Diário de António, 3 de Novembro
A Ana já tinha completado 60 anos. Era a altura de se reformar, mas ela não estava com pressa de deixar o trabalho na farmácia do bairro em Lisboa. Nesse dia específico, após acabar o seu turno, trocou de roupa e preparou-se para ir para casa. Chovia intensamente e, claro, a Ana tinha-se esquecido do guarda-chuva. Puxou o capucho do casaco sobre a cabeça e dirigiu-se à paragem do autocarro. No caminho, ouviu de repente o choro de um bebé um recém-nascido, talvez com dias de vida, estava deitado num banco do jardim ao lado.
Sem perder tempo, pegou cuidadosamente no pequeno embrulho e tentou acalmar o bebé. Como ele estava completamente encharcado, Ana voltou apressada para a farmácia. Ligou de imediato à pediatra do centro de saúde, que acorreu pronta a ajudar. É um menino. Deve ter cerca de duas semanas. Está saudável, felizmente. Não entendo como alguém conseguiu deixá-lo assim Um bebé assim precisa tanto de carinho e mimo suspirou a médica.
Ana não quis ir para casa. Ficou a fazer companhia ao menino toda a noite; sabia que de qualquer forma não conseguiria dormir. Pouco depois, chegou a polícia e precisou de registar a ocorrência. Durante todo o tempo, Ana manteve o pequeno junto ao peito, sem tirá-lo dos braços.
Duas horas depois, os agentes regressaram à farmácia com um casal jovem. A rapariga chorava sem parar e o rapaz parecia não ter sangue no rosto, tão pálido estava.
Temos esperança que seja o nosso filho disse a rapariga com voz entrecortada.
Ambos vestiram as batas de visita e foram conduzidos à área onde estava o bebé. Ao ver o menino, a rapariga não aguentou e desatou a chorar de emoção, pegando-o e não querendo largá-lo. Ana ficou sem perceber nada, até que um dos polícias lhe explicou:
Matilde e Duarte namoravam às escondidas porque os pais deles eram contra. Os pais da Matilde, com relutância, iam aceitando, mas a mãe do Duarte fazia questão de criar tensão e afastar os dois. Pensaram que com o nascimento do menino, as coisas melhorariam e que ela ficaria feliz por ser avó. Mas não foi assim. A mãe do Duarte achava, erradamente, que Matilde tinha engravidado de outro homem. Então, uma tarde, quando os pais jovens foram ao cinema, a avó aproveitou para deixar o bebé junto ao hospital, acreditando que assim resolveria a situação.
E pronto, é assim que termina esta história. Muito provavelmente, aquele menino nunca mais irá conhecer a avó do lado paterno.
Hoje aprendi que a falta de compreensão e de carinho pode empurrar as pessoas para decisões impensáveis. Mas também vi que, mesmo nas situações mais duras, há sempre esperança de reencontro e de amor verdadeiro.







