Após a venda do terreno, o avô apareceu e impôs as “suas regras”.

Com a chegada da primavera, os meus pais tiveram aquela típica ideia portuguesa de pôr o terreno à venda. Já estavam na idade da reforma e a saúde não era de ferro para andar a dar cabo das costas no campo. A filha, uma Lusitana de gema chamada Magda, estava a criar os filhos, trabalhava até à noite e não tinha tempo nem para cozer um ovo, quanto mais para ajudar na horta. Depois de muito pensar e pesar prós e contras, decidiram avançar.

Magda, a filha mais velha, respirou de alívio: já não ia ouvir mais indirectas pela falta de ajuda nos tomates nem tomates, nem deslocações para fora de Lisboa. Durante meses, Magda insistiu para os pais venderem o terreno e, se muito, comprarem um que ficasse mais próximo de casa. Não queria gastar fins-de-semana a arrancar ervas, mas sim a ler livros e a comer uns pastéis de nata ao ar livre. Para mim, aquilo era só uma fonte de compotas de pêssego e marmelada.

Os fins-de-semana passavam a correr para Magda e o marido, Vasco tempo para tarefas domésticas era coisa rara. Vasco tinha aquele trabalho típico de português, sempre tão flexível que podia ser chamado ao serviço até ao domingo de manhã. Magda percebia bem: o terreno dava mais chatices do que descanso e, depois de cada fim-de-semana lá, precisava de um spa para recuperar.

Magda ficou satisfeita com a decisão. O terreno foi vendido, e durante uns anos viveram em paz, como bons lisboetas. Depois, a nossa heroína começou a sentir falta de um espaço para relaxar ao estilo português. Sonhava acordada com um jardim na zona de Sintra onde pudesse respirar ar puro. Vasco sugeriu comprar um novo terreno.

O trabalho estabilizou, e ao fim-de-semana era possível fugir para o campo. Seria ótimo para as crianças uns limoeiros e amoreiras para lhes dar vitaminas, nada de campos de batatas ou cebolas. Avisaram logo aos pais: só queriam relaxar, nada de plantar ou de descartar espantalhos. Todos adoraram a ideia. Só faltava encontrar o terreno certo.

Analisaram várias opções, de Cascais a Setúbal. Finalmente, encontraram o ideal: uma casa boa, plantações suficientes, tudo a pedir uma tacinha de vinho. O vendedor era o avô Joaquim. Viúvo, já não cuidava da horta e decidiu vender.

Tudo foi tratado. Magda parecia uma criança na Festa de São João: conseguiu o terreno dos seus sonhos. Era bonito, habitável, nem precisava de obras no momento. Decidiram começar a melhorar durante o verão e assim fizeram.

A primeira semana foi tranquila até demais… depois, o avô Joaquim começou com as visitas-surpresa. Avisava que ia buscar as tralhas restantes. Ninguém questionou, mas ele começou a lançar críticas: Porque tiraram o arbusto? Aquilo era seco, mas era tradição! Depois veio com as callas que já ninguém queria.

Avô Joaquim insistia que nunca tinha concordado com aquilo. Eu e a tua avó plantámos aqui esta árvore, dava sempre frutos! E o medronheiro, fazem falta os medronhos! E quando descobriu pedras decorativas no lugar dos morangos, ficou indignado.

O avô Joaquim percorria o terreno a fazer inventário das suas indignações. Vasco perdeu a paciência e disse: Ó avô, pagámos bem pelo terreno. Isto está no nosso nome. Agora, quem decide somos nós.”

Afinal, no contrato nada dizia que o antigo proprietário podia continuar a brincar ao jardineiro. Joaquim foi embora, mas retornou no dia seguinte, planta na mão, pronto para substituir o roseiral.

Vasco quis saber o que se passava. O avô propôs devolver o dinheiro e ficar com o terreno para si. Recusaram, mas ele plantou o arbusto na mesma. Depois veio a vizinha, Dona Margarida, espantada ao ver o antigo dono ainda ali. Joaquim queixou-se dos novos proprietários, mas Margarida explicou que Magda e Vasco tinham direito a organizar a horta à sua maneira. Infelizmente, ninguém conseguia explicar isto ao reformado.

Pouco depois, a vizinha contou que o avô Joaquim já estava de mal com toda a rua, desde que a mulher se foi. O comportamento dele era mais estranho do que um português que não gosta de futebol e Magda já sabia, paz era coisa que não ia ter: Joaquim voltava sempre.

Dona Margarida sugeriu ir à junta para explicar ao avô a situação. Enquanto conversavam, o avô conseguiu plantar mais um arbusto e fugir sem ser visto. Repetiu a proeza várias vezes: vinha buscar coisas, fazia alterações na horta e desaparecia.

Logo de manhã, Vasco foi trabalhar para uma empresa de construção, um clássico em Portugal. Contou a história aos colegas, e eles disseram logo que o terreno vinha com brinde avô incluído. Não faltaram ajudas: começaram a erguer um muro à portuguesa. O avô só desapareceu durante uns dias, mas ao voltar encontrou um belo muro e não pôde entrar à vontade como antes.

Reclamou, tentou passar, mas acabou por ir à junta. Lá, já sabiam da história e da dificuldade de dar sossego aos novos proprietários. Não sei o que lhe disseram, mas depois disso, Joaquim só voltou uma vez para buscar as últimas caixas de tralha.

E assim, Magda e Vasco lá conseguiram, finalmente, o seu paraíso de fim-de-semana com pedras decorativas, limoeiros e, claro, um muro à portuguesa!

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Após a venda do terreno, o avô apareceu e impôs as “suas regras”.