As chaves
Eu amo-o! E tu só me falas de disparates! Não quero ouvir mais nada! Só tens inveja e por isso te metes onde não és chamada! Deixa-me em paz! Vai tratar da tua vida!
Beatriz não gritava, berrava tanto que até o Sr. Anselmo, o vizinho surdo do rés-do-chão, parou de mexer nos pneus do Mercedes antigo e olhou de lado, aborrecido. Ele, que nunca se interessava em nada além da sua garagem, ficou, aliás, atento sinal de que Beatriz exagerava no tom.
Havia razões para tanto…
Ou assim ela achava.
Porque o estado de apaixonada era nela uma condição da alma. Quando não estava apaixonada, era como se não vivesse, apenas pairava. Os olhos esvaziavam, as ideias voavam, e os nervos eram tamanho rebuliço que até as colegas se afastavam com frases como:
Talvez precises de valeriana, Beatriz. Estás tão difícil…
Beatriz fazia beiço, rangia discretamente os dentes e pensava coisas horríveis sobre essas mulheres tão normais.
No fundo, elas tinham tudo o que ela não: marido, crianças pelas escadas, casa. E ela? Nem casa, nem marido, e nem parece que viesse a ter! O filho, Pedro, tão desejado, nunca chegara a ser o orgulho da família. Ao comparar com os primos, ficava ainda pior. Os filhos da sua irmã Ana eram extraordinários: Diogo jogava futebol e tirava notas máximas, provando que pés ágeis não excluem cabeça brilhante; Teresa, de dez anos só, já cantava e dançava em grupos, viajava a festivais. Em três primaveras vira mais do mundo que a tia Beatriz em décadas.
Dava-lhe raiva. Porquê assim? Ela também em miúda andou em clubes e cursos, mas nunca ficou tempo suficiente para se destacar. O coração mandava nela: se perdia o interesse, procurava logo outra coisa.
Ou seria assim que se devia viver? Seguir a voz que vinha de dentro, porque ninguém viria oferecer felicidade num prato: Toma, Beatriz! É tudo para ti!
Aprendeu cedo essa lição. Viu Ana curvada sobre toneladas de livros e gozava, enquanto punha batom para ir dançar:
Vê lá, Ana, estudas tanto que ninguém vai querer casar contigo! Não lembras o que dizia a avó, que mulher não pode ser mais esperta que homem? Tu nem rapazes tens atrás de ti!
Nem quero! Que se lixe, e a avó nunca disse isso!
Ai não? Eu lembro!
Nada disso! Ela dizia que mulher inteligente nunca se exibe, se ama um homem. É diferente.
Lá vens tu… Vá, ajuda-me com o cabelo, que o Paulo está à espera!
Beatriz fugia para encontros, Ana pegava noutro romance. Duas horas de silêncio eram luxo.
Amava a irmã, claro. Como não havia de ser? Não havia mais ninguém. E conhecia Beatriz por dentro e por fora: um destempero de emoções, desajeitada, insegura, mas sem maldade nenhuma. Aliás, nela havia um dom de ternura e doçura ausente em Ana. Vivia a trazer para casa bichos da rua dois gatos, um cão e, verdade seja dita, todos tiveram vida longa graças ao cuidado dela. Os pais, cientes que Beatriz não desistia, aceitaram os animais com a condição de que ficava tudo a cargo da filha. E cumpriu. Jamais pediu a Ana para passear com o cão ou limpar a areia dos gatos. Talvez porque, no fundo, era com os bichos que Beatriz se identificava.
Bia, a mãe pediu para ires ajudar a avó com a limpeza.
Vai tu, sim? Tenho coisas para fazer!
Que coisas?
Que importa?! O Óscar manca. Preciso levá-lo ao veterinário.
Já manca há uma semana!
E então? Achas que isso me obriga a trocar as dores do gato pelas da avó? A avó ainda se orienta! O Óscar é um gato, não se defende sozinho.
Discussão acabava com Ana na casa da avó e Beatriz a puxar a blusa de lantejoulas do fundo do armário. Paulo esperava-lhe no portão e o Óscar servia como desculpa para o não.
Acabaram o secundário em tons diferentes: Ana com médias invejáveis, Beatriz sem grandes brilhos. Coisa comum.
E Beatriz nem pensou muito sobre futuro. Queria ser pasteleira. Desde pequena, perdia-se a olhar vitrines de bolos, obrigando a mãe a comprar-lhe qualquer coisa. Entre comer os bolos e modelar rosas de plasticina, preferia sempre a segunda.
Novamente, caminhos opostos.
Ana mudou-se para casa da avó, perto da faculdade. Todos ganharam: avó tinha companhia, Ana dormia mais uma hora. Amavam-se e Ana apresentou Sérgio à avó antes de mais ninguém.
Vivam juntos, filhos! Há espaço para todos!
Em pouco tempo, fizeram um casamento modesto, alegre. E Ana não escondeu a intenção que a avó tinha sobre a casa:
Ficarás com a casa, Ana. A Beatriz fica com o quarto do avô, na pensão. Pena eu não ver os vossos bebés…
Mas ainda segurou o primeiro bisneto nos braços Diogo. Durou até ele ter dois anos, depois partiu. Lutou o possível para recuperar o corpo e a voz, mas foi vencida pelo coração. E Ana chorou, sentindo faltar aquele calor familiar.
Os pais aceitaram as escolhas da avó, e Beatriz também não protestou: estava embalada num daqueles amores e não quis ligar a quem ficava com quê. Só queria amar!
Amar? Nem por isso queimava-se em desejos, enquanto o homem com quem sonhava olhava sempre para outro lado. Servia-lhe bem: Beatriz arrumava, cozinhava, vinha e ia. Nunca ficava para a noite:
Sou um solteirão velho, Bia. É complicado.
Com suspiros sôfregos, ele pedia: Endireita o atelier, sim? Tenho muito com que lidar: arte, vida, amor… Estou cansado!
E Beatriz abanava a cabeça, querendo acreditar, recordando o seu retrato pouco lisonjeiro já coberto de pó num canto. Era uma lembrança viva de que, uma vez na vida, inspirara um homem.
Ganhou esse retrato como despedida, no dia em que entrou no atelier com a notícia: Estava grávida.
Andava pelas ruas cheias de luz e a vida, finalmente, era milagrosa. Mas o milagre desmoronou num instante, quando do outro lado ouviu:
Uma criança? Endoideceste?
O fim daquela paixão foi estúpido, banal. O abismo abriu-se aos pés de Beatriz, despedaçando sonhos em cacos irrecuperáveis. Recolheu orgulhos farelados e apenas pediu o retrato de volta.
Só para lembrar…
Deixaram-na levar. Nesse mesmo fim de dia, destruiu-o às tiras como quem queria expurgar aquela memória, sussurrando entre dentes:
Ainda hei de ser feliz! Tu… duvido!
Do rumo do antigo amante, nunca soube, nem quis saber. O seu filho Pedro nasceu enfim, mas não foi a alegria que esperava. Procurava-lhe parecenças ao pai nada. Pedro era calmo, silencioso, avesso a artes. Gostava de futebol ou de xadrez. Ele próprio arranjou clube depois da escola, respondendo sempre igual:
O que vês de interessante nisso, Pedro? Que aborrecimento!
Mas de aborrecido o xadrez não tinha nada. A dança das peças fascinava-o parecia-lhe música. Às vezes, rodopiava no quarto, guiando-se por uma melodia que só ele ouvia. Só se permitia esse espectáculo longe de Beatriz, pois ela detestava.
Danças? Isso não é para rapazes! Pára com isso!
Só Teresa, a prima, o compreendia.
Também ouves? olhava-o com encantamento.
Sim… música baixinha, mas linda.
Eu também… queres que te mostre?
E dançava, transmitindo em gestos a confiança de quem vive a infância em sintonia. E Pedro sentia-se menos só. Havia ali alguém sempre de mão estendida.
Mas não era ele quem escolhia. O mundo era regido pelos ânimos indomáveis da mãe. Se Beatriz e Ana se desentendiam por ninharias, logo proibiam Pedro de visitar os primos.
Pedro não tinha forças contra tanta arbitrariedade. Revoltava-se, chorava, negava comida até Beatriz se render:
Faz o que quiseres, Pedro! Já me cansas, sempre a queixar-te!
Não sabia, nunca perceberia porquê as mães discutiam. Só lhe diziam, em casa:
A tua mãe não me perdoa nada!
Porque, depois do nascimento de Pedro, Ana ajudara Beatriz em tudo até ser afastada por um dos ciúmes da irmã, ao saber de como a avó dividira os bens.
Isso é injusto! Eu sou tão neta quanto tu!
Sabes que não pedi nada! Vamos vender e dividir os euros, se quiseres, mas não quero guerras!
Não preciso da tua esmola! A avó sempre gostou mais de ti! Por isso deixou-te tudo! Eu… ninguém nunca me amou.
Isso não é verdade, Bia! E os pais? Eu?
Chamam isso amor, sem me perceberem? Achas que preciso da casa? Não. Quero é sentir que sou amada, ao menos na família!
E entre as duas irmãs instalou-se o ressentimento, construindo um ninho feito de recordações azedas e desilusões inúteis.
Olha, Beatriz, recorda: lembras quando deram a Ana uma boneca igual à tua, mas com vestido cor-de-rosa? A tua era verde… E tu choraste por querer cor-de-rosa, e Ana nem quis trocar contigo! Picuinhas! Não te esqueças, não esqueças! É tudo nestas miudezas que a vida é feita. Bonecas, roupas, rímel que nunca tiveste, o Sérgio, a casa, o emprego decente, filhos tão diferentes do Pedro, sempre perdido… Com isto se constrói a tua casa de esperança e sonho, torta, feia, mal-acabada, sempre por preencher. Porque o que lhe poderia dar forma calhou sempre à tua irmã. Mas ela é melhor que tu? Não! Falta-lhe o teu voo, a tua vontade de sonhar, de viver sem olhar para trás. Ela não sabe o que é amor amor não é aquele que inventou para o Sérgio, mas o teu, o que guarda as chaves da felicidade e nem sempre as oferece a quem quer. A Ana não sabe dessas chaves! Não sabe!
A mágoa visitava por vezes Ana, mas não edificava ninho tão sólido: de Beatriz era um muro, de Ana eram só palhinhas soltas ao vento. Bastava uma aragem e tudo se desfazia, abrindo caminhos de reconciliação. E Ana soprava, vezes sem fim, apesar dos berros de:
Tu não és minha irmã! Como podes agir assim?!
Ficava ofegante com tais injustiças, sentindo-se peixe fora de água. Tanta força era necessária para voar até à ternura antiga que unira as duas. Romper é fácil; reatar parece impossível.
Os pais foram-se juntos, quase combinados. E as irmãs ficaram afogadas na dor.
Ana, porquê? Estavam tão jovens… Tinham tanto que viver!
Bia, não se escolhe. O que pudemos fazer, fizemos. O resto… não é nosso…
Não está certo! Não é justo!
É ilusão pensar que a vida é justa. Parece, mas… na prática…
Pois. É verdade.
Ceder à irmã a partilha dos bens acalmou Ana. Beatriz tratava de papéis. E desconfiava:
Achava que ias ficar com tudo.
Beatriz murmurou estas palavras cabisbaixa, com o capucho puxado, sem encarar Ana.
As duas esperavam à porta do notário, pelo Sérgio.
Porquê assim, Beatriz? Somos família.
Não sei, Ana. Somos, mas nunca me entendeste.
Nem tu a mim… Importa?
Importa sim! Se não nos entendemos, para quê estarmos juntas?
Talvez para tentarmos entender! A vida não dá nada de borla. Devias saber isso!
Pois sei! Tu sempre tiveste o caminho fácil: marido, casa, filhos. Eu sempre sozinha!
Não é verdade E o Pedro? Não conta?
Pedro? Pedro é do mundo! Mal o vejo. Trabalho noite e dia, ele vive às tuas custas! Passa mais tempo na tua casa do que na sua!
Aqui sente-se em paz.
Vês! Eu bem digo! Queres pintar-me de má mãe! Que te fiz eu?!
Não grites! E nunca disse tal coisa! Que disparates!
Sérgio, ao chegar, encontrou Ana sozinha a chorar.
Porquê assim? O que fiz eu?
Aconchegando-a, Sérgio restringiu-se ao essencial:
Ela tem um feitio danado. Faltava-lhe vida a sério para amansar.
Ana secou as lágrimas:
Não digas tais coisas! E se algo lhe acontece?
Isso até era boa ideia!
O quê?
Que sinta pena… Não percebe quem a ama de verdade. Talvez nunca perceba.
Pode ser. Mas será sempre minha irmã! E hei de amá-la! Ana limpou as lágrimas com raiva. Mais ninguém o fará! O Pedro ainda é um miúdo.
Melhor paz podre do que boa guerra. Ana fazia tudo por se reconciliar. O fio que as ligava era frágil, mas estava lá.
Entravam e saíam homens da vida de Beatriz. Nenhum deixava traço, exceto mágoa e confusão. Porque nenhum tomava a chave que ela tendia todos diziam:
Relação aberta, Beatriz. Não compliques! Nós combinámos…
Sempre vinham prevenidos:
Não quero compromisso. Vida complicada. Entendes?
Entendia, fazia que sim, compreendendo, mas logo esquecia e, invariavelmente, era deixada, muitas vezes sem explicação.
Beatriz queria ser tudo por alguém. Sacrificava-se pelo interesse dos outros. Caçador? Aprendia nomes de raças de cães. Pescador? Lançava isco e criava iscas. Queria dar as suas chaves a alguém, mas era estranho: ninguém as queria…
Pedro, sempre que a mãe cursava nova paixão, passava mais tempo em casa da tia Ana. Sérgio e Ana trataram-no como filho seu: na cama beliche partilhava a noite com Diogo, na secretária cabiam dois computadores. À noite jogavam juntos, gritando:
Teresa, não vale! És rápida demais! Joga em equipa! Jogar contra ti é suicídio!
Ana informava Beatriz dos sucessos de Pedro:
É genial, Bia! Deviam pô-lo numa escola de ciências.
Assim está bem! Gosto que ele fique na escola do Diogo. Fico descansada. Tu vês por mim!
Só que vai cansado para casa, dorme mal.
Deixa-o ficar contigo então. Sabes a minha vida está a entrar nos eixos…
Sim. Pode ficar.
Obrigada! O Carlos é óptimo! Aceitou bem o Pedro, quer formar família!
Fez-te proposta?
Ainda não, mas está para breve! Não me atrapalhem! É o meu momento!
Beatriz… Claro. Como quiseres.
Ana não gostava do Carlos algo arrogante, ironia de lâmina fina. Ela sentia-se sempre deslocada. E Pedro, então? Beatriz nem dava por isso: só queria Carlos, não via que o filho se afastava cada vez mais, preferindo a casa da tia.
Ana protegia o sobrinho, evitava discussões, mas sabiam que Carlos queria algo: pressionava Beatriz para vender o apartamento herdado. Ana soube por acaso.
Chegando a casa, viu a confusão de sapatos sujos na entrada. Botas de Diogo, ténis de Pedro imundos, e praguejou:
Meninos! Quem está em casa?! Isto é normal?!
Teresa, aparecendo como um fantasma vinda do quarto dos rapazes, exclamou:
Mãe…
O que foi? Ana, tensa, reparou no tom entre o medo e culpa da filha.
Não te zangues! É só… o Pedro…
O quê?!
Está magoado… Pusemos gelo, mas não ajudou…
Não ouviu mais. Abraçou a filha, afastou-a e foi atrás do Pedro.
Pedro estava deitado na cama de cima, face voltada para a parede, o saco de gelo na bochecha inflamada.
Pedro, meu amor… o que se passou?
Nada.
O tom era baço, magoado. Ana percebeu: era coisa grave. Pedro não era de guardar segredos, muito menos com a única que lhe dera colo de mãe.
Ana subiu ao beliche, deitou-se ao lado e tocou-lhe suavemente no rosto inchado.
Conta-me… por favor…
Não quero.
Grave. Ana respirou, desceu e mandou os filhos esvaziar os sacos de compras, antes de regressar ao quarto dos rapazes, já de roupa de casa.
Subiu outra vez, encostou-se nele, abraçou-o.
Foi o Carlos?
A resposta era óbvia. Pedro chorava, colado à única adulta que o via, e nem vergonha tinha sabia que ela o entenderia. Não havia justiça em quem massacra uma criança ao defender a mãe, e leva um estalo de um estranho que só a quer para interesse próprio, nunca para a felicidade dela. Teresa, um dia, dissera:
Quando se ama, vê-se. É difícil de entender, Pedro?
Muito…
Mas tu ouves música, eu sei.
Ouço?
Tu sentes, ouves… Maria, amor é o mesmo que música. Se escutas, sabes logo como te mover na vida…
Mas acho que nem todos conseguem…
A tua mãe, achas que escuta?
Não vê, nem ouve. Tenta, mas não consegue.
Tenho pena dela…
Eu também!
Pedro atacou Carlos quando viu a mãe a ser humilhada. Foi travado, viu negro, depois só os olhos assustados da mãe e a pergunta murmurada:
Pedro, porquê?
Nada mais. E Pedro nem quis ouvir. O desgosto feriu como milhares de lanças de cristal, obrigando-o a cerrar-se. Enxugou lágrimas sozinho no quarto, porque um homem não chora. Carlos apenas dizia:
Isso não são modos de homem! Limpa a cara! Vai arrumar o quarto!
Apaziguado, arrumou livros e roupa na mochila, incluindo a camisola nova da tia, e foi à casa de Ana. Lá seria compreendido.
Obviamente, Ana ligou à irmã, tentando controlar as emoções. Discutir não resolvia, mas era preciso agir. Pedro amava a mãe e não merecia o esquecimento dela por causa de um homem.
Sem resposta, Ana pediu a Sérgio para a levar à casa de Beatriz. Mandou as crianças rodearem Pedro.
Chegou ao apartamento em feitio de vendaval, porque Beatriz, em lágrimas, assistia à saída precipitada de Carlos, que ainda lhe lançou insultos.
Não percebes! Amo-o! gritava ela à irmã, recusando-se a responder, sem saber como justificar o sucedido.
Quem, Beatriz?! O tipo que agrediu o teu filho?! Tens juízo algum? Já não chega andares sempre à caça de felicidade sem ver que ela está aí ao teu lado?! E o Pedro, que culpa tem?! É o teu filho!
Já nem é meu filho, é teu! Tu levaste-o! Não vive em casa! A culpa é tua, tiraste tudo!
Eu? Tirei o quê?!
A minha vida! As minhas chaves!
Que chaves?
Ana estancou, como se de repente visse as duas de fora: aos gritos num pátio, cobertas de mágoa… Era isto que os pais queriam para elas? Que foi feito do que as unia? Ia rebentar o fio que as segurava? Era justo?
O tom de Ana tornou-se brando:
Que chaves, Beatriz? O que queres dizer?
As chaves da felicidade… Beatriz limpou lágrimas, voz cansada. Tu tens, eu… e eu?
Só então Ana entendeu. Respirou fundo, chegou-se à irmã, quase forçando o abraço, como mãe que consola.
Vem cá. Ó Beatriz! Porque és assim…
Parva? É isso? tentou fugir-lhe, mas Ana segurou-a mais.
Não! É sensível, tão ternurenta… Amor nunca te basta… Isso percebo. Mas não me peças para compreender trocares um filho por outro. É errado, e tu sabes! As chaves… nunca te tirei nada! Tenho os meus problemas. Para que queria os teus? A diferença é: tu queres sempre dar as tuas chaves a alguém. Eu fico com as minhas.
E quem faz bem?
Não sei. A vida dirá.
Já disse… Beatriz fungou. E agora, como faço? Ninguém precisa de mim.
Eu preciso. Chega? O Pedro também! Chega?
Não sei…
Começa por aí. O resto virá.
E se não vier?
Então as tuas chaves nunca seriam para essa porta. E a certa ficará sempre fechada. Vais passar a vida no corredor? Sem nunca entrar?
Não!
Assim mesmo! Vais ver o Pedro?
Ele não me perdoa…
Ó Beatriz! O Pedro sabe mais da vida que tu. Sê mãe! Ou só tia?
Ana!
Vamos, Ana! Vai para o carro, já! Sérgio, dá-lhe lenços! Estão na porta-luvas. Endireita-te! Vamos, os miúdos esperam!
Pedro terá padrasto, mais tarde. E Beatriz encontrará aquele amor sereno, tranquilo. Pedro ficará com a tia Ana, escolherá aquela casa e não a da mãe, agora com nova irmã a chorar nos corredores. Mas Beatriz fará de tudo para que ele sinta que é amado, esperado. O homem que ela escolher será paciente, irá devagar, construindo, pouco a pouco, uma ligação autêntica mais forte que laços de sangue.
E, quando Pedro partir, a família irá consigo até à estação. Abraçará todos, olhará o padrasto nos olhos, dirá:
Cuida da mãe!
E o homem alto, grisalho ao canto das têmporas, apertará a mão ao rapaz, grave:
E tu cuida de ti, miúdo! Nós esperamos por ti!
Eu sei!







