Consegui que o meu filho se divorciasse e agora arrependo-me: a minha nora trouxe a neta para o fim …

Ontem, a minha nora voltou a deixar a netinha cá em casa para passar o fim de semana queixava-se a minha vizinha, Luísa, quando nos cruzámos à entrada do prédio. Não consigo que a miúda coma como deve ser! “A mamã diz que as princesas não comem muito!” diz-me ela, come duas colheradas e já está! Coitada, está magra como um espeto, parece até que brilha de fraqueza!

Luísa nunca foi com a cara da nora, Filipa, desde o primeiro dia em que a conheceu. O motivo? Filipa era sete anos mais velha do que o filho dela, Tiago, que mal tinha acabado o secundário.

Ele nem com mulheres tinha andado antes dela! resmungava Luísa. Não admira que tenha ficado logo deslumbrado! Enfeitiçou-o com a experiência dela, só pode!

A verdade é que Filipa era uma mulher muito bonita e cheia de vida. Sempre impecável com a linha, bem vestida e empenhada na carreira. Eu percebo bem porque é que o Tiago se apaixonou assim por ela não há mistério: os homens gostam do que veem, e ela realmente destacava-se.

Era cuidadosa com a alimentação e tratava de ensinar a filha a viver de forma saudável: comer com moderação, sem exageros, preocupando-se com o bem-estar e a forma física.

Passados só alguns meses de namoro, Filipa engravidou. Ninguém sabe se foi um acidente, se era vontade dela de casar ou apenas azar mas pouco importa, porque o Tiago decidiu logo que ia casar com ela. Ele tinha acabado de fazer dezoito anos e Filipa já tinha vinte e cinco.

Mal terminou o secundário, Tiago entrou num curso profissional. Dividia-se entre as aulas e um trabalho, porque eles tinham decidido viver juntos, longe da casa dos pais, e era preciso fazer pela vida. Primeiro alugaram um pequeno apartamento. Depois, com muito sacrifício, conseguiram comprar um quarto numa residência.

O casal era feliz, apesar das dificuldades, mas Luísa continuava a não dar descanso à nora: arranjava sempre motivos para apontar falhas ora porque cozinhava mal, ora porque a camisa estava por passar, ora porque vestia mal a filha. Para ela, Filipa não tinha o mínimo jeito para mulher do filho só defeitos.

Com tanto conflito, Filipa decidiu afastar-se ao máximo da sogra. Passou a levar a filha ao jardim de infância, à ginástica e às aulas de xadrez. Só tinha tempo para correr do trabalho para as atividades da filha e, além disso, tinha que arranjar um tempinho para ir ao ginásio, ao cabeleireiro e ao salão de unhas… Resultado: quase não parava em casa.

Tiago, ao chegar a casa, muitas vezes encontrava o lar vazio: a filha estava nas atividades e a esposa, ou ia buscá-la, ou tratava das suas coisas.

Numa dessas noites, a vizinha da residência, Mariana uma viúva de trinta e oito anos, com dois filhos adolescentes bateu à porta do Tiago: uma torneira tinha rebentado na cozinha comum e só ele, que tinha jeito para essas lides, podia evitar que os vizinhos de baixo ficassem cheios de água.

Tiago resolve o problema rapidamente e, enquanto ele se ocupa da canalização, Mariana prepara o jantar: massa com almôndegas. Como agradecimento, convida-o para ficar também com um prato. Tiago aceita, satisfeito: Filipa quase nunca tinha tempo para cozinhar e comida caseira era uma raridade.

Depois desse dia, Mariana começou a convidar Tiago regularmente para jantar, quando ele estava sozinho em casa. Entre jantares, conversas e petiscos, começaram a criar uma relação especial. E, sem perceberem bem como, passaram a não saber viver sem aqueles serões na cozinha partilhada.

No entanto, numa residência, pouco escapa ao olhar curioso dos vizinhos. Alguém acabou por contar à Filipa que o marido passava demasiado tempo a fazer-lhe companhia e estava visto que não era para jogar às cartas.

Deu-se então o escândalo: todo o andar ficou a saber da discussão. Filipa, orgulhosa, deitou logo o Tiago fora, com bagagens e tudo pelo corredor.

Àquela hora não tinha para onde ir, só mesmo para a casa da Mariana, que o acolheu sem pestanejar.

Na altura, a filha deles tinha seis anos. Tiago contava vinte e cinco, Filipa trinta e dois, e Mariana já quarenta.

Luísa, ao saber do divórcio, rejubilou tinha vencido! Mas a alegria durou pouco, quando soube que o filho se tinha mudado para casa de uma mulher com dois filhos, ainda mais velha do que Filipa catorze anos de diferença!

A mudança de atitude da Luísa surpreendeu-me. Durante anos criticou a Filipa só pela idade, e agora, com a Mariana, faz de conta que está tudo certo. Terá percebido, finalmente, que os julgamentos só dão em desgosto?

Já lá vão uns quinze anos desde então. Tiago continua ao lado da Mariana, não tiveram filhos juntos, mas vivem bem, em harmonia e felizes, apesar da diferença de idades: ele tem agora quarenta, Mariana cinquenta e quatro. Luísa recebe-os sempre em casa sem queixas ou mágoas tudo em paz, serenidade total. E sinto que o Tiago está mesmo feliz.

E vocês, acham possível ser-se verdadeiramente feliz quando a mulher é mais velha?

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