Assim nos conhecemos…

Pois foi assim que se conheceram…

– Rui, o que se passa contigo? perguntou Mafalda, já farta do silêncio ao fim de alguns minutos. Pareces outro. Estás branco feito cal. Está tudo bem?

– Sim, está tudo bem… respondeu Rui, esforçando-se por recuperar a compostura. Pousou o garfo e agarrou-se ao copo de sumo de maçã, tentando adiar mais um bocado a resposta.

*****

Rui parou em frente ao prédio, segurou a maçaneta da porta de ferro, já se preparava para entrar, mas por alguma razão que lhe escapava, parou.

Entrar era a última coisa que lhe apetecia.

Sabia que o esperavam, lembrava-se muito bem que prometera à Mafalda que ia jantar a casa dela, mas o nervoso miudinho era tanto que mal conseguia controlar-se.

E o pior de tudo: sentia-se um perfeito tótó. Um homem feito, e ali estava ele, a tremer como um miúdo chamado à lousa pela professora pela primeira vez.

Faltava tão pouco: abrir a porta, subir ao terceiro andar, tocar à porta do número 36…

Mas alguma coisa o travava.

Um medo sem nome prendia-lhe as pernas e braços, não o deixando acabar o que tinha começado.

Só conseguia pensar em virar-lhe as costas e pôr-se a andar. Para casa, para o outro lado da cidade, tanto faz o importante era fugir dali.

– Em que cabeça é que eu fui dizer que sim? resmungou baixinho, dando um passo atrás. Já sei que não vou passar na inspeção.

Deu mais uns passos para trás, ergueu a cabeça e olhou para a janela do terceiro andar, onde uma luz intensa brilhava.

Brilhava mesmo, como quem dizia: Rui, não te percas Estou aqui!

Como um farol dos grandes, para que se perca era impossível.

O percurso estava feito. Só faltava mesmo subir e tocar à porta mas faltava-lhe tudo.

O que o impedia de fugir dali? Talvez só o se lembrar do olhar da Mafalda caso ele agora desse meia volta e desaparecesse. Ela tinha-lhe pedido para aparecer. E ele tinha prometido.

*****

«Rui, olha que isto é sério… Não te assustes, está bem? avisou Mafalda na véspera. É que os meus pais querem conhecer-te.»

A Mafalda era a namorada dele.

Tinham jantado num café conversa vai, conversa vem, planos para o fim-de-semana pela milésima vez, até que ela o atira: os meus pais querem mesmo conhecer-te. Nem mastigar conseguiu acabar, tal foi o baque.

E pronto, nada de estranho nisso ao contrário, era o mais normalíssimo do mundo os pais da Mafalda quererem ver o candidato a genro, conhecer o futuro (quiçá!) membro da família. Se fosse ao contrário é que era de admirar.

Só que

Só que o Rui receava não lhes agradar. Não era só um medo ao acaso, havia boas razões para isso.

Veja-se: a mãe da Mafalda Dona Vitória Ferreira trabalhou toda a vida na Universidade de Lisboa, subiu desde professora até reitora, e agora ocupava um lugar de chefona no Ministério da Educação.

E o pai Sr. Vítor Campos também não era nenhum amador. Começou como engenheiro civil numa construtora, subiu a vice-diretor, e agora? Agora é dono de uma empresa de obras públicas e toma cafés com o presidente da câmara pessoa de peso, como se diz lá na terrinha.

A própria Mafalda, aos trinta e poucos, já liderava o departamento jurídico de um banco conhecido.

E Rui, aos 35?

Pois nada de mais. Administrador de sistemas informáticos sem curso superior. Pagavam razoavelmente, mas a carreira estava num beco.

E então, a sentar-se à mesa daquela família? O que ia dizer? Onde é que ia enfiar os olhos?

Deve perguntar-se como é que ele conheceu a Mafalda. Fácil: destino (ou se calhar, graça do São António). Nesse dia, Rui saiu para o Jardim da Estrela. Mafalda também, mas ela levava duas amigas. As amigas foram buscar gelados e Mafalda ficou a guardar o banco e a ligar à mãe.

Na distração do telefonema, não viu que vinha um tipo maluco de trotinete, completamente ao lado.

E foi Rui que teve reflexos de super-herói: puxou Mafalda pela manga do casaco e ela escapou por milagre ao acidente.

«Mas o que é que você está a fazer?!» indignou-se logo Mafalda.

Bastou um segundo para ver cair o maluco da trotinete na lata do lixo: percebeu logo. E olhar para o Rui passou a ser muito diferente.

Pronto, assim se conheceram.

Enquanto as amigas ainda pediam o cornetto de nata, Mafalda e Rui meteram conversa, trocaram números, combinaram ver-se, e assim já lá iam uns seis meses de namoro.

Tudo isto Rui recordou, ainda a digerir o convite de Mafalda ao jantar do dia seguinte.

O receio era grande. Temia que os pais dela saltassem logo para a conclusão errada: que estava com a filha por interesse. Já lhe tinham feito uma dessas, noutro namoro, e perdera uma rapariga que gostava mesmo. Não queria que aquilo se repetisse.

– Rui, estás bem? Mafalda interrompeu-lhe os pensamentos. Ficaste branco. Que se passa?

– Sim, está tudo óptimo lá respondeu Rui, forçando um sorriso. Pousou o garfo e molhou os lábios no sumo, ganhando mais dez segundos até encarar o tema cara-a-cara.

– Então? Amanhã apareces lá em casa?

– Desculpa? Onde?

– Ora, a casa dos meus pais, Rui! sorriu a Mafalda. A minha mãe vai fazer bacalhau à Brás e o meu pai traz um vinho do Dão que só abre para visitas especiais. Só preciso do teu sim. Vais, não vais?

– Não sei se é boa ideia… hesitou Rui. Acho que os teus pais não vão aprovar…

– Porquê?

– Porque sou um tipo vulgar, sem uma licenciatura. Só sei instalar Windows, consertar impressoras, e restaurar ficheiros perdidos… Eles devem preferir género CEO de empresa ou filho de ministro. Ou, para não exagerar, um jovem político promissor. Eu… sou só um informático. Onde é que posso agradar aos teus pais?

– Oh Rui, não sejas parvo… Mafalda entrelaçou-lhe os dedos. Os meus pais são pessoas normais, como as outras. Não conheces o suficiente. Amanhã às sete não te atrases, está bem?

– Vou tentar… disse Rui, pouco convicto, já a ver-se no autocarro a caminho de lado nenhum.

*****

E pronto, chegou o amanhã.

Rui, às dezanove menos cinco, em frente ao prédio da Mafalda, a rapar e com as mãos geladas. E…

…não sabia o que fazer.

Cedo ou tarde tinha de enfrentar os pais dela (afinal, com a Mafalda era a doer ele queria mesmo casar), mas naquele dia a coragem estava de férias.

Ainda por cima, tinham-lhe prometido uma transferência para o departamento de IT do novo escritório. Com sorte, em meio ano estaria mais apresentável. Se calhar aí, sim, chegava a altura de um olá com ar mais importante.

Só que agora… apetecia-lhe mesmo era fugir. O telemóvel vibrou no bolso.

Era a Mafalda.

– Olá Rui! alegria gritante do outro lado. Está quase tudo a posto, olha que o meu pai já vem a caminho. Onde andas?

– Olá Mafalda… respondeu Rui, a custo. Eu estou…

– Oiço mal… Estás a chegar, certo?

– Sim, deixei já ali o carro, estou quase… Só que…

– Se vais falar do drama de ontem, esquece! Vai correr tudo bem, confia só. Queres que desça para te ajudar a entrar?

– Não, não, eu vou já.

– Ok, estamos à tua espera, vá.

Desligou, guardou o telemóvel, esfregou a tempo o lado direito da cabeça, a ver se lhe surgia uma desculpa decente para não subir ao apartamento.

Nada lhe ocorria.

«Só faltava mesmo cruzar-me com o senhor Vítor à porta…», desesperou Rui, metendo-se a andar pela frente do prédio.

Cruzou-se com um rapaz, sacou-lhe um cigarro já nem fumava há anos, mas, pronto, nestas alturas qualquer vício serve para enganar o coração aos saltos.

E ali ficou, na esquina do prédio, a lançar fumo para o vazio, ora a olhar para o caixote do lixo, ora para o antigo baldio, ora para a vida.

O único entretenimento foi uma cadela, enfiada no meio do nada, deitada no chão frio. Primeiro, até ficou em sobressalto cães vadios nunca inspiram confiança. Mas esta nem deu por ele.

Lá ficou. Deitada no gelo como quem já desistiu da vida. Ninguém a ia deixar aquecer no prédio, apesar do frio de rachar.

*****

A Safira (era esse o nome da cadela, como Rui veio a saber depois), já não metia nada à boca há uns dias.

Antes, até era residente noutro bairro, havia moradores que lhe davam ração. Só que…

…uma moradora encalorada decidiu que ali a Safira não era bem-vinda. Mandou petições à Junta, arranjou aliados entre vizinhos e o bairro dividiu-se: uns deixem estar, outros Rua com ela!

– Aquela cadela está sempre na praceta, com as crianças a brincar. Imagina que morde alguém! Olhem para aqueles olhos, é só fome e raiva! Que horror…

Os olhos da Safira não eram de raiva nenhuma. Nada disso. Eram de pura tristeza. Um miúdo chamado Nico era o primeiro dono dela.

A família apanhou-a na estrada a caminho da praia em Vila Nova de Milfontes, ainda cachorra. O Nico convenceu os pais a levar a Safira. Felicidade total.

Quando foi hora de regressar a Lisboa, já se sabe, deixaram a cadela para trás.

– Não podemos levar um cão para o apartamento! E quem é que leva a bicha à rua?

– Eu não! respondeu logo o miúdo.

E assim ficou. Safira chorou a primeira grande desilusão da vida canina. Estava tudo bem… até deixar de estar.

Um mês depois, uma senhora levou-a para Setúbal. Ia com ela para a feira vender fruta e, já agora, tentar despachar a Safira. Tão rafeira que os clientes fugiram. Até que uma família, convencida por um É pedigree, só não tenho papelada, ficou com ela.

Mas à medida que crescia, viram que ela não era nada de especial, só mesmo uma rafeirinha. Então, despacharam-na nos descampados na Amadora. Ainda bem que foi em abril…

Desde aí, Safira só tinha ela mesma por companhia.

Acabou por parar naquele bairro, porque pelo menos não havia canídeos de gabarito a quererem arranjar guerra por cada pedalada. Assistia de longe às crianças, sonhava, lembrava o Nico e ganha esperança de um dia recuperar uma família.

Nunca voltou a ver o miúdo, claro. Pior, nos últimos dias até os poucos amigos humanos a tratavam à pedrada. Gente que antes lhe dava restos, agora só olhares e palavrões.

Não queria incomodar ninguém, então, um dia resolveu desaparecer. Para não dar sarna. Agora ali jaz. No frio, sem sentir nada.

A esperança, essa, já se tinha metido ao fresco.

Viu sim, um tipo de cigarro na boca a deambular pela esquina. Mas safava-se na mesma: Esse não ajuda. É dar o último trago e ir-se embora.

*****

Rui acabou o cigarro, procurou-se à volta e foi até ao contentor para deitar a beata fora. Podia tê-la largado no passeio, mas o mundo só muda se começarmos por nós, dizia-lhe a mãe desde pequeno.

Quando lá chegou, passou um carro devagar devia ser o pai da Mafalda, pensou. Deitou a ponta fora e precipitou-se para o baldio, esquecido da cadela… até tropeçar, quase literalmente, sobre ela.

«Só me faltava agora ser atacado…», pensava Rui, já a entrar em pânico.

Mas a Safira estava apática, nem mexeu. Parecia morta. Ou quase.

– Então, estás bem, tu? perguntou Rui por curiosidade.

Nada.

Ganhou coragem para chegar mais perto, pôs-se de cócoras e tocou-lhe. Zero resposta.

Chegou mesmo a acender a lanterna do telemóvel para ver melhor. Fez festinhas mais parecia estar a tocar em lenha do que num animal.

Mas ela respirava. Mal, mas respirava ainda. Tinha os ossos gelados, o corpo dormente, nem conseguiria reagir.

Se ninguém fizer nada, nem chega ao nascer do sol, pensou Rui. E, sem pensar muito mais, pegou nela ao colo e seguiu direto para o prédio. Queria encontrar uma porta aberta, qualquer escada onde pudesse aquecer a Safira e depois chamar um táxi para uma clínica.

Todas as entradas estavam trancadas. Rui, com o corpo da cadela nos braços, seguiu decidido até ao próximo prédio.

Teve várias chamadas no telemóvel, mas não dava para atender agora as mãos estavam ocupadas e as prioridades tinham mudado de repente.

Ao passar pela entrada da Mafalda, hesitou, olhou para cima e imaginou-se a pedir socorro. Mafalda compreenderia, mas os pais… Trazer uma cadela moribunda para o jantar? Mau cenário.

Mesmo assim, seguiu até ao fim do quarteirão, quando de súbito foi encadeado pelos faróis de um jipe topo de gama.

O condutor baixou o vidro.

– Amigo, isso está bem? Precisa de ajuda?

– É uma cadela. Estava ali quase morta… Sabe se há aqui uma veterinária de urgência, senhor?

– Por aqui, não há… Mas conheço um amigo, trato-lhe já disso. Entre no carro com ela! Não perca tempo.

– Vai mesmo nos levar?! Rui engoliu em seco. Nunca seria de esperar que o dono de um carro daqueles deixasse entrar um desconhecido com cadela sem cor nem força.

– Sente-se, homem! Salvar vidas não espera.

E em menos de nada, já estavam a caminho.

No percurso, ouviu-se o dono do carro telefonar:

– Mafaldinha, houve um imprevisto, vou-me atrasar. Explico-te tudo quando chegar. Não viste o teu namorado? Também está desaparecido? Ligaste-lhe? Olha, se o encontrar aviso.

– Espero que não esteja a causar-lhe problemas… murmurou Rui, enquanto trocava a Safira para posição mais confortável.

– Nada disso, rapaz! Conta, como está a cadela? Melhora?

– Mal se mexe… Está a respirar, mas só isso.

– Então, pé no acelerador!

Em dez minutos já estavam na veterinária, onde o amigo do condutor os esperava de braços abertos. Levaram logo a Safira para dentro, sem fila nem nada.

Rui sentou-se na sala de espera, olhou para o telemóvel sete chamadas da Mafalda. Mensagem dela: «Rui, onde estás? Estás bem?»

Deveria responder, explicar tudo, mas só queria saber da Safira. O resto, logo se via.

Nem pensou em agradecer ao condutor, que desapareceu sem cerimónia.

*****

Passaram cerca de quarenta minutos, que pareceram quarenta anos. Nenhum sinal dos veterinários. Só vozes e correria lá dentro.

De repente, ouviram-se passos e risos junto à recepção. Um sotaque que Rui conhecia melhor que as próprias pernas: era Mafalda.

Primeiro Mafalda, a seguir uma senhora altiva… e o senhor do jipe, com ar de missão cumprida.

– Falei! Cá está ele, filha disse o senhor, acenando para Rui. Este teu Rui não sai daqui sem saber da cadela.

Rui percebeu de imediato: Dona Vitória e Sr. Vítor, pais de Mafalda.

– Rui, podias ter avisado, estava a passar-me! Mafalda foi a correr ter com ele.

– Desculpa, Mafalda. Achei que os teus pais iam ficar em pânico se aparecesse com uma cadela a cair de fome…

– Que asneira, Rui! riu-se Mafalda. Os meus pais são pessoas normais. E animais cá em casa? Temos três gatas resgatadas da rua! Achas que torcemos o nariz a mais?

– A sério?

– A sério.

Os pais aproximaram-se e Rui encolheu-se, mas o encontro deu-se.

O Sr. Vítor apertou-lhe a mão e disse, com aquele tom bonacheirão que ninguém esquece: Pois bem, agora sim, ficámos apresentados…”

– Rui, Dona Vitória olhou-o nos olhos com um sorriso deixe-me dar-lhe os parabéns. O que fez é de homem. E sim, devias ter vindo direto a nossa casa, sempre. Vamos esperar que a Safira fique boa depressa.

– Fica! garantiu o veterinário, que apareceu exactamente nesse momento. Vai precisar de cuidados, mas vai recuperar!

Nesse mesmo dia, deixaram levar a Safira. Voltou a sentir calor, estava em casa. Só faltava carinho, o resto já tinha.

Amor faz milagres, disse o médico, já a despedi-lo. Tira até da cova quem lá caiu!

Rui ia voltar para casa, mas Mafalda e os pais insistiram que aquela noite, a Safira ficava lá: as gatas tratavam do resto, e aproveitava era o jantar do cão e do futuro genro. Tinham de brindar ao salvamento e ao acaso que os juntara.

Enquanto Safira, rodeada pelas três gatas, mão a tremer de frio ou fome, dormitava na sala, mesmo incrédula com aquele golpe do destino, Rui sentava-se à mesa da cozinha, entre conversas e risos com os sogros.

Tantos dramas… E no fundo, só eram pessoas mesmo simpáticas, de coração grande. Sentiu vergonha de tanta ansiedade.

Uns dias depois, Safira já andava melhor, pronta para mudar de casa.

– Não me levas contigo também? riu-se Mafalda, com uma mochila ao ombro.

– Tu?! Queres mesmo?

– Quero, pronto. Os meus pais já avisaram: se não entrego netos depressa, está proibida a dormida aqui…

– Ai sim?! Rui riu-se.

– Dizem que a natalidade é uma causa de família. Está na altura do país fazer filhos!

Rui não se aguentou de tanto rir. Mafalda também. E a Safira, já cheia de vida, fazia-lhes companhia, a abanar a cauda.

Não sabia bem o que ia acontecer a seguir, mas sentia que, por fim, tinha chegado a casa.

É isto.

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