Aquela que disse «não»

Aquela que disse não

Nina Paula Soares estava sentada na ponta de um banco na cozinha. Cortava o pão, fininho, certinho, como ele gostava. Oito fatias, todas iguais. Colocou-as cuidadosamente num prato, pôs o prato na mesa e foi mexer a sopa de legumes que fervia no tacho. Os convidados deviam chegar às seis, mas já faltavam só dez minutos.

Valério estava afundado na poltrona, diante da televisão, a mudar de canal. Não perguntava se ela precisava de ajuda. Nunca perguntava. Para quê, se tudo acabava sempre feito?

Nina ia já nos cinquenta e quatro. Trabalhava como contabilista na Escola Profissional Nº 7, em Lisboa. Um emprego tranquilo, sem barulho, feito de contas, folhas de cálculo, salários. Vinte e dois anos sempre no mesmo sítio. Os colegas respeitavam-na, o diretor não tinha queixas. Em casa, nunca falavam disso.

Os convidados chegaram às seis e meia. Veio a comadre Rima Helena Baptista com o marido, Genérico, e o irmão do Valério, Sérgio, com a esposa Lurdes. Barulhentos, bem alimentados, satisfeitos consigo próprios. Sentaram-se, começaram logo a tagarelar. Nina servia pratos, punha comida, tirava os vazios e servia mais.

À mesa discutia-se o preço das coisas, os vizinhos, o mercado municipal que abriria no bairro ao lado. Nina ouvia e calava. Estava habituada a calar-se ali.

Depois, Rima Helena puxou assunto da nova extensão do centro de saúde que a Câmara prometera para a Rua da Fábrica.

Pode ser que ali as filas sejam menores, dizia, ajeitando o colar. Agora mal se consegue consulta com o clínico geral.

Igual vai ser, respondeu Genérico. Não há médicos de qualquer forma.

Li no jornal, tentou Nina, que vão enviar lá médicos novos, é um programa da Câmara.

Valério pousou o copo na mesa. Não bateu, mas fez de forma a todos perceberem.

Nina, traz os pickles, ordenou.

Já vou, só estava a comentar o programa

Eu disse para trazeres os pickles. Para quê esse jornal? Perguntou-te alguém?

Rima Helena tossiu e ficou a olhar para a toalha. Lurdes levantou o olhar e logo baixou. Sérgio buscou mais pão.

Nina levantou-se, foi ao frigorífico, tirou o frasco de pepinos. Deixou-o na mesa. Sentou-se.

Por dentro, tudo ficava silencioso. Nem ardia, nem fervia. Era uma paz parecida à da casa vazia, quando todos saem e a gente nem sabe ao certo porque ficou sozinho.

Os olhos pousaram-lhe nas mãos, imóveis no colo. Mãos já não jovens, com nós inchados, unhas bem cortadas. Trinta anos sempre a fazer qualquer coisa cozinhar, lavar, passar a ferro, cortar, esfregar, carregar. Trinta anos.

O prato dos pickles. Foi ela que os fez, em Agosto, debaixo de calor. Ninguém quis saber se era difícil. Ninguém agradeceu. Limitaram-se a comer.

O resto da conversa seguiu como se nada tivesse acontecido. Genérico falava do conhecido que comprou um carro usado e estava radiante. Rima ria. Valério assentia, servia bebida.

Nina pensava nas mãos.

Pensava que foi com aquelas mãos que há vinte anos costurou as cortinas daquela sala. Comprou tecido com o próprio dinheiro, porque ele dissera não ter. Costurou à noite, depois do trabalho, já que de dia era para limpar. As cortinas ainda estavam lá. Apostava que ele nem notara.

Após a sobremesa, Valério disse:

Nina, anda lá arrumar isto. Estás aí sentada porquê?

E nesse instante, algo mudou. Sem barulho, sem drama, como um interruptor que se liga ao contrário: não para acender a luz para acabar com a escuridão.

Não, responde Nina.

Valério virou-se, incrédulo.

O quê?

Não. Estou cansada. Quero ficar sentada.

A mesa calou-se imediatamente. Rima Helena olhou-a de frente. Lurdes parou de mastigar.

Estás doida? murmurou Valério, com aquele tom frio que usava quando queria que ela entendesse sem escândalo.

Não estou. Só estou cansada. Quero sentar, só isso.

Levantou-se, não para a cozinha nem para a mesa. Para a porta. Saiu, fechou a porta do quarto à chave. Lá estava sempre a chave, mas nunca a usava. Desta vez trancou.

Do outro lado, ouvia Valério, a explicar algo aos convidados, a rir. Depois o som da loiça devia ser Lurdes a arrumar. A boa Lurdes, sempre tão compreensiva.

Nina sentou-se na cama e ficou a olhar a janela. Lá fora, o poste de luz, um naco de céu. Outubro, as folhas já tinham caído, só ramos pretos e nus. Feios, mas honestos.

Ficou ali muito tempo. Ouvia os convidados a saírem, a porta a bater, Valério na cozinha, depois parado à porta do quarto.

Abre.

Não respondeu.

Nina, estou a dizer para abrir. Precisamos falar.

Amanhã. Hoje vou dormir.

Ele ficou. Ela escutava a respiração dele. Depois afastou-se.

Nina deitou-se em cima do cobertor, vestida, a olhar o teto. Pela primeira vez em muito tempo não sentia medo. Era estranho. Antes, sempre que fazia algo errado, o medo era constante e silencioso. Agora havia paz.

Talvez porque, afinal, fez finalmente o que era certo.

De manhã, Valério saiu para o trabalho às oito. Trabalhava numa fábrica, era chefe de turno, saía cedo. Nina ouviu-o arranjar-se no corredor, tossir, fechar a porta com estrondo.

Ficou na cama, esperando que o barulho dos passos sumisse nas escadas.

Depois levantou-se, lavou-se, abriu o armário.

Tinha só uma mala antiga, castanha, de cantos metálicos. Tirou-a debaixo da cama, pôs em cima da colcha. Abriu. Cheirava a pó e a passado.

Fez as malas sem pressas, mas também sem hesitação. Roupa interior, três camisolas, duas calças, uma camisola de lã. Os documentos estavam na gaveta do aparador; agarrou todos cartão de cidadão, caderneta da Segurança Social, cartão do banco. Uma caixinha com brincos da mãe, o anel da avó. Sapatos de trabalho, chinelos.

Olhou a volta.

Nada ali era seu. O roupeiro foi ele que escolheu. O sofá também. O tapete compraram juntos, mas ela queria outro, ele preferiu este. As cortinas eram dela, mas já faziam parte da casa dele.

Fechou a mala.

Na cozinha, bebeu chá, de pé. Olhou o fogão, a panela da sopa do jantar anterior. Deixou estar.

Vestiu-se. Pegou na mala, e numa sacola com os documentos. Saiu. Fechou a porta. Largou a chave em cima do capacho.

Lá fora, estava frio e húmido. Cheirava a folhas mortas. Nina pousou a mala no passeio, ficou a respirar. O céu era opaco e cinzento. As pessoas iam apressadas para os empregos, sem reparar nela.

Pegou na mala e caminhou até à paragem do autocarro.

Galina Fernanda Monteiro morava na Rua do Jardim, num T2 no terceiro andar. Trabalhava na mesma escola profissional, dava aulas de Economia, era oito anos mais velha que Nina. Eram amigas, se assim se podia chamar à relação: tomavam chá juntas ao almoço, às vezes iam a pé até à paragem, conversavam. Galina era viúva, sem filhos, vivia sozinha e parecia não se incomodar com isso.

Nina tocou-lhe à porta às dez e meia.

Galina abriu de robe, chávena de café na mão, ar ainda ensonado estava de férias.

Nina? fitou-a, viu a mala, o rosto de Nina, hesitou um segundo. Entra.

Nada de perguntas desnecessárias à porta. Apenas isso: Entra.

Nina entrou. O apartamento estava quente, cheirava a café e livros. Prateleiras por toda a parte, até no hall. Um gato cinzento cruzou-se rápido, cheirou a mala e desapareceu.

Senta, disse Galina. Vou preparar café.

Sentaram-se na cozinha. Nina foi contando. Não tudo, não em ordem, só o que vinha à cabeça a noite anterior, os pickles, o quem te pediu opinião. As cortinas, os trinta anos.

Galina ouvia sem interromper uma qualidade rara nela.

Compreendo, disse por fim. E não te vou perguntar se foi certo. Não é comigo. Podes ficar cá em casa até perceberes o que fazer.

Não quero ser peso, disse Nina. Faço as lidas da casa, cozinho, limpo.

Nina, Galina olhou-a com doçura firme. Aqui não vieste como criada. Esta é a minha casa, e tenho prazer em ter-te cá.

Nina fitou a chávena. Sentiu um aperto na garganta. Não lágrimas, não, simplesmente um aperto, como quando se larga um peso demasiadamente tempo seguro.

Galina cedeu-lhe o seu antigo escritório pequeno, com um sofá-cama, secretária, mais prateleiras de livros. Nina pôs a mala, tirou as roupas para o armário minúsculo, fez a cama.

Deitou-se e sentiu: este é o meu quarto.

Pela primeira vez em anos, tinha um espaço só seu.

Claro que cozinhava e arrumava. Não porque devesse, mas por hábito, e porque era a sua forma de agradecer. Galina resistiu ao início, depois aceitou, sorrindo. De manhã tomavam café juntas, às vezes falavam muito, outras ficavam as duas em silêncio, cada qual com o seu livro.

Era um silêncio novo: partilhado, tranquilo, onde não era preciso justificar nada.

Nina voltou ao trabalho na segunda-feira. A contabilidade era só ela e duas auxiliares mais jovens. As colegas olhavam-na de lado, perceberam algo mas não perguntaram. Nina fazia o trabalho sem falhas, como sempre.

O diretor, Bento Nogueira, chamou-a ao gabinete no fim da semana.

Sra. Nina, está tudo bem? perguntou, com sinceridade rara.

Está sim, sr. Bento. A minha situação mudou, mudei de casa. Não afetará o serviço.

Só quis saber de si, explicou ele, bondoso. Força.

Obrigada. Vou-me aguentando.

Era verdade. Sentia-se mais leve. Literalmente, como se alguém lhe tivesse tirado um peso do peito.

Os jovens da escola eram todos diferentes, dos dezasseis aos dezanove, barulhentos, por vezes malcriados, mas genuínos. Nina não dava aulas, trabalhava na contabilidade. Ainda assim, passava pelas listas de bolsas de cada aluno. Às vezes via-os no corredor, a rir. E sentia que aquilo lhe sabia bem.

Pensava que também tinha algum futuro à sua frente. Era um pensamento estranho e novo mas começava a aceitá-lo.

Valério começou a telefonar ao terceiro dia.

Primeiro para o telemóvel. Nina atendeu só uma vez:

Estou viva, Valério. Preciso de tempo. Não ligues.

Ele ligou ainda mais vezes. Ela não atendeu.

Depois ligou para o número da secretaria. A jovem Catarina atendeu e veio, embaraçada, chamar Nina:

Sra. Nina, é o seu marido

Diz que não estou, Catarina.

A rapariga olhou-a espantada, mas foi e disse.

Novembro chegou frio. Galina tirou do armário um aquecedor velho e pôs no quarto de Nina. À noite viam televisão juntas, tomavam chá com bolachas, ou conversavam.

Galina falava do marido, falecido dez anos antes. Contava como aprendia a viver sozinha, e como percebia que solidão e liberdade, às vezes, eram a mesma coisa.

Não te estou a aconselhar a ficar só, dizia. Só digo para não teres medo. Tens visto como te tens dado. Têm medo?

Não, respondia Nina.

Pronto.

Nina pensava nisso. No medo. Valério sempre dissera que sem ele ela não sobreviveria, que não aguentaria sozinha, que ninguém queria uma mulher de meia-idade, ainda por cima contabilista. Palavras que viveram nela anos como inquilinos que nem pagam, mas não se conseguem despejar.

Mas agora ela estava a viver. E não se perdia.

O salário era pequeno, mas Galina não pedia dinheiro pela hospedagem. Nina fazia compras, cozinhava, todos contentes. Às escondidas, começou a pôr algum de lado. Pouco, mas todo o mês. Não sabia bem para quê. Para o futuro.

Em dezembro, pouco antes do Natal, ele apareceu.

Nina vinha do emprego, já de noite (anoitecia às cinco). Virou para o prédio da Galina e viu-o.

Estava à porta, Valério. Mesmo casaco castanho, sem gorro e já faziam uns três graus. Estava mais velho, achava Nina, ou talvez ela o visse de outra forma agora.

Nina, disse ele.

Ela parou, a três passos de distância.

Como me encontraste?

Toda a gente sabe nesta rua.

Nina assentiu. Cidade pequena.

Precisamos falar, disse ele.

Fala.

Olhou em redor, meio embaraçado.

Entramos? Está frio.

Devias trazer gorro, disse Nina. Fala aqui.

Calou-se um pouco. Depois:

O que é isto, Nina? Ficaste doida? A casa está às moscas, cheia de porcaria, nada feito. Eu não percebo de nada disso.

Vais aprender.

Ah, fácil para ti dizer. Remexeu-se. Não fiz de propósito, Nina. Tenho feitio difícil. Mas não é razão para acabar o casamento.

Trinta anos, Valério, disse ela. Trinta anos a escutar-te, a fazer como querias. Cozinhava, limpava, recebia visitas, calava quando gozavas comigo à frente de outros. Trinta anos.

Às vezes exagerava, talvez

À mesa, disseste quem te mandou falar?. Não foi a primeira vez. Foste sempre assim quando eu te contrariava. Para ti eu era a criada, cozinheira, arrumadeira. Nunca reparaste que eu era pessoa.

Deixa-te disso, protestou. O tom começou a ficar áspero, aquele tom que sempre a fazia calar. Falar, falar Mulher deve

Basta, disse Nina.

Ele calou-se. Ela mesma estranhou como dissera aquele basta: seco e firme.

Não quero ouvir o que deve a mulher. Ouvi isso trinta anos. Diz-me, Valério: além da casa, o que sabes sobre mim? Que livros gosto? Que filmes me fazem rir? O que penso quando lavo a loiça?

Ele olhava só.

Pois, disse Nina. Sempre quiseste uma mulher que fizesse tudo bem feito. Não era a mim que querias, era uma funcionária a custo zero.

Estás estranha, murmurou ele, perdido, quase triste. Ideias novas, deve ser da Galina.

São as MINHAS ideias, disse ela. Sempre as tive, só nunca disse.

Abotoou o casaco. Começou a nevar, devagar.

Não volto, Valério. Não é birra, nem mau humor. Fiquei porque me sentia mal. Foi tão simples.

Ficas sozinha vês bem? Sozinha na idade que tens. Pensaste?

Penso preciso-me a mim própria. Basta-me.

Virou-se e foi para o prédio.

Nina! Oh, Nina, espera!

Não virou sequer. Marcou o código, abriu a porta. Os flocos de neve já lhe pesavam nos ombros.

Galina devia estar a ver pela janela porque abriu antes de Nina tocar.

Vi, disse só.

Sim, respondeu Nina. Já está.

Queres chá?

Quero.

Foram para a cozinha.

Nina serviu-se de chá, segurou-a com as duas mãos. As mãos tremiam-lhe ligeiramente. Não por medo nem frio: é apenas o corpo a reconhecer um fim antes da cabeça.

Estás bem? perguntou Galina.

Estou. Aliás, estou mesmo bem. Como se lhe tivesse devolvido algo que há muito devia.

Uma dívida?

Não. Nina abanou a cabeça, sorrindo. A expectativa. Sempre esperei que mudasse, dissesse algo de gente. Veio só dizer que não tem nada para comer. Sorri ao pensar. Não tem comida.

É sincero, ao menos, disse Galina.

Sim, sincero.

O inverno passou. Nina tratou da papelada, foi ao advogado senhora de cabelo branco, despachada, habituada a casos destes. Não havia muito a dividir. O apartamento era dele, comprado antes da união. Nina não discutiu. Levou só o que era dela, que tinha ganho.

Custou, claro. Houve noites em que, na cama pequena, pensava: cinquenta e quatro anos, sozinha, futuro incerto. Era um medo verdadeiro, não o evitava. Apenas pensava nele, depois adormecia.

De manhã, ia trabalhar. E voltava a serenidade.

Uma noite de janeiro percebeu já não sabia quando tinha tido a última dor de cabeça. Anos seguidos, dor de cabeça quase todas as noites. Pensava que era da idade. Afinal, tinha desaparecido.

Era uma novidade pequena, mas enorme.

Em fevereiro, chegou professor novo para as disciplinas técnicas. O anterior reformou-se, veio então André Simões Carvalho, quarenta e oito anos, vindo do politécnico de Setúbal. Dava Tecnologias e Produção Industrial. Chegou sem espetáculo.

Nina viu-o primeiro no refeitório. Sentado no canto, a ler um livrinho e a comer arroz de pato, calmamente.

Passou por ele. Ele olhou, acenou. Só isso cordialidade, nada mais.

Na semana seguinte, cruzaram-se no corredor do diretor. Nina levava pastas.

Sabe onde posso imprimir uns papéis? O da sala dos professores não dá.

No gabinete de contabilidade temos impressora, disse ela. Se for urgente, vá lá.

Obrigado.

No dia seguinte ele apareceu, pen na mão. Nina imprimiu três folhas, disse que não era nada. Ele agradeceu e perguntou:

Já trabalha cá há muito?

Vinte e dois anos.

Isso é tempo.

Pois é. Muito tempo.

Já sabe tudo da casa.

Do que encontrar e pedir, sim. O resto é igual em todo o lado.

Ele riu-se. Sem exibição, genuíno.

Depois começaram a conversar mais vezes no refeitório. Primeiro minutos, depois mais. Ele perguntava pelos gostos dela. Era uma sensação nova; ela percebeu que estava mesmo interessado no que tinha para dizer.

Um dia falaram de livros. Nina confessou: adorava ler, mas anos sem tempo.

E agora?

Voltei a ler. A casa da Galina está cheia de livros, começo por ali.

O que lê agora?

Nina corou era um romance antigo, de campo, achava pouco relevante.

Um da Maria do Céu, achei na estante. Gosto.

Sim, muito bom. Fala das pessoas.

Exato, das pessoas.

Depois, ele emprestou-lhe um do Ramos Rosa. Deixou discretamente na secretária e saiu.

Nina apanhou o livro, espiou a capa, espiou a porta. Sentiu cá dentro um calor tímido, frágil, como o primeiro dia de primavera. Decidiu não forçar nada. A vida ensinara que, sem pressa, as coisas acontecem.

A primavera chegou no fim de março. A neve derreteu em poucos dias, o chão ficou escuro e húmido, os arbustos do jardim começaram a rebentar. Nina, a sair do trabalho, reparou nos rebentos. Parou, olhou. Pequenos, vivos.

Lembrou-se que há um ano, por esta altura, voltava para casa para Valério. Também seria primavera. Mas então, só pensava em batatas e cebolas, camisas para passar, lembrar do canalizador, sempre a rodar nunca a olhar à volta.

Agora olhava para os rebentos.

André Simões encontrou-a à porta da escola, por coincidência. Iam ambos para a paragem.

Que dia lindo, comentou.

Está, sim.

Queria convidar, começou, hesitante, que lhe agradava: Para o museu da cidade, domingo. Abriram exposição sobre história da fábrica. Como sou de produção, interessa-me.

Nina olhou-o.

Museu municipal, é?

Sim, a exposição nova do metal. Podemos ir juntos?

Combinado.

Disse isto serena, sem justificações internas. Simplesmente aceitou.

No domingo, estava claro e fresco. Visitaram as salas, André explicava sobre as máquinas e a história. Nina escutava, fazia perguntas. Depois tomaram café no bar do museu, não era bom mas ambos fingiram não notar.

Não estou a aborrecer-te? perguntou ele, tímido.

Porquê?

Falo muito de trabalho, de máquinas

Quem te disse?

Alguém já disse.

Eu digo se fico cansada. Se não, ouço porque me interessa.

Ele assentiu.

É bom, assim disse. Que se possa falar abertamente.

Ela sabia. Não era sobre conversa chata, era sobre ser livre para responder. Para ele aquilo significava muito. Talvez fora habituado a outra coisa ela também.

Assim, sem pressa e sem nomes, nasceu algo entre eles. Duas pessoas adultas, a darem-se bem.

Nina pensava: isto é que é felicidade de mulher. Não glamour de filme. É acordar com vontade de levantar.

Ter alguém que pergunta pelo que pensas e fica à espera da resposta.

Ninguém diz quem te pediu para falar.

No início de maio, dia de mercado. Nina foi buscar salsa e rabanetes. Muita gente, cheiro a terra e legumes frescos. Passava nos corredores, olhou para o expositor mais à frente.

E viu Valério.

Estava junto aos talhos. Mais magro, o casaco pendurado. As faces cavadas, olheiras. Falava com o talhante, sem jeito.

Nina parou. Não de medo só olhou.

Esperava sentir alguma coisa: pena, raiva, rancor. Qualquer resto antigo.

Mas nada.

Era apenas um homem junto ao talho. Envelhecido, desamparado. Partilharam trinta anos de vida. Era parte dela mas já não era tudo.

Nina desviou-se, comprou a salsa, rabanetes, um molho de coentros para Galina, porque ela gostava na sopa. Saiu do mercado.

O mês de maio cobria Lisboa de calor manso. Nina andava pelo passeio, a sacola morna, a salsa a cheirar mesmo a verão.

E pensava: isto é começar de novo. Não é só uma decisão, mas todas as pequenas coisas juntas: o dia da mala, o chá na casa da Galina, o trabalho que agora lhe parecia vivo, o livro novo, o museu com café aguado, aquele maio.

Sair de casa não é o fim é o início. Depois há que viver. E ela estava a viver. Aprendia todos os dias a olhar ao redor, a diferença entre suportar e partir já tinha percebido. Custara, mas era certo.

Realismo psicológico, lembrou-se. Já lera isso, mas só agora entendeu: é viver sem enfeites nem terror. Vivia-se de uma forma, depois não dava mais, depois mudou. Custou, foi difícil, houve solidão. Mas foi também bom.

A vida de uma mulher é sempre diferente. Nina nunca achou a sua história nem moral, nem heroica. Era apenas dela.

Dobrou a esquina da Rua do Jardim. Subiu ao terceiro andar, tocou à campainha. Galina abriu, de avental e colher na mão.

Entraste mesmo a tempo. Estou a fazer sopa fria.

Trouxe coentros, disse Nina, a mostrar o molho.

Boa rapariga. Vai lavar as mãos.

Tirou o casaco, entrou na cozinha, abriu a torneira. Água a correr pelas palmas.

No domingo ia ao campo com André Simões. Ele queria mostrar-lhe a barragem antiga, cheia de soluções técnicas. Ele falava, Nina ouvia, querendo ouvir.

Sabia-lhe bem.

Enxugou as mãos, voltou para a cozinha.

Queres ajuda?

Corta os ovos, anda.

Nina pegou na faca. Cortava os ovos em cubos iguais, com destreza.

Dessa vez era para ela, para Galina. Por escolha, não por dever. A diferença sentia-se, não é possível explicar.

Lá fora brilhava sol. No pátio gritavam miúdos em bicicletas. Cheirava a coentros, a primavera.

Galina, disse Nina, nunca te arrependeste de ficar sozinha depois do António?

Galina pensou antes de responder, como sempre.

Senti falta dele, claro. Era bom homem, custou-me. Mas de estar só, nunca. Já disse: não é não ter medo.

É, já tinhas dito.

E tu agora, estás sozinha?

Nina sorriu, olhando os ovos.

Não propriamente.

Galina viu-lhe o rosto, não disse nada só assentiu e voltou à sopa.

Aqui não há moral nenhuma. Só a vida. A vida comum e real de uma mulher portuguesa chamada Nina Paula Soares, contabilista, cinquenta e quatro anos, que um dia se recusou a arrumar a mesa e achou surpreendente como bastava tão pouco.

E como por trás desse pouco estava tudo.

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Aquela que disse «não»