Carta Escrita por Mim Próprio

Carta a mim mesma

O envelope era laranja. Daqueles tons vivos, quase exagerados tipo uma tangerina esquecida num saco de cinzas. Apareceu na caixa do correio do prédio no meio das contas da EDP e daqueles panfletos de takeaway de pizza, e foi a última coisa que a Benedita tirou.

Na frente do envelope, o seu próprio nome: “Benedita Maria Figueiredo”. O seu endereço. Reconheceu logo a letra: “t” cortado comprido, “r” com o laço em baixo como sempre escreveu desde a escola, quando a Professora Lurdes lhe deu um Bom só pelo capricho da letra, e atirou: Benedita, tu escreves como uma senhora feita. Isso é elogio, atenção.

E nunca mudou. Vinte e cinco anos depois, ainda o mesmo t e o mesmo r.

Subiu ao quarto andar, abriu a porta, pousou o saco do Pingo Doce na bancada da cozinha. O envelope ficou mesmo ali ao lado.

O apartamento não era grande, mas já era casa. Um T1 enfiado em Odivelas, com as janelas para poente. No hall, um cabide para o único sobretudo, a prateleira dos sapatos, o espelho para onde ela olhava todas as manhãs e pensava Está razoável. Dá para o gasto. Não bonita, não descansada só operacional. Bastava.

Ao fim do dia, o sol enchia tudo de tons de mel, espesso, quase dourado. Era o prémio da casa, a par do Metro ali a dez minutos. Eram seis, o sol já subia pelas paredes, chegava à estante com os livros, à caneca do chá já frio, à moldura de madeira com a foto da mãe.

Benedita sentou-se à mesa. Esfregou os ombros. Andavam outra vez lá em cima, tensos, naquela posição que conhecia bem, como se esperasse uma bronca do chefe ou um mau telefonema. O corpo sempre se armava primeiro para o pior antes da cabeça.

Olhou para o envelope.

Laranja, de papel grosso, sem um vinco sequer. Parecia tratado com todo o cuidado. Passou o dedo pelo seu nome, sentiu a certeza: era o seu próprio traço, sem dúvida nenhuma.

Rasgou o topo devagar, espreitou. Lá dentro, uma folha de papel A4 e mais qualquer coisa, brilhante, lisa.

Tirou a folha, desdobrou devagar.

“Olá. És tu. Pronto, és tu de março de dois mil e vinte e cinco. Tens trinta e sete anos agora, estás sentada na cozinha às duas da manhã e sentes-te mesmo mal. Vais para a quarta noite sem dormir. E pensas que não aguentas. O trabalho. Tu. Esta cidade que te suga de todos os lados.

Escrevo-te isto porque alguém tinha de ser. Amanhã a tua amiga vai ligar, depois de amanhã a mãe também. Mas agora, agora mesmo, são duas da manhã e estás sozinha.

Só queria lembrar-te disto:

Pediste para te lembrar: já aguentaste antes vais aguentar agora.

Ama-te. Mereces isso.

Se estás a ler isto, passou um ano. Sobreviveste. Não escrevi em vão.”

Deixou cair a folha em cima da mesa.

Sentiu um nó na garganta. Não por querer chorar, mas por se reconhecer em cada palavra. Na maneira de dizer, no erro da vírgula depois do agora mesmo, até naquela mania de começar parágrafos com Só queria.

Mas não se lembrava.

Não lembrava de escrever aquilo. Nem do envelope laranja, nem da folha escolhida. Um ano inteiro sem pensar nisso uma vez.

E depois viu a fotografia.

Caiu do envelope quando tirou a folha e tombou na mesa, de cara para baixo. Benedita virou-a.

Na foto, uma mulher com cara cinzenta, olheiras fundas, lábios secos, quase sem cor. O cabelo apanhado, mas mal, uma madeixa solta a cair pelo rosto. A camisola cinzenta, já deformada nos cotovelos a mesma que tinha mandado fora no verão passado.

Reconheceu logo. Tanto o olhar como a camisola.

Era ela. Daquele março, do outro ano.

Ao fundo da foto, em letra miúda: “Ficaste mais forte. Olha para mim e vê de onde vieste.”

Benedita pousou a foto ao lado da carta. O raio dourado do pôr-do-sol chegou a escorregar pela mesa e caiu em cima do brilho da imagem. O rosto parecia mais quente, mas não mais feliz.

E de repente lembrou-se.

***

Março de dois mil e vinte e cinco. Duas da manhã. A mesma cozinha, a mesma mesa, mas com o portátil à frente, a luz do ecrã a ferir-lhe os olhos.

Estava sentada de pijama e t-shirt, descalça, os pés frios. Passava páginas e mais páginas. Não do Facebook, nem das notícias. Procurava qualquer coisa, mas não sabia o quê. Um sinal? Uma razão para sair da cama no dia seguinte?

Daquele março, chegou a estar três dias sem se levantar. Não era preguiça. Era um peso, um nevoeiro, difícil de nomear. Como quem tem uma laje de cimento em cima do peito.

O divórcio já lá ia, três anos. O Paulo tinha saído em vinte e três para os braços da colega, a Sandra, a tal dos números da contabilidade, uma mulher que ria sempre e jamais fazia perguntas. Não chorou por ele. Fez-lhe as malas, pôs à porta. Disse só: “Vais.” Ele foi.

Depois, Benedita trabalhou até se gastar por completo. Sem folgas, sem férias. Compras e aprovisionamento numa empresa de construção telefonemas às oito, tabelas até às dez da noite, reuniões onde o chefe, o Dias, repetia sempre: “O mercado está mau. Só fica quem aguenta.”

E ela aguentava. Aguentava, aguentava, sem reclamar.

Até que, no outono de vinte e quatro, o corpo disse chega. Primeiro falhou o sono, depois o apetite, a seguir desapareceu a vontade de sair sequer de casa. Em janeiro já só adormecia com a televisão ligada, comia quando se lembrava e, se falava, era com a mãe ao telefone mesmo assim, a custo.

A mãe notava. Dona Teresa, com os seus sessenta e tal, ligava todos os dias: “Comeste?” E Benedita, Comi mãe. Sopa. Mas não fazia sopa desde novembro.

Nessa noite de março, escreveu no Google carta para mim mesma no futuro. Nem sabia para quê. Vira isso numa publicidade qualquer, e ficou. O primeiro site era o Cápsula do Tempo. Dava para escrever uma carta, escolher em quanto tempo queria receber desde um mês até dez anos pagava-se, e recebia-se uma carta mesmo, envelope e tudo.

Escolheu o laranja. Porque cinzento já bastava o resto. Escreveu à mão, tirou foto, fez upload do scan. Tirou uma selfie ali mesmo, na mesa, à luz do portátil. Mandou como anexo. Pagou. Pôs entrega para doze meses.

Fechou o portátil, foi dormir. E nunca mais pensou no assunto.

Porque depois desse março, a vida lá começou a mexer. Não muito, nem bonito aos arrancos, tipo elevador velho. Mas andou.

Em abril, marcou consulta com uma psicóloga. Pela primeira vez. Uma senhora de cabelo curto, com gabinete pelas Avenidas Novas, cinquenta minutos por semana. Ao terceiro encontro, chorou vinte e tal minutos seguidos. No sexto, conseguiu rir-se coisa que já não fazia há séculos.

Em junho foi promovida responsável de aprovisionamento. O Dias chamou-a, a seguir a uma reunião, e disse: “Benedita, só tu aguentas calada e fazes. Não passa despercebido.” Ela assentiu, voltou ao ecrã das encomendas e os ombros, claro, subiram logo até às orelhas felicidade e medo, tudo ao mesmo tempo.

Pelo outono, sentiu-se mais leve. Voltou a fazer sopa. Voltou a ir ao jardim ao domingo, com livro e termo de chá. Voltou a telefonar ela primeiro para a mãe. O hábito de esperar pelo telefonema da mãe foi passando.

E esqueceu completamente a carta. Como se esquece um seguro enfiado numa gaveta lá atrás sabemos que existe, mas não se pensa mais nisso.

Até hoje.

Ali estava, carta numa mão, foto noutra, a olhar para aquela mulher de há um ano. Cara cinzenta, olhos fundos, camisola velha.

E a voz de sempre aquela que vem de dentro, que já conhecia de cor murmurava: Pois. Estás outra vez mal. Não mudou nada.

***

Essa voz vinha de longe. Não sabia já de quando: se do divórcio, se de antes. Baixa, calma, quase cuidadosa que era o pior.

“A promoção foi sorte. O Dias não tinha mais ninguém.”

“Pensas que aguentas? Olha-te: ombros levantados, quatro horas de sono, pequeno-almoço é café com ansiedade.”

“Mais cedo ou mais tarde, a seguir és tu a sair. Abril, maio, é esperar.”

E Benedita ouvia. Não porque acreditasse, mas porque não sabia fazer de outra forma. A voz já era a sua, tanto como o truque da letra “r” ou o gesto dos ombros. Tornou-se paisagem.

No dia seguinte, 19 de março, acordou às seis. Duche, café, rímel. Normal.

No trabalho, tensão no ar. Escritório em Alvalade, open space, trinta secretárias. Três semanas a marinar silêncio. Não daqueles de concentração, mas do outro o de medo, mal disfarçado. Em fevereiro anunciaram cortes. A primeira vaga já foi cinco da logística foram embora. Todos esperavam a segunda.

Passou pela recepção, a Ana sorriu-lhe sorriso cansado, automático. Ana também temia.

Sentou-se ao computador, password seis algarismos, aniversário da mãe digitava de olhos fechados. Cem mails por ler. Começou a responder. Um fornecedor do Porto a pedir prazos. O armazém reclamava por falta de material. A contabilidade queria reconciliação até sexta. Tudo normal. Só não fosse o silêncio, até parecia que estava tudo igual.

Às onze, reunião.

O Dias entrou, careca rapada, baixo, sempre a abrir e fechar a caneta. Breve: a Sofia Mourão do projeto sai. Oficialmente porque quer, vocês sabem que não é bem assim.

A Sofia. Vinte e tal, sempre a trazer bolinhos da avó para a copa, as mensagens: Sirvam-se! Os de cima são de maçã! Uma vez, em jantar de Natal, confessou a Benedita no corredor: Tenho pânico de ser despedida. Tenho o empréstimo, e a Mel, a minha gata. Não se pode despedir gatos, pois não?

Dias continuou: “E mais: em abril há terceira vaga. Só ficam os que passarem a meta.”

Benedita direita na cadeira, ombros altos, dedos enleados debaixo da mesa. E aquela voz dentro: Vês? Estava na cara. Em abril é a tua vez.

Depois saiu para o corredor, encostou-se à parede junto ao bebedouro, olhos fechados três segundos.

Na mente, dois registos. Um, calmo: “Aguentaste antes vais aguentar agora.” Era da carta laranja, do março passado.

Outro, mais alto: “Coincidência. Uma folha paga no site por três euros. Não te iludas. À Sofia, também não ajudou amanhã já anda ela a refazer CV, com a Mel ao colo.”

Bebeu água do bebedouro. Voltou para a secretária. Abriu o ficheiro dos fornecedores. Trabalhou. Porque nisso era boa a trabalhar. A dúvida era: chegava?

De noite, às sete, jantava arroz e hambúrguer. O telefone tocou. Mãe.

Olá, filha a voz da Teresa, ainda rouca da constipação. Estás bem?

Estou, mãe. Muito que fazer.

Já comeste?

A comer agora. Arroz.

Boa.

Pausa. A mãe sentia sempre. Dona Teresa, bibliotecária mais de trinta anos, lê o silêncio melhor que muitos os livros e a filha não era excepção.

Estás com o mesmo tom de antes. Fechado.

Só cansada, mãe.

Disseste igual há um ano. Que era cansaço. Afinal, passaste três dias sem sair de casa.

Benedita fechou os olhos.

Agora é mesmo só trabalho.

Sabes: estou sempre perto. Se precisares, posso ir aí no fim-de-semana. Levo-te sopa da boa. Não dessas instantâneas.

Benedita achou-se a sorrir pela primeira vez no dia.

Obrigada, mãe. Ainda não.

Conversaram mais dez minutos do sangue da Teresa, da vizinha que agora tinha gata e aquilo fazia barulho pela noite, da primavera que, em Coimbra, já aparecia na varanda, onde o vaso dos amores-perfeitos tinha dado flor. Mãe mandou foto: Olha, primavera aqui já chegou, e tu aí fechada nessas tuas contas.

Palavras simples, mas reconfortantes.

Nunca pressionava. Nunca fazia perguntas chatas. Teresa aprendeu, em anos de biblioteca, que o silêncio às vezes chega.

Desligou. Arrumou o jantar. Olhou para a carta na mesa o envelope laranja, a foto.

Ficaste mais forte. Olha para mim vê de onde vieste.

Pegou na foto. Permitiu-se prestar mais atenção. O olhar da foto era tão direto, parecia pedir socorro mas já nem sabia a quem.

Às nove ligou a Leonor.

A Leonor era aquele tipo de amiga de infância vinte e tal anos de amizade e sempre o mesmo tom de voz, grave, aveludado, com ar de quem ainda há pouco se deixou rir, mesmo se não.

Benedita, conta-me tudo.

O quê?

Tudo. Ouvi no grupo do liceu que na tua empresa está um caos.

Suspiro.

Mais uma despedida hoje. E o Dias disse que para o mês há mais uma leva.

E tu?

Eu não, para já. Para já é que importa.

Olha, lembras-te do ano passado, quando me ligaste de madrugada? Disseste que não aguentavas. Que era o fim. E então? Olha para ti! Trabalhas, foste promovida, fazes arroz e atendes o telemóvel. Isto não é o fim, é a vida.

Benedita ficou calada.

Estás a ouvir-me?

Estou.

Então pára de te enterrar.

Falou ainda de mais coisas do trabalho dela (vende cozinhas, odeia clientes que mudam o plano à última hora), do Chico, o gato que desfez o sofá novo, do vinho para sábado.

E Benedita escutava. Percebia: a Leonor dizia quase o mesmo da carta. Era como se todos, passado e presente, tivessem combinado a mensagem: aguentas-te, estás aqui, chega de castigo.

Desligou já passava das dez.

A casa estava silenciosa mas não daquele silêncio de peso. Só silêncio cá de casa. O frigorífico cantava, um autocarro ao longe, barulho de crianças lá em baixo, gargalhadas finas.

Foi até à casa de banho, acendeu a luz. Espreitou o espelho.

O rosto. O que tinha. Trinta e oito anos, cabelo castanho-escuro até aos ombros, já meio ondulado por causa da humidade. A pele, normal, ligeiro tom de quem acabou de beber chá, sombras suaves como deve ser após madrugar. Nada da cara da foto. Os olhos com sombra, mas sobreviventes, não derrotados.

Voltando à cozinha, pegou na foto. Levou também ao espelho. Pôs junto ao seu reflexo.

Duas caras.

No espelho uma mulher viva, mais quente, cansada.

Na foto cinzenta, lábios secos, olhos pedidos de socorro.

Separa-as um ano.

E a voz, já antiga, tenta sussurrar: Não presta para nada. Fotos mentem. A luz, o ângulo…

Mas, pela primeira vez em muitos meses, Benedita respondeu em voz alta:

Não.

Disse ao espelho. E a mulher do espelho olhou com calma, sem aquele medo do passado.

Não. Não sou aquela. Vê só mostra a foto agora e antes.

A voz calou-se.

Ali ficou, pijama e meia camisola, foto na mão e, pela primeira vez em quase um ano, olhou-se sem julgamento.

Não a perguntar será suficiente, nem vou aguentar?

Apenas: olhou.

E viu. Não uma heroína, não forte e independente do Instagram. Normal. Verdadeira.

Mãos de quem assinou centenas de guias, ombros altos, mas não caídos.

***

Nessa noite, ficou acordada até quase às duas. Mas não pela ansiedade. Pelas memórias.

Deitada, no escuro, repassou o último ano. Não tanto os fatos; o que sentiu. A primeira vez que conseguiu pequeno-almoço a sério. O dia em que foi ao jardim, sentou-se num banco, o sol bateu-lhe no rosto, ficou ali vinte minutos sem mexer no telemóvel. Quando se riu, finalmente, numa sessão de terapia.

Gestos pequenos, que fizeram o ano.

E a voz: “Não conta. Toda a gente vive assim. Não é vitória.”

E Benedita pensou: e se a voz mente? Não por mal. Só porque não conhece mais nada. Como quem nunca viu o sol e jura que não existe. Não é perversidade é falta de experiência.

Levantou-se, foi à cozinha. Acendeu o candeeiro.

O envelope laranja na mesa. Virou-o do lado limpo. Pegou na caneta a azul, de gel, daquelas dos contratos.

E escreveu.

“Olá. És tu outra vez. Agora de março de dois mil e vinte e seis. Já tens trinta e oito. O trabalho está uma confusão, a vida um imbróglio. Mas estás aí.

Sabes, há um ano escrevi-te uma carta. Da mais negra das noites. Daquela escuridão que parece maior do que a casa toda.

Hoje recebi essa carta. E sabes o quê? Nem me reconheci logo na foto. Três segundos demorou. Aquela mulher era eu.

Três segundos são um ano inteiro.

Desta vez escrevo-te não da dor, mas do calor. Porque se estás a ler, passou mais um ano. E resististe.

Ama-te. Mereces.

Tua Benedita, março de 2026.

P.S. Se os ombros te pesarem cá em cima, larga-os agora. Assim. Isso.”

Dobrou o papel em quatro. Meteu no mesmo envelope laranja aquele tirado de manhã do correio. Virou, escreveu o endereço.

Ligou o portátil. Cápsula do Tempo. Submissão para março de 2027. Fez upload do scan. E, hesitante, voltou ao modo selfie foto tirada ali, na luz do candeeiro, na mesma mesa da cozinha.

Desta vez, o rosto era outro. Não cinzento. Não exausto. Só normal, cansado até, mas vivo. O sorriso não era de festa só tranquilo.

Fez upload. Pagou. Fechou o portátil.

E foi até à janela.

Lisboa à noite lá em baixo luzes, carros, quadrados amarelos dos outros apartamentos. Silêncio. Março, dois graus, brisa leve.

Descalça no chão frio, sentiu os ombros esses teimosos finalmente descerem. De si mesma, sem esforço.

E a voz, teimosa, quis dizer qualquer coisa.

Mas ela já não ouviu.

Ficou ali a pensar na mulher que, dali a um ano, ia receber o envelope laranja. Talvez estivesse noutro emprego, noutra casa, ou com alguém novo. Talvez tudo igual. Pouco importava.

Importava saber que, dentro do envelope, havia uma foto e a tal frase: Olha para mim e vê de onde vieste.

E, quando a mulher do futuro olhasse, entenderia.

Benedita sorriu. Apagou a luz. Foi dormir.

Lá fora, março, cheiro a terra molhada.

Em casa, silêncio total.

Na mesa, envelope laranja, com carta nova.

***

Acordou às sete, antes do despertador. A luz vinha do nascente prateada, fresca, diferente do laranja habitual dos finais de dia. Era outra luz nova.

Foi à cozinha, pôs água para o chá.

O envelope, a foto, a carta, na mesa. Não releu nada, nem encarou a imagem de frente. Só as ajeitou ali direitas, arrumadas, como se arruma o que é para manter.

Subiu a um armário, foi buscar uma moldura de vidro daquelas que comprara para uma foto da praia, nunca usada. Meteu lá a foto do ano passado, pôs na estante dos livros.

A mulher da cara cinzenta, olheiras, camisola velha.

Não para recordar a dor; sim a estrada.

O jarro apitou. Encheu a caneca, agarrou com as duas mãos. Foi até à janela.

Viu o seu reflexo no vidro: sem maquilhagem, de pijama, caneca quente nas mãos.

A voz estava quieta.

Acabou o chá. Vestiu-se. Pegou na mala. Saiu.

No patamar parou. Reviu se os ombros estavam no sítio.

Estavam. Normais. Sossegados.

Fechou a porta e foi.

Na mesa da cozinha ficou o envelope laranja. Com nova carta, nova foto, pronta a ir.

Para o ano vai recebê-lo. Vai olhar para a mulher de hoje e, talvez, não reconheça. Porque um ano muda tudo.

Ou quase.

A letra será a mesma, com o t alongado e o r com laço. Desde a escola. Desde sempre.

E dentro, a frase de sempre: Aguentaste antes vais aguentar agora.

Desta vez, não escrita das sombras.

Escrita da luz.

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