Carta ao Pai

Carta ao Pai

Ó Leonor, tu és mesmo um caso sério! Não esperava isto de ti! Rita já não se importou com as normas de boa educação e limpou o nariz à manga da blusa.

Aquela blusa bonita tinha-lha feito a mãe. Trouxe de entre os guardados um pedaço de seda, suspirou um bocado por ele, com pena de não ser para si, mas sentou-se logo à máquina de costura.

Queria lá saber! A rapariga cresceu. Vai precisar de vestidos! Quem vai olhar para ela se andar mal vestida?

Era melhor que a mãe não se desse a tanto trabalho Vale de quê? pensou Leonor, fitando as costas do seu primeiro amor.

Ele, Filipe, marchava dali animado, num passo quase militar, sem olhar para trás.

Custava tanto!

Leonor soltou um soluço, lembrando-se logo que tinha posto rímel, às escondidas da mãe, por isso, nada de chorar agora.

Filipe, Filipezinho, Fil

O seu único amor! Apenas meio ano lhes tinha sido dado de felicidade. Leonor sabia o tempo: desde o dia em que se conheceram, passara exatamente meio ano.

Meio ano, e tanta coisa já tinha acontecido

Filipe ainda olhou para trás, mas Leonor fingiu nem notar.

Ora, valha-lhe Deus, ela foi ter com ele para lhe contar aquilo e ele vira-lhe as costas? Pois que vá à sua vida! Marinheiro de meia tigela! Quer o mar e liberdade! Já viram isto? Pois que suma! Ela não é nenhuma miúda! Haverá de criar e educar a filha sozinha! Para quê pedir autorização?

Leonor estava zangada, mas cá por dentro, uma tristeza fina ganhava força, roía-lhe o peito.

Como podia ser aquilo? Ele prometera tudo: que a amava, que iriam casar, que fariam tudo juntos e agora deu de frosques, mal ela lhe disse que estava grávida?

Ou melhor: mal ela explicou que esperava mais do que os encontros fugazes de fim de semana, ele respondeu-lhe que o mar o esperava e não ia mudar a vida por causa das ideias dela. Se gostava dele, que fosse com ele!

E como é que ela largava a mãe? Ainda por cima de barriga? Para o outro lado do país, onde não conhecia nem alma viva, nem paisagem?

Não. Nada disso!

Leonor levantou-se do banco, endireitou a saia e ajeitou o cabelo, mesmo se eram só três fios, porque a mãe tinha razão a aparência ajuda. O Filipe também nem era assim tão jeitoso, sem graça no rosto, mas as raparigas perdiam-se por ele porque era inteligente, divertido e sabia falar de tudo, mesmo só tendo a escola obrigatória. E era esperto, bem mais do que parecia!

Ela própria, Leonor, não era muito melhor nessas coisas. Acabara o curso técnico e pronto. Continuar a estudar jamais por mais que a mãe insistisse, ela não queria. Chegaram a ficar semanas sem se falar, só porque Leonor a insultara num acesso de zanga! Era raro, mas aconteceu.

Mas Leonor sabia dar valor ao que tinha. E para que queria o diploma, se ali na obra já ganhava bem? Mandava dinheiro para a mãe e ainda sobrava para si.

A mãe acabou por esquecer e voltou a acolhê-la. Porque isto de ser mãe é assim mesmo. Só que agora O que diria a mãe quando soubesse que ia ser avó? Escândalo?

De nada valia adivinhar. Era inevitável.

A mãe berrou tão alto que as vizinhas vieram bater à porta. Disseram-lhes que Leonor tinha problemas no emprego e despacharam logo toda a gente. Negócios de família são para a família, sem boatos nem intromissão.

Então, filha? Não te disse para te cuidares até ao casamento? Agora quem te quer? Ah, Filipe! Nunca pensei isto dele! Parecia um rapaz decente Um víbora! Então, mal soube da criança, pôs-se a andar?

Leonor hesitou. Contava-lhe tudo como foi? Iria ser crucificada. Assim ela pagava pouco por isso e Filipe já estaria longe.

Sim, mãe. Foi assim.

Ai o meu infortúnio Como é que vamos fazer agora?

Vamos à nossa vida! Não somos crianças, pois não? Aguentamos, mãe! Se me ajudares no início, não tenho medo.

Então mas alguma vez te deixava sozinha? Que raio de conversa! Que mãe vira as costas à filha se ela precisa de apoio?

Leonor fechou os olhos, suspirou de alívio.

Pois é, Filipe! Nós bem conseguimos sem ti! Vai-te embora, se o mar te é mais importante que o teu filho!

Com o tempo, Leonor até esqueceu os detalhes daquela conversa com Filipe. Acabou por acreditar que lhe contou tudo sobre a criança e que, por isso, ficou cheia de mágoa. E a raiva e a tristeza tornaram-se vizinhas no coração, aconchegaram-se ali e de quando em vez faziam-se notar, zombando:

Vê lá! A tua filha é toda ao pai! Sempre a mexer no juízo, sempre irrequieta! Conta-lhe, vá! Diz-lhe onde anda o pai dela, que desapareceu para o seu oceano e nunca mais deu notícias! E ela vai fugir de ti também, e tudo porque não sabe amar nem valorizar! O fruto nunca cai longe da árvore

Talvez por isso, Carolina, filha de Leonor, cresceu convencida de que quem mais a amava era a avó ainda assim, só de vez em quando. A avó era tudo ternura, mas bastava ouvir as vizinhas rir-se de qualquer coisa, afastava logo a neta:

Vai, filha, vai ter com a mãe! Que má sorte a nossa Que fizemos nós para merecer isto, Deus meu?

Até aos três anos, Carolina jurava que má sorte e castigo eram nomes próprios. Só ouvia Carolina da mãe em raros momentos de trégua, quando então recebia aquelas carícias tão desejadas.

Vem cá, filha, vou compor-te as tranças. Que cabelo bonito, não puxaste a mim Olha só, forte, escuro Igual ao do teu pai, negro como asa de corvo! E os olhos, azuis como o mar onde ele se meteu e não voltou. És toda a ele, filha Mas olha, a beleza não te trará felicidade!

Porquê? Carolina franzia a cara, a morder as lágrimas.

Porque sim!

O tom da mãe era ríspido e Carolina entendia: não perguntar mais. Valia mais refugiar-se no avental da avó, cheirando a rissóis e sopa de feijão, e chorar um pouco primeiro por si, depois pela mãe e, por fim, pela avó. Pois era o vergonha da mãe, mas era a avó que o carregava.

O que isto era e porque alguém o tinha de carregar, só soube bem depois. Quando fez dez anos, a mãe de repente ficou mais bonita, animou e partiu para Lisboa, tentar uma nova vida.

Carolina ficou com a avó.

Não que tivesse grandes saudades. Já antes passava muito tempo apenas com a avó, quando a mãe ia para os trabalhos sazonais. Nessas alturas, a mãe tornava a casa feliz, mesmo cansada, trazendo presentes, mimo e queixas:

Mãe, olha bem para a minha filha! Está tão magra! Vão pensar que não a alimentamos!

A tua filha não come nada! Experimentei tudo, agarra-se a um naco de pão e diz que já chega! Se estivesses em casa, não era assim! Mas olha, além do gado, da horta e da criança? Em vez de ralhares, voltavas a casa e cuidavas dela!

Não precisa, mãe! Já está crescida! Olha só o que trouxe desta vez!

E para que quero presentes? Preferia que estivesses cá! O coração anda cansado tenho saudades!

A mãe ficava taciturna, Carolina encolhia-se num canto, sabendo que vinha discussão.

Saudades, é? E eu não tenho? Ainda estou nova e bonita, mas de que serve? Vivo como eremita! Ainda levares isso a peito! Não apetece viver assim, mãe Tem pena de mim! Esta cruz que me calhou Se soubesse não o deixava ir!

Agora já passou, filha De que serve lamentar?

Ó mãe!

O quê? Tiveste uma filha, então cria-a! Se não queres, escreve ao pai! Pode ser que queira a rapariga!

Dar-lhe a Carolina?! Nunca! Ele não quis saber dela! Agora, era só entregar-lhe a menina criada? Nem morta! Não foi para isto que trabalhei estes anos!

Então não te lamentes! A tua filha ouve-te! E não lhe custa? Saber que o pai é um canalha e a mãe arrasta a vida?

Que sofra! A vida não é só doce! Às vezes fere tanto que nem te levantas! Pronto, mãe! Fim de conversa! Nem penses em escrever ao Filipe! Conheço-te!

A avó respeitava até certo ponto.

Carolina preparava exames finais quando chegou uma notícia de Lisboa. A mãe tinha tido um menino, mas ainda nem passou uma semana e deixou este mundo, sem explicar nada a ninguém.

E o segredo do nascimento teria morrido com ela, não fosse teimosia de Carolina.

Sabendo o que se passou, a avó foi à capital. Deixou Carolina em casa, pedindo-lhe que cuidasse das coisas.

Agora não é tempo para lágrimas, minha querida sussurrava a avó, o xaile preto apertado ao peito. Como vamos viver? Não sei

Vovó, eu vou trabalhar!

Calma, primeiro temos de resolver o que fazer do bebé. O pai veio buscá-lo, mas diz que não pode cuidar. E eu será que damos conta?

Há outra hipótese? Eu cresci sem mãe quase e ele iria para uma casa de crianças?! Isso não.

Eu sei Só tenho medo, filha.

A avó partiu e Carolina remexeu a casa toda. Agora não havia mais proibições maternas.

Precisava do pai, pois não se aguentavam sem ajuda

Sabia bem o que fazer. Desde pequena inventava cartas e desenhos para o pai, escondendo-as da mãe e da avó. Inventava histórias em imagens: o gato novo lá em casa, a avó a ensinar a fazer filhoses. Um dia, a avó encontrou os cadernos, mas não disse nada. Tentou falar mais uma vez com a filha sobre o pai da miúda, mas perdeu a esperança a mágoa era irreconciliável por aquele que andava longe e nem queria saber da criança. Rita amaldiçoava o ex-namorado, esquecendo que ele nem sonhava que era pai.

Depois dos desenhos vieram letras tortas, e Carolina escreveu mais cartas ao pai, guardando-as nos cadernos onde despejava tudo: alegrias, tristezas, birras do mundo e conquistas.

Agora só restava escrever a carta mais importante. Aquela que, finalmente, enviaria.

A morada, encontrou-a por acaso, dentro de um envelope velho, com o canto a espreitar por trás de uma fotografia da mãe. O vidro da moldura quebrou-se quando Carolina a retirou da parede. Em vez de se afligir, a raiva rebentou em lágrimas.

O que é isto? puxou o envelope, e ao perceber o que era, chorou ainda mais. Ó mãe! O que te fiz eu?

Ao fim de muito tempo, deitou tudo cá para fora, pediu perdão à mãe sem saber bem porquê

Não se sentiu melhor.

Desculpa, mãe, mas não te vou fazer a vontade. Eu sei que não querias que falasse com ele Mas eu preciso dele! A avó diz que não é eterna irrita-me, mas sei que tem razão. E sozinhas não vamos lá. E se ele for assim tão canalha, eu ao menos fico a saber. Senão, posso confiar. Sabes, mãe, nunca acreditei muito em ti sempre disseste mal dele Mas tu também Para quê me tiveste se não foste capaz de me amar? Custava-me tanto sentir que não era amada Que me acusavas de ser igual a alguém que nunca conheci! Como posso eu julgar o meu pai? Quero vê-lo! Quero saber o que tem para me dizer!

Não lhe ocorreu que aquele homem podia já nem morar na morada antiga.

Nem pensou em nada só agiu.

Passou a noite a escrever numa folha rasgada de caderno três linhas, mas todas as mágoas e esperanças estavam lá.

Enviou a carta antes da escola. De volta, a avó esperava-a com o bebé.

Olha, filha Este é o Manel, teu irmão a avó fungou, virando costas já a chorar, enquanto Carolina espreitava o pequeno.

Vó, porque é ele tão pequenino?

Normal. Tu eras mais franzina.

A sério?

Depois cresces-te, vê bem! E ele também há de crescer.

Vó e o pai dele?

Diz que ajuda com dinheiro, mas não o quer. Não tem tempo.

Já é qualquer coisa respondeu Carolina, imitando a avó tão bem que ela não pôde deixar de sorrir.

Ó Carolina! Como é que nos havemos de desenrascar?

Da mesma forma que os outros, vó! Olha a Marta, filha da Zé Maria tem oito! E não se queixa. Prometeu-me roupas para o Manel algumas ainda novas, mal serviram aos gémeos. Os putos crescem num instante, não é vó?

É Crescem tão depressa Parece ontem que a tua mãe era assim pequena, agora já cá não está

Mas não chores, vó! Olha que começo eu também e até este rapaz que já rosna! Será fome?

Deve ser, já é hora de dar mama!

A avó apressou-se a metê-lo nos braços de Carolina.

Segura-o, não te assustes! Tu és capaz, minha filha e que ele também seja!

Carolina parou.

De repente, percebeu que já não estava sozinha. Quantos anos sonhou ter alguém a quem fosse tão importante como o ar, e que precisasse dela assim? A avó e a mãe não contavam, cada uma tinha as suas vidas e ideias de quem precisava de quem.

Quando casares, já nem te lembras de nós! dizia a mãe Achas que continuamos a ser importantes?

Carolina só queria saber que, quando crescesse, ficariam todos juntos, à sua volta, como na casa da Marta, onde reinava a confusão e alegria. Três gerações sob o mesmo tecto, quentinho, a casa cheia.

Marta vivia com pais e sogros e chamava a todos por pai e mãe. Era despachada, sabia que, acontecesse o que acontecesse, os filhos tinham de ser felizes ali. O marido apoiava-a e, por isso, as zangas duravam pouco:

Vá lá! Arrumem tudo! Não levantem a voz à família!

A frase gravou-se em Carolina. Era assim que se vivia. Família é o mais importante!

Só tinha a mãe e a avó.

Agora, tinha também um irmão.

Ainda tão pequeno, mas sabia como nunca: ela precisava dele e ele dela. Por mais crescido que ficasse, para ela seria sempre aquela bênção que lhe aquecia o coração.

Desenrascou-se rápido na tarefa. Bastou uma visita apressada da Marta. Abriu o bebé, riu-se:

Olha agora, campeão! A berrar? Faz bem! Grita com força! Carolina, ouve: isto não tem ciência nenhuma! Todas conseguem, tu também. Banhos e afins eu mostro-te, depois ficas tu a mandar! A avó?

Foi à vila ver papéis. Disse que era urgente, para não haver problemas. Explicou-me tudo, MAS achei melhor perguntar-te, que já tens prática

Precisas de mim porquê? Marta franziu o sobrolho.

Não leves a mal! A avó diz que já se esqueceu dos bebés E tu tens memória fresca!

E como! riu-se Marta, que ainda tinha bebés pequenos. Vai correr tudo bem!

Carolina acompanhava bem as explicações, mas só pensava que ainda não estava pronta para ser mãe. Não era só fraldas e biberons era preciso amar. Como?

Manel ensinou-lha, dia a dia. Agora, da escola, não saía a correr voava! Porque lá estava quem a esperasse! E o primeiro sorriso desdentado do irmão foi para ela, não para a avó E até o nome dela disse antes de qualquer outro:

Calina! berrava o traquinas, tropeçando até ela.

Aqui estou, meu querido! Dá cá um abraço!

Os bracitos rodeavam-lhe o pescoço e ela derretia, cobria aquelas bochechas sujas de beijos.

Onde andaste outra vez? Porque estás tão sujo? Anda, lavar a cara!

Com a irmã, Manel aceitava tudo, até o sabão e esfregão. A avó ria ao ver Carolina a tentar domar o traquinas:

Um lagartinho! Agarra bem, Carolina, senão parte o nariz!

Na correria, Carolina esqueceu-se da carta ao pai. A resposta nunca viera, e considerou o silêncio uma resposta. Se o pai não responde, era porque não precisava dela.

A dor ficou, pequenina, mas abafada. Não tinha tempo para ela própria; só pensava em Manel.

A avó só falava em universidade, mas Carolina nem queria ouvir.

Vó, sabes que não é possível! Para estudar, tinha de ir para Lisboa! E vocês ficavam sós? Nem pensar!

A avó não desistia, mas Carolina zangava-se. Trabalho não faltava, nem no campo, nem na mercearia da Marta. Marta já lhe dissera que podia contar com ela.

Mas a avó era teimosa.

Carolina! Percebes lá tu A tua mãe também deixou escapar a vida, e tu vais igual! Só quero o melhor para ti!

Vó, eu entendo, mas não insistas! Há coisas mais importantes do que um curso!

Foi a meio destas discussões que ele chegou aquele que ela já julgava nunca ver.

Voltava a casa com Manel, que vinha exausto de brincar. Ao pé do portão, o irmão puxou-lhe a saia:

Lina! Dá colo!

Pegou nele, sorriu daquele pedido. Entrou e parou. No alpendre, um homem ajeitava uma lâmpada. De pé num banco velho, murmurou:

Pronto, já está! A lâmpada acendeu finalmente e ele saltou do banco.

Só aí viu Carolina parada, com o irmão nos braços.

Filha

Filipe avançou, e sem se importar com o recuo instintivo de Carolina, abraçou-a, e a Manel também.

Minha querida

Carolina viu as lágrimas nos olhos dele.

Perdoa-me, filha! Eu não sabia! Este é teu? apontou para Manel, que olhava curioso para o estranho.

Entregas-me ao avô? Vem cá, meu menino! Deixa-me ver-te!

Foi nesse instante que Carolina percebeu quem era.

Não é meu! Quer dizer, não é meu filho. Pai, é irmão, filho da mãe, o Manel.

Ah, já vejo! abraçou o miúdo, que logo aninhou o rosto na barba áspera do homem.

Pica!

Assim não! Já me faço a barba! Filha, vamos para dentro. Estes mosquitos aqui são bandidos!

Temos o rio ao pé, pai

Lembro-me bem

A avó recebeu-os com um olhar tal que Carolina percebeu logo: as conversas dos grandes estavam feitas, havia paz. Nesse caso, não fazia sentido guardar mágoas.

O que interessa o que houve entre os pais antes dela nascer? Agora, a família cresceu, e isso, sim, era para agradecer.

Olhava Manel a girar em volta do avô e sabia: era assim que seria dali para a frente. Havia um homem em casa. E ainda bem

Mais tarde, veio a saber que a carta não se perdeu chegou ao destino. Mas o pai já não morava lá. Por sorte, uma mulher encontrou a carta, esforçou-se para descobrir para onde fora Filipe, conseguiu o contacto, enviou a carta E ela ficou à espera meses, porque ele andava ao mar.

Quando recebi a tua carta, vim logo! Pensava que estava sozinho no mundo! Escrevi tantas vezes à tua mãe. Quis formar família.

E ela?

Só respondeu uma vez Disse que estava casada e não queria ser incomodada. Respeitei. Se eu soubesse, teria voltado nadando! Meu Deus, que felicidade me deste não a mereço! Vens comigo? Tenho casa grande no Porto, com vista para o mar e pores-do-sol de dar vontade de viver!

Pai, não posso

Porquê?

Não vou deixar Manel e a avó! Não se faz!

E quem falou em deixá-los? A casa chega para todos! Tens de estudar, filha! A avó cuida do Manel, tu vais para a faculdade.

E vivemos de quê? Aqui, mal nos aguentamos! O pai do Manel prometeu, mas nunca pagou nada. Parece que nunca existiu. Nem para o ver. Apareceu uma vez, ficou dez minutos e foi embora. Só para ver que o miúdo estava vivo!

Filha, tu estás a ofender-me? Achas que não dou conta de duas mulheres e um rapaz? Hás de juntar as coisas! A avó já disse que quer ir! Faltavas só tu. Então vens?

Sim, pai. Sim

E Carolina abraçou o pai, agradecendo o dia em que se lembrou de lhe escrever. Depois partiu com ele para o Porto, que tinha tanto de agitado como o coração dela.

E ainda que a vida nunca fosse só calma nem isenta de tempestades, Carolina sabia agora tinha um porto seguro para onde voltar, fosse o que fosse.

Nessa casa nunca faltaria o cheiro dos bolinhos de bacalhau, que a avó continuaria a fazer mesmo que ela nunca os aprendesse. E ali, esperá-la-ia sempre um rapazinho despenteado, pronto a recebê-la, agora com voz já grossa:

Olá! O pai disse que vinhas! Carolina, tinha saudades!

Eu também, meu querido Eu também

No fim, percebeu que as respostas nem sempre chegam quando ou como esperamos, mas quando a coragem fala mais alto que o orgulho, a vida retribui-nos com aquilo de que mais precisamos pertença, afeto e um lar. É no seio da família, por entre falhas e reconciliações, que aprendemos o verdadeiro sentido de amar e ser amados.

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