As deliciosas almôndegas da sogra: receita tradicional portuguesa

Bolinhos da Sogra

Já faziam três anos e meio que Diogo e Inês estavam juntos, e durante esse tempo, posso contar nos dedos as vezes que fomos a casa da minha sogra, Dona Graça. Geralmente só aparecíamos nos grandes feriados, ficávamos lá poucas horas e voltávamos logo para Lisboa.

Desta vez, foi diferente. Diogo ficou cheio de vontade de lá irmos porque a mãe telefonava quase todos os dias da semana, já pela terceira vez tinha dito que sentia saudades, reclamou que o pai, o Sr. Manel, se tinha lesionado a arranjar o telhado do anexo e agora as couves e os feijoeiros já estavam cheios de ervas porque ele não se conseguia mexer.

Diogo, diga-se, sempre fora um filho exemplar todos os domingos ligava à mãe, conversava com paciência, acenando com a cabeça mesmo quando Dona Graça começava com histórias intermináveis ou opiniões com as quais ele não concordava nada. Agora, sentado comigo à mesa a jantar massa com salsichas, olhava-me como um miúdo a pedir um favor.

Inês, disse, afastando o prato e cruzando as mãos sobre a mesa. A mãe voltou a ligar. Diz que já não se lembra de como somos, que parecemos estranhos. Vá lá, vamos lá passar o fim de semana? Três dias, no máximo. Anda lá…

Oh, Diogo, eu marquei cabeleireiro para sábado, tentei argumentar, embora já soubesse que não tinha grande hipótese.

Vá, adia. A mãe fica mesmo triste se não formos. Já prometeu que faz bolinhos de carne e vai fazer um bolo para nós. Diz que sente saudades, Inês.

E o teu pai? Já está melhor das costas? perguntei para não ser indelicada, que com o sogro sempre tive respeito.

Vai sobrevivendo, ele tem sempre qualquer coisa. Enfim, nem vale a pena. Eu já decidi, vamos. Saímos sexta ao final do dia e regressamos domingo ao início da noite. Vou já avisar a mãe.

Suspirei, mas não insisti. Nos últimos anos aprendi que discutir quando Diogo tomava uma decisão era perder o meu tempo. Era como pedir a um gato para não deitar os vasos ao chão.

Na sexta-feira, pusemos a mala no carro, um saco de presentes Diogo comprou um cobertor felpudo para a mãe e uma boa garrafa de aguardente para o pai. A aldeia ficava a duas horas de Lisboa, se não apanhássemos engarrafamentos.

Fui toda a viagem a olhar pela janela, vendo pinhais e pequenos cafés com nomes insólitos a passar, enquanto Diogo cantarolava as músicas da Antena 1. Pensei que talvez a visita até corresse bem; três dias não era assim tanto tempo, e a sogra, no fundo, era uma boa mulher.

Chegámos já de noite. A casa deles ficava no fim da rua, iluminada só por um candeeiro público. Assim que estacionámos no pátio, a porta abriu-se, e Dona Graça apareceu redonda, baixinha, de avental colorido, com aquele sorriso tão largo que parecia que a cara ia abrir-se.

Oh Dioguinho! gritou ela, abraçando o filho mal ele saiu do carro. Já pensava que vocês não vinham! Ui, passei o dia inteiro a cozinhar, nem imaginas! Inês, querida, entra, entra, que está frio!

Desci do carro, ajeitei a jaqueta e esbocei um sorriso amável, aceitando o abraço dela. Dona Graça cheirava a cebola frita e a qualquer coisa adocicada e enjoativa que me fez dar logo um espirro.

A casa estava aquecida e cheirava a comida. O som de gordura a chiar vinha da cozinha. Na sala, já havia uma travessa com chouriço cortado, pão, pepinos em conserva, um frasco de compota e meio pão de centeio. O Sr. Manel estava frente à televisão, mas levantou-se e veio cumprimentar-nos à chegada.

Já cá estão, disse apertando a mão do filho e acenando-me: Olá, filha. Despacha-te a despir o casaco, que já vamos jantar.

Fiz-vos bolinhos de carne, anunciou Dona Graça ao fundo, ajeitando nervosamente o avental e mudando os pratos de lugar. Com batatas, cebola e molho de tomate. Dioguinho, sei que adoras os meus bolinhos.

Adoro sim, mãe. Diogo já ia todo contente inspeccionar as panelas, deixando a mãe transbordante de orgulho.

Deixei o casaco no bengaleiro do hall e entrei na sequência. A cozinha era minúscula mas tinha um charme de confusão confortável: todas as superfícies cobertas com frascos, potes de especiarias, panos de cozinha pendurados e uma fila interminável de caixas plásticas.

Senta-te, Inês, insistia Dona Graça, puxando uma cadeira para mim com o avental. Deves estar mortinha, de viagem. Eu trato disto num instante.

Num movimento acelerado, pegava numa travessa, colocava no sítio, abria o forno um cheiro delicioso de carne assada enchia a cozinha e tive logo que engolir em seco. Não comíamos nada de jeito o dia todo, só um café de máquina na estação de serviço.

Foi então que vi.

Dona Graça estava com uma enorme taça de carne picada crua ao lado. Uma montanha de massa acinzentada, já com vários bolinhos moldados, redondos, bem arrumados por filas numa tábua polvilhada de pão ralado. Ela pegou num novo punhado de carne, enrolou com jeito, achapolhou para dar a forma e subitamente, aquela mesma mão que mexia na carne crua foi parar em força debaixo da axila esquerda.

Não foi uma coçadela distraída, daquelas que acontecem no automático; foi mesmo enfiar a mão, a sério, e explorar ali com prazer uns segundos. Depois, com a mesma mão, sem lavar, sem passar sequer por um pano, voltou a enrolar carne e fazer outro bolinho.

O enjoo subiu-me de tal forma que tive de me segurar à cadeira.

Fiquei a olhar para aquela mão normal, de mulher, unhas curtas e lisas, uma aliança a prender um dedo inchado, veias à flor da pele e não consegui desviar o olhar. Aquela mão esteve agora debaixo da axila e voltou ao preparado. Ao preparado dos bolinhos que ela tantas vezes embrulhava e nos enviava, congelados, e que Diogo sempre celebrava quando havia jantar. Eu própria já dissera à Dona Graça que eram maravilhosos, e era sincera: eram mesmo bons…

Mãe, tens chá? Estamos gelados da viagem.

Está quase, Dioguinho. Só vou terminar aqui os últimos bolinhos. E Dona Graça lá continuava a mexer tudo com a mão, agora com um rasto acinzentado visível na tábua sempre que tocava na madeira. Ou seria impressão minha? Pisquei os olhos, e vi só carne, pão ralado, bolinhos feitos e as mãos da sogra a enrolar e apertar.

Dona Graça, quer que ajude? Se quiser, eu acabo de enrolar, e pode pôr o chá…

Que disparate! És minha convidada, não tens de ajudar a nada. Senta-te, descansa, que eu trato de tudo, filha. É só mais este.

Para confirmar, pegou o último punhado de carne, moldou o bolinho final, alinhou na fila, olhou para as mãos, acenou satisfeita e passou-as apressadamente por água da torneira três segundos, sem sabão, só água e limpou-as ao avental.

Todo o meu ser gritou de repulsa.

Tentei convencer-me do contrário. É normal, pensei. Também a minha avó, Deus a tenha, quando amassava massa mexia no cabelo a meio e nunca ninguém ficou doente. Talvez fosse só eu a ser esquisita…

Mas aquela imagem da mão na axila, depois na carne, voltou e voltou, feita carrossel.

O jantar foi servido na sala, mesa coberta de toalha plastificada florida. Dona Graça apareceu com a frigideira cheia de bolinhos a rebentar aroma, estaladiços, dourados. Para qualquer pessoa, abriria logo o apetite mas a mim quase me fechava o esófago. Havia ainda puré com azeite, tomates e pepinos frescos, pão, pickles, compota.

Sirvam-se, meninos, encostou a travessa aos meus pratos. Estes, Inês, são para ti. São os mais bonitos.

Olhei para os bolinhos. Lindos, apetitosos, cheiro de cebola frita e carne. Diogo serviu-se de dois, encheu o prato de puré, cortou pepino e enfiou tudo à boca, quase a salivar.

Mmm, mãe, mesmo no ponto. Como sempre.

Ainda bem, filho. Dona Graça sentou-se em frente, cortou um pedaço de pão. Tive receio de exagerar no sal ou na cebola.

Está ótimo, já Diogo devorava o segundo.

O Sr. Manel comia em silêncio, só acenava com a cabeça. Desde que o conheço, o seu maior discurso foi a história de mudar o óleo do trator.

Inês, não comes? preocupou-se Dona Graça, ao ver o meu prato quase intacto. Não gostas? Está salgado?

Não, adoro. Só a viagem deixou-me um pouco indisposta, o estômago…não está famoso, percebe? Vou só picar devagar, não se preocupe.

Com a ponta do garfo, tirei um bocado minúsculo dum bolinho só a borda tostada e levei à boca. O cheiro era óptimo, tentador, mas foi só imaginar que aquele preparado foi amassado com a mão que esteve há pouco na axila, que me senti sufocar. Engoli com esforço, agarrei logo num pepino fresco e mastiguei devagar, forçando o sorriso.

Está saboroso, consegui dizer, empurrando o prato para a frente. Dona Graça, posso só ficar pelo puré e pelo pão? Adorei o bolinho, mas tenho mesmo o estômago às voltas.

Ai, pobrezinha, claro, claro! Come puré à vontade, posso embrulhar bolinhos para vocês levarem para casa. Fiz muitos!

Diogo olhava para mim de relance, mas continuava a comer satisfeito, como quem nunca se preocupa com essas minudências de cozinha.

Fui mexendo no puré, comendo pepino cortado às rodelas, tentando convencer-me de que era só nervos, que andava sempre impressionável. Toda a vida as mães prepararam comida assim, e ninguém morreu por isso. Mas aquela mão na carne…

Depois de jantar, Dona Graça arrumou a mesa. Diogo foi com o pai ao anexo ver o gerador. Fiquei na cozinha a sós com a sogra, que de imediato pôs a chaleira ao lume.

Não fiques aborrecida comigo por insistir tanto para virem, Inês disse ela, servindo chá no bule velho da Vista Alegre com bico partido. Fico mesmo feliz de vos ter cá. Eu sei, o emprego, a cidade, essas correrias… mas a mãe nunca descansa, só quer saber se vocês estão bem.

Estamos, Dona Graça. O costume. Trabalho, casa… tudo como sempre.

Ainda bem ela sentou-se à minha frente, cara apoiada à mão, a olhar-me com um ar estranho. Os meus bolinhos vocês gostam, eu sei. O Dioguinho pede sempre para eu fazer congelados para ele levar. O que se compra na cidade é só porcarias químicas. Eu faço sempre carne fresca, compro no talho ao Zé Carlos, conheço a família há anos. Nem me meto com carne picada de supermercado, faço tudo eu.

Dei um gole no chá estava quente demais, queimei a língua e senti o enjoo regressar de novo, mais forte. Quanto mais pensava nas mãos dela, menos conseguia engolir.

Dona Graça, posso ir deitar-me um pouco? Estou mesmo maldisposta, deve ter sido do carro.

Vai, filha, vai, que há lençóis limpos, o Dioguinho sabe onde é. Se precisares de alguma coisa, grita.

Fugi para o quarto a chamada suite dos hóspedes, pequena, com os cortinados de renda e um edredão cor-de-rosa sentei-me na cama e percebi logo que ia vomitar.

Corri para o WC, ajoelhei-me no chão de mosaico frio e deitei tudo cá fora. Passei ali largos minutos, a tentar normalizar a respiração.

Quando Diogo regressou do anexo, encontrou-me sentada na cama, abraçada às pernas, o rosto ainda pálido.

Que foi? Estás mesmo mal?

Diogo, agora vou contar-te uma coisa, mas por favor, não gozes nem grites.

Conta lá, franziu o sobrolho.

E contei tudo. Da mão, da axila, da carne, dos bolinhos, do enjoo. Contei baixo, para ninguém ouvir.

Diogo olhava-me de uma forma que não conseguia decifrar entre incredulidade e irritação, uma luta interna a tentar digerir aquilo tudo.

Olha lá, mãe não fez de propósito, foi só uma coçada, não é nada demais. Achas que as nossas avós lavavam as mãos de cada vez antes de cozinhar? Isto é comida de casa, Inês.

Ela não lavou a mão. Meteu-a no preparado logo a seguir. Nem sabão usou, vi bem. E agora, sempre que penso nos congelados dela, fico maldisposta.

O que queres fazer então? Vais dizer-lhe que faz comida de mãos sujas? Se fazes isso, ela nunca mais fala connosco. Ela faz tudo com carinho, percebes? Só para nós.

Eu não vou dizer escondi a cara mas não consigo comer isto nunca mais, Diogo. Só quero ir embora.

Ele começou a andar de um lado para o outro, atirou a mão ao cabelo clássico dele quando se chateia.

Estás a fazer uma tempestade num copo de água. Toda a gente faz isto de vez em quando na cozinha, coçada aqui, cabelo ali. Não estamos num bloco cirúrgico, é só comida caseira. Se fores tão obcecada nem em casa conseguias comer tranquila.

Eu lavo as mãos. Antes de cozinhar e quando toco em coisas que não deveriam estar na comida, lavo. É básico para mim.

Pronto, és uma estrela nesse aspeto. Mas a minha mãe sempre fez assim e estou aqui, forte e saudável, nunca apanhei nada. E tu própria adoras os bolinhos.

Não sabia. Agora sei e não quero mais.

Pronto, está bem. Não comas. Eu invento que ficaste doente e temos de regressar. Não digas nada a ninguém, prometes?

Não digo. Só quero ir para casa.

Amanhã vamos. Digo que estás com febre, temos de regressar. Tudo bem?

Está, murmurei, sem convicção.

Fui para a cama. Diogo apagou a luz; oiço a televisão no quarto do lado, o tossir do sogro, o tilintar das loiças da Dona Graça na cozinha.

Fico no escuro a pensar: por três anos e meio comi bolinhos dela, sem saber o que se passava na cozinha. Recordo-me a elogiar-lhe o sabor, a pedir receitas, a admirar honestamente o paladar. Talvez o tal toque secreto não fosse o que eu pensava…

Na manhã seguinte, acordei sem energia. Diogo já estava na cozinha com os pais, a tomar café. Fiquei mais um tempo fechada no quarto, depois fui lavar a cara e entrei devagar.

Inês, o Dioguinho disse que esteve maldisposta durante a noite? Dei-te um chá de ervas, querida, faz bem.

Obrigada, Dona Graça. Já estou melhor, acho que foi do carro.

Esses restaurantes das estradas, fazem mal a toda a gente. Sempre digo ao Manel: mais vale comer pouco em casa. Mas vocês teimam em ir a essas roulottes… Enfim.

Mãe, interrompeu Diogo, nem parámos em lado nenhum, só tomámos café do nosso.

Pois, então foi outra coisa. O corpo avisa, filha. Vou pôr mais mel na tua caneca.

Bebi o chá devagar, sem coragem de comer sequer pão, olhando sempre para longe da travessa com os bolinhos de ontem, ainda tapados com um pano.

Dona Graça, agradeço muito, mas se calhar era melhor voltarmos hoje. O Diogo diz que é melhor eu repousar em casa. Volto noutro fim de semana, prometo.

Ora essa! Agora que vos ia fazer o meu bolo? O Dioguinho adora!

Fica para a próxima, mãe Diogo beijou-lhe o rosto. Ela precisa mesmo ir, e eu volto daqui a uns tempos para ajudar o pai. Podes matar as saudades e fazer tudo o que quiseres nessa altura.

A sogra suspirou, olhou-me de alto a baixo, fitou Diogo, e não precisei de ser adivinha para perceber que ela, sim, tinha percebido tudo. Tinha entendido a minha aversão. E ficou magoada.

Levo-vos congelados para a semana. Fiz mesmo muitos, tenho a arca cheia.

Agradeci, sem conseguir controlar o tremor no estômago.

Preparámo-nos depressa. Diogo colocou as malas no carro enquanto me despedia do Sr. Manel. Dona Graça entregou um saco ao Diogo no portão.

Aqui estão os bolinhos, compota e um bocadinho daquele toucinho que vocês gostam. Saibam que é tudo feito com amor.

Obrigado, mãe Diogo deu-lhe um beijo e desta vez ela nem sorriu, virou costas apressada para casa.

Viemos quase todo o caminho em silêncio. O saco com os bolinhos parecia um peso no porta-bagagens, como se ali estivesse algo vivo.

Podes comê-los, murmurei quando já entrávamos em Lisboa. Não me importo. Eu não consigo.

Inês, suspirou ele, com um cansaço nas palavras, percebes que a mãe percebeu tudo?

Tudo o quê?

Ela notou que não comeste, que adoeceste e que fomos embora a correr. Ficou ferida. E compreendo-a.

E a mim, compreendes? atirei.

Não respondeu.

Em casa, fui directa à cozinha. Olhei para as bancadas impecáveis, os panos estendidos, as facas no escorredor limpas. Aqui, no meu espaço, sentia-me limpa. Aqui ninguém toca em carne com a mesma mão que pousou em qualquer sítio indevido. Aqui eu controlo.

Diogo colocou o saco na arca. Fechou a porta.

Vais comer?, perguntei.

Vou sim, respondeu, com teimosia. Sempre os comi.

Foi tomar banho. Fiquei ali, afastei-me do saco, fui lavar as mãos. Demoradamente, com sabão, até aos pulsos, como se quisesse apagar memórias.

Não sei se alguma vez se limpa isso o que já ficou permanentemente preso à lembrança.

Sei só que nunca mais levarei à boca um bolinho feito pelas mãos da Dona Graça. Nem todas as conversas, insistências, nem a paixão familiar me vão obrigar a fazê-lo.

Três dias depois, Diogo fritou quatro bolinhos ao jantar, fez puré, cortou pepino e sentou-se à mesa.

Queres? perguntou, oferecendo-me um garfo com metade dum bolinho.

Não, obrigada.

Saí da mesa, sentei-me na sala e liguei a televisão, alto, para não ouvir Diogo a mastigar.

Senti que aquela visita mudara qualquer coisa entre nós talvez algo irreversível. Tudo por causa de uma mão. Uma mão de mulher, que se coçou onde mais ninguém devia ver.

Fechei os olhos e decidi: não ia pensar mais nisso. Se não pensasse, podia seguir em frente, a comer só o que faço eu, e nunca mais, nunca mesmo, tocar numa fatia de comida feita por mãos que eu já não confio.

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