Beatriz, juro-te, até agora ainda me custa acreditar! Tu e o Francisco terminaram mesmo? Nem estou a conseguir processar, a sério a minha reação deve ter sido demasiado caricata para ele, coitado. Os meus olhos deviam estar a saltar das órbitas, as sobrancelhas quase tocavam na raiz do cabelo e a boca semiaberta nem parecia verdade tudo aquilo que ele me dizia. Tu eras capaz de fazer tudo pela Leonor! Sempre vos usei como exemplo quando falava dos casais felizes… Eu própria sonhava com um amor assim!
É mesmo assim, Bia, acredita que foi real… O Francisco olhava para a janela com o olhar perdido. Lá fora, chovia a potes; a água fria fustigava o vidro e corria em riachos apressados, desfazendo-se em pingos fininhos. Era o espelho do que lhe ia na alma. Sentia-se num vazio: cinco anos de namoro que agora só lhe sabiam a dor e a tristeza, como se o mundo tivesse perdido cor. Uma espécie de buraco no peito o espaço onde antes guardava os abraços, os sorrisos cúmplices e os planos para um futuro a dois. Cerrou tanto os punhos que os nós dos dedos ficaram brancos, a voz tremeu-lhe quando continuou: Está acabado, percebes? Mesmo acabado…
Mas… porquê? Tentei não soar demasiado ansiosa, mas não aguentei ficar calada. Inclinei-me para a frente, olhos fixos nele a tentar perceber tudo. A Leonor ficou meio ano à tua espera, quando estiveste em Lisboa naquela formação! Nem um passo em falso ela deu, sempre fiel, nem quis saber de cantadas nem de presentes!
Sabes disso tudo como, tu? Vives no Porto, ela em Coimbra!, resmungou o Francisco, mas com um sorriso triste, meio a brincar. Vá lá, não vais dizer que é só coisa típica de amigas?
Sim, estamos longe, mas tu já te esqueceste como Portugal é pequeno? Tenho amigas em todo o lado, alguns amigos meus até trabalham perto dela, mantiveram-me sempre informada. Só te posso adivinhar o superficial, claro tipo ela mudou de penteado, começou a fazer ginásio, renovou o guarda-roupa todo. Tudo isso enquanto estavas fora. Estava claramente a tentar dar o seu melhor, Francisco.
Pois, foi por isso mesmo que acabou tudo… De repente, ele atirou-se para o hall, foi buscar o telemóvel ao bolso do casaco, os movimentos todos apressados, inquietos. Regressou de imediato. Olha, vê tu própria… Lembras-te bem de como a Leonor era quando fui para Lisboa?
Lembro, claro, encolhi os ombros, mas sentia-me com um nó na garganta tentei recordar a imagem dela. Uma miúda tão querida, cabelo liso dourado, pelos ombros, olhos grandes muito azuis, nariz perfeitinho… Até tinha boa figura! Só que o peito não era nada demais, mas tu sempre disseste que gostavas assim, não era?
Era, exatamente! Para mim estava perfeita!, explodiu ele, mas logo baixou o tom, rouco, magoado. Para mim, ela era o ideal! Amava-a assim, como era. É que basta um tipo ausentar-se, e logo as amigas convencem-na de que sou um parvo qualquer que vai largá-la se não mudar. E aquilo entrou-lhe mesmo na cabeça, Bia! Começou a mudar-se, mas não porque queria porque a convenceram que só assim eu ficava.
Mas… mudou assim tanto?, perguntei, desconfiada, mas com vontade de ir lá ver o que tanto lhe pesava.
Olha lá tu mesma! Passou-me o telemóvel quase a enfiar-mo na cara. Fiquei a olhar e não era a mesma Leonor.
Cabelo: o orgulho dela, cortado curtíssimo e pintado de um loiro platinado a gritar por atenção. O corte deixava o pescoço e as orelhas à mostra, mas não era bonito, só estranho, sem graça nem doçura. Os lábios… Nem comento! Tão inchados de preenchimento, que pareciam um disparate, fora da cara dela. Magra demais perdeu imensos quilos e, em vez de elegante, parecia doente; clavículas e ossos todos à mostra, olheiras fundas, pele sem cor O pior? Fez aumento mamário! Sabendo bem como ele detestava coisas artificiais e que só quer saber de quem assume a sua essência…
Vês aquela, foi aquela que me foi buscar ao aeroporto! E eu pensei… não me apetece nem reconhecê-la… A voz do Francisco tremia. Deu murro na parede depois ficou a abanar a mão de dores. Como é possível, em meio ano, destruir tudo em si? Esqueceu-se do que me apaixonou!
O Francisco só se mexia de um lado para o outro, a andar sem parar. Parecia um animal enjaulado, ora vermelho de raiva, ora lívido de tristeza. Passava as mãos pela cara, com uma tentativa vã de apagar a memória que lhe doía tanto.
Sabes que ele nunca quis ter estado tanto tempo fora. O chefe obrigou aquela consultoria em Lisboa, seis meses repletos de saudades. Tinha imensa vontade de a levar consigo, mas ela estava no último ano de universidade, não podia largar os exames. Ligavam sempre, ele tentava animá-la, dizia-lhe todos os dias que ela era a mulher da vida dele… E, afinal, quando voltou, encontrou uma estranha à espera.
Se calhar ela achou que assim te agradava mais…, tentei eu. Cheguei ao pé dele, falei baixinho, a dúvida toda estampada na cara. Se calhar alguém lhe meteu na cabeça que tu ias adorar, que era a tua onda agora…
Francisco sorriu amargamente: Agradar a mim? Mas ela apagou-se! Amava-a por ser verdadeira, e agora… nem a conheço.
Mais ainda: ele andava desconfiado porque nos últimos tempos a Leonor nunca queria fazer videochamada. Sempre com desculpas, sempre a dizer que tinha preparado uma surpresa mágica. Ele não conseguia engolir aquilo sentia logo que algo não batia certo. Até pensou que já podia haver outro na vida dela, que ela lhe escondia as coisas para não acabar tudo ao telefone. Não o largava essa suspeita.
Não aguentou e pediu a um amigo, o Miguel, que vivia nos arredores de Coimbra, para estar atento, perguntar por ela, ver se a apanhava. Fez-lhe esse favor, meio a custo.
Dois dias depois, o Miguel ligou: Surpresa vai ser, de certeza… mas não te garanto que aches piada. Ninguém, diz ela, entrou na vida dela espera mesmo pelo teu regresso, pergunta por ti, sofre por ti.
Aquelas palavras tranquilizaram-no um bocado. Respirou fundo, despenteou o cabelo, até sorriu. Pelo menos, pensava, não havia traições, só aquela ansiedade a moer.
Hoje vê que foi burro em recusar quando o Miguel quis mostrar-lhe fotos. Deixa lá, quero surpresa mas, se calhar, se tivesse visto antes, voltava logo, largava tudo, ou tentava travar aquele disparate. Agora já não podia mudar nada…
No dia do regresso, o Francisco era um feixe de nervos: olhava sempre para o relógio, batia com os dedos no braço da cadeira do avião, no táxi roía o fecho do casaco. Tinha as mãos a suar, o coração descompassado. Por dentro só imaginava o reencontro perfeito: ela à espera, ele corre, sente o cheiro do cabelo dela, vão para casa, partilham tudo entre chá e sofá.
A realidade foi outra. Viu-a à porta do aeroporto e ficou pregado no chão. Era mesmo ela? Parecia outra, mudou tanto que até pensou estar a olhar para a pessoa errada. Piscou várias vezes, mas só sentia gelo por dentro.
Francisco! Tanta falta que me fizeste! Ela correu na direção dele para o abraçar, mas ele deu um passo atrás, deixando-a no ar. A expressão da Leonor descreveu tudo: de sorriso hesitante à mágoa irremediável, as mãos caíram, os olhos ficaram húmidos.
Estás parvo? Sou eu! Ou fiquei assim tão diferente que te deixei sem palavras? O tom dela era o de alguém a brincar para esconder o nervosismo, ajeitava o cabelo a tentar quebrar a tensão.
Estou a olhar e já não sei onde está a minha Leonor…, murmurou ele, meio perdido. A voz vinha-lhe de longe, cheia de dor por dentro. Olhou-a, mais uma vez, e não conseguia reconhecer aquele rosto. Estás doente? Ou perdeste-te? O que fizeste ao teu cabelo, à tua figura? Sempre foste tão naturalmente bonita…
Queres antes dizer gorda, não?, ela mordeu o lábio, controlava-se para não ceder às lágrimas. As amigas, que ficaram meio a espreitar certamente aplaudindo a “transformação” riram-se baixinho. A Leonor lançou-lhes um olhar de desespero, mas nada mudou.
Podes ser sincero à vontade, já sei que estava longe de ser perfeita para andar ao teu lado… esforçou-se por parecer forte, mas a voz falhava. Pelo menos agora já podes mostrar-me sem vergonha, viraste-me fashion, moderna. Não é o que querias?
E quem te disse que agora quero ir contigo a algum lado?, ele respondeu com uma dureza fora do normal. De bonita, passaste a… não sei bem o quê. Amava-te como eras. Hoje nem te reconheço. Será possível que nem quiseste perguntar-me o que pensava disto tudo? Sempre falávamos de tudo! Porquê não agora?
Nisto, intrometeu-se uma das amigas, com ar de quem queria meter lenha na fogueira: Leonor está pronta para capa de revista, Francisco! Sabes quantos homens vieram meter conversa? Nem dá para contar! Esperavas o quê, que ficasse igual para sempre? Deves agradecer, ela fez isto tudo por ti!
Ele virou-se, olhos a faiscar: Por mim? Não, fê-lo por ela (ou por vocês)!, apontou para a Leonor, cheio de mágoa. Nem me venhas culpar deste cenário.
Depois, baixou o tom e, já a tremer, disse baixinho, só para ela: Sabes bem que sempre valorizei quem assume a sua essência. Agora olho para ti e vejo tudo falso, transformado, sem ti lá dentro. Planeava pedir-te em casamento, Leonor… Já tinha o anel, ia fazer surpresa! Mas… desculpa, não consigo. Não consigo viver com uma boneca.
Leonor empalideceu, as lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. Só conseguiu balbuciar: Francisco, espera! Eu só queria fazer tudo certo, queria que tivesses orgulho em mim… Nunca quis magoar-te.
Ele já ia ao longe, afastou-se sem olhar para trás. Por dentro fervia: a dor, o desilusão e a sensação de que tudo desabou sem conserto.
Uma das amigas ainda tentou animá-la: Deixa-o ir! Estava em choque, logo lhe passa. Vais ver que mais tarde volta a pedir desculpa. Tu agora és um arraso!
A Leonor nem reagiu chorava, enquanto via o Francisco afastar-se. Sentiu ali, naquele momento, que tentou agradar a todos menos a si mesma, e perdeu aquilo que de verdade lhe importava…
Acreditas, Bia, que planeava casar-me mesmo? rematou baixinho o Francisco, cobrindo o rosto com as mãos, os ombros a tremer. Tinha tudo imaginado… o pedido, o abraço, os risos, a felicidade Mas quando a vi, perdi-me. Já não era ela.
Calou-se, olhou para longe. Por que será que vocês, mulheres, têm tantas dúvidas sobre a vossa aparência? Elogiava-a todos os dias, sempre lhe disse que era linda, com todos os defeitos e manias que a faziam única. Mas ela… esqueceu tudo, trocou-se.”
O que mais custa, disse, com os olhos húmidos, é saber que as amigas dela tiveram culpa. Aquela Matilde, então… ainda veio cá a casa, cheia de conversa, a dizer que era tudo natural nela, que eu merecia melhor, que a Leonor era insegura. Tive de a pôr porta fora! Ele bateu com o punho no sofá, furioso.
E acrescentou: E o mais nojento? Ela achou que eu ia cair nos braços dela assim num estalar de dedos! Nunca! Amava a Leonor, e magoa-me que ela tenha deixado tanto influenciar-se por fora.
Fiquei a ouvi-lo, sem o interromper. Vê-lo assim, despedaçado, partia-me o coração. Não era o Francisco alegre e confiante a que me habituei.
E agora, já tentaste falar a sério com ela? Tudo se pode resolver, desde que haja vontade…, perguntei, tocando-lhe no ombro, suave.
Ela está contente com o novo visual, nem pensa em voltar atrás. Ligou-me, fez chantagem emocional, como se eu tivesse obrigação de ficar, só porque ela me esperou durante seis meses… Bia, eu amo-a. Amo mesmo. Mas a Leonor que eu amava apagou-se. Ficou uma personagem que não sei quem é, com lábios, corpo, tudo fabricado. Só vejo fachada!
Agarrei-lhe a mão, apertando-a com força. Francisco, tu não tens culpa. Amavas e valorizavas a Leonor, foste sempre próximo, cuidadoso. Não te culpes por isto, não é tua responsabilidade. Às vezes é mesmo inveja, insegurança dos outros, ou simplesmente confusão. Mas o erro não é teu.
Ele levantou os olhos para mim, vermelhos de tanto chorar. Olhava-me como se procurasse uma resposta para tudo. Mas e se fui injusto? E se devia ter tentado entender o que se passava? Se ela só queria agradar-me, mostrar que estava ao meu nível?
Li-lhe a dúvida entre o amor que sentia e a frustração. No seu olhar, ainda habitava aquele carinho pela Leonor verdadeira: a que fazia desenhos no vidro da janela em dias frios, ria das piadas parvas, lhe dava alento nos momentos maus.
Sabes, podes e deves respeitar-te a ti próprio e aos teus sentimentos, disse-lhe serenamente, olhos nos olhos. Se ainda gostas dela, fala-lhe. Não por ela, mas pelo que existiu entre vocês. Talvez falte conversar e perceber o que realmente se passou e o que cada um deseja daqui para a frente.
Ele respirou fundo, limpou as lágrimas com a manga, olhou para o céu. A chuva abrandara e um raio dourado do sol entrava pela janela, pintando a sala de esperança tímida.
Talvez tenhas razão, soprou, exausto. Preciso mesmo é de tempo. Tempo para perceber o que quero, para sarar, para digerir isto tudo. Estou num encruzilhada, Bia… mas quem sabe, ainda haja volta a darMas a verdade, Bia, é que já não sei onde estou. Sinto falta do que tínhamos, mas não posso amar alguém que gostou mais de agradar aos outros do que de ser feliz comigo. Ainda queria acreditar que, nalgum lugar debaixo de tanto disfarce, ainda mora a Leonor de que fui doido. Só que, neste momento”
Ficou a frase a meio. O Francisco, com a respiração suspensa, contemplou lá fora enquanto aquele raio de sol se espalhava pelas poças na rua, como promessas antigas meio esquecidas.
Eu ajeitei-lhe o cabelo, num gesto quase maternal. Sorri, um daqueles sorrisos tristes e verdadeiros. “Vai passar,” murmurei. “As pessoas até se podem desfazer, mas aquilo que nos fez amá-las nunca some de verdade. O tempo não te vai trazer a Leonor de volta como era, mas talvez te ajude a encontrar quem, um dia, também goste de ti do jeito errado que é como quem diz, do teu jeito.”
O Francisco riu-se, meio envergonhado, seco de lágrimas. “Sabes o que me apetecia agora mesmo? Comer um gelado gigante e esquecer que alguma vez acreditei que o amor precisava de provas tão pequeninas.”
“Então bora,” disse-lhe, pegando-lhe na mão e puxando-o porta fora, para a tarde húmida que começava a brilhar. “Vamos comer gelado, olhar as pessoas na rua e imaginar-lhes as histórias. E se te apetecer, podemos inventar finais felizes para todos menos para quem não teve coragem de se aceitar a si próprio.”
Saímos, ele comigo ao lado, o passo a ganhar força e ritmo. E naquele instante, não havia mais passado nem prantos; só a promessa, tão leve como a luz depois da tempestade, de que o que é verdadeiro sempre acaba por regressar mesmo que não traga o mesmo rosto, nem o mesmo nome.







