Autor Desconhecido

Tu não vais, disse Duarte, sem olhar para ela. Estava de pé diante do espelho no hall de entrada, ajeitando a gravata. Era nova, azul-escura, de seda italiana, tecido que ela dificilmente saberia nomear. Já decidi tudo.

Como assim, não vou? Vera saiu da cozinha com um pano de prato nas mãos. Tinha acabado de lavar a loiça do jantar. Duarte, é o aniversário da empresa. Vinte anos. Estou ao teu lado há vinte anos.

É precisamente por isso que não deves ir, disse ele num tom calmo e profissional, parecido com o que usava nas reuniões. Ela já ouvira aquele timbre gravado, quando ele lhe pedia opinião sobre o seu desempenho. Vão lá estar pessoas importantes, Vera. Investidores. Parceiros de Lisboa. Percebes o que quero dizer?

Não, respondeu. Explica.

Ele virou-se finalmente na sua direção, com um olhar resignado, como quem vê um móvel antigo ou uma toalha de mesa já gasta.

Não tens lugar nesse ambiente. Haverá dress code, conversas, contexto que não conseguirias acompanhar. Não quero que fiques desconfortável.

Vera pousou o pano sobre a cómoda, lentamente.

Não queres que eu fique desconfortável, repetiu.

Claro.

Ou não queres que tu próprio fiques desconfortável?

Ele virou-se para o espelho.

Vera, não comeces. O carro chega dentro de uma hora.

Ela ficou a olhar para as costas dele. Para o blazer caro, aquele que ela própria ajudou a escolher há três meses. Foi ela que o encontrou no catálogo, sugeriu o código, explicou porque aquela cor valorizava mais o corpo dele do que a que ele tinha em mente. Duarte vestiu o certo e ficou satisfeito.

Está bem, disse Vera.

Voltou para a cozinha. Pôs a chaleira ao lume, sentou-se na cadeira junto à janela e ficou a olhar as luzes da cidade. Novembro cobria os parapeitos com chuva e o reflexo das luzes desfocava-se em manchas amareladas.

Vinte minutos depois ouviu a porta de entrada bater.

Vera continuou ali sentada muito tempo. A água da chaleira já fervida e arrefecida. Nem sequer bebeu chá.

Pensou no ficheiro a que tinha posto palavra-passe há três semanas. Chamava-se Estratégia de Crescimento. LusoTec. 20252030. Trabalhou nele quatro meses. Noites adentro, enquanto Duarte dormia. Primeiro a coletar dados do setor, depois modelos, depois a reescrever, sempre aprimorando. Ele passava-lhe excertos, rascunhos de ideias seus, às vezes só frases soltas num bloco de notas, e ela transformava aquilo num documento que deixava os analistas impressionados.

A palavra-passe foi posta há três semanas. Exatamente no dia em que ele lhe trouxe um vestido.

O vestido era cinzento. Algodão, gola subida, mangas compridas. Comprei-te isto, é confortável para estar em casa, disse ele. Veio num saco normal do centro comercial. Sem caixa, sem laço. Apenas o saco.

Nesse mesmo dia, Vera viu o talão do fato dele: custara-lhe quase tanto como o seu ordenado mensal de assistente administrativa. Cargo discreto, salário modesto, como haviam combinado há muito tempo.

Levantou-se, encheu um copo de água fria e bebeu. Depois abriu o portátil.

A palavra-passe era Valeverde, o nome da aldeia que já não existia.

Valeverde ficava a cento e sessenta quilómetros da cidade, numa curva do rio que ali apelidavam de Seixeiro, embora nas cartas aparecesse outro nome. Duas centenas de casas, clube onde as tábuas rangiam, uma escola para cento e vinte crianças (no fim só tinha quarenta), loja da tia Anabela, que sabia os nomes de todos e ainda os dos pais. Tudo decorria devagar. No verão cheirava a feno e resina, no inverno a fumo e pão quente.

Quando Vera tinha sete anos, caiu de uma macieira e partiu o braço. Foi Dona Cláudia que a levou ao posto médico, falando-lhe pelo caminho que as macieiras tinham de ser respeitadas, que são as mais antigas da terra e sabem coisas que nós ignoramos. Vera não percebeu na altura, mas nunca se esqueceu do tom afetuoso.

A aldeia foi demolida há sete anos. Um grupo industrial comprou os terrenos para expandir produção. Realojaram os moradores, pagaram indemnizações pelas casas, mudaram o cemitério. Cortaram as macieiras. Em dois anos já ali estava um armazém, muros de betão com arame farpado no topo.

A mãe de Vera ainda se foi antes de tudo isso. O pai mudou-se para casa da irmã noutro concelho e desapareceu três anos depois. Vera foi lá uma vez, já tudo tinha sido demolido. Ficou à porta do novo armazém muito tempo, sem conseguir reconhecer a velha rua. Tudo parecia raso e igual.

Nessa altura, Duarte disse-lhe: Estás a dramatizar demasiado. A aldeia teria morrido sozinha. Assim sempre se aproveitou para alguma coisa.

Foi esse o momento que depois lembrava, perguntando-se: porque não parou logo ali?

Mas não parou. Tinham uma filha, Catarina, então com dezasseis. Tinham comprado a casa no centro há três anos. Achava que as pessoas são diferentes, mas compreendê-las começa por conhecer-lhes a história. Duarte crescera numa família onde o pai era professor de português e a mãe cantava no grupo da terra muita cultura, poucos recursos. Ele sempre vira na educação e nos contactos a única saída. Nunca aceitou a pobreza. Vera compreendia. E desculpava.

Conheceram-se na universidade. Ela tinha vinte e dois, ele vinte e cinco. Ele cursava o último ano, às voltas com o trabalho final, perdido nos cálculos. Uma amiga comum trouxe Vera como a inteligência ideal para desenrascar. Vera desenrascou. Duarte era atraente, eloquente, olhava-a com atenção. Vera pensava: Aqui está alguém que realmente me ouve.

Depois percebeu que ele só ouvia quando queria obter algo. Mas isto foi-se revelando devagar. Ao longo de vinte anos.

Os primeiros tempos correram bem. Ambos trabalhavam, Duarte subia devagar mas firme. Vera entrou numa pequena auditora, era bem paga, reconhecida. Catarina nasceu. Depois arranjaram para Duarte o primeiro cargo sério num grande grupo e apareceu a necessidade de viajar, trabalhar noites, o infantário fechava cedo, as doenças da filha sucediam-se e alguém tinha de ficar em casa.

Percebes que é agora ou nunca. Se perder agora, nunca mais recupero. É só uma fase. Quando estivermos melhor, disse ele.

Ela passou a meio tempo. Depois saiu, quando Catarina adoeceu a sério e foi preciso andar meses em consultas. Quando a filha melhorou, Vera tentou voltar mas o mundo tinha mudado, o lugar estava ocupado e os empregadores olhavam para ela sem entusiasmo. Duarte já ganhava bem. Não te preocupes, dedica-te à casa, sugeriu ele.

Vera dedicou-se. Mas não só à casa: envolveu-se no trabalho dele. Corrigia os seus documentos, inicialmente pedindo autorização, depois, simplesmente, fazia. Ele aceitou isso como normalidade.

Quando ele chegou a diretor de estratégia da LusoTec, ela já tinha escrito metade do que ele assinava.

Nunca protestou. Pelo menos em voz alta. Achava: somos família, o sucesso dele é meu também. O importante é o resultado, não o nome na capa. Pensava tantas coisas que lhe davam forças para continuar.

Mas três semanas atrás, ele trouxe-lhe o tal vestido cinzento.

E sentiu-se diferente. Não foi brusco. Antes, como quando se anda num terreno mole e de repente o pé enterra mais do que devia.

Na manhã seguinte ao aniversário da empresa, Duarte voltou tarde. Vera ouviu-o descalçar-se no corredor, com cuidado para não a acordar. Mas não dormia. Ficara deitada a olhar o teto, os candeeiros da rua desenhando sombras compridas.

Ao pequeno-almoço, ele estava animado.

Correu bem, disse a barrar pão com manteiga. O diretor-geral ficou satisfeito. Os investidores de Lisboa gostaram do projeto. Em janeiro vamos ter reunião.

Fico contente por ti, disse Vera. E reparou que dissera contente no masculino, de tão habituada a comunicar depressa.

Duarte não notou, ou fingiu não notar.

Mas houve um momento estranho. O senhor Álvaro Martins perguntou por ti. Disse que estavas doente.

Álvaro Martins, repetiu Vera. Era o presidente do conselho de administração, que conhecia dos relatórios. Pessoa de inteligência sólida. E ele acreditou?

Claro. Porque não havia de acreditar?

Vera completou o café na sua chávena. Ficou em silêncio.

Duarte, há uma coisa que quero que percebas.

Logo de manhã? olhou para o relógio.

Sim, de manhã. Quero que saibas que não aceito mais trabalhar no anonimato. Quero que o meu nome apareça nos documentos que faço.

Ele pousou a faca, surpreendido. No rosto, um misto de troça e irritação, como se aquilo fosse descabido.

Vera, estás a falar a sério?

Estou.

Queres que se saiba que colaboras nos meus documentos de trabalho. Num local onde sou diretor de estratégia, onde ninguém te conhece, nunca lá trabalhaste?

Onde ninguém sabe que os documentos são meus. Sim, é isso que quero.

Ele levantou-se, levou a chávena à banca. Ficou de costas. Virou-se.

Não dramatizes. Ajudas como qualquer mulher ajuda o marido. Isso é família.

Família é família, quando ambos contam, disse Vera. Quando um é invisível, chama-se outra coisa.

Estás a exagerar. Tens tudo o que precisas. Casa, carro, cartão. A Catarina estuda sem pagar propinas. Sentes falta de algo?

Ficou a olhar para ele muito tempo. Finalmente disse:

Falta-me que me considerem uma pessoa. Não uma peça da mobília.

Suspirou, como quem se irrita com mais uma explicação inútil.

Estou atrasado. Falamos à noite.

À noite, chegou cansado e fechado em si. O tema não voltou. Nem nesse, nem nos dias seguintes. Ele sabia como fugir aos confrontos. Também nisso tinha aprendido. Ou era simplesmente parte dele.

Vera continuou a trabalhar na estratégia. Não sabia deixar algo a meio. O desafio compensava a mágoa. Já sabia o que faria. Faltava definir quando.

A ideia veio-lhe certa noite. Sozinha na cozinha, candeeiro aceso, neve lá fora. Revendo a secção de diversificação de ativos no portátil, corrigiu três frases. Depois abriu as propriedades do documento: Autor: Duarte, pois fora criado no portátil do marido, deixado em casa durante as deslocações.

Fechou o portátil. Aproximou-se da janela. Flocos grandes, lentos, luzes da cidade distantes como estrelas.

Pensou em Valeverde. Na infância, quando o pai a levava à pesca no rio. Silêncios cheios de vida: o vento nos caniços, patos atrás da curva, cheiro da água. O pai falava pouco, mas uma vez disse: Lembra-te, Vera, o que é teu será sempre teu. Mesmo que te tirem, permanece teu.

Pensou que ele referia-se à cana de pesca, certa vez levada por um vizinho. Agora sabia: falava de algo mais fundo.

A festa do vigésimo aniversário da LusoTec foi numa sexta-feira, no Estoril Palace, salão luxuoso no centro de Lisboa. Vera conhecia o local, porque ela própria o sugerira, fez a análise comparativa e entregou a Duarte, que apresentou a tabela como ideia sua em reunião.

Três dias antes, Duarte trouxe-lhe uma lista do menu.

Quero o teu conselho nos pratos. Pouco para vegetarianos, devíamos acrescentar algo.

Duarte disse Vera. Vens pedir-me opinião dos pratos, mas nem queres que eu esteja presente.

São coisas diferentes.

Sim. Bem diferentes.

Pegou na folha, acrescentou três sugestões, devolveu-lhe.

Ele levou, sem sequer agradecer.

Sexta de manhã, andava nervoso. Conferiu duas vezes a gravata, falou dos botões de punho, queria saber se estava bem.

Estás, disse Vera.

Tens a certeza?

Tenho.

Saiu às quatro, para preparar a sala e verificar equipamento. Antes de bater a porta: Não esperes por mim. Venho tarde.

Vera tomou banho. Penteou-se. Não vestiu o vestido cinzento, mas um verde comprado por ela, há anos, formato simples mas certeiro, que lhe realçava confiança. Sapatos de tacão médio. Brincos que Catarina lhe trouxera do Porto. Um pouco de perfume Lisboa, do pequeno frasco que estimava.

Olhou-se no espelho. Pensou em Dona Cláudia e nas macieiras. Que a terra sabe mais do que imaginamos.

Pegou na mala e saiu.

O Estoril Palace era tudo o que imaginava: tetos altos com pendentes de cristal, lançando pequenos arco-íris nas paredes. Mesas de linho branco, três copos por lugar. Música ao vivo, jazz discreto. O aroma misturado dos perfumes caros.

Entregou o casaco no bengaleiro. Espreitou.

Já havia cerca de oitenta pessoas. Homens de fato escuro, senhoras de vestidos compridos, alguns casais a fingir que se conheciam bem. No bar estavam quatro, postura de quem manda ali. Vera conhecia-os bem pelos relatórios, pelos currículos.

Duarte conversava ao fundo, com dois homens de blazer claro. Ainda não a tinha visto.

Vera pegou numa água, encostou-se a uma coluna e observou.

Ele parecia seguro sabia-o fazer bem, mérito em parte dela. Gestos na medida certa, riso oportuno, escutava com a expressão perfeita. Ela tinha-lhe ensinado como portar-se, o que dizer, o que evitar.

O olhar dele percorreu a sala, até que a viu. Parou.

Face dele assumiu o que ela chamaria de fúria educada. Sorriso inalterado, mas olhos diferentes.

Desculpou-se aos interlocutores e avançou, apressado.

O que estás aqui a fazer? disse baixo. Eu disse-te…

Vim, respondeu Vera, também baixo. Disseste que não era lugar para mim. Quis ver por mim.

Vera. Agora não. Vai embora, por favor. Peço-te.

Já ouvi muitos por favor teus. Normalmente seguem-se de preciso que tu…. O que precisas agora, Duarte?

Que não estragues esta noite.

Ainda não está estragada, disse ela.

Chegou então um homem alto, idoso, de fato escuro: Álvaro Martins. Vera reconheceu-o do relatório anual.

Dr. Duarte Mendes, disse ele, apresente-me a sua esposa. Que prazer.

Pausa breve. Duarte sorriu.

Doutor Álvaro, esta é a Vera, minha mulher.

Muito prazer, disse ele. Apertou-lhe a mão, olhou-a com atenção. Disseram-me que trabalhou em análise.

Trabalhei, disse Vera. E ainda trabalho.

Em que área?

Na mesma do Duarte, disse ela. Estratégia. Análise de mercados. Dados.

Duarte tossiu, subtilmente.

Vera ajuda-me, explicou. Coisas pequenas.

Não tão pequenas, disse Vera, simpática. Fui eu que escrevi a estratégia dos próximos cinco anos. Aquela que vai ser apresentada hoje.

O presidente do conselho olhou-a, depois a Duarte, depois de novo a ela.

Interessante, disse. Muito interessante. Falaremos então.

Retirou-se delicadamente.

Duarte virou-se para ela. O olhar, agora só furioso.

Sabes o que acabaste de fazer? disse num sussurro.

Sei, respondeu Vera.

Vai-te já embora. É sério.

Fico para a apresentação, disse pausadamente.

Ele afastou-se, sem olhar para trás.

Vera pegou num cartão de nome em branco da mesa e guardou na mala. Aproximou-se de um grupo de senhoras, mulheres de outros diretores. Olhavam-na sem calor, mas sem hostilidade.

É da LusoTec? perguntou uma robusta, argolas douradas.

Não, disse Vera. Sou mulher do Duarte Mendes.

Ah, respondeu a outra, interesse transformado. Ele costuma dizer que a esposa… que a senhora se dedica à casa.

Antes dedicava, disse Vera. Agora prefiro passear.

A senhora riu-se, natural. Estendeu-lhe a mão.

Emília. O meu é o financeiro.

Vera.

Ficaram a conversar. Vera soube que Emília trabalhava num banco, saiu quando nasceu o primeiro filho, depois veio o segundo, o terceiro, e passaram quinze anos. Às vezes pergunto-me o que aconteceu à mulher que lia balanços em trinta segundos, disse Emília. Mas sem mágoa, só como constatação.

Ela ainda aí está, disse Vera.

Emília olhou-a.

Acha mesmo?

Sei.

Começava a cerimónia. Mesas afastadas, palco pequeno, tela montada. Vera sentou-se discretamente, de onde via bem, longe do local reservado para esposas dos diretores, se ele a tivesse levado.

O diretor-geral falou sobre as duas décadas, progresso, equipa. Anunciou que Duarte Mendes apresentaria a estratégia para o futuro.

Duarte subiu ao palco.

Estava perfeito: fato, postura, sorriso. Vera olhou e pensou: parte desta confiança dei-lhe eu. Com paciência, ao longo de anos.

Começou a apresentação.

Três slides sobre contexto de mercado, análise, tendências gerais matéria que ele sabia de cor. O público atento.

Depois clicou para o ficheiro principal. O que continha a estratégia detalhada, projeções financeiras.

No ecrã: janela de palavra-passe.

Silêncio breve, pesado. Duarte digitou algo. Password errada.

Tentou de novo. Password errada.

Pequeno zum-zum na sala. Técnico subiu ao palco.

Vera sabia o código. Ela própria o pôs.

Duarte olhou a plateia até encontrar Vera. Reparou de imediato.

O técnico falou-lhe baixo. Duarte assentiu. Pegou no microfone.

Só um momento, questão técnica, disse sem alterar a voz. Obrigado pela compreensão.

Desceu do palco. Caminhou até ela, toda a sala sentia.

A palavra-passe, disse quase inaudível.

Valeverde, disse Vera. Assim mesmo.

Ele fechou os olhos um instante.

Fizeste isto de propósito.

Pus a minha palavra-passe no meu documento, respondeu. Não é proibido.

Vera, agora não.

Por favor, disse ela. Mas desta vez, um por favor genuíno.

Levantou-se.

O público fingia conversar, mas olhava-os.

Vera pegou no microfone da mão dele e avançou para o centro.

Peço desculpa pela pausa técnica, disse, e surpreendeu-se a si mesma com a firmeza da voz. A palavra-passe é o nome da aldeia onde cresci, hoje já desaparecida. Era Valeverde. Fui eu que escrevi este documento. Quatro meses de trabalho. Só avançamos quando o meu nome for colocado na página de rosto.

Silêncio absoluto. Ouvia-se o ar condicionado.

Chamo-me Vera Mendes, prosseguiu. Licenciada em Economia, quinze anos de experiência em análise estratégica, mesmo que esse currículo tenha sido invisível. A palavra-passe é Valeverde, com maiúscula. Obrigada.

Pousou o microfone, pegou na mala. Olhou para Duarte.

Vou-me embora, disse. Não é um espetáculo. Simplesmente já não aceito ser invisível.

Andou até à porta, sem pressa mas decidida, como quem sabe para onde vai.

No bengaleiro, aguardou o casaco. O rapaz olhou-a curioso ou talvez lhe parecesse. Vestiu, saiu.

A neve voltava a cair, lenta, grossa. Inspirou o ar frio e sentiu algo inesperado. Não triunfo. Não alívio. Algo tranquilo, um pouco triste, como quem olha para o sítio onde já não existe uma casa.

Nessa noite, telefonou à Catarina.

Respondeu ao terceiro toque, já quase meia-noite.

Mãe? Está tudo bem?

Está, filha. Só queria ouvir a tua voz.

Pareces estranha.

Só te queria ouvir, repetiu Vera.

Mãe, está tudo bem contigo e com o pai?

Pausa.

Não. Não está. Mas depois falo contigo com calma. Só quero que saibas que comigo está bem.

Tens a certeza?

Tenho. Absoluta.

Catarina ficou em silêncio, depois disse:

Mãe, já há muito tempo que reparo em ti. Vejo o que fazes. Não sou criança. Vi relatórios na mesa do pai que reconhecia como teus. Achaste que eu não percebia?

Vera demorou uns segundos a responder.

Percebias, sim.

Queria que soubesses: estou do teu lado. Sempre.

Vera apertou o telemóvel. Lá fora a neve caía.

Obrigada, querida. Vai descansar. Falamos depois.

Deitou-se sem esperar por Duarte.

Ele chegou pelas duas da manhã. Passos no corredor, hesitação junto à porta do quarto, depois sala, sofá, sem palavra.

De manhã não houve conversa. Ele saiu cedo. Ela ficou a beber café e a pensar. Não nele. No que teria de fazer a seguir.

As semanas seguintes foram duras, mas não no sentido tradicional. Não lágrimas, nem discussões. Mais como organizar caixas depois de mudar de casa. Falta força, mas a vida segue.

Duarte não mencionou a noite. Nunca. Nem pediu desculpa, nem perguntou. Isso dizia tudo.

Vera escreveu a Álvaro Martins. Duas frases. Identificou-se, contou a situação, anexou provas de autoria. Disponibilizou-se para reunir.

Resposta em um dia: Ficarei satisfeito em recebê-la quarta-feira, se lhe convier.

Na reunião, Vera vestiu o mesmo vestido verde. O escritório do presidente via-se o Tejo e a ponte. Recebeu-a pessoalmente.

Li com atenção o que me enviou, disse ele. Verifiquei. É, de facto, seu.

Sim.

O Duarte sabe deste contacto?

Não. E não é sobre ele. É sobre mim.

Olhou-a, sereno, cansado, como quem já viu muito.

Tem razão. Fale-me então dos seus planos.

E Vera falou. E depois ainda falou mais. Foram meses de reuniões, apresentações, provas. Não foi fácil: ser invisível tanto tempo deixa marcas, não no conhecimento, mas na forma de falar de si própria. Apanhava-se a dizer dei um jeito, só ajudei um pouco. Antigo hábito, que forçou a mudar.

O divórcio foi pacífico, sem tribunal, sem escândalo. Duarte ofereceu a casa. Aceitou, mas exigiu parte do património. Ajudou-lhe uma advogada, Maria do Carmo, jovem contratada por Catarina. Duarte aceitou. Sabia que era melhor assim.

Um ano depois, Vera abriu o próprio gabinete de consultoria. Pequeno: duas colaboradoras e ela. Consultoria estratégica para empresas médias. Pegava só projetos que podia acompanhar bem. O primeiro contrato era modesto, uma fábrica nos arredores; fizera análise de mercado e plano a três anos. Ficaram contentes, prolongaram o contrato.

Depois veio outro. E outro.

Álvaro Martins recomendou-lhe duas empresas amigas. Emília a do Estoril Palace ligou-lhe ao fim de oito meses. Pensou no que Vera lhe dissera sobre a tal mulher que sabia ler balanços e resolveu tentar regressar. Pediu ajuda.

Não faço coaching de carreira, riu-se Vera. Trabalho com empresas.

E se a empresa for eu? brincou Emília.

Vera considerou.

Vem cá na quarta-feira.

O escritório era pequeno. Duas secretárias, estante, sofá com manta de lã, presente da tia de Vila Real. Nada em excesso. Uma gravura: paisagem ribeirinha, impressa por ela, parecida com o rio da infância.

Não pendurava diplomas. Era como quem pede desculpa.

Duarte um dia telefonou. Era março, quase um ano depois da noite do Estoril Palace. Vera estava a rever um modelo financeiro.

Vera, ouviu. A voz, diferente: sem arrogância, quase incerta. Queria falar contigo.

Fala.

Estou com um novo projeto. Difícil. Preciso de alguém bom em estratégia. Pensei que…

Não, disse Vera.

Ainda não disse…

Não preciso ouvir mais. Não.

Pagava bem. Contrato formal. Sei que antes…

Duarte, sou direta: não trabalho com quem não confio. Regra base. Não é birra. Torna tudo mais fácil.

Pausa longa.

Percebo, admitiu enfim.

E a Catarina?

Terminou o semestre. Correu bem.

Já sabia. Disse-me. Fico feliz.

Pois, também eu.

Nova pausa, agora suave.

Vais bem, disse ele. Vi-te no centro, semana passada. Nem notaste.

Se calhar ia focada.

Sim. Provavelmente.

Silêncio.

Queria dizer que percebo que estive mal. Não foi só naquela noite. No geral. Agora vejo.

Vera olhou a gravura do rio na parede. O recorte dágua como o Seixeiro em Valeverde.

Que bom que percebes, disse. Era importante.

Só isso?

Só.

Desligou. Sentiu-se por dentro cheia de calor e nervos ao mesmo tempo. Logo voltou aos números.

Havia algo que Vera pensava às vezes não muito sobre Valeverde.

Noites sem sono, abria o Google e via o local. Continuava lá o mesmo retângulo de betão. Nada que lembrasse. Só sabendo de cor se reconhecia o antigo curso do Seixeiro e a localização das casas.

Pensava que há coisas que desaparecem não por serem fracas, mas porque foram consideradas inúteis. Aldeias. Pessoas. Anos.

Mas, enquanto nos lembrarmos do cheiro a feno em julho e da manhã sobre o rio, isso está vivo. Dentro de nós. E pode ser a senha que guardamos num ficheiro importante.

Valeverde. Com maiúscula.

Em abril, apareceu um novo cliente. Jovem, uns trinta e cinco anos, dono de uma pequena empresa logística. Nervoso, olhar rápido. Espalhou pastas na mesa, começou logo a falar de concorrentes, investimentos, crescimento. Vera ouviu. Depois pediu calma.

Mostre-me esta parte, pediu. Os seus ativos atuais, certo?

Sim.

Contou mal a amortização. Perde aqui uns doze por cento reais.

Ele fitou-a.

Como percebeu tão rápido?

Vejo números há muitos anos, respondeu.

Ele calou-se, finalmente sorriu pela primeira vez.

Então diga.

Vera pegou num lápis.

Vamos começar do princípio.

Era abril, dia quente, os primeiros verdadeiros do ano. A janela do escritório dava para o pátio, onde três bétulas já tinham gomos quase a abrir. Daqui a pouco, vinham as folhas e o suave aroma que só a primavera traz. Aroma a algo novo, ainda por começar, mas já perto.

Vera olhou para os números do dossier. Ao lado, um café morno. Pela parede, a assistente Natália fazia uma chamada baixa. Alguém passava no corredor. Um dia comum. Trabalho comum.

E aí estava a verdade.

Não naquele evento, não nos lustres de cristal, não na palavra Valeverde projetada no ecrã. Tudo isso foi necessário, mas a verdade mora nesta sala, no café frio, no lápis nas mãos, no cliente à frente que disse estou a ouvir.

Vinte anos, contava às vezes. Não com mágoa, só contando. Vinte anos dá muito tempo. Quase metade da vida. Anos que já não voltam e que não deviam ter sido gastos assim.

Mas ali estava ela. Lápis na mão, folha à frente e a manhã de abril pela janela aberta.

Os anos perdidos não voltam. Mas os próximos vinte, sejam quantos forem, seriam dela, de verdade.

Então, disse Vera, inclinando-se sobre a pasta. Comecemos pelos ativos.

***

Alguns meses depois, Catarina veio para férias. Sentaram-se à mesa da cozinha, chá nas canecas. Catarina olhou para ela daqueles modos de quem quer perguntar, mas não sabe como.

Mãe, perguntou, por fim. Estás feliz?

Vera pensou, com honestidade e sem pressas.

Não sei se feliz é o termo. Mas respeito-me. Se calhar isso é mais importante.

Catarina assentiu. Pegou na chávena com ambas as mãos.

Acho que isso é felicidade. Só tem outro aspeto, não é como nos filmes.

Pois é, sorriu Vera. Não é.

Lá fora era noite e a cidade murmurava uns sons abafados e rotineiros. O chá de Catarina arrefecia, espalhava aroma de hortelã. Longe dali, onde antes era Valeverde, provavelmente também era noite tranquila. Sem luzes, sem gente. Só terra e céu.

Vera encheu a chávena de novo, aquecendo as mãos ao calor suave.

Conta-me da universidade, pediu. Como vais a Economia?

Tem sido difícil, admitiu Catarina. O professor pediu um caso prático. Estou bloqueada.

Mostra, pediu Vera.

Catarina puxou da mochila o portátil. Pousou-o aberto.

Olha aqui.

Vera espreitou o ecrã, pegou o lápis o mesmo de sempre e aproximou-se.

Olha, disse ela. Presta atenção aqui.

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