Autor Desconhecido

Não vais, disse o Duarte, sem olhar para ela. Estava diante do espelho no hall de entrada a endireitar a gravata. Era nova, azul-escura, de uma seda italiana que ela dificilmente saberia nomear. Já tomei a minha decisão.

Como assim, não vou? Leonor saiu da cozinha com um pano nas mãos. Acabara de lavar a loiça do jantar. Duarte, é o aniversário da empresa. Vinte anos. Estou contigo há vinte anos.

Precisamente por isso não é preciso, disse ele. O tom era calmo, profissional, daquele que ela já ouvira muitas vezes nas gravações que ele trazia para ela avaliar a apresentação. Vão estar pessoas importantes, Leonor. Investidores. Parceiros de Lisboa. Sabes do que falo?

Não. Explica-me.

Finalmente virou-se para ela. Olhou como se ela fosse algo familiar e ligeiramente desgastado. Como uma cómoda antiga. Uma toalha já esbatida pelo tempo.

Não te encaixas naquele ambiente. Vão pedir dress code, conversar sobre coisas de um contexto ao qual dificilmente poderás corresponder. Não quero que te sintas desconfortável.

Leonor pousou o pano no aparador. Devagar.

Não queres que EU me sinta desconfortável, repetiu.

Sim.

Ou não queres tu ter de te sentir constrangido por mim?

Ele voltou-se para o espelho. Leonor, não comeces. O carro chega dentro de uma hora.

Ela ficou a olhar-lhe as costas. O blazer caro, aquele mesmo que três meses atrás ela encontrara primeiro no catálogo, anotou o artigo, explicou-lhe por que aquele corte e tom ficavam melhor do que o que ele queria. Ele vestiu o certo e ficou satisfeito.

Está bem, disse Leonor.

Voltou para a cozinha. Pôs a chaleira ao lume. Sentou-se junto à janela a olhar as luzes da cidade lá em baixo. Novembro já cobria as ruas de Lisboa com chuva pesada, e os candeeiros esbatidos multiplicavam halos de amarelo na calçada.

Vinte minutos depois, ouviu a porta bater.

Leonor ficou ali, imóvel. A chaleira fervia e arrefecia, mas ela não se serviu. Ficou a pensar na senha que pusera há três semanas naquele ficheiro: Estratégia de Crescimento. TecnoImpulso. 20252030. Passara quatro meses a trabalhar noite dentro, enquanto o Duarte dormia. Primeiro a reunir dados do setor, depois a montar modelos, sempre a corrigir. Ele dava-lhe rascunhos de ideias soltas, folhas rabiscadas, ela transformava tudo num documento capaz de impressionar qualquer analista.

Tinha posto a senha três semanas antes. Foi quando ele chegou a casa com o vestido.

O vestido era cinzento. De algodão, de gola subida e manga comprida. Comprei para ti, prático para casa, disse ele, enquanto largava o saco banal na mesa, sem fita, sem caixa, só o saco da loja popular.

Nesse mesmo dia, ela vira o talão do fato dele. O preço equivalia a um mês do seu ordenado como assistente administrativa um cargo modesto, num acordo antigo.

Levantou-se, serviu um copo de água fria e bebeu devagar. Depois abriu o computador.

A senha era Ribeirinha. Nome da aldeia onde crescera, que já não existia.

Ribeirinha ficava a cento e sessenta quilómetros de Lisboa, numa curva do pequeno Rio da Luz chamavam-no assim, embora nos mapas tivesse outro nome. Duzentas casas, um salão paroquial com escadas a desfazer, uma escola para cento e vinte miúdos, nos últimos anos só quarenta, uma lojinha da tia Rosária que conhecia todas as famílias. A aldeia vivia devagar, sem pressas. Cheirava a feno no verão, a lareira e pão quente no inverno.

Aos sete anos, Leonor caiu de uma macieira e partiu o braço. A vizinha, Dona Matilde, levou-a nos braços ao posto médico, falando-lhe com voz morna sobre respeitar as árvores, porque sabem da terra mais do que nós. Leonor não entendeu as palavras, apenas guardou o tom.

A aldeia foi demolida há sete anos. Uma multinacional quis expandir fábrica; indemnizaram as casas, mudaram o cemitério, cortaram as árvores. Dois anos depois, lá estava um armazém e uma vedação de betão com arame farpado.

A mãe da Leonor morreu antes disso. O pai foi viver com a irmã e morreu lá pouco depois. Leonor visitou o local uma vez, ficou parada à beira da cerca sem conseguir sequer identificar a rua onde vivera. Tinha-se tornado um chão liso e indistinto.

Duarte então disse: Não dramatizes tanto. A aldeia acabaria por desaparecer de qualquer forma. Ao menos serviu para algo.

Foi aí, muitas vezes ela pensou depois, que devia ter parado.

Mas não parou. Tinham a filha, Catarina, então com dezasseis anos. Tinham acabado de comprar o apartamento novo, no centro. Ela acreditava que as pessoas podem ser compreendidas se lhe conhecermos as histórias. Duarte viera de uma família de professores: pai de Literatura, mãe no rancho folclórico; famílias cultas mas sem posses, ele crescera convencido de que só estudo e contactos servem para sair da pobreza. Vergonha das origens. Leonor entendia isso. E desculpava.

Conheceram-se na faculdade. Ela com vinte e dois, ele já nos fins do curso, a fazer uma tese de economia e a tropeçar nos cálculos. Uma amiga trouxe Leonor, a rapariga jeitosa com números. Ela resolveu. Ele era bonito, de fala convincente. Este ouve-me, pensou ela.

Depois percebeu que ele ouvia só quando precisava de alguma coisa. Foi lento, esse perceber. Vinte anos de lento.

No início foi equilibrado. Ambos trabalhavam. Duarte subia devagarinho. Leonor estava bem numa empresa de auditoria. Nasceu Catarina. Duarte teve a primeira posição séria numa grande empresa, e começaram as viagens, os serões, as doenças de Catarina, a necessidade de alguém ficar em casa.

Sabes que o momento é crucial, disse-lhe na altura. Se não aproveitar agora, não há segunda chance. É temporário, só até estarmos seguros.

Ela ficou a meio tempo. Depois saiu, quando Catarina esteve doente meses a fio. Tentou regressar depois, mas o setor mudara, o lugar ocupava outro nome, e os patrões viam nela passado, não futuro. Duarte ganhava bem, garantiu-lhe: Não te preocupes, cuida da casa.

Ela cuidou. E foi cuidando do trabalho dele, porque não sabia de outra forma. Viu-lhe os documentos, corrigiu, ajudou. Primeiro pedia permissão, depois fazia. Ele aceitava como quem aceita o destino.

Quando chegou a diretor de estratégia da TecnoImpulso, Leonor já escrevera mais de metade dos textos que ele assinava.

Nunca protestou. Pelo menos não em voz alta. Pensava: somos família, se ele vence, eu também venço. O que importa é o resultado, não o nome na capa. Repetia mentalmente todas as frases necessárias para continuar.

Até que há três semanas ele trouxe o vestido cinzento. E tudo se deslocou. Não em estrondo, mas como quem sente o chão ceder um pouco debaixo do pé no lodo de uma margem.

No sábado seguinte à festa, Duarte voltou tarde. Leonor ouviu-o tirar os sapatos com cuidado para não acordá-la. Não estava a dormir. Olhava o teto, a luz da rua desenhando sombras na parede.

Ao pequeno-almoço estava animado.

Correu tudo bem, disse, barrando manteiga no pão. O diretor-geral ficou satisfeito. Os investidores de Porto mostraram interesse. Em janeiro haverá reunião.

Fico contente por ti, disse Leonor. E logo se calou, porque disse contente no masculino. Lapso antigo, quando o pensar vai à frente.

Ele não reparou. Ou fingiu não reparar.

Houve um ligeiro embaraço. O doutor Vasconcelos perguntou por ti. Disse que estavas um pouco indisposta.

O doutor Vasconcelos? repetiu Leonor. Conhecia-o de nome, das atas. Homem inteligente e ponderado. E acreditou?

Porque não haveria?

Leonor serviu café à sua chávena.

Duarte, quero que compreendas uma coisa.

Logo agora de manhã?

Agora mesmo. Não volto a trabalhar sem ser reconhecida. Quero que o meu nome conste nos documentos que eu própria crio.

Ele pousou a faca. Olhou-a, surpreso, como se ela tivesse dito uma heresia ou cometido uma piada despropositada.

Leonor, estás a falar a sério?

Quero ser coautora dos materiais. Na empresa onde és diretor de estratégia. Onde ninguém me conhece. Onde nunca trabalhei oficialmente.

Onde ninguém sabe que és tu quem faz aquilo. Sim, é isso mesmo que quero.

Levantou-se sem refilar, levou a chávena à banca. Virou-lhe as costas, depois voltou-se.

Não faças disso um caso. Ajudas-me como qualquer esposa ajuda o marido. A isto chama-se família.

Família é família quando ambos contam, disse Leonor. Quando um é invisível, é outra coisa.

Ele suspirou com o cansaço de quem já explicou o óbvio demasiadas vezes.

Estou atrasado. Falamos depois.

À noite voltou calado. O assunto não voltou à mesa. Nem no dia seguinte, nem nos seguintes. Ele sabia como contornar conversas difíceis; aprendera. Ou nascera já a saber.

Leonor continuou a rever a estratégia. Porque não sabia deixar trabalhos a meio. Porque o desafio intelectual era sempre mais forte que a mágoa. E porque já sabia o que decidiria. Só não sabia quando.

A ideia chegou durante uma madrugada. Sentada na cozinha, o candeeiro miguelista aceso, a neve da televisão a cair em silêncio. Terminou uma secção sobre diversificação de ativos, reviu, corrigiu três frases. Foi às propriedades do ficheiro: ali aparecia Duarte Costa como autor, porque fora criado no portátil corporativo dele.

Fechou o portátil. Levantou-se, espreitou a noite. Os candeeiros lá em baixo pareciam estrelas mortiças.

Pensou em Ribeirinha. No pai a levá-la à pesca ao rio. Naquele silêncio cheio: o sussurro das canas, o grasnar dos patos, cheiro de água e lodo. O pai dizia pouco, mas uma vez disse: Leonor, lembra-te: o que é teu, é sempre teu. Mesmo que outros o tirem.

Ela pensou que era sobre a cana de pesca roubada pelo vizinho.

Agora sabia que era de outra coisa.

A festa dos vinte anos da TecnoImpulso seria numa sexta-feira, no salão Panorâmico Atlântico, no coração de Lisboa, onde se viam o Tejo e a cidade iluminada. Leonor conhecia o espaço: foi ela quem, em tempos, o sugeriu ao Duarte, com relatório comparativo incluído. Ele apresentou o documento na comissão como se fora obra sua.

Três dias antes da festa, Duarte trouxe-lhe o menu impresso.

Quero a tua opinião sobre as entradas. Pouco para vegetarianos. Tens sugestões?

Duarte, vens pedir-me conselhos para o menu, mas não queres que eu esteja presente.

Não é a mesma coisa.

Não. De facto, não é.

Ela desenhou três itens novos a lápis. Devolveu o papel. Ele nem agradeceu.

Na sexta, Duarte andava ansioso, conferindo mil vezes os detalhes: gravata, botões de punho, aparência.

Estou bem?

Estás, sim.

Tens a certeza?

Tenho.

Saiu às quatro, para preparar e testar a sala. Última frase que lhe disse: Não me esperes, chego tarde.

Leonor tomou banho, penteou-se, vestiu não o tal vestido cinzento, mas o verde que ela própria comprara, modelado, simples, mas certo. Sapatos de tacão baixo, brincos finos que a Catarina trouxera do Porto. Um pouco de perfume Ártemis, do frasco pequeno.

Olhou-se ao espelho. Lembrou-se de Dona Matilde e das macieiras. E que as raízes sabem de tudo.

Pegou na mala e saiu.

O Panorâmico Atlântico era tudo o que devia ser: tetos altos com lustres de cristal a espalhar arco-íris, mesas com toalhas brancas, copos diferentes para cada vinho, música jazz ao canto, perfumes caros e neutros a compor o ambiente.

Entregou o casaco. Olhou a sala.

Uns oitenta convidados. Homens de fato escuro, senhoras de vestido comprido; alguns casais esforçavam-se por parecer próximos. No bar, quatro homens em pose relaxada o tipo de líderes que ela lia nas biografias.

Duarte estava à distância, trocando palavras com dois senhores de blazers claros. Ainda não a tinha visto.

Leonor pegou num copo de água. Encostou-se a uma coluna. Observava.

Ele parecia seguro. E era, admitia ela. Sabia gesticular, rir nos momentos certos, escutar com a cara certa. Tinha sido ela, em parte, que lho ensinara, em vésperas de reuniões importantes.

O olhar dele varreu a sala e voltou aos interlocutores até se deter nela. Então, foi apenas um segundo, um olhar que dizia raiva polida. O sorriso manteve-se, mas tudo nos olhos mudou.

Pediu licença e encaminhou-se para ela, rápido, quase sem olhar.

O que fazes aqui? sussurrou, tenso. Eu disse-te.

Vim, respondeu Leonor, baixo. Disseste que este não era lugar para mim. Decidi comprovar.

Leonor. Agora não é altura. Sai, por favor. Peço-te.

Já ouvi esse por favor muitas vezes. Costuma ser o prelúdio de um preciso que tu…. O que precisas esta noite, Duarte?

Preciso que não estragues tudo.

Ainda não estraguei nada, disse ela.

De repente, aproximou-se um senhor alto, grisalho, de fato escuro o doutor Vasconcelos. Leonor reconheceu-o da fotografia do relatório anual.

Doutor Duarte Costa, disse, apresente-me à sua esposa. Nunca lhe tive esse gosto.

Pausa. Duarte sorria.

Doutor Vasconcelos, esta é a Leonor, minha mulher.

Muito prazer, disse Vasconcelos, apertando-lhe a mão. Olhou-a com atenção. O Duarte disse-me que já trabalhou em análise.

Trabalhei, disse Leonor. E continuo.

Em que setor?

No mesmo do Duarte, respondeu. Estratégia, análise de mercado, modelagem.

Duarte pigarreou, pouco audível.

A Leonor ajuda-me por vezes, disse ele. Coisas pequenas.

Não tão pequenas, disse Leonor com um sorriso amável. Fui eu que escrevi a estratégia dos próximos cinco anos. Aquela que será apresentada hoje.

O doutor Vasconcelos mediu-a de novo, olhou Duarte, tornou à Leonor.

Certamente… interessante, disse. Falaremos depois.

Ausentou-se com um aceno.

Duarte virou-se para ela. Já não trazia o sorriso falso; estava furioso.

Percebes o que acabaste de fazer? murmurou, quase em silêncio.

Percebo.

Vai-te embora já. Não é brincadeira.

Fico para a apresentação, respondeu ela.

Ele afastou-se, quase sem olhar para trás.

Leonor ficou com um cartão de nome vazio na mão, guardou-o na mala. Aproximou-se de um grupo de mulheres, mulheres de diretores, olhavam-na com curiosidade mas sem hostilidade.

É dos quadros da TecnoImpulso? perguntou uma senhora de brincos pesados, voz firme.

Não, respondeu Leonor. Sou a esposa do Duarte Costa.

Ah, disse a senhora, mudando o olhar. Ele sempre dizia que a mulher dele… cuidava da casa.

Isso antes, disse Leonor. Agora vim arejar.

A mulher riu com gosto. Estendeu a mão:

Margarida. O meu marido é Diretor Financeiro.

Leonor.

Conversaram um pouco. A Margarida contava que fora bancária, mas depois dos filhos três, ao todo passaram-se quinze anos em casa. Às vezes penso onde está aquela mulher que lia balanços num relance, disse Margarida. Sem tristeza, só com ponderação.

Não desapareceu, respondeu Leonor.

Margarida fitou-a.

Acha mesmo?

Sei-o de certeza.

Começou a cerimónia. As mesas foram movidas, abriram uma pequena plataforma, e o ecrã surgiu. Leonor encontrou um lugar de onde via tudo, longe da área dos cônjuges, onde Duarte a destinaria se lhe fosse permitido.

O Diretor-Geral discursou os vinte anos da empresa, as dificuldades, a equipa. Depois anunciou a apresentação da estratégia quinquenal desenvolvida pelo Diretor de Estratégia, Duarte Costa.

Duarte subiu ao palco.

Parecia o executivo público perfeito fato, postura, sorriso. Leonor pensou: eis um homem que, em parte, ela própria moldou. A segurança, a capacidade de domínio, a clareza. Muito dela ali.

Começou a apresentação.

Os primeiros slides correram bem. Contexto do mercado, análise da concorrência. Era a parte que ele dominava a solo. A audiência atenta.

Quando abriu o ficheiro principal o da estratégia, com modelos e previsões , surge o pedido de senha no ecrã.

Primeiro um murmúrio. Duarte digitou algo. Senha inválida.

Mais uma vez, inválida de novo.

Sussurros, técnicos a correr. Leonor ficou quieta. Sabia a senha tinha-a posto ela.

Duarte perscrutou o público até encontrá-la. Ela viu. E soube que ele também percebeu.

Um técnico falava-lhe ao ouvido. Duarte assentiu. Pegou no microfone.

Pequena pausa técnica, anunciou com voz estável. Sabia dominar as emoções. Agradeço a compreensão.

Desceu do palco, foi direito a ela. Todos olhavam.

A senha, disse ele baixinho.

Ribeirinha, respondeu ela, no mesmo tom.

Ele fechou os olhos por um segundo. Abriu.

Fizeste isto de propósito.

Pus a senha num documento meu, disse Leonor. Não é proibido.

Leonor, não faças isto agora. Peço-te.

Por favor, devolveu ela. Mas desta vez é o por favor certo.

Levantou-se.

Todos fingiam não olhar, mas reparavam.

Leonor pegou o microfone da mão dele. Ele não a impediu.

Foi para o centro da sala.

Peço desculpa a todos pela pausa, disse ela, com voz firme. Surpreende-me até hoje não ter tremido. A senha do documento é o nome da aldeia onde cresci. Ribeirinha. Fui eu quem escreveu o documento, a estratégia dos próximos cinco anos. Passei meses a fazê-lo. Revelo a senha e continuo com a apresentação, se quiserem. Mas queria que soubessem de quem é o trabalho.

Silêncio absoluto. O ar condicionado fazia um zumbido discreto.

Leonor Costa, apresentou-se. Licenciada em Economia, quinze anos de experiência prática em análise estratégica, embora invisível nos últimos anos. A senha com maiúscula: Ribeirinha. Obrigada.

Pousou o microfone. Arrumou a mala. Olhou Duarte.

Vou-me embora, disse. Isto não é um teatro. Só não preciso mais de ser invisível.

Saiu, sem pressa; passo firme de quem sabe para onde vai.

Junto ao bengaleiro, esperou o casaco. O funcionário olhava-a, talvez com curiosidade. Vestiu-o e saiu.

Nevara outra vez. Grande, preguiçoso. Respirou fundo o ar frio e sentiu um misto estranho não triunfo, não alívio. Só uma calma grave, a nostalgia de olhar para onde esteve uma casa que desapareceu.

Nessa noite ligou à Catarina.

Atendeu ao terceiro toque. Já quase meia-noite.

Mãe? Alguma coisa aconteceu?

Não. Está tudo bem.

Estás a falar estranho.

Estou bem, Catarina. Só queria ouvir-te.

Correu mal com o pai?

Pausa.

Sim, filha. Mas é conversa longa. Quando vieres, conto-te. Queria só que soubesses que estou bem.

Tens a certeza?

Absoluta.

Catarina calou-se um pouco.

Mãe, queria dizer-te há muito tempo: eu vejo tudo o que fazes. Não sou criança. Vejo as noites que trabalhas. Via relatórios na mesa do pai e reconhecia o teu estilo. Achas que não reparava?

Leonor ficou calada por momentos.

Reparavas, disse por fim.

E quero que saibas: estou do teu lado. Sempre.

Apertou o telefone na mão. Lá fora, neve no alpendre.

Obrigada, filha. Vai dormir. Falamos depois.

Deitou-se sem esperar o Duarte.

Ele chegou quase às duas. Leonor ouviu-o no corredor, parando à porta do quarto e indo depois para a sala. Deitou-se no sofá, em silêncio.

De manhã, não trocaram palavra. Ele saiu cedo, ela ficou com o café, a pensar não nele, mas nos próximos passos.

As duas semanas seguintes foram pesadas, mas de esmorecimento, não de sofrimento. Como quem desempacota caixas após uma mudança, sem forças ainda para decidir o que fica e o que vai.

Duarte nunca mencionou a festa. Nem uma vez. Não pediu desculpa. Não quis saber como ela estava.

Leonor escreveu ao doutor Vasconcelos. Curto, dois parágrafos. Apresentou-se, explicou o contexto, anexou cópias de documentos com datas, provando ser a autora. Manifestou disponibilidade para reunião.

No dia seguinte, chegou resposta: Disponível para reunião na quarta, se lhe for conveniente.

Foi de verde, o mesmo vestido. O escritório era amplo, vista sobre o Tejo e a ponte. O próprio Vasconcelos abriu-lhe a porta.

Li o que me enviou, disse ele. E confirmei algumas coisas. De facto, é seu o trabalho.

Sim.

O Duarte está a par disto?

Não. E isto não é sobre ele. É sobre mim.

Ele olhou-a com atenção. Havia ali cansaço, mas sobretudo interesse.

Tem razão, disse. É sobre si. Conte-me os seus planos.

Ela contou.

E foi contando várias vezes depois. Durante meses, multiplicaram-se reuniões. Leonor reaprendeu a falar de si, a não se esconder atrás de apenas ajudei, tenho pouca experiência. Era hábito difícil de largar. Forçou-se a mudar.

O divórcio veio a meio ano dali. Sem tribunal, sem escândalos. Ele propôs o apartamento. Ela aceitou, pediu também a parte dela nas poupanças. Com apoio de uma advogada, indicação da Catarina, mulher jovem e hábil, conseguiu tudo. Duarte aceitou percebeu que não adiantava recusar.

Um ano depois, Leonor abriu o próprio gabinete de consultoria. Pequeno: duas pessoas além dela. Consultoria estratégica para empresas médias. Aceitava poucos projetos preferia qualidade a quantidade. O primeiro cliente foi uma fábrica dos arredores, queria análise de mercado e plano trienal. Trabalhou três meses, saiu satisfeita, renovaram o contrato.

Depois veio o segundo, o terceiro.

O doutor Vasconcelos recomendou-a a dois conhecidos. Margarida, a do Panorâmico, ligou-lhe oito meses após Nunca esqueci aquela conversa, sobre a mulher que lia balanços. Quero tentar regressar. Preciso de ajuda para começar.

Não faço consultoria de carreira, disse Leonor. Só empresarial.

E se o negócio sou eu mesma? respondeu Margarida.

Nesse caso, venha na quarta.

O gabinete de Leonor era modesto. Duas secretárias, estante, sofá perto da janela, com dois livros e um xale que a tia lhe enviara do Norte. Na parede, um desenho: paisagem de rio, semelhante à Ribeirinha nas manhãs de bruma.

Não tinha diplomas emoldurados pareceria justificação.

Um dia, Duarte telefonou. Era março, quase um ano depois da noite do Panorâmico. Leonor estava a rever um modelo financeiro.

Leonor, disse ele, voz diferente, sem arrogância. Precisava de falar contigo.

Diz.

Tenho um novo projeto. Complicado. Preciso de alguém com experiência pensei que talvez

Não, cortou ela.

Não ouves nem o resto?

Entendo tudo, Duarte. Não.

Pago bem. Contrato oficial. Eu sei que

Duarte. Leonor endireitou-se. Eu só trabalho com quem confio. Não é birra. É questão de método.

Silêncio.

Percebo, disse ele por fim.

E a Catarina?

Passou todas as cadeiras. Está ótima.

Sei. Já me disse. Fico contente.

Sim… Fico também.

Nova pausa, mais leve.

Estás com bom aspeto, disse ele. Vi-te no Chiado semana passada. Nem notaste.

Estaria concentrada.

Talvez.

Calou-se de novo.

Queria só dizer que percebo que estive mal. Não foi só naquela noite. Em tudo. Sei isso agora.

Leonor olhava a paisagem na parede, o rio sinuoso, as margens tapadas de verde.

Ainda bem que sabes, disse só. É importante.

E só isso tens para dizer?

Sim. Só.

Desligou. Esperou deixar passar aquele nó quente que apareceu no peito. Voltou ao modelo financeiro.

Havia ainda uma coisa em que pensava, de vez em quando.

Na Ribeirinha.

Por vezes, insónia adentro, abria mapas e procurava. Só um retângulo de betão, o mesmo terreno plano de sempre. Nada a lembrar. Só procurando em cartas antigas se podia identificar o traço do Rio da Luz, imaginar onde ficavam as casas.

Pensava como certas coisas desaparecem não por fraqueza, mas porque alguém decidiu que eram dispensáveis. Aldeias. Pessoas. Anos.

Mas enquanto te lembrares de como cheirava o feno em julho ou as manhãs ao pé do rio, isso continua vivo algures talvez no nome de uma pasta protegida.

Ribeirinha, com maiúscula.

Em abril apareceu um novo cliente. Rapaz de trinta e poucos, gestor de uma transportadora. Nervoso, olhar acelerado. Deitou papéis na mesa e disparou recados sobre concorrência, investidores, a necessidade de crescimento. Leonor ouviu. Pediu-lhe que parasse.

Mostre-me esta secção, por favor disse. São os seus ativos correntes?

Sim.

Contou mal a depreciação. Perde aqui uns doze por cento do valor real.

Ele ficou boquiaberto.

Como conseguiu ver tão depressa?

Olho para números todos os dias, respondeu ela. É hábito de anos.

Ele sorriu, pela primeira vez.

Muito bem. Estou a ouvir.

Leonor pegou no lápis.

Então, comecemos do início.

Lá fora era abril, dos dias finalmente amenos. Da janela da sala via três bétulas, ainda nuas mas já com rebentos prestes a abrir. Mais uma semana, duas, e o ar da manhã traria aquele perfume discreto que só existe no arranque da primavera cheiro de novidade ainda por começar.

Leonor fitava os papéis. Ao lado, o café arrefecia. Ouviam-se passos no corredor, a assistente falava baixo ao telefone. Um dia comum. Trabalho comum.

E era ali a verdade.

Não naquela noite, não debaixo dos candelabros, nem na palavra Ribeirinha no ecrã. Tudo isso foi importante, para mover o mundo um nadinha. Mas a realidade era este quarto, a estante, o chale na poltrona, o lápis na mão, o café já frio, e o cliente a dizer estou a ouvir.

Vinte anos. Às vezes Leonor fazia contas. Sem mágoa, só balanço. Vinte anos é uma vida. Uma vida desperdiçada a meio. Mas agora estava ali. De lápis. Com números. Com uma manhã tranquila de abril.

Os anos perdidos não regressam. Mas os vinte próximos, sejam muitos ou poucos, seriam diferentes.

Muito bem, disse Leonor, inclinando-se para o dossier. Vamos começar pelos ativos.

***

Alguns meses depois, Catarina veio passar férias. À noite, na cozinha, bebiam chá. Catarina olhava a mãe com um ar sério como quem quer perguntar, mas não sabe como.

Mãe, disse ao fim de um tempo. És feliz?

Leonor pensou, de verdade.

Não sei se feliz é a palavra certa. Mas respeito-me. Isso vale mais.

Catarina assentiu devagar, segurando a chávena com as duas mãos.

Acho que isso é felicidade. Só parece diferente do que mostram nos filmes.

É, concordou Leonor. Diferente.

Lá fora, já era noite, a cidade zumbia baixinho. Na chávena de Catarina, o chá de hortelã arrefecia e o seu aroma fresco enchia a cozinha. Bem longe dali, onde fora Ribeirinha, seria também noite agora; silêncio de terra e céu apenas.

Leonor serviu-se de água quente. Aqueceu as mãos na porcelana.

Conta-me da faculdade, pediu ela. Como vai a disciplina de Economia?

É puxada, admitiu Catarina. O professor mandou analisar um caso. Estou encravada.

Mostra lá, sorriu Leonor.

Catarina puxou da mochila, abriu o portátil, colocou-o na mesa entre ambas.

Vê aqui.

Leonor olhou o ecrã, pegou no lápis sempre à mão , e aproximou-se da filha.

Aqui, repara bemPor instantes, ficaram ambas a olhar para o ecrã, cadernos e papéis lado a lado, mãe e filha sob a luz amarela da cozinha. Leonor guiou o olhar de Catarina sobre tabelas, gráficos, frases densas de economia.

Está aqui, disse, apontando devagar, vês esta variável? Está dependente destas duas, mas há uma ligação que o case não mostra. Procura o que falta. A explicação está sempre no detalhe mais invisível mas real.

Catarina acenou, a sorrir, os cabelos caindo-lhe sobre os olhos. O mundo, ali concentrado em apontamentos e chá.

A noite seguia silenciosa. Da rua vinham vozes breves, depois só o som dos carros distantes na cidade adormecida.

Leonor sentiu uma leve alegria, fina mas verdadeira, subindo-lhe ao peito. Não era felicidade de livro ou de história vencedora. Era raiz funda, saber-se inteira, capaz, útil, de olhos abertos para o momento.

Lembrou-se do pai, do conselho antigo: o que é teu, é sempre teu.

Ao lado, Catarina corrigia o exercício, inevitavelmente vestindo um pouco da força da mãe.

Quando terminou, olhou para Leonor, olhos brilhantes.

Já percebi. Era isso mesmo.

Leonor sorriu, silenciosa. Lá fora, Lisboa era só janelas e promessas. O aroma de hortelã ficou no ar.

Agora sabia a parte mais essencial de si nunca fora invisível, nem se perdera com o tempo. Estava ali, nos gestos, nas palavras, nos vínculos que criou e nos caminhos que escolheu, à sua maneira.

E, enquanto Catarina fechava o portátil e lançava um abraço leve, quase tímido, Leonor sentiu, enfim, que nunca mais precisaria de senha para ser dona do próprio nome.

Ficaram assim por um instante, mãe e filha, no centro da madrugada, aquecidas pelo conforto simples de saberem quem são e de, juntas, poderem tudo recomeçar.

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