Como Recomeçar a Vida do Zero

Como foi começar tudo de novo

Onde é que vais toda bonita, menina? perguntou Maria do Céu com um tom de voz tenso, forçando-se a não explodir de irritação. Ainda lançou os olhos ao velho relógio de parede que dominava a entrada: quase oito da noite. Já viste as horas?

Beatriz apenas esboçou um leve sorriso ao espelho, arrumando com destreza uma madeixa rebelde atrás da orelha. Só então se voltou para a mãe. Sentia que ali vinha mais uma daquelas conversas difíceis, até desagradáveis, mas já aprendera a ignorar essas batalhas familiares.

Mãe, já não tenho dezasseis anos, respondeu tranquila, com uma serenidade que lhe assentava bem nos lábios. Já sou crescida, não preciso de prestar contas. Pelo menos, contigo não.

O rosto de Maria do Céu enrijeceu de imediato; as sobrancelhas franziram-se e os lábios tornaram-se numa fina linha. Como ousava aquela filha falar assim? Quem lhe dera a confiança? Não fora ela mesma que, ainda há pouco tempo, procurara ajuda ali de joelhos, depois de tudo?

Mas quem vive debaixo do meu teto és tu! exclamou, cada vez mais exaltada. A impaciência era evidente no tom. A filha perdida nas suas arrogâncias inaceitável! E já agora Quem fica com o teu filho, hã? Ou pensas que eu vou tomar conta de um miúdo de oito anos que não me respeita? Estás muito enganada!

Maria do Céu demonstrava sem pudor o seu desagrado. A rapariga já lhe respondia, ganhara fibra E porquê? Não foi ainda há pouco que chorou para voltar ao lar materno?

Eu só quero ver a novela em paz, beber o meu chá descansada, não andar atrás dele pela casa, nem implorar para fazer os trabalhos de casa, nem aturar birras! Tu sabes o que isto cansa? Sempre a mesma história: não quer comer, está aborrecido, ou decide que os TPCs são uma grande injustiça. E eu é que tenho de arrumar tudo?

Pronto, chega! atalhou Beatriz, alterando subitamente o tom. A leveza irónica desaparecera: agora só lhe restava firmeza. O Martim vai dormir em casa da Sofia. E, lamento, mas serias a última pessoa a quem confiava o meu filho. Não quero que ele cresça com exemplos destes. As crianças absorvem tudo, sabias?

Maria do Céu ficou paralisada, incrédula. Depois, agarrou-se dramaticamente ao peito, pondo-se em pose de mártir escandalizada tanto que, não fosse a tensão, a filha teria rido do exagero.

Olha a maneira como respondes! vociferou, voz a tremer de falsa mágoa. Eu, que te acolhi de braços abertos quando voltaste depois do divórcio! Dei-te quarto, teto, tudo o que pude e tu assim me agradeces

Pausou, na esperança de ver a filha amolecer. Mas Beatriz era inabalável, já conhecia demasiado bem aquelas cenas e recusava alimentar tais jogos. Não lhe dava o gosto!

Não te esqueças que um quarto desta casa também é meu cortou Beatriz, frustrando o discurso da mãe. Aqui não és a única dona, lamento. Tenho todo o direito de cá viver sem pedir licença.

Que gozo lhe deu ver a perplexidade de Maria do Céu! Não estava à espera, pois não?

E, ao contrário de ti, não tenho direito de impedir o uso da casa continuou Beatriz, num tom agora triunfal, quase libertador, enquanto verificava apressadamente a mala. E, já agora, isto é só por umas semanas, talvez um mês; depois desaparecemos e podes esquecer a nossa presença.

Maria do Céu soltou uma gargalhada aguda e cínica, cujo eco correu o corredor. Beatriz estremeceu involuntariamente.

E para onde é que vais tu? insistiu, arrastando as palavras com desprezo. Havia naquela voz perceção de quem acha que já sabe o fim da história. Não tens nada, filha! Nem consegues pedir empréstimo não tens dinheiro para a entrada e não há onde ir buscar.

Fez uma pausa, esperando o impacto, e retomou com sadismo, escolhendo cada palavra como quem martela um caixão:

O teu ex foi esperto, ficou com a casa em nome da mãe dele; após o divórcio não te coube nada. Mais ingénua não podias ser. Que vergonha, ter-te criado assim.

Beatriz sentiu o peito apertar, mas não permitiu que a mãe percebesse qualquer fraqueza. Apertou com mais força a alça da mala, quasi pálida de tensão, e respirou fundo para se conter:

Isso não te diz respeito respondeu, esforçando-se para não perder a compostura. Os olhos brilharam de zanga, mas conseguiu controlar-se. Já não sou a mesma tola de antes. Até logo. E, já agora, a superavó, o Martim já está com a Sofia há horas.

Sem esperar réplica, virou costas e saiu célere, os sapatos a ecoar pelo soalho, fugindo daquele ninho tantas vezes hostil só com um grande esforço podia alguém considerar aquilo um lar realmente acolhedor.

Na rua soprava o frio, mas Beatriz não o sentia. A raiva fervia-lhe nas veias, tapando a visão, tolhendo-lhe o respirar. Caminhava apressada, sem destino certo, só para fugir dali, dos gritos, da mãe aquela mãe que sempre lhe faltara no mais essencial. Sentia-se como sob uma nuvem cinzenta que lhe roubase desejos e cor ao mundo.

Porquê uma mãe assim?, perguntava-se Beatriz, os punhos cerrados de revolta. Sabia que, para muitos, seria ingrata por pensar tal; mas não lhe importava. Por vezes, a ausência é melhor que uma presença tóxica. Uma mãe que nada apoia, apenas culpa e zomba que demonstra frieza onde era suposto existir calor.

Para quem conhecia Maria do Céu de superfície, o retrato era outro: senhora simpática, sorriso afável, atenção constante aos vizinhos. Emprestava coisas, ouvia desabafos, aconselhava, sempre pronta a ajudar com papéis ou com palavras mansas: Vai tudo melhorar, vais ver.

Mas quem lhe sentia o pulso de perto, sabia que atrás da afabilidade escondia-se o desejo de controlar tudo. Só ela decidia o que era bom; opiniões contrárias gelavam-lhe o olhar, endureciam-lhe o tom.

A vida de Beatriz fora toda encaixada nos moldes maternos. Desde a roupa até as amizades, nada lhe era concedido sem triagem. Só certas companhias, as certas, tinham aprovação da mãe. Bastava Beatriz aproximar-se de uma colega filha de mãe solteira, e logo ouvia:

Essa menina não te convém.

Se era um rapaz traquinas, a sentença saía de imediato:

Amigos desses só te trazem sarilho.

Por outro lado, a Joana, filha de uma funcionária camarária, era recomendada sem reservas:

Amiga dela podes ser, a mãe trabalha nos Paços do Concelho; dá jeito ter esses conhecimentos.

Quando chegou a altura de escolher o futuro, Maria do Céu nem questionou: Beatriz entraria em Enfermagem, ponto final. Os gostos da filha eram irrelevantes. O pavor de Beatriz pelo sangue era, para a mãe, apenas fingimento.

Isso são manhas, ripostava ela. Só queres fugir ao que importa.

Tentou argumentar, explicar os verdadeiros receios, mas sem resultado. Toda a discordância era vista como fraqueza.

Assim, restou-lhe a solução que encontrou: casar cedo, assim que nasceu a oportunidade. Tinha acabado de fazer dezoito anos quando o António, um conhecido da infância, lhe pediu a mão. Não teve tempo para hesitar: fugir era urgente, fugir daquele controlo sufocante, das escolhas impostas, de sentir que não vivia a sua própria vida.

Sabia que o casamento era coisa séria, mas a ânsia de liberdade sobrepôs-se a tudo.

Como seria de prever, o casamento não durou. Os primeiros meses ainda foram de entusiasmo e sonhos; mas logo vieram as pequenas brigas, as discussões por ninharias, a falta de dinheiro que aumentava todas as tensões. António chegava tarde e a cheirar a vinho, respondia torto às questões de Beatriz.

Está tudo bem, não inventes; só estou cansado.

Quando nasceu Martim, piorou. As noites mal dormidas, o cansaço e o choro do bebé só acirraram irritações e desentendimentos.

Mais tarde Beatriz descobriu a traição. O António nem tentou esconder:

Conheci outra; nada de sério, mas… não te prendo aqui. Vai à tua vida, se quiseres.

Beatriz ficou muda, a embalar o Martim. Vontade de gritar, mas nada saiu.

Não tinha a quem recorrer. O pai já falecera, a mãe era essa muralha de ressentimento, os amigos não estavam preparados para acolher uma mulher com filho. Decidiu ficar, aguentando silêncios, desprezos, noites de choro abafado.

Deixara o curso logo no início da gravidez. Tentou conciliar estudos com o bebé, mas desistiu. Só mais tarde, quando Martim cresceu e entrou na pré-escola, conseguiu pensar em si escolheu um curso prático, contabilidade, num centro local. Não era o sonho de menina, mas era caminho de independência.

Trabalhava e estudava em simultâneo, adormecendo muitas vezes de cansaço sobre os livros. Mas cada nota positiva era uma faísca de esperança para recomeçar a vida.

Finalmente, quando tudo parecia acalmar, Beatriz pediu o divórcio. Tinha emprego, um curso que lhe permitia ganhar uns euros, e Martim era agora um rapazito mais autónomo. A única preocupação era a moradia.

Arrendar casa era impossível em Lisboa: as rendas eram exorbitantes e o salário mal dava para o básico. Lembrou-se então da fração que lhe pertencia na velha casa dos pais, direito assegurado por lei. Voltou àquele lar, consciente de tudo o que significava.

E assim ganhou coragem, respirou fundo, e pegou no telefone para ligar a Maria do Céu…

*********************

Vais enlouquecer lá, acredita, avisava Sofia, a amiga de sempre, inquieta à mesa da cozinha. E o Martim? A tua mãe é tudo menos fácil, vais ver… E ele não aguenta aquela pressão, sabes como ela é com ele sempre a mandar, sem dar descanso.

Beatriz calou-se, apreciando as primeiras chuvas do outono contra o vidro. Inspirou e voltou-se para Sofia:

É coisa de dois meses, não mais. Concordo contigo, mas não há escolha. Depois saio, e só falamos por telefone, se ela quiser. Porque eu já não faço por isso.

Sofia analisava Beatriz, surpresa pela calma que sentia na voz da amiga.

E depois desses meses? quis saber. Planeias algo e não estás a contar?

Beatriz sorriu, um sorriso de quem guarda segredo.

A minha mãe subestima-me… Mas, pelo meu filho, faço tudo. E há uma pessoa a demonstrar interesse por mim.

A curiosidade brilhou nos olhos de Sofia, mas Beatriz travou-a:

Não me leves a mal, mas prefiro não dizer quem é. Ainda não é altura de falar disso. Mas sinto que é a oportunidade que me faltava.

Sofia acenou, respeitando. Beatriz endireitou-se, olhando de frente.

Esta oportunidade vou agarrar, custe o que custar! Não aguento mais viver entre fogo cruzado, nem ver o Martim a murchar debaixo das críticas. Quero dar-lhe um lar de verdade; arrisco e pronto.

Falava baixo, mas com segurança de quem ponderou muito a decisão.

Sofia apertou-lhe a mão:

Confio em ti. Mas cuida-te.

Beatriz engoliu em seco, sentindo gratidão pelo gesto. O futuro era incerto, mas já não voltaria atrás.

E gostas dele, pelo menos? arriscou Sofia, sincera na preocupação. Não será mais uma fuga precipitada? Podias ficar comigo, não é grande, mas há espaço.

Beatriz girou a chávena entre as mãos, vendo que anoitecia lá fora e sentindo o aconchego da cozinha.

É um bom homem. Tem um filho, pouco mais velho que o Martim, foi assim que nos conhecemos na praceta do bairro. Pelos filhos, começámos a conversar, depois fomos falando de tudo.

Recordava, sorrindo, os encontros tranquilos, as conversas simples, a ausência de críticas.

Com ele, tudo é mais leve. Não há pressões, apenas apoio. Vê-se que adora o filho nunca grita, está sempre presente, a ajudar, a brincar…

Sofia ouvia, vendo o brilho novo nos olhos da amiga.

Não me arrependo. Agora sei o que quero. Pensei e repensei. Quero mais para nós; já não é fuga, é busca por algo verdadeiro. Por um lar que seja nosso.

Respirou fundo, sentindo-se mais leve.

Agradeço-te tudo, Sofia, mas preciso tentar. Se não for agora… quando será?

Sofia assentiu, com um carinho maternal, prometendo o hogar sempre aberto.

Beatriz sorriu, reconhecida.

Obrigada, a sério. Não sabes o quanto isso significa.

**************************

Ao contrário do que Maria do Céu esperava, a filha ficou pouco tempo naquele refúgio forçado. A vida mudou depressa: João pediu-lhe em casamento. Foi a tal oportunidade que Beatriz tanto ansiava enfim, podia recomeçar. Empacotaram tudo em poucas horas: roupas, os brinquedos do Martim, só o essencial. Parecia que o destino conspirava a favor da partida.

Quem mais vibrou foi mesmo o Martim; a presença da avó era um fardo para o miúdo: regras, críticas e broncas constantes. O menino já respondia torto, batia com portas, enfiava-se no quarto. Agora soltava um sorriso genuíno finalmente, poderia ser ele próprio.

Ao saber do casamento, Maria do Céu reagiu com escândalo:

Quero conhecer esse homem! Se não gostar, não há casamento! Não deixo que voltes a cometer asneiras!

Beatriz respondeu, fria:

Mãe, desta vez decido eu. Não há apresentação.

A recusa incendiou ainda mais a mulher, que se descontrolou à porta de casa, protestando para toda a vizinhança ouvir. Foi uma explosão de insultos, sobre irresponsabilidade e falta de vergonha da filha.

Vizinhos, habituados à compostura de Maria do Céu, ficaram embasbacados. Tentaram acalmar, mas só receberam maus modos. Saíram dali a murmurar: Nunca pensei… sempre tão quieta.

Depois, Maria do Céu tentou justificar-se, telefonando às conhecidas, dizendo que se passou um pouco, que era o coração de mãe a falar. Mas a reputação nunca mais foi a mesma.

Beatriz, por seu lado, conheceu finalmente a felicidade. O novo casamento trouxe-lhe o que sempre sonhara: paz, segurança e compreensão. João era tudo o que faltara à sua vida: um verdadeiro companheiro, atento e amigo do Martim. Nunca sentiu necessidade de fingir ou de justificar o que fazia.

Concretizou outro sonho: entrou finalmente para a universidade. Os dias tornaram-se uma corrida entre trabalho, casa e aulas, mas cada página estudada reacendia a força que a mãe um dia apagou, quando lhe recusou os sonhos.

Arranjou trabalho regular nada de extravagante, mas estável, com gente decente e boazinha à volta. Sabia organizar-se, guardar euros de lado, criando pela primeira vez uma almofada financeira. Mais do que dinheiro, era símbolo de liberdade.

Por vezes, ao lembrar o dia em que fugira daquela casa, sorria. Agora tinha tudo aquilo que, em tempos, nunca ousou sonhar: um marido que a amava, um filho feliz, trabalho, estudos, e sobretudo o sentimento de viver, finalmente, a sua própria vida.

Sabia que ainda viria mais luta, obstáculos e desilusões. Mas sabia, acima de tudo: agora, o caminho era escolha dela.

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