. Já têm as malas feitas, ou é preciso ajuda?

António levantou-se, mordeu a maçã.

Já te disse ontem, Eduardo. Não percebeste?

Deita abaixo o portão! guinchou Ribeiro para o condutor do bulldozer. E ensina este atrevido a respeitar!

O bulldozer bufou fumo negro e rangeu as lagartas. A multidão avançou para o portão. António ficou no alpendre, sozinho, de camisola de lã.

Os mercenários entraram no quintal. Sentiam-se invencíveis. Eram muitos, armados e escudados pelo dinheiro.

Ó rapaz, deitaste-te, estavas mais inteiro riu-se o cicatrizado.

Nesse instante, ecoou ao fundo da rua o som estridente de motores. Não o bulldozer, mas o zumbido raivoso.

Todos olharam.

Do lado do pinhal surgiram dois UMM Alter civis, robustos, pisando lama para todo o lado. Pararam de repente, cortando saída aos jipes de Ribeiro.

As portas abriram-se.

Das carrinhas saíram sete homens. Não berraram, não brandiram armas. Puseram-se em linha. Firmes, calmos, trinta e poucos anos. Roupas de campo, botas. Estavam lado a lado como quem já viu o mundo pegar fogo e passar por cima.

Rui baixo, ruivo, olhos sorridentes deu um passo.

Boa tarde, meus senhores disse alto. Que reunião é esta, que ninguém nos convidou?

Ribeiro ficou nervoso. Percebeu logo que tudo mudara.

Isto é propriedade privada! Temos serviço a fazer! E vocês são quem?

Nós? Rui sorriu. Gente amiga. Ajudamos velhinhas a rachar lenha e arranjar vedação. Vocês é que estão a desarrumar isto.

Corram com eles! berrou Ribeiro, descontrolado. Rua com essa cambada!

A multidão lançou-se. Mas foi erro.

O confronto durou um minuto e meio.

Os amigos de António eram secos, profissionais. Cada movimento era rápido, preciso. Sem estardalhaço.

O cicatrizado tentou dar com a barra em Rui. Rui desviou-se, agarrou o braço e pô-lo mansamente no chão, imobilizado.

Quietos! ordenou alguém, com tal autoridade que até o condutor do bulldozer desligou a máquina e levantou as mãos.

Dois minutos depois, a equipa de Ribeiro toda estendida no chão, a recobrar os sentidos. Ribeiro, pálido, encostado ao carro. António aproximou-se.

Eduardo disse num tom frio. Saca o telemóvel.

P-pra quê? gaguejou o empresário.

Vê as notícias. Regionais.

Ribeiro, trémulo, sacou o telefone.

Rui espreitou por cima do ombro.

Ora vê, já lá anda. Trabalham depressa.

No ecrã, a manchete: “Abuso na Ribeirinha: empresário Ribeiro e autarcas pressionam idosos. Vídeos comprovam.”

E logo abaixo vídeo. De ontem. Ribeiro aos berros, a pontapear um balde. A ameaçar a avó.

Sabes, Eduardo, tenho amigos de várias áreas disse António. Um deles é jornalista. Adora estas histórias. Isto já está na Procuradoria. E no gabinete do Presidente da Câmara.

Ribeiro deixou cair o telemóvel na lama.

Podemos resolver Pago. Pago bem

Podemos sim, assentiu António. Agora vais pegar na tua gente, nas máquinas, e desapareces. Se à minha avó, ou a vizinhos, acontecer algo, nem imaginas.

Ribeiro assentiu sem parar.

A polícia apareceu uma hora depois. Mas da distrital, não local. O Presidente, ao ver o impacto nas redes, mandou investigar. Levaram Ribeiro e a equipa para a esquadra, sem cerimónias.

À noite, a casa da avó Olinda estava cheia.

A mesa posta ao centro, cheiro a carne assada, pickles, fumo de lareira. Rui contava histórias, riam-se, António servia chá. A avó à cabeceira, animada, oferecia empanadas de batata.

Bem-haja, meus filhos, dizia a avó, limpando lágrimas. Não sei como vos agradecer

Ora essa, Dona Olinda respondia Rui. Já queríamos vir ao campo respirar ar puro. Isto sim é férias.

Quando anoiteceu, saíram ao quintal. O nevoeiro dissipou-se, o céu estrelado e límpido do jeito que só o outono português conhece.

O que vais fazer agora? perguntou Rui, acendendo um cigarro.

António olhou o pinhal, a vedação já a ser consertada.

Fico cá por agora. Falta telhar o anexo. Refazer o galinheiro. E as macieiras

Que têm as macieiras?

A avó diz que as velhas não pegaram. Cecar novo pomar, plantei reineta.

Rui sorriu, deu-lhe uma palmada.

Isso é serviço para a vida.

Na manhã seguinte, os amigos partiram. António ficou ao portão, vendo os carros sumirem. Depois voltou-se para casa. Do lado de dentro, via-se a luz da cozinha, a avó Olinda mexendo tachos e panelas.

Pegou na enxada. A terra estava fria e dura, mas sabia: árvore plantada com alma, vinga sempre. Mesmo em novembro. Basta as raízes serem firmes. E aquelas raízes, aqui, nem um bulldozer arrancava.

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«Deitem abaixo a barraca!» — gritava o empresário, sem imaginar que já se aproximava do casebre um oficial da GNR