Assim nos conhecemos…

Hoje conheci a família dela…

Miguel, o que se passa contigo? perguntou Margarida, depois de alguns minutos de silêncio. Pareces tão distante. Estás com um ar tão pálido… está tudo bem?

Sim, está tudo bem respondi, reunindo coragem para não parecer demasiado nervoso. Pousei o garfo, estiquei a mão até ao copo de sumo de maçã, quase a adiar o momento em que teria de lhe responder realmente.

*****

Cheguei à porta do prédio, agarrei a maçaneta pesada da porta metálica e preparei-me para a puxar, mas, por algum motivo, hesitei no último instante.

A vontade de entrar era nula.

Sabia que me aguardavam, lembrava-me da promessa que fizera à Margarida, de que apareceria lá em casa, mas o nervosismo era tanto que mal conseguia controlar-me.

Senti-me ridículo um homem feito, com as pernas a tremer como se fosse um miúdo chamado pela professora ao quadro pela primeira vez.
Faltava-me tão pouco: abrir a porta, subir ao terceiro andar, encontrar o apartamento número 36…

Mas já não estava a conseguir dar esse passo.

Um medo sem rosto, absurdo, paralisava-me, não me deixando levar o plano até ao fim.

O que mais queria naquele momento era virar costas e desaparecer dali. Para casa, ou para o outro lado de Lisboa não interessava. O que importava era fugir dali.

Porque é que aceitei? murmurei, dando um passo atrás. É óbvio que não vou agradar.

Recuei mais um pouco, olhei para cima e reparei na luz da janela do terceiro andar, a única acesa àquela hora.

Tão brilhante. Juro que parecia até mais viva do que as outras do prédio.

Parecia um farol, a garantir que eu não me perdesse no caminho.

E, de facto, até ali vim. O difícil era subir.

Talvez o maior obstáculo fosse mesmo pensar em como a Margarida ia reagir se descobrisse que fui embora sem avisar. Pediu-me com tanto carinho que viesse…

E prometi que vinha.

*****

“Ó Miguel, olha que amanhã vai ser diferente Mas não te assustes”, brincou Margarida ao jantar. “Os meus pais querem conhecer-te.”

Margarida. A minha namorada.

Tínhamos jantado num restaurante em Campo de Ourique, entre conversas sobre o que fazer no fim de semana e as eventuais viagens ao Douro.

E, de repente, os pais dela querem conhecer-me. Um choque, confesso. Até parei de mastigar, sem saber se ela estava a falar a sério ou só a tentar provocar-me.

Na verdade, não havia nada de estranho: era normal quererem conhecer o homem que podia ser o futuro genro ou, quem sabe, marido. O estranho teria sido não o convidarem.

Só que

eu não conseguia imaginar que eles aprovassem. Mais ainda, tinha quase a certeza de que não lhes agradaria como genro.

E havia bons motivos para acreditar nisso.

A mãe da Margarida dona Vitória Alves fez carreira na Universidade de Lisboa, começou como docente e chegou a reitora. Agora tinha um cargo importante no Ministério da Educação.

O pai dela Dr. Vasco Fernandes também não era menos preponderante: começou como engenheiro numa construtora conhecida, tornou-se administrador, hoje tinha a sua própria empresa e era uma das figuras importantes nos negócios da cidade. Relacionava-se diretamente com o presidente da Câmara.

A própria Margarida, com os seus trinta e poucos anos, era chefe do departamento jurídico de um banco de investimento.

E eu? Um simples administrador de sistemas, a ganhar minimamente bem, mas sem qualquer perspetiva de progressão. E sem o tal canudo.

Como é que havia de sentar-me à mesa com eles? O que lhes diria? Como olharia nos olhos de pessoas tão diferentes de mim?

Provavelmente estão a questionar-se: como é que um tipo como eu acabou por conhecer alguém como a Margarida? O acaso.

Nesse dia, decidi passear no Jardim da Estrela. Calhou que também a Margarida estava por lá, acompanhada de duas amigas. As amigas foram buscar gelados, e ela ficou a guardar o banco.

Falava com a mãe ao telefone e não viu, quase em cima dela, um tipo de trotinete elétrica, visivelmente alcoolizado.
Nem pensou em desviar, abalroaria a Margarida sem piedade. Corri, agarrei-lhe o braço e puxei-a para fora do caminho mesmo a tempo.

Mas está maluco?! ela indignou-se.

Tudo mudou quando viu o rapaz cambalear até cair junto ao caixote do lixo. Percebeu o que podia ter acontecido.

Falámos. Trocámos números de telefone. Marcámos um encontro. E, sem dar por isso, meio ano depois estávamos juntos.

Todo este filme passou-me pela cabeça, enquanto digeria a conversa de Margarida no restaurante.

Sempre temi o dia de conhecer os pais dela. Tive uma história parecida no passado perdi uma rapariga de quem gostava, mal os pais dela desconfiaram que podia querer dinheiro. Não queria arriscar perder outra vez…

Miguel, o que tens? insistiu Margarida, ao ver-me a divagar. Ficaste lívido. Estás bem?

Sim, sim forcei um sorriso, tentando parecer natural. Deixei os talheres e peguei o copo de sumo, ganhando tempo.

Então vens?

O quê? Ir…? Ir onde?

A minha casa, amanhã. A minha mãe faz sempre um bacalhau no forno. E o meu pai O meu pai vai trazer um vinho especial do Dão, de um amigo colecionador. Só preciso do teu “sim”. Vais?

Não sei, Margarida Sinto que os teus pais estarão à espera de alguém diferente

Porquê?

Porque não tenho curso superior, sou só um informático. Eles querem outro tipo de genro, um empresário, um político, alguém com estatuto Não tenho hipótese.

Miguel ela apertou-me a mão. Os meus pais são pessoas normais, não inventes. Amanhã às sete espero por ti.

Está bem acabei por ceder, sem saber se ia aparecer.

*****

E o dia chegou.

Ali estava à porta dela, faltavam cinco minutos para as sete, estava um frio cortante, e eu…

…sem saber o que fazer.

Mais cedo ou mais tarde teria de os conhecer (com a Margarida era mesmo para casar), mas hoje sentia-me totalmente despreparado. Se calhar, depois de ser transferido para o novo departamento de TI, teria mais “prova” a apresentar.

Ainda hesitava quando o telemóvel vibrou.

Era a Margarida.

Miguel, estás quase? A minha mãe já pôs tudo na mesa, o meu pai vem a caminho. Onde estás tu? Já estás perto?

Sim, Margarida, estou quase a chegar… só que…

Se é como ontem, não quero ouvir desculpas. Vai correr tudo bem, confia em mim. Queres que vá lá baixo ter contigo?

Não, não é preciso! Estou mesmo a chegar.

Fico à espera. Fico… Ficamos.

Acabei por desligar. Pus-me a andar ao longo do prédio, a tentar encontrar um motivo válido para fugir dali.

Nada me ocorria.

“Se apanho o Dr. Vasco aqui ao pé do prédio, nem quero imaginar…” Pensei em andar até ao fim da rua.

No caminho deparei com um rapaz e pedi-lhe um cigarro. Já não fumava há anos, mas naquele momento parecia essencial para acalmar os nervos. Encostei-me à esquina, inspirei o fumo e olhei à volta.

Era um bairro típico: à direita, um contentor; à esquerda, um terreno por construir. A Margarida tinha contado que demoliram ali as antigas garagens recentemente.

Enquanto pensava, reparei num cão naquele terreno baldio. Susto. Não gosto de cães vadios, podem atacar sem razão, especialmente se sentirem medo.

Mas, depois de olhar bem, percebi que o cão não estava sequer a prestar atenção a mim.

Simplesmente, deitava-se ali, no frio.

Que estranho animal, deitado no gelo. Talvez porque não tinha outro lugar onde repousar…

*****

O cão chamava-se Zeca, e já nem me lembrava dele, mas foi impossível não reparar naquela tarde.

Zeca não comia há dias.

Antes, vivia noutro bairro, tinha até alguns vizinhos que lhe davam restos de comida. Mas, subitamente, uma moradora decidiu que já não havia ali lugar para ele.

Fez petições para a junta, convenceu alguns vizinhos a unir-se e, de repente, o bairro estava dividido: os do “deixa estar” e os do “corram com ele”.

Este cão sem dono anda sempre pela zona do parque infantil! gritava ela. Um dia ainda morde alguma criança! Não vêem aquele olhar selvagem e esfomeado? É perigoso!

Mas, na verdade, o olhar do Zeca era só triste. O seu primeiro dono foi um rapaz chamado Tiago.

Um dia, junto à estrada, Tiago encontrou-o cachorrinho. Levou-o consigo para a casa de campo e, durante o verão, foram felizes.

Quando voltou para Lisboa, deixaram-no lá. Argumentaram que não podiam levar um cão para o apartamento.

Zeca viu a carrinha afastar-se e não percebeu.

Mais tarde, uma senhora acolheu-o, mas logo o levou ao mercado a tentar vendê-lo, dizendo ser um cão de raça. Acabou por convencer um casal a levá-lo.

Quando cresceu, perceberam que era um rafeiro. Levaram-no à periferia e deixaram-no lá.

Por sorte, já era Primavera.

Sozinho, acabou por encontrar este bairro, onde, finalmente, acreditou estar a salvo. Gostava de ver as crianças a brincar, recordava-se de Tiago.

No fundo, sonhava que, um dia, alguém lhe desse um lar.

Mas, ultimamente, bastou uma vizinha impaciente para que todos lhe fechassem as portas. Começaram a atirar-lhe pedras, a insultá-lo.

Sem mais alternativas, Zeca saiu dali.

Agora, deitava-se, exausto e gelado, no baldio do bairro da Margarida.

Forças não lhe restavam. Tinha-me visto, parado a fumar, mas nem acreditava numa pontinha de esperança.

“Esse homem fuma, já acabou, vai-se despedir e não liga nenhuma a mim…”

*****

Acabei o cigarro, procurei um caixote do lixo para deitar a beata não conseguia largá-la para o chão, como dizia a minha mãe: “Se queres mudar o mundo, começa por ti”.

Quando estava por ali, reparei numa viatura preta, luxuosa, entrar no pátio. Gelei, pensando que pudesse ser o pai da Margarida.

Afastei-me o mais rápido possível, passei pelo terreno baldio e só me voltei a lembrar do cão quando já estava a poucos metros dele.

“Que não ladre pelo menos…” pensei, sem coragem para me aproximar.

Mas Zeca ficou quieto.

Estava imóvel sobre o gelo. Parecia adormecido. Ou talvez nem estivesse…

Eh pá, estás bem? chamei.

Nada.

Aproximei-me. Depois ainda mais, já de cócoras mesmo ao lado. Toquei-lhe. Nenhuma reação, mas respirava devagar. Estava gelado. O corpo duro como uma pedra. Se ficasse ali mais uma noite, não sobrevivia.

Peguei o cão ao colo, decidi entrar num prédio qualquer, quente, para o aquecer e depois chamar um táxi até uma clínica veterinária de urgência.

Nenhum dos prédios estava aberto, por isso tentei no seguinte.

O telemóvel não parava de vibrar no bolso, mas naquela altura, só pensava como podia salvar o Zeca.

Ao passar em frente ao prédio da Margarida, hesitei. Ela poderia ajudar; os pais, provavelmente, não entenderiam eu aparecer ali com um cão quase morto ao colo.

Então, virei para o fundo da rua, mesmo quando outra viatura elegante passava e parava ao meu lado.

Amigo, precisa de ajuda?

Este cão… estava ali deitado, congelado. Sabe se há alguma clínica veterinária 24h perto daqui?

Perto, não. Mas conheço uma, tenho um amigo lá. Entre no carro, eu levo-vos.

Fiquei surpreso com a oferta, mas não hesitei.

Entramos. Pelo caminho, o homem telefonou.

Mariana, filha, atraso-me um pouco. Surgiu um imprevisto, um rapaz precisava de ajuda com um cão. Como, não está ali? Falaste com ele? Estranho, não reparei em ninguém à porta do prédio… Bem, se o vir, aviso.

Quando desligou, olhou-me pelo espelho.

Não estou a causar-lhe problemas, pois não?

Não, rapaz. Mais importante é o cão. Está a respirar?

Sim, muito devagar. Ainda se aguenta.

O homem acelerou.

Chegámos à clínica em menos de 15 minutos. Já estavam à espera por causa da chamada. Levaram o Zeca imediatamente. Fiquei na sala de espera, recebi várias chamadas da Margarida e uma mensagem: “Miguel, onde estás? Está tudo bem?”

Preferi não responder de imediato. Estava demasiado ansioso pelo cão.

Nem me lembrei de agradecer ao condutor. Quando dei por mim, já tinha ido embora.

Voltei para dentro, decidido: se sobrevivêssemos, adoptava o Zeca. Se por acaso corresse mal com a Margarida, pelo menos ia ter um amigo leal.

*****

Esperava há uns 40 minutos quando, de repente, ouvi vozes familiares na receção. Uma voz reconheci imediatamente.

Vi Margarida à porta, acompanhada de uma senhora elegante e… do condutor do carro! Sorria, bem-disposto.

Eu disse-te, filha, que o Miguel haveria de estar aqui à espera. Está preocupado com o cão.

Reconheci de imediato: eram os pais da Margarida.

Miguel, porque não me disseste nada? Estava preocupada! Margarida abraçou-me.

Desculpa… Tive receio que os teus pais não gostassem de ver um cão vadio lá em casa.

Tonto! Já te disse que eles adoram animais. Temos três gatos que a minha mãe trouxe da rua!

Mesmo?

Acenou positivamente, a rir.

Também os pais se aproximaram. O pai apertou-me a mão:

Pronto, ficou feita a apresentação…

A mãe sorriu calorosamente.

Miguel, deixe-me agradecer-lhe. O que fez não é só um ato de coragem, é um ato de bondade. Deveria ter vindo logo para nossa casa, ajudavamos todos. O importante é que o cão vai sobreviver!

O veterinário saiu no mesmo instante.

O rafeiro vai recuperar. Há-de viver muitos anos. Agora só falta cuidar e dar amor.

Eles decidiram que devíamos levar o Zeca para casa deles. As gatas iriam tomar conta dele. E o jantar ia acontecer na mesma só mudámos o motivo para celebrar.

Zeca, finalmente deitado no conforto da sala, entre três gatas curiosas e pessoas que não lhe queriam mal, parecia incrédulo.

Eu, na cozinha, sentado com Margarida e os pais, sentia o peso sair dos ombros.

Tinham sido tão acessíveis, sinceros, tão portugueses na forma de receber.

Uns dias depois, já refeito, fui buscar o Zeca para minha casa.

Ao sair, Margarida apareceu com uma mala.

Vais sozinho, ou posso ir contigo?

Tu? Sério?

Muito. Os meus pais disseram que devíamos dar netos, que precisamos aumentar a população do país.

Desatámos os dois a rir. O Zeca saltava de contentamento.

Ele podia não perceber tudo, mas sabia que coisas boas estavam a acontecer.

Ficou assim a primeira parte da nossa história juntos, eu, Margarida e o cão que procurava família.

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