Ao entrar no apartamento, Olívia parou. Ao lado da porta, arrumados com cuidado junto aos seus e aos…

Ao entrar no apartamento, Olívia parou subitamente. Junto à porta, alinhados junto aos seus e aos de Ivan, estavam uns sapatos de salto alto. Olívia reconheceu-os de imediato eram da irmã de Ivan, sapatos caros e elegantes. O que estaria ela ali a fazer? Olívia não se recordava de Ivan ter avisado sobre a visita da irmã.

Olívia, o teu ainda está em viagem de trabalho? perguntou-lhe seu colega Paulo, apanhando-a à saída para a paragem de autocarro. Que tal irmos ao café? Bebemos o teu chocolate preferido, falamos um pouco, já que andamos sempre numa correria olá e adeus.

Desculpa, Paulo, hoje não posso. O Ivan prometeu chegar cedo, íamos finalmente escolher a cozinha nova. Ainda não nos instalámos bem depois das obras. E, por acaso, já não viaja há algum tempo.

E costuma chegar sempre a horas? ironizou Paulo, sem grande disfarce na voz.

Nem sempre, Olívia sorriu, abanando a cabeça. Precisamos de dinheiro e o Ivan anda a fazer horas extra. Quando tivermos a casa como queremos, já poderá estar sempre cedo em casa.

Entendo, retrucou Paulo, desejando-lhe um bom fim de dia, antes de seguir pelo seu caminho.

Olívia teve sorte, o autocarro apareceu rápido, o costume era esperar longos minutos. Hoje, saíra do trabalho mais cedo e apanhou-o a tempo. Sentada junto à janela, ficou pensativa.

Ela e Paulo já tinham sido namorados, com intenção de casar, mas acabaram por se separar, nem ela sabe explicar bem porquê. Ivan apareceu logo depois e ela, meio por orgulho, meio para mostrar ao Paulo que “não estava sozinha”, casou-se. Queria que Paulo sentisse o que perdera.

Ele bem tentou reatar, pediu desculpa, prometeu-lhe felicidade e fidelidade mas Olívia já estava envolvida com Ivan, convencida de que nunca amara de verdade Paulo.

Com o tempo, quase se esqueceu dele. Só recentemente, ele foi transferido para a sucursal onde Olívia trabalha. Ele fingiu surpresa, mas ela sempre pensou que ele viera ali porque soube do seu emprego. Ainda assim, foi-lhe agradável perceber que Paulo permanecia solteiro e continuava a tratar-lhe com carinho.

No fundo, queria-lhe felicidade e, muito lá dentro, invejava um pouco a mulher que haveria de conquistar Paulo sempre romântico, tinha jeito para encantar.

Com Ivan, não podia dizer que não fora feliz; simplesmente, ultimamente, ele trabalhava constantemente. Fazia-o pelo bem deles, para que nada lhes faltasse e vivessem em conforto. Mas o tempo para Olívia escasseava.

Além disso, viviam no apartamento da irmã de Ivan. Ela ofereceu-lhes alojamento enquanto os filhos eram pequenos.

À Isabel e ao seu marido nunca faltou dinheiro, ela até nunca trabalhou. Não precisava de arrendar o apartamento, investia em imóveis por causa dos filhos para garantir casa a cada um no futuro.

Ivan e Olívia fizeram obras a gosto deles, Isabel permitiu. Agora, estavam a comprar móveis. Ainda assim, Olívia pensava que talvez fosse melhor terem arrendado uma casa já equipada.

O dinheiro gasto ali dava para várias rendas, ou até entrada para crédito habitação. Mas o olhar de Ivan brilhou quando Isabel lhes ofereceu o apartamento.

Olívia saiu do autocarro, atravessou a rua apressada e encaminhou-se para casa. Cheirava a chuva. Hoje, não queria saber de frescura nem de cheiro da terra molhada.

Os pensamentos corriam e misturavam-se, sem se fixarem. Quanto tempo já tinham ali? Um ano? Talvez mais?

Olívia não se conseguia recordar, mas aquele ambiente ainda lhe parecia provisório. Reformaram, compraram móveis, sempre à espera de algo melhor, como se a vida de verdade começasse depois mas quando?

Aproximando-se do prédio, percebeu que ia mais devagar, a adiar o momento de entrar. A porta da entrada rangia como sempre, e ela subiu lentamente até ao quarto andar.

Subiu os lanços de escadas, sentindo-se cada vez mais tensa.

Mal passou a porta do apartamento, Olívia parou. Junto ao tapete, ao lado do calçado dela e do Ivan, estavam os sapatos elegantes da irmã dele.

Reconheceu-os de imediato. O que estaria Isabel ali a fazer? Olívia não se lembrava que Ivan lhe tivesse dito nada.

Preparava-se para anunciar a chegada, mas hesitou algo lhe disse para ouvir primeiro. Parou e escutou.

Eu e o meu marido queríamos viajar, ouviu a voz de Isabel. Mas ele não consegue arranjar férias, então decidi dar-te as viagens. Mas só com uma condição, disse ela com um tom mais exigente, vais com a Vera.

Olívia ficou gelada. Com a Vera? Lembrou-se do nome, Ivan mencionara ao de leve. Isabel tentara juntar o irmão com a sua amiga.

Na altura, Olívia não encontrou importância. Agora, aquele nome trazia-lhe apreensão.

Não quero saber da Vera, Ivan respondeu, irritado. Já disse várias vezes, estou com Olívia. Tenho a Olívia! Porquê insistir nisso?

Ouvir isto, aliviou-a. Era somente Isabel a impor a sua vontade, como de costume. Quase seguiu para a sala para mostrar que estava, quando ouviu de novo a cunhada.

Achas que enganas quem? Eu lembro bem do quanto amaste a Vera. Até estavam para se casar, mas zangaram-se por uma bobagem. Não sejas teimoso, vejo bem que Olívia não é para ti. Com a Vera seria diferente.

Olívia ficou bloqueada a processar aquilo. Apaixonado? Para casar? Ivan dissera-lhe que não se interessava pela Vera… Olhou para o chão, lutando contra as emoções e as palavras de Isabel que ecoavam.

E então? Ivan interrompeu, o tom agora misturado com irritação e hesitação. Isso já passou. Admito, houve, mas já acabou. Amo a minha mulher.

Amas? Isabel bufou. Não foi por amor à Olívia que casaste, mas para fazer ciúmes à Vera, quando ela preferiu outro. Depois, foi ela que quis voltar, pediu desculpa. Mas tu casaste só para vingança.

Olívia sentiu-se desconfortável. Vingança? Terá Ivan casado para provar algo a alguém? Subitamente, tudo pesou. Recordou-se de como apressou o casamento, logo após terminar com Paulo.

Mesmo que Ivan pensasse assim de início, agora amam-se. Certo? Olívia, contida, esperava a reação do marido.

O passado passou, Ivan afirmou. Sou casado, tenho obrigação para com a minha mulher.

Que obrigações? Isabel troçou. Nem filhos têm, felizmente. Espero que não te esqueças onde vives? Com a Olívia vais andar sempre a depender dos outros. A Vera, por acaso, acabou de receber uma casa nova dos pais, espaçosa, de três quartos E ainda te ama, espera que mudes de ideias.

Olívia encostou-se à parede fria, tentando controlar as emoções. Como podia Isabel dizer tal coisa? Mas mais ainda, queria ouvir Ivan.

Isabel, chega, Ivan começou, agora menos seguro. Uma casa não é tudo. Temos onde morar por agora, depois logo tratamos de comprar o nosso.

Mas Isabel insistia:

Tu só não tens coragem de mudar. A Vera sempre foi a melhor para ti, só continuas magoado, mas ainda vais a tempo de corrigir tudo. Com ela, tens casa, estabilidade, tudo o que sonhas. Com a Olívia nunca serás verdadeiramente feliz!

Além disso, continuou Isabel. Esta casa não pode ser para sempre. Já tenho outros planos para ela, vão ter que sair em breve.

E a Vera sabe que andas com este plano? Ivan perguntou subitamente.

Claro que sabe! Isabel respondeu rápido. Na verdade, foi ela que pediu. Sabe que ainda gostas dela e foi ela quem arranjou as viagens, pediu que eu ajudasse.

Instalou-se o silêncio. Olívia sentia o mundo a girar. Porquê esse silêncio de Ivan? Estaria a ponderar seriamente aceitar?

E o que direi à Olívia? perguntou por fim Ivan, em voz baixa.

Diz que vais ajudar-me na casa de campo. Estamos com obras, Isabel disse, como se fosse óbvio. Depois vais com a Vera à praia, é simples.

Olívia não conseguiu ouvir mais. Deslizou para fora e saiu, sem olhar para trás.

Andando sem destino, foi parar a uma pequena pastelaria acolhedora, quase vazia. Música leve enchia o espaço, lá fora anoitecia devagar. Exausta e perdida, sentou-se junto à janela, pediu chocolate quente com baunilha (sem pensar). Os pensamentos desordenados não lhe deixavam paz.

Repensava cada frase de Isabel. Como podia Ivan esconder tudo isto? Como não lhe contara que quase casara com outra, e ainda por cima com uma amiga de família? Sentia-se traída, mas acima de tudo ofendida. Seria o seu casamento apenas vingança contra uma ex? E ela achava que Ivan a escolhera de coração agora via que os motivos eram outros. Ainda assim, ao contrário de Ivan, ela nem permitira ir ao café com Paulo, quanto mais fazer férias juntos! E ela amou Ivan tão verdadeiramente.

Já era noite, Olívia continuava ali na pastelaria, olhando para os reflexos das luzes através dos pingos de chuva na janela. Nem tocara no chocolate. O tempo parecia parado.

Ivan nem sequer lhe telefonara. De certeza que está a planear rumar à praia com a Vera, pensou, frustrada, não se preocupa nada comigo.

Ao buscar o telemóvel, percebeu que estava sem bateria.

Olívia suspirou fundo. Não podia adiar mais estava na hora de regressar a casa. Reuniu coragem, vestiu o casaco e saiu para o frio da noite. Caminhava lentamente, convencendo-se de que o fim com Ivan estava próximo. A separação parecia inevitável, procurava mentalmente preparar-se para isso.

Ao chegar ao prédio, sentiu-se ainda mais pesada. Subiu as escadas, girou a chave e entrou. A casa estava silenciosa. Não havia televisão, nem barulhos vindos da cozinha, só umas malas pousadas no meio da sala. Ivan empacotava os seus pertences. É isto, está mesmo a preparar-se, pensou.

O que estás a fazer? perguntou, já sabendo o que se seguiria certamente que iria dizer que ia ajudar Isabel na casa de campo. Mas Ivan surpreendeu-a:

Olívia, vamos sair daqui. Encontrei outro apartamento. Por agora, é o que dá, depois pensamos em pedir crédito à habitação. Parou e olhou-a, percebendo qualquer coisa no olhar dela. Porque demoraste tanto? Tentei ligar-te o dia inteiro e o telemóvel desligado. Foste fazer horas extra?

Olívia mal acreditava no que ouvia. Tudo o que preparara para lhe dizer desapareceu. Assentiu, sem saber como reagir.

Vamos sair daqui? murmurou, sem bem perceber.

Ivan, percebendo a inquietação dela, aproximou-se:

Discuti com a Isabel, confessou. Decidi que chega, não quero depender dela. Precisamos de ter a nossa casa.

Olívia relaxou um pouco, mas sabia que o assunto não terminaria ali. Ele sentou-se no sofá, convidando-a a juntar-se. Resumiu-lhe a conversa com Isabel.

Devia ter contado, admitiu Ivan, em tom baixo. Tive mesmo um namoro sério com a Vera. E sim, casei contigo por causa dela. Mas Olívia, sabes uma coisa? Tudo isso ficou para trás. És tu quem eu amo verdadeiramente, não te quero perder.

Olívia ouviu-o, sentindo finalmente algum alívio. Apesar da dor da mentira e do silêncio, era importante poder falar abertamente.

Desculpa nunca te ter contado, completou Ivan, cabisbaixo. Quando disseste que tinhas pensado casar com o Paulo, achei que não devia trazer esta história. Com o tempo, tornou-se difícil contar.

Olívia sentiu lágrimas virem aos olhos mas eram de alívio.

Pronto, passado é passado. Disseste que já alugaste casa?

Sim, agora é provisório, mas ao menos é nosso. Sem Isabel, sem interferências. Havemos de conseguir, prometo. Depois buscamos crédito, fazemos tudo direito.

Olívia acenou. Sentia que essa era a decisão certa. Finalmente viveriam por eles, sem planos alheios ou pressões.

Então sorriu Ivan Vamos tratar da mudança?

Olívia assentiu outra vez, incapaz de pronunciar palavra. Só podia confiar que agora, sim, a vida deles iria seguir em frente deixando o passado, de uma vez por todas, para trás.

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Ao entrar no apartamento, Olívia parou. Ao lado da porta, arrumados com cuidado junto aos seus e aos…