Já Chega de Ser Agradável
Então está combinado, Margarida! trinava a tia Amélia, secando os lábios delicadamente com um guardanapo de papel. O guardanapo vinha do bolo que eu, Margarida Maria, tinha feito de propósito para a vinda da visita, e nele ficou uma nódoa pesada de creme. No dia cinco de maio, encontramos-nos aqui em tua casa. Eu levo as minhas chouriças, aquelas caseiras, receita de família, e tu, se fazes o favor, ficas responsável pelo prato quente. Afinal, fazes anos! Vão vir convidados de respeito, os colegas do Pedro, gente importante. Há que receber como deve ser.
Eu sentava-me à sua frente, com a chávena de chá nas mãos, já frio há muito. Olhava para a tia Amélia e assentia com a cabeça. Assentia e pensava no relatório trimestral que tinha de entregar no dia seguinte, que já não havia manteiga no frigorífico, que o António o meu marido voltou a queixar-se das costas e precisava de um penso novo. Pensava em tudo, menos no que dizia a tia Amélia. Ela falava e falava, ajeitava o lenço lilás no pescoço e fitava a janela, como se, mentalmente, já organizasse os pratos na mesa de outra casa.
Vinte pessoas, no mínimo continuava ela. Vais ver, Margarida, tu és uma craque. Lembras-te da boda da Leonor? Preparaste aquilo tudo, nem uma migalha sobrou! Agora vai ser igual. E eu ajudo, como sempre. Fico a comandar.
Ela ria alto. O seu riso era seco e curto, como o latido de um cão pequenino.
Eu sorria também. Era o que se esperava. Porque a tia Amélia era família do genro, Pedro, marido da minha única filha, Leonor. Porque discussões em família são o pior que há. Porque sempre fiz assim. Sorria e concordava.
Claro, está combinado disse eu.
A tia Amélia foi-se embora às oito e meia, satisfeita e cheia. Fui fechar-lhe a porta, encostei-me a ela e ali fiquei, só a respirar um minuto. No corredor pairava o cheiro do perfume dela, adocicado e forte demais. Na sala, o António assistia ao programa habitual de pesca e nem foi cumprimentar a visita.
Afinal, já se foi embora? gritou ele, sem tirar os olhos da televisão.
Já.
O que é que ela queria?
Fui para a cozinha, comecei a lavar as chávenas. A água saia quente, quase a escaldar, mas eu não tirava as mãos.
Vamos ter festa disse eu. Cinco de maio. Aqui.
Aqui? Que festa?
O meu aniversário E acho que o Pedro tem lá uns negócios também.
Da sala veio um resmungo. Depois silêncio. Depois, de novo, a pesca.
Limpei as mãos ao pano da loiça, velho e com galos desbotados na bainha. Tinha-o comprado há uns quinze anos numa feira e nunca o dispensara. Olhei-o e pensei: afinal, sou como ele. Gastarota, com galos nos cantos, dependurada a servir para tudo, até alguém vir limpar as mãos a mim.
Afastei os pensamentos e fui ver o que ainda restava no frigorífico.
Daqui a dez dias, fazia cinquenta anos. Meio século. Destes, lembrava-me com clareza de pelo menos trinta e cinco. E, nesses trinta e cinco, não me vinha à memória um único dia em que tivesse feito algo só para mim. Não para o António, não para a Leonor, não para a minha mãe que já partiu e a quem cozinhava caldos todos os fins de semana, nem para a sogra, que morava no outro bairro e exigia atenção como uma menina. Só para mim. Nem um.
Trabalhava como contabilista numa empresa de construção, vinte e dois anos no mesmo sítio. Colegas tinham respeito, chefia dava valor, mas promoção nunca veio. Para quê? A Margarida Maria aguenta tudo. Não reclama. Resolve o que houver.
Em casa, igual. O António tinha cinquenta e quatro anos, engenheiro numa fábrica, detestava o trabalho mas aguentava porque faltava pouco para a reforma. Em casa, descansava. Significava televisão, telemóvel, sofá, às vezes a garagem. Eu cozinhava, eu limpava, eu pagava as contas porque fazia melhor. Fazia compras, recebia visitas, dava atenção às festas. António nem se metia era assim há tanto tempo que já não gerava discussão. Tornou-se simplesmente o fundo da vida, um zumbido constante.
A Leonor casou-se havia quatro anos. O Pedro, trabalhador, simpático, mas com uma família difícil. A mãe dele já não era viva, o pai andava pelo norte, mas a tia Amélia irmã do pai era família e mais alguma coisa. Mandona, expansiva, habituada a ter a última palavra. Desde cedo não ia com a minha cara, talvez por eu ser demasiado branda, demasiado disponível. O que a gente assim costuma é provocar vontade de mandar ainda mais.
A Leonor gostava de mim, mas gostava mais do Pedro. Isso é normal. Mas, quando tinha que escolher entre o meu descanso e o sossego do Pedro, ela preferia sempre o segundo. Sem drama, mas sempre esse.
Foi assim que se foi somando a minha vida. Num T3, nono andar dum prédio em Setúbal, bairro do Viso, onde todos os prédios são idênticos e todos os quintais também, só mudam as árvores porque ninguém as corta igual. Vivendo sem me queixar. A quem, para quê?
Depois do adeus da tia Amélia, fiquei mais de uma hora sentada na cozinha, a calcular o que haveria de comprar e cozinhar para vinte pessoas. A lista ficou longa. As contas, assustadoras. Olhei para os números escritos nas costas de um velho talão de compras e senti uma pressão forte no peito. Não era dor. Era um peso. Como se alguém me tivesse pousado um calhau e se tivesse esquecido de tirar.
Apaguei as luzes da cozinha e fui dormir.
Os nove dias seguintes resumiram-se ao que chamei, para mim, de escravidão festiva. Tentei convencer-me: está tudo bem, ajudas a família, a festa vai sair ótima, é só não desanimares. Ao terceiro dia, já não acreditava nisto.
Acordava às seis, para antes do trabalho descongelar carnes, planear compras, telefonar ao supermercado sobre entregas. Saía às dezoito, às vezes mais tarde, porque o relatório trimestral não perdoava. Depois era arrastar sacos pesados garrafas, arroz, carne do supermercado até ao nono andar, que o elevador falhava dia sim, dia não. Chegava a casa, punha panelas ao lume, despachava limpezas. Deitava-me à uma da manhã, às duas. Acordava de novo às seis.
O António via tudo ou seja, estava lá mas olhava sem ver. Uma vez perguntou se precisava de ajuda. Eu disse: Desenrasco-me. Ele assentiu, aliviado, e voltou ao telemóvel.
A Leonor ligou na quarta-feira. Quis saber se estava tudo pronto, disse que a tia Amélia perguntava pelo prato quente e pelas entradas. Pedi-lhe: Leva ao menos as saladas, filha, estou cansada. Hesitou um segundo: Oh mãe, sabes que trabalho O Pedro também, mas vamos ajudar a pôr a mesa! Ajudar a pôr a mesa queria dizer mudar a comida já feita das panelas para os pratos. Eu percebi e não disse mais nada.
Dois dias antes da festa, dei por mim a lavar as janelas a tia Amélia, da última vez, comentou numa mancha de pó nos parapeitos. Fiquei em cima de um banco, trapo na mão, e pensei: a última vez que lavei as janelas para mim foi há oito anos, quando esperava visita da mãe. Mesmo assim, era para ela, não para mim.
Pisei em falso, quase caí, agarrei-me à janela a tempo. O coração bateu forte, duas vezes. Sentei-me no chão, costas na parede, debaixo da janela. Sentia as costas pesadas, pernas pesadas, cabeça pesada.
Pensei: se caísse agora e partisse uma perna, a primeira coisa que todos iam pensar era: E agora a festa, como é?
Ri-me, um riso feio, atrapalhado.
Acabei de limpar a janela.
Na noite de quatro para cinco de maio dormi três horas. O resto do tempo? Cozinhar, cortar, rechear, arrumar. Lombo à portuguesa, dois tipos de salada, bacalhau à Brás que nem gosto, mas a tia Amélia pediu. Empadas de galinha, porque o primo do António, o Vasco, só reconhece uma festa se tiver empadas. O bolo fiz na véspera pão-de-ló com cereja, meu favorito. A única coisa feita para mim.
Às sete da manhã, tomei banho, vesti o vestido azul que guardei há dois anos só para ocasiões especiais. Olhei o espelho: olheiras, nem a melhor base cobrira. Os lábios secos. Mãos inchadas de tanto lavar e cortar. Mas o vestido era bonito. Eu sabia.
Já a estreaste, hã? comentou o António ao passar no corredor. Está bem.
E foi tudo. Nem estás bonita, nem parabéns, nem como estás?. Só está bem e passou à frente.
Os convidados começaram a chegar ao meio-dia. Tia Amélia foi a primeira, pelas onze, com um saco cheio de chouriças, um frasco de pickles caseiro e uma caixa de bombons. Os bombons pousou logo na mesa como contributo. As chouriças e os pickles também. Depois deu uma volta à casa, espreitou a cozinha e assentiu.
Fizeste bem, Margarida comentou, tal e qual o António Esmeraste-te.
Pegou no telemóvel e começou a ligar a não sei quem.
Ao almoço, éramos vinte e três. Contei. A mesa era um conjunto de mesas emprestadas da vizinha Rosinda do terceiro, porque as nossas não chegavam. Toalha engomada, até à meia-noite da véspera. Dos vinte e três, só conhecia mesmo seis. O resto era colegas do Pedro e amigos da tia Amélia. Estranhos. Comendo a minha comida, sentados nas minhas cadeiras.
O brinde iniciou-o o Vasco, irmão do António: falou muito, contou histórias dos anos oitenta que nada tinham a ver com o dia, mas toda a gente ria. Depois o Pedro, o genro: um parabéns à Margarida Maria, a nossa valente. Bateram copos, beberam. Pedro falou mais de um amigo, o Rui, que estava ali também e conseguira uma promoção. Cargos, números, tudo que não entendi.
Veio a vez da tia Amélia. Discursou sobre o tal Rui, sobre o esforço dele, sobre como era um espetáculo. Depois referiu-se a mim: E à nossa anfitriã, claro por estarmos aqui. Riram-se outra vez. Brindaram.
Continuei a sorrir. Sentava-me à cabeceira porque assim se faz com a aniversariante, levantava o copo e agradecia as felicitações. Mas por dentro, fervia devagar. Como água antes de levantar fervura.
Margarida, falta sal na mesa! gritou alguém do fundo.
Levantei-me, trouxe sal.
O pão está a acabar, põe mais pediu o Vasco.
Trouxe pão.
Margarida, faltam garfos notou uma senhora que nunca tinha visto.
Trouxe garfos.
Depois alguém pediu outra tábua de queijos, mais pratos, água mineral que a Leonor esqueceu, e lá fui eu à varanda buscá-la, à pressa.
Corria entre cozinha e sala, sentava-me por minutos. A minha comida ficou praticamente intacta não tive tempo. Tentei fazer um brinde. Levantei-me, com o copo. A Leonor viu e também ergueu o seu. Mas, naquele instante, a tia Amélia começou a contar uma história alta demais; voltaram-se todos para ela. A Leonor baixou o copo. Eu também. Fiquei calada.
Os elogios iam todos para a comida. O bacalhau está divinal, as empadas são maravilhosas, a carne tão tenra, qual é o segredo?. Eu explicava, de cabeça vazia. Havia um certo prazer e uma tristeza talvez maior. Elogiavam a comida, mas nunca a mim. Eu ali era só a servente. Não a aniversariante a empregada.
As horas passaram; já eram três da tarde. Lá fora, o sol de maio brilhava, quente e alheio. Toda a gente falava mais alto. Rui falava do novo cargo, tia Amélia ria-se com o seu riso áspero. António, junto do Vasco, já só falava de pesca e carros.
Fui à cozinha buscar a quarta travessa de carne. Pus as luvas, retirei do forno. As mãos tremiam de puro cansaço. Três horas dormidas faziam-se sentir. Via tudo meio turvo. Depositei a travessa na bancada, comecei a arranjar a carne.
Da sala, a voz da tia Amélia ressoou, clara e autoritária:
Margarida! Ainda demoras? Traz também natas, acabou-se!
Não Margaridinha. Não faz favor. Não não te incomodes. Só traz e também. Como se fala a criada.
Parei. Fiquei ali, com a colher ao alto.
Por dentro, qualquer coisa estalou.
Sem dor, só uma decisão. Como um botão que se desliga.
Pousei a colher. Tirei as luvas. Pendurei-as no mesmo gancho de sempre. Peguei na travessa e nas natas, fui à sala.
Depositei tudo na mesa.
Endireitei-me.
Ouçam disse num tom que fez alguns olharem para mim. Ouçam, por favor.
A tia Amélia continuava a falar alto, mas parou. A Leonor olhava-me admirada. O António nem olhava.
Ouçam repeti, mais firme.
Agora a tia Amélia também virou, aborrecida.
O que se passa? perguntou rispidamente.
Passeei a vista pela mesa. Vi ali os meus convidados e os dos outros, o marido finalmente atento, a filha confusa, a tia Amélia, compenetrada no seu lenço lilás.
Quero dizer umas palavras declarei, a voz sem tremor, surpreendentemente. Hoje faço cinquenta anos.
Pois, parabéns! gritou alguém lá do fundo, tentando erguer copos.
Esperem atirei. Esperem um bocadinho.
Ficou silêncio. O coração batia calmo uma serenidade inesperada.
Passei os últimos dias escrava de uma festa que nem me pertence. Dormi três a quatro horas por noite, comprei tudo, cozinhei tudo, lavei as janelas, pedi cadeiras à vizinha. Fiz tudo só, sem ajuda. Hoje estou à mesa com gente que não conheço, a celebrar uma data que é só desculpa para se ocuparem da minha casa. Nem brinde me deixaram fazer, fui interrompida três vezes, já me levantei oito para servir. Agora mandaram-me trazer natas como se manda uma criada.
Silêncio absoluto.
Margarida, que se passa? murmurou o António, embaraçado.
Mãe disse a Leonor.
A tia Amélia ia responder, mas olhei-a de frente. Calou-se.
Peço-vos continuei, serena , por favor, levem convosco o que trouxeram e sigam a festa noutro lado. Ali ao lado há o Café Encontro, serve bem. Faço questão de pagar o resto do convívio. Mas aqui, nesta casa, a festa terminou.
Três segundos, e toda a mesa explodiu em murmúrios.
O Vasco murmurou qualquer coisa feia, alguém procurava o casaco, a tia Amélia levantou-se, olhou-me com desdém, pegou na mala e no frasco de pickles. Vi-a levar o frasco como se me roubasse mais um pouco, e dei comigo quase a rir.
A Leonor veio ter comigo.
Mãe, que estás a fazer Isto é horrível Estás a perceber? A tia Amélia agora
Leonor cortei calmamente. Adoro-te. Mas agora deixa. Vai.
A filha olhava-me como se não me reconhecesse. E, por dentro, percebi: é verdade, sou diferente hoje.
O António foi o último a sair. Deteve-se à porta.
Estás maluca? perguntou, sem ódio, quase intrigado.
Não. Acho que, finalmente, acordei.
Não respondeu. Saiu.
Tranquei a porta. Fiquei na entrada, a escutar.
O silêncio era profundo. Desses reais, de noite ou de alvorada, quando o mundo dorme. Mas eram três da tarde de cinco de maio, passarinhos cantavam, ouvia-se o portão, mas em casa só eu. Respirava como quem finalmente se liberta de segurar o fôlego.
Fui até à sala. Olhei a mesa: carne por acabar, saladas, pão, copos. O meu prato intocado.
Peguei nele. Sem aquecer. Peguei num garfo, fui para a cozinha, onde estava o meu bolo: pão-de-ló com cereja. Sentei-me com carne, uma fatia de bolo ao lado, chá quente, o bule ainda a fumegar.
Comi.
Lá fora, o vento mexia o velho choupo. Folhas pequenas, pegajosas, as primeiras. Eu olhava e comia. A carne ficou ótima. Sabia cozinhar, era verdade, nisso nem a tia Amélia mentiu.
Depois, o bolo.
Leve, fofo, a cereja ácida e o creme doce. Mastiguei devagar, sem pressas. Ninguém pedia Margarida, traz isto, ninguém olhava para mim sem ver. Era eu e o bolo que fiz para mim.
Pela primeira vez em quantos anos.
Não chorei. Achei que ia chorar, porque em filmes agora viria a música triste e as lágrimas. Mas não. Sentia outra coisa. Calma, sólida, como terra firme. Como se, por fim, pisasse chão verdadeiro.
Nem olhei para o telemóvel durante duas horas. Quando peguei, já tinha mensagens. A Leonor: Mãe, liga-me, Mãe, não percebo o que se passou, Estás bem?. O António: Foi feio o que fizeste. Tia Amélia, nada. Muitos números estranhos, convidados. A vizinha Rosinda: Margarida, quando devolves as cadeiras?.
Respondi só à Rosinda: Amanhã entrego, desculpa o incómodo.
À Leonor: Estou bem. Amanhã falamos.
Ao António, nada.
Depois arrumei a mesa, devagar, sem raiva, só rotina. Guardei comida em caixas, lavei louça, levei o lixo. Entreguei as cadeiras à vizinha, que espreitou sem dizer nada. Mulher inteligente.
Em casa, preparei um banho quente, com espuma. Fiquei a olhar para o teto. Lá estava a mancha antiga de humidade que há anos prometíamos pintar. Lembrei-me: três anos sem pintar o teto igual a três anos sem cuidar de mim. Uma e a mesma coisa.
O António chegou às dez. O ouvi destrancar, tirar os sapatos. Entrou, ficou na porta do quarto. Eu lia.
Percebeste o que fizeste? perguntou.
Sim.
E?
E nada. Percebo.
A tia Amélia… o Pedro vai haver escândalo, não pensaste?
Pensei. António, estou exausta. Amanhã conversamos?
Ainda ficou parado, foi para a sala dormir, como fazia quando discutíamos. Não o fui buscar de volta.
Apaguei o candeeiro. Deitei-me na penumbra.
Dormia há dez horas, coisa rara.
O sexto de maio nasceu igual aos outros: luz a rasgar as cortinas, passarinhos, aroma do café programado de véspera. Levantei-me, bebi, comi uma torrada. António ainda dormia, a respirar lento na sala.
Liguei o portátil.
Era só para ver a previsão meteorológica, mas no navegador havia o separador que abrira há um mês, por acaso: viagens de turismo em Portugal. Circuito das Aldeias Históricas 8 dias. Andei a ler na altura, fechei porque não tinha tempo.
Abri a página.
Monsanto, Sortelha, Almeida, Belmonte. Oito dias. Grupo pequeno, autocarro, visitas, pequeno-almoço incluído. Olhei para as fotos: igrejas brancas, ruas antigas, muralhas nas primaveras leves. Nunca tinha ido. Sempre quis. O António não gosta, diz sempre mais vale a aldeia na serra. Íamos à aldeia da família ao Alentejo, vinte verões assim. Hortas, azáfama, merendas.
Liguei para a agência assim que abriram, às nove.
Bom dia, fala da agência Viagens Lusas? respondeu uma senhora simpática.
Sim, bom dia. Tem vagas para o circuito das Aldeias Históricas, saída mais próxima?
Temos para dia catorze de maio. Ainda há um lugar.
Um só? repeti. É mesmo o que preciso.
Paguei com cartão pelo telefone. Fiquei com o auscultador na mão, a olhar a janela. Sentia-me calma. Não entusiasmada, nem nervosa. Calma. Quando se toma a decisão certa, sente-se no corpo.
A Leonor ligou cedo. Falava como quem pisa gelo.
Mamã Olá. Então?
Bem.
Mãe, temos que conversar. A tia Amélia ficou indignada. O Pedro está magoado. Foi tudo tão… de repente.
Eu sei.
Mãe, podes ligar à tia Amélia e pedir desculpa? Assim ficava tudo bem
Não, Leonor.
Silêncio.
Não?
Não vou pedir desculpa por pedir às pessoas que saíssem da minha casa, no meu aniversário.
Oh mãe
Ouve-me, Leonor. Quero que não fales como filha preocupada com o Pedro ou com a tia Amélia, só me ouve.
Ela calou-se.
Fiz cinquenta anos ontem. Passei o dia como serviçal numa festa dos outros. Estive exausta, quase sem comer, sempre interrompida, ninguém me deu os parabéns como deve ser. Dizem-me traz isto como se eu só ali servisse. E sabes o que mais me chocou? Foi eu própria permitir isso. Pus a mesa, abri a casa, servi tudo. Vinte anos assim. Ninguém perguntava como eu estava porque eu própria nunca dei a entender que importava.
Parei. Um autocarro passou, ouvi um pombo no parapeito.
Mãe disse a Leonor com outra voz , tens razão. Foi só tão estranho
Para mim também.
E, agora, vais continuar assim?
Sorri.
Não sei. Mas comprei uma viagem.
Que viagem?
Circuito das Aldeias Históricas. Oito dias. Vou dia catorze.
Pausa longa.
Sozinha?
Sozinha.
Mãe disse ela em voz baixa.
Leonor, é a primeira vez na vida que marco algo só para mim. É agora ou nunca.
Ela não respondeu logo. Depois só pediu: Liga-me depois. E desligou.
O António soube do plano à hora do almoço, quando eu preparava sopa. Contei, sem rodeios: comprei viagem, vou dia catorze, oito dias.
Olhou-me, demoradamente.
Nem perguntaste.
Não.
Isso quer dizer o quê?
O que quiseres, António.
Estás bem da cabeça? Queres consultar um médico?
Temperei a sopa, provei. Ajustei sal.
Estou bem. Daqui a vinte minutos a sopa está.
Saiu da cozinha, andou perdido de um lado para o outro, depois ligou a televisão. Vida a seguir.
Os dias seguintes foram tensos. Umas vezes calava-se, outras discutia. Dizia que eu já não era a mesma, ninguém faz isto. Eu ouvia. Não consentia nem justificava. Estranho, porque antes explicava-me sempre. Agora, não dava.
Três dias depois, Leonor voltou a telefonar. Disse que a tia Amélia nunca mais punha os pés cá em casa. Eu apenas respondi: Está bem. Leonor achava que eu devia importar-me.
Mãe, não ficas triste?
Não.
Mas é família…
Leonor, tia Amélia é família do Pedro. Não minha. Família minha és tu. E o António. Penso mais em nós aprender a viver diferente, do que nela.
Ela concordou, emudecida. Depois quis saber da viagem, o roteiro, os hotéis. Era pouco, mas era um princípio. Eu percebi e contei-lhe tudo.
No dia treze, preparei a mala. Pequena, leve, só para mim. Preparei roupas, o vestido azul, também foi.
O António entrou, notou a mala. Sentou-se ao pé da cama.
Vais mesmo, hein.
Vou, oito dias.
Ficou a pensar.
E se eu não souber onde está a comida?
António, és adulto. No frigorífico tens comida para três dias, pronto a aquecer. Depois, ou fazes ou pedes. Vais conseguir.
Olhou-me. Vi que tinha vontade de se zangar, mas recuou. Talvez o meu ar indicasse que não valia a pena. Algo tinha mudado em mim nestes dias.
Pronto disse, derrotado. Vai.
Só isso. Não disse boa viagem nem cuida-te. Mas também não me chamou maluca. Já não era mau.
Fechei a mala.
À noite, telefonou a minha amiga Filomena, dos tempos da escola, agora no outro bairro. Raramente nos víamos.
Fiquei a saber pela Rosinda, a vizinha: expulsaste tudo e todos do teu aniversário.
Pedi que fossem embora corrigi.
Margarida. Foste grande.
Pausa.
A sério?
Amiga, conheço-te há trinta e cinco anos. Sempre foste demasiado paciente. Sabe bem ver-te
Filomena, não faças drama interrompi a rir.
Ok, não faço. Onde vais?
Pelas Aldeias Históricas. Sozinha.
Sozinha! suspirou. Sempre quis experimentar isso.
Então vai.
O meu não deixa.
Filomena disse , não deixa é para crianças de oito anos. Aos cinquenta, é se tu deixas.
Ela riu. Depois ficou séria.
Tu já és outra, Margarida.
Talvez. Só estou farta de ser conveniente.
Todas estamos. Só tu fizeste algo disso.
Talvez não seja só eu. Só que é raro contarmos. Dá vergonha.
E tens?
Olhei a rua. As janelas acesas, vizinhas a lavar loiça, o eco da televisão noutro lado.
Não. Não tenho.
No dia catorze levantei-me às cinco e meia. O António ainda dormia. Café, sandes para a viagem, documentos prontos. Vesti logo o vestido azul. Porque sim. Aos cinquenta, pode-se usar o que se gosta às seis da manhã.
Fiquei na entrada, a olhar para a casa: três quartos, nono andar, vista para os choupos. Mancha no teto, pano da loiça com galos gastos. Tudo igual, tudo da minha vida. Mas eu saía dali outra.
Da cozinha, ouvi passos. O António apareceu, confuso, cabelo em desalinho.
Já vais?
Vou, o táxi está à porta.
Assentiu. Vacilou.
Parabéns, Margarida. Não disse no dia.
Olhei-o. Cinquenta e quatro anos, ar cansado, cabelo grisalho. O homem com quem vivi vinte e sete anos. Não sabia o que ia ser agora, quando voltasse. Se mudaria algo. Se aquilo alguma vez se tornasse diferente. Não era novela, não há garantias.
Obrigada, António respondi.
Peguei na mala, saí.
O táxi já esperava. Entreguei a mala, sentei-me. O condutor, rapaz jovem, perguntou Para a estação? Disse-lhe que sim.
Setúbal despertava. Pouco movimento, frio ligeiro de maio. As árvores verdejavam, brilhantes, parecia tudo novo. Não me lembrava de notar essas pequenas coisas há muito tempo. Folhas, céu azul, o sol a rasar os telhados.
Na estação, muita gente, cheiro a pastéis, vozes, malas. Encontrei o meu comboio, o cais certo.
Entrou. Encontrei a cabine, o lugar da janela, em baixo, ótimo porque não havia que subir. Os vizinhos de cabine eram idosos, simpáticos. Uma senhora ofereceu chá do termo. Agradeci.
O comboio arrancou.
Setúbal ficou para trás: prédios, quintais, árvores, depois campos, colinas, céu, o país a abrir-se. Eu olhava e não pensava em nada. Só via. Dava-me tempo.
O telemóvel ficou no bolso, mudo. Ou não, mas deixei estar.
Pensei: nunca vi Monsanto. Dizem que em Belmonte se olha e parece mentira estarmos ali. Há vinte anos que sonhei ver as muralhas da Sortelha ia agora.
A senhora à minha frente perguntou: Vai longe?
Sorri.
Circuito das Aldeias Históricas.
É bonito, dizem. Vai sozinha?
Sozinha.
Ora, mulher de coragem! elogiou.
Eu não acho coragem. Só tinha mesmo era de ser.
O comboio ganhou velocidade. Campos, bosques, céu limpo. Encostei-me para trás, fechei os olhos. Só para estar.
O telemóvel vibrou, mensagem. Era a Leonor: Mãe, tudo bem? Já vais a caminho?
Respondi: Sim, no comboio. Está tudo bem. Não te preocupes.
Outra mensagem dum número estranho Sou Catarina, gestora do grupo. Espero-a na estação da Guarda com a placa. Boa viagem!
Respondi: Obrigada. Até já.
Guardei o telemóvel. Olhei de novo a paisagem.
O comboio ia para diante. Lá atrás, ficava Setúbal, o tecto manchado, o pano gasto, a mesa do aniversário. Pela frente, aldeias, muralhas, conquistas só minhas, oito dias inteiros por minha conta.
O que viria depois, não sabia. Se ia conversar com o António como deve ser ou se tudo ficaria igual. Se a Leonor ia aceitar, se a tia Amélia algum dia escreveria de novo ou não. Não sabia nada, e pela primeira vez não me assustava não saber. Antes, tudo incerto era ameaça, urgente de resolver. Agora, era só vida.
A vida, a minha.
O comboio avançava. Campos, verde, céu limpo, casas brancas a brilhar de longe. Margarida Maria Gomes olhava tudo e pensava que, da próxima vez que alguém dissesse traz-me as natas sem um por favor, eu ia sorrir. E dizer não.
Uma palavra pequenina.
Três letras.
Ontem, disse-a a sério pela primeira vez.
Nunca é tarde para recomeçar.
A vida não tem idade.







