Como posso deixar tamanho fardo nas vossas mãos? Nem o meu pai com a Tânia aceitou ficar com ele — M…

Como poderia eu sobrecarregar-vos com tamanho peso? Nem o meu pai nem a Catarina aceitaram ficar com ele.

Mariana, filha, tem juízo! Com quem pensas casar-te? clamava a minha mãe, ajeitando-me o véu.

Explica-me ao menos o que é que o João tem de errado? perguntei, confusa com as lágrimas da minha mãe.

Oh filha! A mãe dele trabalha na loja e trata toda a gente mal. O pai desapareceu sem deixar rasto, e em novo só bebia e andava nos copos.

O nosso avô também bebia e fazia a avó correr pelo povo. E isso que importa?

O teu avô era respeitado na aldeia, chegou até a presidente da Junta.

À avó pouco importava, só sofria. Era pequena, lembro-me do medo que ela tinha dele. Mas olha mãe, com o João vai ser diferente. Não julgues as pessoas pelas famílias delas.

Quando tiveres filhos, vais perceber! suspirou minha mãe, e eu apenas soltei um suspiro pesado.

Seria difícil viver se a minha mãe não mudasse de opinião sobre o João.
Mas, mesmo assim, casámos e fizemos uma festa divertida. Sorte que o João tinha casa própria na aldeia, herdada do avô e da avó, pais desse desaparecido.

João foi renovando a casa aos poucos, e depressa tínhamos um autêntico solar moderno, como gosto de chamar ao nosso lar. Com todas as comodidades, uma maravilha de marido, não percebo por que razão a minha mãe falava tão mal dele.

Um ano após o casamento nasceu o nosso filho, o Manuel, e quatro anos mais tarde veio a nossa filha, Beatriz. Porém, bastava um dos dois adoecer ou fazer alguma asneira para que minha mãe aparecesse com o seu já te avisei! E rematava: Filhos pequenos, problemas pequenos! Quando crescerem, vais ver o sarilho que te dão, com tal herança!.

Eu procurava ignorar estas críticas, estava habituado ao seu resmungo. Afinal, casei-me contra a sua vontade, sem a aprovação dos pais.

A minha mãe tem feitio: gosta de controlar tudo ao seu modo. Já se conformou com a ideia do João e, lá no fundo, admitia que ele era de ouro.

Mas nunca o diria em palavras. Assumir que se enganou, jamais! E sobre os netos falava mais por medo do futuro, pois amava-os de paixão e, só de pensar numa desgraça, seria a primeira a correr atrás deles, arrancando os cabelos de remorso pelas suas palavras.

Mesmo assim, por vezes, os tais grandes problemas assustavam-me, lembrando-me das dificuldades da adolescência.

E o tempo passou, os filhos cresceram. Mal dei conta, o Manuel já acabara o secundário e preparava-se para entrar na vida adulta, numa das universidades mais conceituadas da cidade mais próxima cento e quarenta e três quilómetros daqui, apenas.

Mas para um coração de mãe, esses cento e quarenta e três quilómetros pareciam a distância da Terra a Mercúrio. Longe, no fundo!

Passei quatro noites sem dormir, só a pensar no meu rapaz. E se alguém lhe faz mal? E se não comeu bem? E se a cidade o corrompe? O Manuel é um rapaz tão bom.

No início, ficou numa camarata do instituto, habitualmente reservada a jovens da aldeia. Mas eu não aguentei e convenci o João a alugarmos um apartamento para ele na cidade. O Manuel decidiu pagar parte da renda e arranjou alguns trabalhos online ainda por cima, é super inteligente!

Eu ia à cidade todos os fins-de-semana, para ver o Manuel, ajudar no que precisasse. Limpar, cozinhar. Apesar de, estranhamente, tudo estar sempre bem arrumado.

Em casa, ele nunca arrumava nada, era só confusão. E até sempre tinha comida preparada desde almôndegas no vapor até guisados no forno. É um génio aquele meu filho!

Estas minhas idas à cidade começaram a cansar o João.

Mariana! Já chega de prender o Manuel à tua saia! Não deixas o rapaz respirar! Nem me dás tempo a mim! Qualquer dia vou embora, mesmo que seja para os braços da Lurdes dos Correios, que anda sempre toda satisfeita, para veres!

Brincou, claro, mas até me assustou! Perder o marido seria impensável. E tinha razão, já era tempo de deixar o Manuel voar sozinho.

Ainda andei mais uns tempos como galinha a proteger o pintainho, mas aprendi a viver com a liberdade do filho. Dei-lhe espaço, parei de o controlar, mas foi aí que tudo descambou.

Certo dia ligaram-me da secretaria da universidade: o Manuel faltava às aulas e estava à beira da expulsão! O quê? Tem a certeza que se refere ao meu Manuel? Não acredito! Baralhada, pedi folga no trabalho e corri para a cidade. Dessa vez nem o João me travou, pois nestas alturas sou mesmo um trator.

O Manuel não esperava a minha visita. E nem tempo teve de esconder a razão das faltas.

A razão era uma rapariga, a Joana. Bonita, parecia um anjo de rosto.

Tudo bem, raparigas entram sempre nesta idade. Mas, além da Joana, na casa estava outra criança! Um menino de um ano, para ser exato.

Percebi logo. Aquela jovem, com um bebé ao colo, queria laçar o meu filho e casar-se com ele.

Não, não sou antiquado, os tempos mudaram, mas o Manuel ainda era novo para casar, quanto mais para cuidar da criança de outro. E a Joana não parecia ter mais de dezoito! Quando teve tempo para isto tudo?!

Apesar da tempestade dentro de mim, contive-me. Cumprimentei Joana e travei conversa séria com o Manuel na cozinha.

Manuel, estás mesmo apaixonado? perguntei, forçando um sorriso.

Muito, pai respondeu, sorrindo.

E os estudos, como vais fazer? abordei cauteloso como quem caminha num campo minado.

Sei que deixei andar, pai, mas isto vai passar. Vou resolver tudo.

Que passa? Queres contar?

Não posso, ainda não é meu segredo. Talvez mais tarde, quando conhecerem melhor a Joana.

Nada mais podia fazer sem afastar o filho. Voltei para casa a pensar.

Isto é culpa tua! ataquei o João Esta liberdade com que deixaste o rapaz! No que deu? Que fazemos agora?

E o que tem? perguntou ele, sempre otimista , qual o mal de uma criança pronta? Se o Manuel já gosta do miúdo, então não é estranho.

E queres ser avô de um desconhecido?

Por que não? Quando os filhos nascem já sabemos que um dia chega o papel de avô.

Mas de filho de outra pessoa?

Mariana! Parece que não reconheço quem és! Uma criança nunca é um estranho! Reflete nisso.

O João foi dormir sozinho no sofá, e eu vagueei pela casa, revoltado com tudo com a vida, com a Joana, com o Manuel, e com o João por os apoiar. Depois, acalmei e percebi que o João, como sempre, estava certo.

Uma criança não tem culpa. E a Joana provavelmente também não há circunstâncias que marcam tudo. De manhã, cheio de lágrimas, fui juntar-me ao João no sofá.

João, desculpa. Senti uma luz de repente. Amo-vos a todos!

Anda cá, mariquinhas! disse ele, puxando-me para o aconchego.

E ali adormecemos, com um sorriso feliz nos lábios. Bom, vou ser avô! E então? O menino, chamado Miguel, é tão bonito!

Mas, claro, a coisa não ficou simples. O Manuel anunciou pouco tempo depois que ia mudar para o horário pós-laboral na universidade, pois ele e a Joana queriam casar.

Desta vez, respirei fundo antes de reagir. Só depois eu e o João fomos à cidade no fim-de-semana. Tinha certeza de que juntos íamos resolver tudo sem disparates. Porque, confesso, havia vontade de armar uma barracada digna de lareira para o inverno inteiro!

Joana recebeu-nos na entrada e, com os olhos húmidos, disse:

Perdoem-me, não quero que o Manuel faça isto, mas ele é muito teimoso. E vocês sabem bem disso.

Teimoso é pouco disse o João a tirar os sapatos , mas não é parvo. Se ele quer assim, é porque tem de ser. Vá, Joana, acalma-te que vamos conversar.

Fomos para a cozinha. O Manuel não estava em casa.

O Manuel saiu para comprar leite, já deve voltar, desculpem disse a Joana.

Por que pedes desculpa sempre? perguntou o João à rapariga , ainda nem sequer percebemos que fizeste algo mal. Dê-nos primeiro a oportunidade de entender. Temos chá para os convidados cansados? Foram cento e quarenta e três quilómetros de volante.

Ai, desculpem apressou-se a Joana.

O João rolou os olhos ao ver mais um pedido de desculpa, ela sorriu timidamente. Entendi, finalmente tinha aprovado a escolha do Manuel. Suspirei profundamente.

Com chá quente nas canecas e o João já a devorar bolachas feitas em casa, coisa rara de ver numa jovem hoje em dia (sei que o filho não teria feito tão bem), chegou o Manuel do supermercado.

Deu-nos um olhar sombrio, pousou os sacos na mesa. Mas notei nos seus olhos uma determinação nova, um brilho masculino; senti que já não tinha autoridade para mandar, agora era um homem feito.

Então decidiram casar? perguntou o João, ao sentarmos todos.

Sim, e não se discute disse o Manuel com convicção.

De acordo. Mas quero saber porque tanta pressa. Outro filho vem a caminho?

Não, senhor! fez questão de negar Joana, corando.

Passou-me uma ideia louca: talvez a relação deles nem sequer tivesse avançado para filhos. Impossível, mas…

Então por que andam a correr para o casamento?

Senão tiram o Miguel de nós, levam-no para uma instituição disse Joana, cabisbaixa.

Porquê? perguntou o João, sério.

Porque a mãe dele faleceu na prisão explicou Joana baixinho, as palavras a vacilarem-lhe nos lábios.

Joana, não tens de explicar nada! exclamou o Manuel. Pai e mãe, só peço que aceitem aquilo que vos contei. O resto é entre nós.

Espera aí interrompeu Joana , se estamos juntos, vocês são também a minha família. Não posso esconder nada de vocês.

Ela hesitou, e eu e o João trocámos um olhar.

Joana, o Miguel não é teu filho? perguntei hesitante.

Não, claro que não! O Miguel é meu irmão, mesmo só por parte de mãe, pais diferentes.

Naquele momento, apetecia-me abraçar o mundo inteiro! Mas contive-me nem deixei transparecer. Joana continuou a sua história:

A minha mãe morreu na prisão, tinha um problema de coração desde nascença. Aguentou surpreendentemente muitos anos assim. A vida dela nunca foi fácil, e o temperamento dela era explosivo.

Joana bebeu um trago de chá, suspirou profundamente. Falar custava, mas prosseguiu, interrompendo apenas para que não se sentisse pressionada por mim, pelo João, ou pelo Manuel.

A primeira vez que a minha mãe foi presa foi por se envolver numa discussão com o meu pai e, distraiu-se, atropelou uma idosa na passadeira. Chegou a sair nas notícias.

O meu pai ficou comigo, e vivemos afastados. Antes de ela sair da prisão, casou-se de novo. Não o julgo por deixar a minha mãe naquela altura. Ela era muito complicada e difícil de aturar. A nova mulher do meu pai, Catarina, é muito doce e tenho uma relação ótima com ela. Se calhar, graças a isto, a minha vida foi feliz. Cresci com eles, são a verdadeira família para mim.

Joana calou-se de novo. Vi que ela e o Manuel apertavam as mãos por baixo da mesa, e percebi que as revelações estavam longe de acabar.

Há três anos, a minha mãe apaixonou-se perdidamente por um rapaz, o Miguel, dez anos mais novo. Tiveram o meu irmão. Fiquei feliz, ia visitá-los cada vez mais. Nunca vi discussões graves, mas os vizinhos testemunharam no tribunal que a casa só tinha gritos e pratos partidos.

Foi numa dessas vezes que a minha mãe se desentendeu gravemente com o Miguel, parece que ela ficou com ciúmes. Durante a discussão, ela empurrou-o; ele desequilibrou-se, tropeçou numa manta e bateu com a cabeça na quina da mesa. Morreu dois dias depois no hospital e a minha mãe acabou presa.

Joana prendeu a respiração e falou depressa:

A minha mãe morreu ainda no isolamento, antes do julgamento. O coração dela não aguentou. Só vos peço, não a julguem mal. Ela era como um beija-flor, vibrante, inquieta e imprevisível. Mas eu amei-a profundamente.

Agora somos nós a pedir desculpa, Joana disse o João, após o silêncio , por teres de expor tudo isto. Mas tens razão, somos família agora e devemos apoiar-nos.

Confesso, naquele instante só me apetecia gritar: O que fazes da tua vida, Manuel? Não precisamos deste tipo de família! Nunca tivemos criminosos!.
Mas calei-me, porque lembrei-me perfeitamente da minha mãe a chorar, tentando impedir o meu casamento com o João.

Pensei para mim: Não julgues as pessoas pelas famílias! Já devias saber isso, Mariana!

Depois dessa auto-repreensão, aconteceu um pequeno milagre: tive uma ideia maravilhosa. Olhei para o João, vi que sorria. Entendeu e concordou!

João confirmou com um gesto e disse:

E se fizéssemos assim? Eu e a mãe ficamos com a responsabilidade do Miguel, e vocês, Manuel e Joana, adiam o casamento enquanto acabam os estudos.

Como é isso? perguntou Joana.

Oh pai, não faças isso! protestou o Manuel.

Miguel vai adorar viver na aldeia, lembras-te como era a tua infância. Se quiserem, depois podem levar o Miguel convosco.

Eu e o pai já temos saudades de uma criança em casa, de cuidar. A tua irmã já só pensa em rapazes.

Joana, olha que a decisão é tua.

Como poderia pedir-vos tamanho peso? Nem o meu pai nem a Catarina aceitaram ficar com o Miguel.

Não demos por isso, mas o próprio Miguel acordou, desceu do sofá e estendeu os bracinhos não para mim, mas para o João.

Bem, que peso enorme brincou João, pegando Miguel ao colo.

João, ainda te safas, és mais pai do que avô ri-me eu.

Espera, respondeu ele, brandindo o punho em brincadeira , vais ver ao que chamo avô esta noite.

Os miúdos protestaram um pouco, mas acabaram por concordar. E o processo de tutela nem foi complicado.

A senhora que tratou dos papéis confidenciou-nos que é cada vez mais comum casais da nossa idade acolherem crianças os filhos já adultos e o coração ainda cheio de amor para dar. A verdade é que, cuidando do Miguel, eu e o João rejuvenescemos.

À noite, ao levantar-me por ele, muitas lágrimas corriam, de felicidade.

Só a minha mãe, como sempre, é que ralhava com a nossa decisão. Ralhou, ralhou, e acabou por ser quem mais gostou do Miguel, e ele dela.

Ai, Mariana! O que estão a fazer? clamava ela, enquanto em seguida sussurrava para o Miguel , Quem é que está com soninho? Quem é que quer dormir?

E depois, como sempre:

Em que é que vocês pensam, Mariana! E de quem são estes dedinhos cheios de lama? Como vão fazer agora? Onde está o meu Miguel, onde se escondeu?

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Como posso deixar tamanho fardo nas vossas mãos? Nem o meu pai com a Tânia aceitou ficar com ele — M…