Biruk: O Guardião Silencioso da Floresta Portuguesa

Eh, és mesmo fechado a sete chaves, Salvador Joaquim! Não é à toa que te tratam por Lobo-Solitário! Sorrir, nem pensar, é como arrancar dentes. E basta olhar para ti e dá até arrepios, parece que foste apanhado por um vento de gelo ou soldado petrificado no Rossio. Diz, Salvador, porque é que a vida não te dá alegria? Porque é que caminhas assim, atravessado?

Gracinda ainda ruminava, voz de lenço dobrado, mas Salvador já não a ouvia. Apanhou o saco com as compras do mini-mercado de São Martinho, o único na aldeia a cheirar a café queimado, e lá se despediu sem palavra.

A tua Leonor passou cá com o menino, vinda da cidade grande. Ouvistes? E se calhar, Salvador Joaquim e se aquele rapaz for mesmíssimo teu filho? Vê-se bem pela cara! Deixar o pequeno a viver sem pai é assim a vida agora?

A provocação ecoou-lhe nas costas, já pela porta baixa, e quase tropeçou no degrau gasto de granito. Não virou a cabeça. Para quê? Ninguém se convence. Cada um inventa fábulas do que não sabe. E também, mexer na própria vida e pô-la ao julgamento do povo não era hábito dele. Sabem tudo ou então inventam, não vale a pena explicar. Aquele assunto era entre ele e Leonor; a curiosidade não tinha lugar ali.

O sol, estranho, estival e quente para Maio, lavou-lhe a cara num calor dormente, obrigando Salvador a cerrar os olhos. As pálpebras pesadas desceram devagar e fizeram-lhe a cara de máscara de bronze. Sem abrir os olhos, avançou uma vez, duas, até o grito estridente de uma voz de criança:

Atenção aí!

Um rapazote, magrito, saltou-lhe à frente e amparou de imediato dois cachorrinhos que rebolavam nos degraus do supermercado.

Não calque os bichos, faz favor!

O nariz vermelho, os olhos, grandes, negros, de alentejano cerrado, e as orelhas um tanto saídas como as dele Parecido, pois! Não admira a conversa das vizinhas. Mas Salvador sabia bem, aquele que o fitava não era seu filho, nem próximo. Parentesco, talvez. Só não ao ponto de culpas ou paternidades.

Não quer um deles? Veja, que patas largas! Vai sair forte, com raça!

Salvador fez que não com a cabeça, arrastou os passos até à esquina, entrou pela travessa errada, escolhendo a rua mais próxima, não a certa. Lá ficaram-lhe presas as forças e encostou-se à vedação alta, galhos de vinha agarrados ao velho muro da casa dos Miranda, a puxar fôlego como se esquecesse como se respira.

Porquê isto, Deus? Porque é que ela voltou? E porque trouxe aquele rapazito que podia ser seu filho se tudo tivesse sido diferente? O chefe Oleg, deixou-a será?

Os pensamentos atropelavam-se, sem paz nem ordem, e o coração martelava apressado, zangado, como há sete anos, quando partiu tudo. Recordava tudo, tolo! E não há gritos nem silêncios que calem as batidas do peito sem eira nem beira.

Obliqua, ouvira-se o bater de cancela, e de rompante surgiu Lúcia Miranda, sobrancelhas franzidas, olhar astuto, já a puxar por Salvador:

Ó Salvador, então o que se passa contigo, homem? Queres ajuda? Chama o Ilídio, quê?

As mãos quentes e morenas pousaram-lhe nos ombros, e Salvador abriu lentamente os olhos.

Não, Lúcia, obrigado. Eu saiu já daqui, não faças caso

Ir? Não vais a lado nenhum, pá! Encosta-te a mim, vá lá, devagarinho. Ai Jesus, Salvador! Matas-te com esse coração! Qualquer dia ainda me culpam, por não cuidar para ti! Esqueceste-te que passas por cá, pela minha porta, para medir a tensão? Vá, deita abaixo, já trato de ti e faço-te um bocadinho de chá. Vais ficar fresco como pepino do quintal, ouviu?

As pernas arrastavam-se, mas Lúcia tinha força de mulher do campo. Quase arrastou Salvador para o seu terreiro, fechou com o pé o portão e gritou:

Ilídio! Chega-te cá!

Depois, o mundo parecia mergulhado em névoa. Quando abriu os olhos, estava estendido no velho sofá da sala, a camisa colada ao peito, alguma coisa a pesar-lhe. Achou que era um ataque, mas o sorriso acalmou-o depressa.

Uma gata tigrada enrodilhada a seu lado, lambendo um dos gatinhos, os outros a perambular-lhe pelo peito.

A nossa Misha sente os humanos como ninguém! Traz-lhe os filhos quando reconhece alma boa és dos poucos, Salvador. Senão, nunca confiava.

Lúcia pôs de lado os exercícios das filhas, e começou a rodear Salvador de cuidados.

Já passou. Vou tratar de ti! O coração já acalmou. Importas-te que ficas cá hoje? Amanhã vês de Zélia e do Polaco. Já tratei da vaca. Nada de preocupações.

Que tenho eu para fazer, Lúcia? Só a vaca e o cão. Isso são as minhas tarefas.

Olha que não, ó homem. E doentes fazem pouca falta à vila! Descansa agora.

Salvador reparou então que as cortinas cerradas abafavam a tarde e só uma luz mortiça iluminava a sala.

Que horas são, Lúcia?

Tarde, Salvador. Esquece as horas. Hoje ficas cá. Já tratei de tudo.

Lúcia fechou o estetoscópio, abraçou distraída o marido, e foi para a cozinha; Ilídio sentou-se ao lado de Salvador.

Está-te difícil?

Nem sei explicar. É, sim.

É a Leonor

Não fales, Ilídio. Salvador virou o rosto e cruzou-se com o olhar sério e verde da gata no peitoril.

Até a Misha sente. Ilídio coçou a orelha da gata. Os bichos percebem quando estamos sozinhos. Ela arrastou os filhotes e pôs-te cá para curar. Fosse connosco Gente pensa demais com a cabeça, bicho sente com o coração. Devíamos aprender. Vês ao que te trouxeste com o silêncio? Aguentas? E até quando? Tu és homem calado mas bom. Já me ajudaste, lembra? E agora é vez de pagar o favor. Deixa-me tentar.

Como é que me podes ajudar, Ilídio?

Minha avó, que em paz esteja, dizia que as mágoas têm de ser lançadas, que não se guardam. Se não tens a quem, cava um buraco e grita; mas não fiques a carregar só. Senão, ardes por dentro.

Salvador, tremendo, fez uma carícia nos gatos.

O que queres tu ouvir, Ilídio? É vergonha de homem. Não se leva roupa suja ao largo. Mas… sabes como amei a Leonor. Tu viste. Corri por ela na escola, fui ao quartel e voltei-lhe para os braços. Esperou-me Foste ao nosso casamento.

Fui. Só não sei que diabo vos afastou.

Não sabes, nem ninguém. Eu disse à família que deixava a Leonor porque não a amava, mas era mentira. Ninguém percebeu. Eles afastaram-se, a restante família virou a cara. Um homem, dizem, tem de ser forte. Que força tem que não segura mulher? Fiquei sem todos.

Os olhos de Salvador, baços e fundos, brilharam.

Vi-os. Leonor e o meu primo, Henrique. Se me tivessem contado, não acreditava!

Ilídio fez um esgar e abanou a cabeça.

Não! Que se passou, Salvador?

Toda a desgraça foi em casa. Fui à cidade tratar com empresários. Era para abrir uma coudelaria com leite de égua, para vender ao balneário. A ideia foi dela. Ela sabia tudo de cavalos; tu lembras-te do pai. Sempre falou dos animais. Pediu-me que fosse tratar de negócio. Fui ingenuamente. E ela? Ficou, com todos.

Que ouviste dizer dela? Nada, pois aqui tudo se sabe

Nada. Aconteceu em nossa casa, de noite, ninguém viu nem sabia. Quando voltei, apanhei-os juntos na cozinha. Henrique beijava-a e ela não resistia! Percebes?

Salvador tentava sentar-se, mas a gata cravou-lhe as garras e ficou a controlar os gatinhos, enraivecida.

A natureza é assim, Ilídio A mãe sempre defende os filhos; mesmo que nem os tenha parido ainda. A Leonor queria filhos, sabia. Eu, casmurro, não queria ir ao médico pensar que o problema era meu. Ela arranjou outro Quis resolver.

Não inventes histórias, Salvador! Já contaste de tudo.

Tive tempo demais para contar

E se fugiste de ti, foi por causa do menino? Não me parece

Faz as contas, Ilídio. Dois e dois não batem. Tua tia, a mãe do Henrique, quando nasceste o bebé, explicou-me tudo.

E o que viste tu ao voltar da cidade?

Eles. Juntos. O beijo, Ilídio! Não aguento falar disto. A voz partia-se, e Lúcia entrou, pronta com a seringa.

Descansa, Salvador! O sono é preciso. O resto depois.

Salvador acalmou e a medicação deu-lhe um sono inquieto.

Quando Ilídio chamou a mulher fora da sala, perguntou:

Ouvistes tudo?

Ouvi.

E que pensas?

Vou resolver isto, Ilídio. Não dá para continuar. Vi a Leonor ontem; está esgotada. Não me parece culpa.

Para onde vais?

Primeiro à tia do Salvador. Depois à Leonor. O coração do Salvador está mau. Não gosto disto.

Lúcia pegou no casaco, saiu, Ilídio sentou-se nos degraus, cigarro ardendo e cabeça a mil.

A vida, pensou ele, é assim: corre atrás da alegria, agarra um fio, acaba por ficar só com a penugem da felicidade. Eles também já tudo passaram. Enterraram pais, perderam um filho, aceitaram as meninas como milagre anos depois. Lúcia nunca se perdoou, médica e impotente perante doença grave do filho. Quando vieram as gémeas, quase enlouqueceu de pavor. Agora serena, mas nem sempre foi assim.

Sentia dor, ao ver Salvador, e também o filho da Leonor, a precisar de força. Pais separados, mãe sombra, avó exausta, o rapaz sozinho. Quantas famílias não são assim, pensa ele, sombra contra campo aberto?

Esperou muito. Alguma luz raiava já quando Lúcia regressou.

Ao ver-lhe a cara, puxou-a para si e murmurou:

Doeu?

Ai, Ilídio Certas pessoas são mesmo tão cruas Animais seriam mais bondosos

E Lúcia chorou como menina, mãos nas faces, entrecortada, explicando ao marido:

É filho do Salvador, Ilídio! A tia Tamara confessou tudo. Não percebo porque me contou agora, após anos de silêncio. Talvez medo, talvez vergonha.

Correra à Leonor primeiro, ouvir a versão do dia fatídico que Salvador os encontrou. Leonor, já grávida, não tivera tempo nem de falar ao Salvador; tinha medo, já perdera três gravidez antes. Não confiavam, nenhum deles. E isso gerou esta tragédia.

Tamara, plena de mágoa, planeara tudo por inveja antiga. Irmã mais formosa, a mãe de Salvador casara com o rapaz por quem Tamara suspirava. Ela calou-se anos, só revelou a dor depois. Vingou-se na filha da irmã, destruindo famílias. Só quando voltou, viúva, foi aceite por caridade; e orquestrou o escândalo para ferir todos.

Finalmente, levou-a a contar tudo à mãe do Salvador. Surreal ver mulheres maduras, a vida inteira magoadas por vaidade de infância. A mãe do Salvador perdoou, mas correu Tamara da aldeia.

Demorámos, Ilídio. O Salvador, ali, a definhar, a vida parada pela tristeza e vergonha E para quê? Não era preciso tanto segredo.

Depois, tentou sorrir, aconchegou-se ao marido.

Vou fazer-te o pequeno-almoço, homem, senão nem vives!

Vai lá, e depois chama o Salvador para comer também. O dia vai ser longo.

O sol descia já na encosta do monte, iluminando o quintal de Lúcia.

Salvador saiu, ainda a cambalear, olhos cerrados ante a luz, e ouviu, como num delírio:

És tu, então, o meu pai?

O rapazinho sentado à escada, cachorrinho entre braços.

Olha! Tem patas de lobo! Vai ser cão valente, concordas?

Salvador respirou fundo, sentou-se ao lado do rapaz no degrau da varanda, afagou o cachorro.

Vai ser grande. Fizeste uma boa escolha.

Os olhos, iguais aos dele, não largavam Salvador. Este, hesitante, pousou a mão no ombro do rapaz, apertou de leve, respondeu:

Sou, sou teu pai, Sérgio

Boa! Vamos para casa. A mãe disse que faz panquecas, e a avó veio visitar-nos. Vamos hoje ver os cavalos dela? Posso?

Salvador sentiu, como em sonho, a rédea apertada na alma ceder, a dor soltar-se; uma alegria esquecida tomou-lhe o peito, a voz voltou firme e tranquila.

Pegou o cachorro, levantou-se, sorriu e respondeu:

Podes, claro. Temos muitos planos juntos, filho muitosE foi assim que desceram juntos, o rapaz com o cão ao colo, Salvador ao lado, sentindo o peso do mundo finalmente a abandonar-lhe os ombros. Lúcia acenou da janela, um sorriso cúmplice, enquanto a chaminé lançava ao ar o cheiro reconfortante de pão fresco e manhã de promessas.

O caminho até à casa era curto, mas Sérgio caminhava devagar, aproveitando cada passo ao lado do pai. A cada gesto, um receio antigo de Salvador derretia-se. Lá ao longe, a porta entreaberta, Leonor e a mãe de Salvador esperavam. Salvador percebeu, então, que o mundo podia ser feito de remendos e de esperas, mas também de reencontros.

No quintal, os cavalos pastavam em silêncio, dourados ao sol; Sérgio largou o cachorrinho, correu à frente, riu com a liberdade de quem nunca conheceu guerra, com a esperança dos que são recebidos de braços abertos. Salvador olhou para Leonor; ela sorria-lhe, os olhos cheios de uma paz antiga, e nesse instante soube, com toda a certeza, que ainda havia tempo e coragem para recomeçar.

A tarde abria-se diante deles, imensa, cheia de promessas. Salvador respirou fundo, pela primeira vez em muitos anos. E tudo o que ficara por dizer foi dito, sem palavras, nos gestos pequenos, nas partilhas, no recomeço junto dos seus.

O vento trouxe o cheiro da terra e o riso de Sérgio e, ali, Salvador soube que já não caminhava atravessado. Caminhava em frente, finalmente inteiro, finalmente em casa.

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