Algumas Estranhezas da Família de Laurinha Bela
A Laura saiu com o cão
Santo Deus, o que será que ela aprontou com o pobre bicho desta vez? Olha, olha, o rabo do Tóbi já não está lilás, mas sim cor-de-rosa! Vê só como ele abana!
Que se há de fazer, se a rapariga é cheia de manias? Ao menos é boa e decente, isso hoje não é para todos. Quando a avó esteve doente, a Laura não saía do hospital. Andava sempre em correrias, esquecendo-se da própria vida de jovem.
Ai sim! Ontem vi foi um rapaz bem jeitoso a deixá-la à porta, de carro.
Se calhar era o motorista de táxi!
Ah pois, claro! Desde quando é que os taxistas dão beijinhos na mão das passageiras?
Até isso?!
Nem mais! Olha, digo-te eu, a nossa Laurinha ainda vai casar em breve.
Que seja o melhor para ela! A avó há de ficar toda contente, criou uma menina assim! Inteligente, bonita, com valores! Só se não fosse aquela profissão dela, seria perfeito.
E o que tem a profissão da Laura?
Inspetora criminal? Isso é trabalho para uma rapariga?
Olha que não! Hoje em dia quem é que respeita tanto a lei como a avó dela? Poucos! E a Laura é das melhores inspetoras, diz-se por aí! Até no Jornal da Noite falaram nela, a elogiar o trabalho dela. Tu é que implicas!
Eu? Eu não digo nada. Que Deus lhe dê sorte! Sempre se viu que ela ia longe, ainda em criança notava-se. Quem é que ela saía? Tal e qual a avó! Uma força da natureza!
A Laura, sobre quem as vizinhas tanto conversavam sentadas no banco cá fora do prédio, passou junto delas, acenando-lhes com um sorriso educado e, de repente, desatou a correr atrás do Tóbi, que saltava todo contente pelos caminhos gelados do jardim, e o rabo cor-de-rosa balouçava que nem manhã cedo.
Olha foi-se embora à pressa! Onde irá ela agora?
Ora, vai buscar a irmã! A Catarina chega hoje!
Então sabe-se lá isso?
Disse-me ela mesma. Olha o táxi ali a parar!
Do carro saiu uma rapariga alta e esguia, entrou calada ao encontro da Laura a correr, apertou-a num abraço apertado e assobiou ao Tóbi, que começou logo a saltitar ao seu redor.
Laurinha! Mas o que fizeste tu ao cão outra vez?!
Que foi? Não está giro? É a cor favorita da avó!
Saudades tuas, miúda estranha, mas estás sempre igual
A Laura abraçou outra vez a irmã e desatou à gargalhada.
No bairro, todos sabiam que Laurinha Bela não era muito certa. As esquisitices começaram cedo, logo na infância dourada da menina. Era um doce de miúda, com duas trancinhas e laços garridos que a avó atava com todo o carinho. Ela cumprimentava sempre os vizinhos, sorrindo com os dentes ao natural, antes de irem ao dentista do avô adotivo. E logo chegava a pergunta:
Como está?
Mas até os mais reservados começaram a evitar responder, mesmo aqueles sem segredos nos armários fechados a sete chaves, nem papagaios tagarelas a revelar a vida a desconhecidos.
É que Laurinha era temida.
Ela falava, falava, falava. E o pior é que ela não se limitava a dizer disparates soltos de criança. Laurinha tinha jeito para cruzar o que já ouvira ou vira e, sem ponderar, largava tudo a quem importasse.
Dona Teresa, sabe, enquanto esteve no trabalho, o senhor Vítor foi até casa da Dona Irene, do 3º esquerdo, com um ramo de flores! Iguais às que lhe trouxe no aniversário, amarelinhas, só que o ramo era grande! Pedi para cheirar, mas ele disse que não podia, e foi a correr para a Dona Irene. Porque é que ela pode cheirar e eu não?
A Teresa, que aceitou durante anos as desculpas do marido sobre horas extras e cansaço, às tantas já tremia com medo das línguas das vizinhas ouvirem a Laurinha, e de repente acelerava o passo e nem se despedia da avó da miúda.
Filha, para que falas tu com a Dona Teresa? Ela não te perguntou nada! a avó ralhava, mas a razão nunca explicava.
A Laurinha ficava magoada.
Não percebia o motivo de tanta bronca, achava que não fazia mal. Ou fazia? Era mesmo difícil de entender e desagradável. Nada que uma explicação da avó não resolvesse: se soubesse porque não devia contar quem leva flores a quem, calava-se da próxima vez.
Mas a avó, depois desses episódios, ficava parada como estátua igual à do Afonso Henriques, na praça que Laurinha gostava de visitar ao domingo. Pegava-lhe firme na mão e, em silêncio, só mexia os lábios com ar severo, como a dizer que aquele dia não haveria rebuçados ao jantar.
Laurinha, claro, não gostava nada dessa consequência. Zangava-se até se lembrar que, ao contrário da estátua, a avó não tinha pombos na cabeça a fazer as suas necessidades. Por isso, o penteado dela mantinha-se impecável, ao contrário do careca do chefe do povo.
O avô adotivo gostava de alimentar a curiosidade da Laurinha.
Avô, porque é que ele é careca? Fior dela, tapando os olhos do sol, a olhar para o monumento.
Coitado, devia stressar muito! o avô era prático, respondia direito.
Estava preocupado? Devia ser muito difícil o trabalho dele, não?
Pois!
Também era dentista de crianças, como tu? Laurinha já imaginava a estátua enfiada no consultório do avô.
Só dava para rir. A estátua curvada, com as crianças a espreitar para aquele cimo redondo esburacado pelos pombos, e ouvindo lá do corredor:
Seguinte!
O avô, incapaz de aguentar, ria-se muito, às vezes até com lágrimas nos olhos.
Se fosse, filha, talvez o mundo fosse diferente! Olha que ele era rei de um povo.
Rei?! Se fosse rei, tinha penas na cabeça como no livro dos índios! Mas ele nem cabelo tem, nem penas de pombo que horror! Será que as penas serviam de toucado?
Era preciso penas de águia.
Coitadas das águias! E fazem cocó por todo o lado? A avó diz que isso é muito feio, só se faz o que é devido. Lembras-te, na pesca, quando foste ao mato? Foi aí que ela ralhou!
O avô ria tanto que olhavam todos na praça para eles, mas a Laurinha só encolhia os ombros: não via ali graça nenhuma, não fosse ela já tão crescida.
Depois, ela mudava de assunto e franzia o sobrolho, a copiar a avó:
Isso são maneiras, avô?
O que foi?
Não achas que és o cavalo do General, que se porta assim? Tem de se ter compostura! É como diz a avó: a humildade é que adorna. A ver se tens modos, que já me fazes corar!
O avô ria-se ainda mais, mas para compensar, ao voltar para casa, oferecia-lhe um gelado secreto.
Era secreto porque a avó não deixava guloseimas antes do almoço. Só que ao avô, não lhe valiam as regras da avó de vez em quando lá comia a Laurinha um gelado nos bastidores. Curiosamente, era a única coisa sobre a qual Laurinha nunca abriu a boca: era segredo dos dois.
Laurinha, se contares à avó que te dei gelado, ela nunca me perdoa.
Faz escândalo?
E que escândalo! Sabes bem, a tua avó não brinca.
Mas tu nunca lhe obedeces!
Sou homem! Que seria se fizesse tudo que diz uma mulher?
Então posso contar sobre o gelado?
Nada disso! Uma coisa é não ser mandado, outra coisa é aborrecer a tua avó. Isso é ser malandro!
Avô, és um medricas?
Não, filha só aprendi que é melhor uma paz estragada que uma boa guerra.
O que queres dizer com isso?
Um dia conto-te! Por agora, vamos comprar flores para a avó.
Para quê?
Para que ela não desconfie de ti antes da hora!
A Laurinha respeitava e adorava o avô.
Ele apareceu-lhe na vida como presente de Ano Novo. A avó, que tomava conta dela desde bebé porque os pais eram arqueólogos sempre de partida em expedições, aceitou casar-se numa segunda volta com um velho conhecido. Como era uma senhora séria, com doutoramento em Direito, acostumada a mandar e a assumir responsabilidade, nunca teve tempo para sentimentalismos, exceto por duas criaturas: a neta e este amigo de longa data, com quem a vida, cheia de partidas, voltou a juntar.
A diferença entre eles não se media só pela aparência: a avó, alta e enérgica; o avô, baixo e redondo, feito de nervos de aço, o único capaz de manter a calma no meio do furacão que era a própria esposa e da sua profissão exigente. Mas havia mais: uma ligação especial, de tal forma que, com o tempo, Laurinha nem percebia como antes viveram sem aquele homem.
Apesar de ser uma mulher razoável, a avó nunca deixou de ser romântica. Sonhava com versos ao luar ou serenatas sob a janela da casa de campo, flores na varanda, lilases ou jasmim, e tudo aquilo que os outros julgavam tolices.
O primeiro marido admirava-lhe o intelecto e, se trazia flores, era em feriados. Eventualmente, declamava-lhe o Alexandre O’Neill, quando queria ser diferente. A avó, de coração sensível, sofria. E, quando ela sofria, toda a casa padecia. Assim, o avô verdadeiro da Laurinha partiu depressa da vida da avó sem nunca perceber a mulher com quem casara.
Seguiu-se um longo inverno sem romance. Ela criou o filho, seguiu a carreira e nunca acreditou que o que esperava estivesse tão perto. Nem sonhava que bastava atravessar o passeio.
Quando nasceu Laurinha, tudo mudou. Ao pegar a neta ao colo, a avó ganhou nova vida. Havia naquela criança magrica e ruidosa um calor que lhe curou a alma.
Os pais de Laurinha eram dos melhores do país na arqueologia, mas a vida deles era entre escavações, não entre fraldas. Deixaram a filha com a avó, certos de que estava segura, e lá se foram atrás de tesouros esquecendo do maior deles.
E Laurinha, muito senhorita, fazia caretas, soprava bolhas com a boca e gritava com tanto ímpeto que os vizinhos despacharam o cão maltes. Latia ela, latia o bicho, não havia quem aguentasse. O cão foi para uns primos. As vizinhas deram mil e um conselhos sobre educação, e a avó seguiu alguns. A vida acalmou.
Laurinha crescia entre a avó e a ama, até que, ao fazer um ano, apareceu-lhe avô de surpresa.
A avó defendia que mais família é melhor. Mantinha contactos cordiais com o ex-marido, por causa de Laurinha. E explicou logo que, com ela, havia avô verdadeiro, como qualquer criança, e avô adotivo, só para Laurinha.
Com o tempo, Laurinha percebeu por si quem queria mais. Era mais próxima do avô novo, que faria tudo pela neta e pela avó.
Sabia de cor o romance de avó e avô, pois fora o dente teimoso dela, que não queria nascer, que os juntou após anos de afastamento. Laurinha berrava de dores, enlouquecia a avó e os vizinhos, até que alguém recomendou o novo dentista.
Dona Lurdes, leve a menina ao Doutor Pedro. Ele é ótimo, as crianças nem choram! Vê lá se não se aconselha bem, que já se vê que está exausta!
É pouco dizer isso a Dona Lurdes saiu disparada para o consultório ao virar da esquina.
Quando chegou, o Dr. Pedro abriu um sorriso. Ela sentiu logo que a vida ia mudar.
Aquilo era paixão antiga. Nunca admitira sentimentos por timidez e orgulho, mas agora não havia desculpas, e Pedro também não esperou. Em pouco tempo casaram, e Laurinha ganhou o novo avô.
O filho dela só quis saber se poderia continuar a contar com a ajuda a criar Laurinha, afinal o trabalho não ficava mais leve. Ficou tudo igual para bem de todos.
A Laurinha era criada com amor, não ia à creche porque se constipava a avó tentou várias vezes, mas desistiu. Bastava um dia na escola, adoecia logo meia dúzia. O avô clamava:
Deixa lá a escola, Lurdes! O importante é a saúde da menina, o resto resolve-se!
A socialização ficou para o verão na casa de campo. A família mudava-se para lá na primavera e só regressava depois. Era uma aldeia antiga, com gerações e gerações a ocuparem sempre as mesmas casas, cheias de crianças que logo faziam amizade. Ali, Laurinha já não adoecia, corria ao ar livre, dormia quase sempre na varanda grande, construída pelo avô Pedro, comendo, lendo e recebendo amigos.
Os visitantes nunca faltavam: a melhor amiga, Clarinha, os gémeos Luís e Rui, a Zézinha que queria ser bailarina. E isso só os residentes; nos verões, ainda apareciam outros.
Aos seis anos, Laurinha conheceu a Catarina.
A Catarina era muito diferente de todas as miúdas. Um pouco atrevida, cheia de energia, sabia sempre o que queria.
Encontraram-se num dia de verão. Laurinha estava a ler, provando os primeiros morangos lavados pela avó, sem esperar companhia; a Clarinha tinha aulas de francês, os gémeos foram à cidade por material escolar, e a Zézinha ensaiava ballet, estimulada pela avó com sonhos para o Teatro Nacional.
De repente, aparece-lhe uma mão suja por baixo da mesa. Laurinha gritou o suficiente para a avó Lurdes quase deixar cair o tacho de doce de morango ao lume.
Laurinha, miúda, que se passa?! dona Lurdes saiu disparada, e os gatos do vizinho saltaram do telhado, receando confusão.
A Dona Lurdes gostava de bichos, até lhes dava ração, mas a ordem era mais importante, e agora nada era regular: neta aos berrinhos, doce a ferver, e razão a faltar.
Laurinha subiu para o banco, assustada, a observar a miúda encardida, debaixo da mesa, a comer morangos sem cerimónia.
Porque gritas? Não te interessa saber porque vim cá?
A Catarina puxou a tigela para baixo.
Estão bons! Desce, senão ficas sem nada!
Nessa altura, Laurinha percebeu que ainda berrava, e interrompeu o chilique, olhando a avó, hesitante. Depois, junta-se à Catarina debaixo da mesa.
Toma! Catarina ofereceu-lhe o maior morango.
Tens as mãos sujas
E daí? Aqui no campo toda a gente tem!
A avó sossegou quando viu quem era. Dona Lurdes, já serena:
Brinquem, meninas! Há rebuçados na cozinha. Já venho! tirou o avental e saiu para a cancela, sem se preocupar com a neta espantada, que não entendeu a festa se até doces permitiam antes de almoço.
A meio caminho parou, desligou o fogão, empurrou o Pedro que dormia na varanda. Ele nem acordou dormia em todo o lado, debaixo dos lamentos da Lurdes ou da Nona Sinfonia, que adorava partilhar com Laurinha. Gritos da neta eram música para ele.
Olha pela miúda! Lurdes deu-lhe um beijo e saiu, e o Pedro espreitou pelo quintal.
Laurinha, onde foi a avó?
Foi chamar o avô! Catarina saiu da mesa, de mão estendida.
Catarina Matias.
Pedro Batista. Muito gosto! o avô aperta-lhe a mão, formalíssimo.
Assim foi o encontro delas.
Mais tarde, Laurinha soube que Catarina era filha de um amigo antigo da avó. A Dona Lurdes arranjou-lhe a casa ao lado, sabendo que o homem, sem mulher, filha ou genro (todos morreram num acidente de avião), não estava em condições de criar a neta sozinho. A avó, sabendo do desgosto, ofereceu-lhe guarida discretamente.
O avô não levantou questões. Pegou-lhe na mão, beijou-lhe os dedos e disse:
Faz o que achares certo!
Acha que será bom para Laurinha?
O que há de mau em dar nova irmã a um filho? Só faz é bem!
Achas que vamos conseguir?
Desta vez, Lurdes, somos o bastante novos para lhes dar o amor que precisam. Quanto às dúvidas, o tempo encarrega-se.
Nunca mais o assunto se falou.
O avô da Catarina, depois de lutar com as doenças, decidiu passar os últimos dias com as netas por perto. Morreu sentado na cadeira de baloiço do Pedro, sorrindo à Catarina, que foi dar-lhe um beijo:
Avô, a Laurinha diz que sou irmã dela. Giro, não é?
Com alguns meses de burocracia, a Dona Lurdes conseguiu manter a Catarina consigo.
E assim, Laurinha ganhou uma irmã diferente dela em tudo, mas daquelas amizades que unem para a vida. Era o maior presente para a avó: Laurinha nunca estaria sozinha.
A Catarina ensinou-lhe que nem tudo se diz, que às vezes o silêncio é ouro, e ajudou a direcionar o dom da análise e dedução da Laura.
Devias ser detetive! Mas o avô não aprovava detetive é vida de cão, dizia.
Então serei inspetora.
Porquê?
Ao menos uma inspetora que não aborrece ninguém! ria Laurinha, sem sonhar o trabalho que a esperava.
Mesmo que ninguém a levasse a sério que brincassem, chamando-a diferente ela tinha um objetivo. E, acima de tudo, tinha quem a apoiasse. Porque onde há amor, tudo se consegue.
Basta ouvir o refrão da avó:
Laurinha, já comeste hoje alguma coisa? Qual quê?! Que vergonha! E tu, Catarina, ris-te de quê? Deves estar igual! Andem lá, toca a almoçar, e nada de restos nos pratos! Pedro! Precisas de convite? Larga o Tóbi e lava as mãos! Coitado do bicho, sempre a inventar-lhes modas! O que é isso do rabo cor-de-rosa? Só para ser diferente? Se calhar copiei a avó Nem tinha dado conta! Olhem, não me deem dores de cabeça! A sopa está quase fria! Todos para a mesa, já!







