Arroz de Braga em vez de Trufas: Uma Escolha à Portuguesa

Arroz-milho em vez de trufas

Eu estava diante do fogão, num lusco-fusco de fim de tarde lisboeta entre sonhos e vapores, vendo a manteiga do molho escorrer em lentos veios separados, como se o tempo se derretesse ali também. O creme de trufas, que eu esperava tão sedoso e vivo, convertia-se numa paisagem surreal de grumos e óleo, cada vez mais distante daquele esplendor que vivera no meu pensamento.

Mexia devagar, o braço dando voltas ritmadas gesto antigo, memória de tantas noites. Fora, sobre a Avenida da Liberdade, os candeeiros acendiam-se e os elétricos tilintavam como sinos de outro mundo. Outubro suspenso sobre Lisboa, penumbra morna.

Rita, falta muito? Desde as duas que tenho fome.

Henrique ficou à soleira, como sempre, um viajante titubeante naquele reino da cozinha, mãos nos bolsos, olhar enviesado não impaciente, mas feito de qualquer coisa que nunca consegui nomear em vinte e três anos.

Uns vinte minutos, só. O molho está a pregar partidas, disse sem virar a cabeça.

Vinte minutos, entendi.

Ouvi-o afundar-se no sofá, pôr a televisão em altos berros e logo sussurrar quase em silêncio um dos seus sinais tácitos que conhecia de olhos fechados.

No fim, saiu um molho passável. Quase bom, não perfeito. O arroz-milho ganhou aquele brilho puxadiço dos verdadeiros risottos, puxei lascas finas daquele trufa negra que comprei no mercado ao Ti João, largando por aquele pedaço tanto quanto antigamente gastava num almoço com a Inês numa esplanada boémia.

Pousei tudo sobre a mesa, acendi velas não por romance, mas porque a luz mansa esconde cansaços, apaga olheiras e suaviza a vida.

Henrique sentou-se, fitou o prato, demorou o olhar, tanto tempo.

De novo arroz-milho, murmurou no fim.

Pediste algo com cogumelos.

Sim, com cogumelos mas não era preciso arroz-milho. Comi risotto semana passada, no restaurante do Paulo, feito por chef, percebes? Profissional. Não há comparação.

Sentei-me de frente, peguei no meu garfo.

Prova primeiro.

Prova. Mastiga devagar, como quem é jurado num concurso estranho.

O arroz está ligeiramente mole.

Está no ponto certo. Al dente, como deve ser.

No teu entender. Está bem.

Comemos em silêncio, ele fixo no prato, eu na dança das velas. Lisboa lá fora, indiferente a arroz-milho ou aos nossos rituais quotidianos.

O molho ficou gorduroso, acrescenta, quase de prato vazio.

Não respondi.

Perguntas-te porque digo isto? Por honestidade. Se queres crescer como cozinheira, não basta afagar-te.

Eu não perguntei, disse.

Devias.

Ele foi ver futebol, eu limpei a mesa, lavei loiça, raspando a panela que tantas vezes refiz para acertar o creme aquele molho de trufas que custou tanto quanto um bom perfume e no qual gastei horas a ler um livro francês comprado num workshop a duzentos euros. Transporteio-o pela cidade, aterrada que se desfizesse antes de chegar.

Gorduroso.

Apoiei as mãos na bancada, vi a água rodopiar no ralo, limpei os dedos, fechei a luz. Fui para o quarto.

Mais um fim de dia comum.

***

Dona Glória chegou sábado às três. Sempre toca antes, para eu ter tempo de dar um jeito à sala e fazer algo de bolo para o chá. A sogra é dessas pessoas que pressentem a desordem, mas calam, apenas deslizando o olhar pelo parapeito.

Setenta e oito anos. Pequena e erecta, costas direitas como um mastro. Viúva há seis desde então mora sozinha no Lumiar, resistindo aos convites de Henrique para mudar de casa. Eu nunca a quis convencer sabíamos e calávamos.

Nesse sábado, vinha mais pálida. Notei logo ao abrir a porta.

Entre, dona Glória. Fiz bolo de nozes.

Obrigada, Rita. O Henrique está?

Foi ver o Paulo. Disse que voltava ao jantar.

Entrou direto à cozinha, tão ao contrário do habitual. Preferia a sala, aquela poltrona junto à janela.

Pus chá, cortei bolo. Sorrimos frente a frente.

Como se sente?

Assim-assim. Um pouco a tensão.

Deu uma dentada minúscula no bolo.

Está bom, disse, simples e quente. Apertou-me o peito.

Silêncio partilhado. As árvores balançam, já quase nuas no fim de outubro.

Rita, posso perguntar algo? Não leves a mal?

Digo que tentarei.

Olhou-me longo tempo.

Lembras-te que foste designer?

Claro. Não esqueço.

Boa designer?

Diziam que sim.

Eu sei que sim. Vi os teus projetos. Aquela casa em Campo de Ourique, para aquele casal médico. Estive lá, achei lindo. Pensei: há quem veja o espaço, não só a mobília.

Olhei-a sem entender.

A que vem isto, dona Glória?

Pousou a chávena, sem ruído. Gente que aprendeu a não fazer barulho.

Vem que sinto vergonha, murmurou.

Não achei resposta; nunca a ouvira falar assim. Ela, da geração do silêncio.

Devia ter dito antes. Talvez há dez anos, quando deixaste o trabalho. Mas calei. Achei que era assunto teu. Ou que era assim, pronto.

Fixou as mãos na mesa. De dedos longos, unhas limpas belas, apesar da idade.

O Henrique não gosta de comida complicada.

Por um segundo, julguei que ouvira mal.

Desculpe?

Não gosta. Nunca gostou. Tem o estômago sensível desde novo. O gastro disse há três décadas: comer simples arroz, sopa, carne cozida. O prato favorito dele é arroz-milho com bifes de frango, desde menino. Puro, com manteiga. Podia comer todo o santo dia.

O zumbido distante do frigorífico parecia uma outra vida.

Então porque pediu foie gras, trufas, porque dizia que o molho não era sedoso?

Dona Glória completou a pergunta. Olhou-me não com raiva, nem dó, algo mais antigo e grave.

Porque gostava do ritual. Gostava de ver o teu esforço. Dinheiro, tempo, ansiedade, e no fim sentares-te à espera duma sentença. Dizer que era pouco bom. Era o poder.

Pousei devagar a minha chávena.

Sabe o que está a dizer?

Sei. Esperei muito para o admitir. Trinta e oito anos calei, Rita. O pai dele fez o mesmo comigo.

O velho Manuel, marido de Glória, pai de Henrique conheci-o pouco, partiu um ano após a minha boda. Lembro-o volumoso e polido em jantares de família.

Um apreciador diz-se gourmet, não é? Fiz muito, sempre ouvia: o molho pesado, carne seca. Até que um dia vi-o comer arroz-milho na aldeia três pratos, a sorrir como em casa, sem uma crítica, só comer e ser.

Chuva miúda dançava lá fora.

Entendi. Não saí, porque era assim o mundo. O Henrique viu. Aprendeu.

Ele faz de propósito? Não era já pergunta.

Não sei se pensa nisso conscientemente. Só vive assim, como sempre viu.

Levantei-me, sem saber para onde. Fui à janela, aceitei a chuva a lamber Lisboa, os chapéus-de-chuva, as silhuetas fugidias na rua.

Dez anos.

Dez anos de workshops, livros, receitas francesas e italianas, noites perdidas a sonhar com molhos perfeitos. Julguei encontrar um novo caminho, depois de abandonar o design.

E ele comia arroz-milho, por dentro.

Porque me diz isto agora? perguntei, de costas.

Porque estou velha, respondeu. E tu, jovem ainda. Cinquenta e dois. Não é fim, é quase princípio.

Virei-me. Ela fitou-me directo, não com pena, e era isso que importava.

E porque sou culpada. Não ensinei diferente. Vivi assim, ele achou normal. É a minha falha. Mas podia ao menos dizer-te a verdade.

Voltei à mesa, peguei no chá frio.

Ele não vai mudar. Não digo o que deves fazer. Só convém saberes.

Bebemos em silêncio. Depois vestiu o casaco, ajudei-lhe nos botões duros.

O bolo estava ótimo, disse junto à porta. O melhor que fizeste para mim.

Fechou-se. Fiquei a contemplar os casacos de Henrique no cabide, como se à espera de outra vida.

***

Duas semanas passei como máquina, repetindo receitas lendárias: pato prensado, bisque de lavagante comprado de propósito, sobremesas inspiradas nas minhas leituras da primavera.

Henrique provava. Criticava. Eu calava.

Mas algo se partiu. Entre mim e a rotina. Via-me à distância: a mexer limão, polvilhar açafrão, levar prato e esperar e via, com uma clareza nova, aquela breve alegria dele antes do veredicto. Prazer da antecipação, não do comer.

Lembrava o prazer de ver um espaço pronto, ouvir o silêncio orgulhoso do cliente parado pela primeira vez na própria sala.

Tive um pequeno escritório ali para a Rua Castilho, onde eu e duas colegas discutíamos noite dentro o tom das paredes.

Henrique disse que era pouco sério: família ou essa correria? Ganhava bem, acrescia não precisavas trabalhar, muito menos aturar clientes difíceis. Alguém tinha de estar em casa.

Escolhi família. Tinha quarenta e dois, julgava ter tempo para recomeçar.

Dez anos passaram.

Peguei no telemóvel, enviei mensagem à Joana Amaral. Trabalhámos juntas, ela mantém o seu atelier até hoje. Falávamo-nos só de festas em festas.

Joana, olá! Queres tomar um café um dia destes?

Meia hora depois:

Rita! Claro, adorava rever-te. Amanhã podes?

***

Café na Baixa-Chiado. Joana mudou pouco: o cabelo com fios prateados, mais curto ainda, e essa energia boa.

Estás bem, disse-me.

Mau mentirosa! Atirei.

Ela riu alto.

Pronto, tens um ar cansado, mas bonito.

Pedi café. Hesitei.

Tens trabalho? Para mim?

Mesmo? Dez anos fora, Rita

Não esqueci tudo.

Ela girou a chávena, pensativa.

Tenho três projetos. Um deles, moradia fora da cidade cabes perfeitamente. Mas aviso: começas por estágio. Não por seres menos capaz, mas porque tudo mudou. Programas, clientes, exigências. Aguentas isso?

Sigo em frente.

E ordenado?

Como puderes.

Fitou-me. Tomou decisão.

Vem segunda. Logo se vê.

Voltei a acordar cedo, encaixar erros e aprendizagens, correr atrás das novidades. O corpo lembrava-se, mesmo que a mente vacilasse.

Em casa, servia arroz-milho.

Primeira vez, quase caricata. Cheguei tarde, cansada. Tentei olhar para o frigorífico, só me ocorria deitar. Arroz-milho e atum de lata. Um pouco de manteiga.

Chamei Henrique.

Ele encarou o prato como um símbolo estranho.

O que é isto?

Arroz-milho com atum.

Estás bem?

Cansada. Amanhã faço algo especial.

Ele sentou. Comeu em silêncio, colheres cheias. Sem um único comentário.

Olhei-o, lembrei o que dona Glória me dissera: três pratos, sorriso, casa.

No fim, levantou-se, saiu. Nenhuma palavra, nem boa nem má.

E isso apenas foi resposta.

***

A conversa surgiu duas semanas depois. Regressava cansada, subia o elevador a pensar em telecinética: conjugar cores para um projeto fora de Lisboa. Em casa, a televisão vibrava na sala.

Por onde andas? Já são oito.

A trabalhar.

Aquela Amaral outra vez.

É o meu trabalho, Henrique.

Desligou a televisão subitamente.

Não era isto que combinámos.

Que não trabalhava? Que ficava em casa? Que só cozinhava?

Em família devíamos

No frigorífico há ovos, batatas, chouriço. Se quiseres, salteia.

Olhou-me atónito, parecendo escutar marciano.

Estás a gozar?

Só digo o que há.

E as tuas trufas? E molhos? Sempre soubeste cozinhar bem!

Tirei o casaco calmamente.

Quero falar, sem guerra. Estás disponível?

Sobre quê?

Sobre nós. Sobre esta casa. Sobre os últimos anos.

Vi-lhe a armadura subir: ombros projectados, olhos apertados.

O que há para falar? Eu trabalho, tu em casa.

Já não fico em casa. Nem vou voltar.

Pronto. Decides tudo.

Estou a tentar conversar.

Ergueu-se agitado. Vaivém até à janela.

Rita não reconheço quem és agora. Tivemos uma vida normal, tu cozinhavas, eu avaliava. Era o nosso mundo.

Teu mundo, Henrique. Não o meu.

Outra vez isto Mãe encheu-te a cabeça, só pode!

Olhei-o, vinte e três anos debaixo daquele teto herdado. Nunca mexi em nada, embora visse formas melhores. Fui designer.

A tua mãe só disse a verdade. Que sempre gostaste de arroz-milho com bifes.

Um pequeno silêncio. Mas houve.

Isso não interessa, respondeu.

Comeste sem comentários há duas semanas.

Tinha fome.

Henrique, pára, só por um instante.

E parou.

Não quero guerra. Quero saber: queres tentar viver diferente? Como iguais? Ambos a trabalhar, ambos honestos, sem jogos?

Longo silêncio.

Eu nunca te humilhei, só dizia o que pensava. Sou honesto.

És o honesto que fingia não gostar de arroz-milho, enquanto eu gastava tempo e dinheiro em trufas.

Silêncio. Passou para o quarto. Portas fechadas, sem estardalhaço assinalando mais um não-dito.

Na cozinha, fritei batata. Comi só. Chá morno, ele a andar por ali, invisível.

***

Nos meses seguintes, o gelo ia-se desfazendo lentamente, sem lágrimas cinematográficas. Cada dia, mais longe do hábito comum.

Henrique tentava tudo.

Primeiro, o amuo. Sobrancelhas sombrias dias inteiros, à espera de reconciliação. Nunca fui, continuava a cozinhar simples, arrumar casa, sair para o trabalho.

Depois, ternura. Um ramo tosco de tulipas debaixo da chuva, convite para jantar fora aceitei. Conversámos, ele riu, quase esqueci.

Mas voltou o velho ritmo. Logo pergunta porque é que no sábado em vez de um festim só houve massa e salada aos amigos.

Só massa?

Sim.

Estás a brincar?

Não.

Vi-lhe o rosto o olhar que agora reconhecia, antes do golpe.

Depois berros, discussões, enumeração dos seus feitos casa, dinheiro, liberdade para eu brincar à chef. Como se tudo tivesse retorno exigido.

Não sou indústria, Henrique. Sou pessoa.

Não entendeu. Não queria.

Dona Glória ligava discreta. Chegara a tomar partido, dizia. Primeira vez na vida.

Em dezembro, Joana passou-me um projeto próprio. Apartamento em Campo de Ourique, casal novo. Angústia noturna, mas sabia fazer.

E fiz.

A cliente parou, olhou a sala, sorriu:

É bruxa das boas!

Lembro-me era isso, exatamente.

***

No fevereiro sonâmbulo, percebi: não íamos sair juntos deste labirinto. Ele queria que eu voltasse à anterior à mulher do fogão ansiosa pela aprovação. Não procurava mulher, mas espelho.

Manhoso, subtil. Não me batia, nem mentia, nem traía. Apenas sugava, gota a gota.

Dei entrada do divórcio em março.

Primeiro negou. Depois debateu; zangou. Dona Glória foi ter com ele. Não sei o que lhe disse, mas saiu de cena gelado, repartido.

O apartamento sempre fora dele. Fui para casa da Sílvia, depois aluguei na Graça pequeno, mas meu. Fiz obras básicas, escolhi cada detalhe, rindo da minha própria liberdade. Finalmente.

***

Ano passou-se.

É abril. Tenho cinquenta e três, as árvores anãs em flor no meu bairro. Ainda não sei nomes, mas gosto de as observar com o café matinal.

Faço café como a avó, simples, só grãos bons no fogão.

Joana tornou-me sócia do atelier em janeiro. Tenho projetos, insónias boas iluminadas por dilemas de espaço, não por medo.

Dona Glória liga toda semana, partilhamos bolos, longas conversas sobre silêncios, sobre o ciclo de mágoa que vai passando até alguém dizer basta.

Henrique ficou no apartamento. De vez em quando falamos sobre assuntos práticos. Ouvi que se inscreveu numa escola de culinária talvez seja verdade. Mudam-se, às vezes, quando ninguém mais observa.

Não penso muito nele. Às vezes, ao ver trufas caras numa loja. O tempo passado não desaparece, mas também não se repete.

André conheci-o em setembro cliente que queria renovar o T2 após perder a mulher para um cancro veloz. Não queria esquecer, só um pouco de mais luz, mais ar.

Entendi logo.

Ele é engenheiro, projeta pontes. Constrói ligações, pensei. Sossegado, honesto sem ser tímido, olhos nos olhos, riso simples.

Segunda vez, convidou para café. Depois, passeio. Cinema. Rimos juntos.

Sem pressas. Ambos sabemos não se apressar a vida.

Vem às sextas.

***

Hoje é sexta.

Cheguei cedo, arrumei sacos: coxas de frango, batata, cebola, cenoura, salsa. Um pão macio.

Uma espécie de empadão vai bem. Não é empadão verdadeiro, mas gosto de camadas de batata, frango, cenoura, tudo com natas e salsa ao forno. Sabor a casa, não a luxo.

Enquanto assa, mudo de roupa e deixo o aroma adensar a casa azeite, cebola, calor antigo. Casa avoenga, de há vinte anos sumidos.

Campainha tocou às sete.

Abri. André com saco de supermercado, garrafa de vinho à mostra.

Olá, disse.

Olá. Cheira bem!

Empadão. Mais meia hora.

Ótimo! Tira o casaco, mostra caixa de chocolates simples leite e avelã, igual ao de qualquer supermercado.

Lembraste disto.

Comentaste em setembro, a caminho do Chiado.

Fiquei com a caixa na mão, cheia de um sentimento sem palavras.

Guardas estes detalhes, disse.

Faço por isso.

Fomos à cozinha. Abri o forno, só mais um pouco. Ele abriu o vinho, sentou-se ao balcão.

Como vai o projeto do Lumiar?

Cliente exigente. Quer tudo, barato.

Acontece.

Pois. Mas vai sair algo bom. Aqueles tectos altos não se desperdiçam.

Assentiu, vendo-me mexer qualquer coisa.

Rita?

Sim?

Estás feliz agora mesmo?

Olhei-o. Pergunta séria, sem testes.

Agora sim. Estou.

Boa, disse, sem acrescentar.

O empadão ficou pronto. Polvilhei salsa fresca. Levei à mesa, luz simples da cozinha.

Está bonito.

Só empadão.

Cheira bem e tem bom aspecto. Não sabes fazer feio?

Rimos.

Não testei.

Comemos. Pediu mais, sem cerimónia. Falámos do seu trabalho, de ir ao Porto visitar a filha, do meu desejo de ir a Espanha no verão, só para mudar de ares. Ele sugeriu Galiza paz ali.

No fim, chá. Chocolates da caixa barata.

Fora, Lisboa abrilina, cheiro a terra molhada as árvores anãs balançavam. Pensei: pronto. É isto. Não é festa, nem evento. Só um serão simples, comida da infância, sem a espera de aprovação.

Às vezes lembro os anos das trufas, dos molhos que descolavam, do gorduroso. Tenho pena, mas também não me detenho. Lembro o quanto se constrói novamente a confiança, mesmo aos cinquenta e dois, sentada a tropeçar em programas novos, mas ficando.

Fronteiras. Palavra na moda. Mas basicamente: saber até onde sou eu, onde começa o outro. Não muro, apenas ciência: eu. Meu.

A receita da felicidade, afinal, é mesmo simples: fazer o que se sabe, rodear-se de quem vê quem somos, cozinhar o que apetece. Não esperar sentenças.

Em que pensas? pergunta André.

Empadão, sorrio.

Boa coisa para pensar.

A melhor. Chá?

Sim.

Levanto, sirvo chá a ambos. Espreito as árvores claro lá fora.

André?

Diz?

Nunca me dirás que está salgado?

Olhou-me nos olhos:

Nunca esteve. Sabia bem.

E se um dia exagerar?

Direi, mas como quem diz: menos sal para a próxima, e vou comer na mesma.

Boa resposta.

Faço por isso, diz ele, pegando no último chocolate. Posso?

Claro.

Fora, os ramos balançam e Lisboa murmura como máquina viva, alheia a trufas, arroz-milho ou anos passados. A cidade vive. E eu, enfim, também. O chá ainda quente, aroma do forno na cozinha pequena, planta nova no parapeito porque gosto dessa cor.

Só porque sim.

Assim vivo agora.

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Arroz de Braga em vez de Trufas: Uma Escolha à Portuguesa