Aos 62 anos, encontrei o amor novamente e éramos felizes — até ouvir a conversa dele com a irmã

Aos 62 anos, conheci um homem e estávamos felizes até ouvir a conversa dele com a irmã

Nunca imaginei que, aos 62 anos, pudesse apaixonar-me outra vez com aquela intensidade de adolescente. As minhas amigas gozavam comigo no café, mas eu andava radiante como uma miúda que acabou de ganhar uma bola de Berlim na praia. O nome dele era Manuel um pouco mais velho que eu, mas com um brilho nos olhos de fazer inveja aos moços do Bairro Alto.

Conhecemo-nos num concerto de música clássica ali no Teatro São Carlos a conversa surgiu por acaso no intervalo, a propósito das cadeiras desconfortáveis e da eterna humidade de Lisboa. Descobrimos gostos comuns e, de repente, já estávamos a rir como dois amigos de infância. Lá fora, chovia de mansinho e o cheiro da terra misturada com o fado ao longe dava-me aquela sensação de segunda juventude.

O Manuel era educado, atencioso e com um humor típico português ríamos sempre a recordar histórias dos tempos do escudo e dos gelados de gelo. Sentia-me a reencontrar o sabor da vida ao lado dele. Mas, ai, aquele junho soalheiro estava prestes a ser ensombrado pela nuvem de um segredo que eu ainda desconhecia.

Começámos a ver-nos com frequência. Cinema, conversas sobre livros, filosofias de balcão e partilhas sobre os anos de solidão a que, francamente, já ia tomando o gosto. Um belo dia, convidou-me para a casa de campo junto à Barragem de Castelo de Bode um pedaço de paraíso! O ar sabia a pinheiro bravo e ao longe o pôr-do-sol fazia ouro na água, daqueles momentos de capa de revista.

Uma noite, depois de um jantar de sardinhas, o Manuel saiu para tratar de uns assuntos na vila. No entretanto, o telemóvel dele começou a tocar. No visor, lia-se: Catarina. Não fui mal-educada não atendi, claro! mas ali instalou-se o bicho-da-inquietação. Quem seria a Catarina? Quando voltou, explicou-me que era a irmã e estava adoentada, tadinha. Disse isto com uma sinceridade tão sentida que acalmei os meus fantasmas pelo menos, nessa noite.

Contudo, os sumiços começaram a ser mais frequentes. A Catarina telefonava religiosamente todos os dias. Não conseguia livrar-me do pressentimento de que me faltava uma peça no puzzle. Estávamos tão próximos mas havia qualquer coisa que ele me escondia.

Numa dessas madrugadas de insónias, reparei que ele não estava na cama. A casa de madeira tem paredes fininhas ouvi a voz baixa ao telefone:

Catarina, espera só mais um pouco Não, ela ainda não sabe Sim, estou a par disso Mas preciso de mais tempo

As mãos tremeram-me como varas verdes: Ela ainda não sabe era eu, estava-se mesmo a ver! Voltei-me para o lado, a fingir um sono sereno de menina do campo, mas cá dentro o cérebro fazia perguntas a cem à hora. Que segredo será este? Porque é que precisa de tempo?

De manhã vesti-me, inventei que ia à feira buscar fruta fresca e fui afogar as mágoas num banco de jardim. Telefonei à minha amiga de sempre:

Beatriz, nem imaginas! Sinto que o Manuel e a irmã andam metidos em sarilhos. Dívidas? Trambiques? Estou a imaginar o pior, logo eu, que já estava a voltar a acreditar nos homens.

Do outro lado, a Beatriz suspira como só uma portuguesa sabe:

Ó mulher, falas com ele, ou então vais acabar a comer ansiedade às colheradas!

Nessa noite, não aguentei mais. Quando o Manuel chegou de mais um dos seus passeios misteriosos, enfrentei-o, a voz quase a sair-me à martelada:

Manuel, por acaso ouvi parte da tua conversa com a Catarina. Disseste que eu ainda não sei de nada. Explica-me, por amor de Deus: o que se passa afinal?

E pronto! Ficou branco como uma calçada ao meio-dia. Baixou os olhos e lá confessou:

Desculpa Ia contar-te. Sim, a Catarina é minha irmã, mas está cheia de problemas financeiros. Dívidas até dizer chega, está quase a perder a casa. Pediu-me ajuda e, olha, gastei quase todas as minhas poupanças. Tive medo que, sabendo disto, achasses que eu era um projeto de desastre e fugisses antes de podermos construir alguma coisa juntos. Queria resolver tudo primeiro, negociar com o banco, essas coisas

Então e aquela do ainda não sabe?

Era medo, Eva medo que me deixasses. Tu apareceste na minha vida agora, depois de uma eternidade sozinho. Não queria encher-te com fardos que nem eu aguento.

Cortei ali com os filmes e teorias não era outra mulher, não era vida dupla, nem burla internacional. Era o velho medo português de perder o pouco que se tem. E o amor genuíno pela irmã.

Vieram-me as lágrimas aos olhos, mas senti logo aquele alívio de quem descobre que o monstro no armário nada mais é do que um casaco velho.

Peguei-lhe na mão, com firmeza:

Se tenho 62 anos é para ser feliz, não para me perder em dramas de novela. Vamos resolver isto os dois, Manuel. Contigo, não fujo dos desafios.

Suspirou que até fez abanar os vidros, e abraçou-me com a força dum pescador. Ao luar, vi-lhe o brilho nos olhos, e até os grilos pareceram cantar mais alto nessa noite de aroma a pinheiro e promessas.

Na manhã seguinte, liguei eu própria à Catarina e ofereci-me para ajudar com as papeladas do banco. Sempre gostei de resolver trocos e, convenhamos, conheço meio mundo naquela aldeia.

Sentada ao sol com eles, percebi que estava a conquistar a família que sempre desejei não só um homem para amar, mas também laços de sangue para cuidar.

Com o distanciamento dos dramas e desconfianças, vi como é essencial não fugir dos problemas, mas enfrentá-los de mãos dadas com quem gostamos. Sessenta e dois anos podem não ser a idade mais fotogénica para um romance, mas quem disse que a felicidade tem prazo de validade? Afinal, o coração não sabe contar em euros, só em afetos.

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