Antes Que Seja Tarde: Natália Equilibra Sacos de Medicamentos, Papéis e Chaves na Porta da Casa da M…

Ainda a Tempo

Catarina segurava um saco com medicamentos numa mão, na outra uma pasta cheia de relatórios médicos, e tentava, com alguma destreza, não deixar cair as chaves enquanto fechava a porta do apartamento da mãe. A mãe permanecia de pé no corredor, teimosa, recusando-se a sentar no banco, apesar das pernas bambas de cansaço.

Eu consigo sozinha, disse a mãe e esticou o braço para agarrar o saco.

Catarina afastou-a gentilmente com o ombro, como quem tira uma criança do fogão.

Vais sentar-te já, mãe. Sem discutir.

Reconhecia em si própria aquele tom de voz que surgia sempre que tudo parecia desmoronar-se e havia que manter pelo menos a ordem mínima: saber onde estavam os documentos, a que horas tomar os comprimidos, a quem ligar. A mãe costumava sentir-se magoada com este tom, mas não respondia. Hoje, o silêncio era ainda mais pesado.

Na sala, o pai estava junto à janela, de camisa de casa, o comando da televisão na mão, embora o aparelho estivesse desligado. Olhava para o vidro, como se lá dentro estivesse um canal diferente.

Pai, aproximou-se Catarina. Trouxe o que o médico receitou. E aqui está o pedido para a TAC. Amanhã de manhã vamos juntos.

O pai assentiu com um gesto contido, como se estivesse a assinar o fim de um contrato.

Não é preciso levares-me, disse ele. Vou sozinho.

Sozinho vais coisa nenhuma, cortou a mãe, logo suavizando o tom à própria voz, como se se assustasse. Eu vou contigo.

Catarina calou-se, embora soubesse que a mãe dificilmente aguentaria horas de espera: a tensão dela subia, depois ficava dias na cama e nunca admitia. Um certo ressentimento acordava dentro de si: porque é que tudo caía sempre sobre ela? Porque é que ninguém podia simplesmente concordar e fazer o que devia ser feito?

Espalhou os papéis sobre a mesa, conferiu datas, prendeu com um clip os resultados das análises da semana passada, e sentiu o cansaço habitual de ser a responsável. Tinha quarenta e sete anos, a sua própria família, emprego, o empréstimo do filho, ainda assim, bastava algum problema com os pais, e voltava a ser a principal sem nunca o ter pedido.

O telemóvel tocou e Catarina viu no visor o número do Centro de Saúde. Foi para a cozinha e fechou a porta.

Dra. Catarina Espinheira? a voz era jovem, polida, formal. Fala do hospital de oncologia. Temos já os resultados da biópsia

A palavra biópsia já não era nova, mas soava sempre como algo alheio, de outra vida que não a deles.

existe suspeita de um processo maligno. É urgente realizar exames adicionais. Sei que é difícil, mas o tempo é fundamental.

Catarina apoiou-se na mesa para não se sentar. Na cabeça formaram-se imagens que não queria: corredores de hospital, soro a pingar, rostos estranhos, a mãe de lenço na cabeça. Ouviu o pai tossir na sala e esse som bastou como confirmação.

Suspeita repetiu. Ou seja, ainda não é certo

É uma probabilidade elevada. Recomendo que não espere. Apareça amanhã de manhã com os documentos, será atendida sem marcação respondeu o médico.

Catarina agradeceu, desligou, e ficou alguns segundos a olhar para o fogão apagado, como se esperasse dali orientações sobre o que fazer a seguir.

Ao regressar à sala, a mãe já a esperava com o olhar fixo.

Então? perguntou. Diz lá.

Catarina abriu a boca, sentiu a garganta seca.

Há suspeita de cancro. Disseram que é urgente.

A mãe sentou-se. O pai não alterou o rosto, mas apertou tanto o comando que os nós dos dedos ficaram brancos.

Pronto, murmurou ele. Cheguei aqui.

Catarina quis contrariar, dizer não digas isso, ainda não está nada certo, mas as palavras ficaram-lhe presas. Percebeu de súbito como na família tudo se segurava por nunca nomearem os medos. Agora a palavra fora dita e as paredes pareciam ter ficado mais finas.

Nessa noite, Catarina regressou a casa mas não conseguiu deitar-se. O marido dormia, o filho trocava mensagens com alguém no quarto, e ela sentou-se na cozinha a escrever listas: documentos a levar, exames a repetir, números para contactar. Ligou ao irmão.

Manuel, disse esforçando-se por manter a voz estável. O pai tem suspeitas. Amanhã vamos ao hospital.

Suspeitas de quê? o irmão pareceu não ouvir ou não querer ouvir.

Cancro.

Seguiu-se uma pausa longa.

Amanhã não posso, respondeu finalmente o irmão. Estou de turno.

Catarina fechou os olhos. Sabia que o irmão tinha de facto trabalho, que não era chefe para poder sair assim, mas sentiu aquela velha onda a erguer-se: ele nunca pode, ela sempre pode.

Manuel, a voz falhou. Não se trata do turno. Trata-se do pai.

Vou lá mais tarde, disse ele apressado. Sabes que eu

Eu sei, cortou Catarina. Sei que és perito em desaparecer quando as coisas assustam.

Arrependeu-se logo, mas já estava dito. O irmão ficou calado e depois suspirou profundamente.

Não comeces, retorquiu ele. Tu é que controlas tudo, depois cobras.

Catarina desligou e sentiu-se vazia. Ficou a ouvir o motor do frigorífico, a pensar que não era tempo de discutir quem tinha razão. Mas nestes momentos de medo, tudo o que dói vem à tona.

No dia seguinte, foram os três ao hospital: Catarina conduzia, a mãe no lugar do passageiro, o pai atrás. Ele segurava a pasta como se, fosse o que fosse, pudesse cair e perder-se para sempre.

Na secretaria, Catarina preenchia papelada, mostrava o cartão do cidadão, o número do SNS, o pedido médico. A mãe tentava ajudar mas baralhava-se entre apelidos e datas. O pai afastava-se e olhava os outros pacientes: cabeças carecas, lenços coloridos, rostos cinzentos; no seu olhar havia menos compaixão do que reconhecimento.

Catarina Espinheira, chamou a enfermeira. Pode entrar.

No consultório, o médico folheava os papéis meticulosamente. Catarina seguia-lhe os gestos, à procura de pistas no rosto, para medir a gravidade. O discurso era sereno, mas as palavras feriam: agressivo, estadiamento, confirmar ainda.

Vamos repetir algumas análises disse o médico. E uma nova biópsia. Por vezes o material não chega.

Portanto não tem a certeza? perguntou Catarina.

Quase nunca temos certezas com exames incompletos esclareceu. Mas temos de agir como se fosse algo sério.

A frase doeu mais que suspeita. Agir como se o tempo fosse curto. Catarina sentiu o modo acelerado a tomar conta de si. O resto trabalho, rotinas, cansaço deixou de importar.

Os dias seguintes confundiram-se em blocos: de manhã telefonemas, inscrições, deslocações; à tarde filas de espera, assinaturas; ao fim do dia, a cozinha dos pais, onde fingiam tratar só de logística.

Vou tirar férias, disse Catarina na segunda noite, enquanto servia sopa. No trabalho desenrascam-se.

Não faças isso, protestou o pai. Tens a tua vida.

Agora não é tempo para orgulhos, pai.

A mãe observava-os em silêncio e Catarina via-lhe o lábio inferior a tremer. Sempre fora forte. Aguentou quando o pai perdera o emprego nos anos noventa, quando Catarina se divorciou, quando Manuel arranjou confusões. Sempre, até ninguém perguntar como estaria.

Não quero que vocês a mãe começou e calou-se.

Que não queremos quê? questionou Catarina.

Que depois segurou a colher. Que depois deixem de se perdoar.

Catarina pensou em dizer que já havia tanto não perdoado, só nunca falado. Mas voltou a calar-se.

Nessa noite não pregou olho. Ouvia a respiração do marido e pensava no envelhecimento do pai. Lembrou-se de quando ele a ensinou a andar de bicicleta e segurava no selim até que ela fosse capaz sozinha. Então, não tinha medo de cair porque ele estava ali. Agora era ela quem amparava não a bicicleta, mas a casa toda.

Ao terceiro dia, Manuel apareceu. Veio com um saco de fruta e um sorriso constrangido.

Olá, disse, e Catarina sentiu receber-lhe mal aquele sorriso.

Olá, devolveu seca.

Sentaram-se na cozinha, a mãe fatiava maçãs, o pai calado. Manuel tentou falar do trabalho, como querendo afastar o peso do ambiente.

Manuel, Catarina interrompeu. Percebes o que está a acontecer?

Claro, cortou ele. Não sou burro.

Então porque não vieste ontem? Porque escolhes sempre o que te dá mais jeito?

Manuel ficou pálido.

Alguém tem de trabalhar, disse ele. Achas que o dinheiro aparece? Tu é que gostas de controlar tudo e depois resmungas. E eu

E tu o quê? inclinou-se Catarina. Já és adulto, Manuel. Já não és miúdo.

O pai levantou a mão.

Chega, pediu devagar.

Mas Catarina não parou. O medo pelo pai misturava-se com ressentimentos de anos do irmão, da mãe, de si mesma.

Sempre fugiste quando as coisas apertavam afirmou. Quando a mãe ficou de cama, quando o pai… quando ele bebia, lembras-te? Desaparecias. E eu ficava.

A mãe pousou a faca com força.

Não entres por aí, disse. Isso já foi há tanto tempo.

Foi, anuiu Catarina. Mas nunca passou.

Manuel bateu com a mão na mesa.

Pensas que era fácil ficar? gritou. Adoras ser a principal, que todos dependam de ti, mas depois culpas-nos!

Catarina ouviu o golpe certeiro. Tinha-se habituado a ser necessária era pesado, mas dava-lhe um certo direito.

Não vos odeio, replicou. Mas nem ela acreditou.

O pai levantou-se devagar, cada gesto calculado.

Julgam que não percebo? disse. Acham que não vejo que me estão a dividir? Como se já

Não acabou. A mãe foi abraçá-lo.

Não digas mais, sussurrou ela.

Catarina viu então o pai não como papá, mas como um homem sentado em corredores de hospital, escutando diagnósticos alheios, a tentar não revelar o próprio medo. Sentiu vergonha.

O telefone vibrava em cima da mesa. Catarina viu: laboratório das análises.

Sim? atendeu.

Dra. Catarina Espinheira? a voz era cansada, diferente, quase desculpando-se. Fala do laboratório. Tivemos uma falha com a identificação das amostras. Estamos agora a rever tudo, mas existe hipótese dos resultados do seu pai estarem trocados.

Custou-lhe a perceber o que significavam falha e troca.

Espere, pediu. Como assim, trocados?

Detectámos inconsistências nos códigos de barras. Pedimos que amanhã regressem para repetir gratuitamente as análises. As biópsias e relatórios serão reavaliados. Pedimos desculpa.

Catarina colocou o telefone sobre a mesa, atónita.

O que foi? perguntou o irmão.

Disseram disseram que podem ter trocado as análises.

A mãe tapou a boca. O pai sentou-se de novo, vencido.

Então sussurrou Manuel. Pode não ser

Catarina assentiu. E sentiu não alívio, mas um grande vazio como se alguém tivesse desligado de repente a sirene e agora se ouvisse tudo o que se disse, nu e cru.

No dia seguinte, voltaram ao laboratório. Catarina conduziu os pais, Manuel foi de autocarro e esperou-os à entrada. Ninguém brincava, ninguém falava acerca do tempo. Ficaram juntos na fila, com as senhas na mão.

O pai deu sangue em silêncio. Catarina fixava a agulha fina a entrar na veia, o tubo a encher-se, pensando que tudo aquilo não era ficção nem lição para aprender: era a vida deles, onde um erro de código mudava dias inteiros.

Prometeram resultados em dois dias. Os dias passaram diferentes; não havia pânico, mas havia constrangimento. A mãe andava ocupada em demasia, oferecia chá, perguntava se Catarina não se sentia cansada. O pai falava menos ainda. O irmão ligava de vez em quando: Como estão eles? Catarina respondia na mesma moeda.

Apercebia-se de esperar um Desculpa de alguém. Mas ninguém o dizia nem ela sabia por onde começar.

Quando chegou a chamada do hospital a confirmar que, revista a amostra, não se verificava malignidade, Catarina estava presa no trânsito da Segunda Circular. Ouviu o médico explicar que o erro se devia a uma má identificação e falta de tecido, mas que agora só recomendavam vigilância dali a seis meses.

Então não é cancro? perguntou, incapaz de esconder a emoção.

Neste momento, não há indícios oncológicos respondeu o médico. Mas deve manter acompanhamento.

Catarina desligou e ficou agarrada ao volante, ouvindo as buzinas dos carros. Finalmente as lágrimas caíram, não de alegria, mas pelo alívio que se soltava e, com ele, algo mais fundo.

Nessa noite juntaram-se todos em casa dos pais. Catarina trouxe um bolo da pastelaria porque não tinha forças para cozinhar. O irmão apareceu com flores para a mãe. O pai olhava-os como se tivessem regressado de uma longa viagem.

Pronto, tentou brincar Manuel. Podemos respirar.

Respirar podem, respondeu o pai. O difícil é voltar a inspirar.

Catarina olhou para ele. No tom havia apenas cansaço.

Pai, disse. Eu

As palavras não saíam. Percebeu que, se se justificasse, só voltaria ao eu fiz o melhor que sabia, estava assustada. Era preciso algo diferente.

Tive medo, assumiu. Comecei logo a comandar, como sempre. E acabei por descarregar no Manuel. Desculpa.

O irmão baixou os olhos.

Também tive medo, confessou. Fugi para o trabalho. Desculpa.

A mãe suspirou, mas não chorou. Sentou-se ao lado do pai e segurou-lhe a mão.

Eu passei o tempo a fingir que estava tudo normal. Não queria que vocês discutissem. Nem admitir o meu próprio medo. Mas só vos afastei.

O pai apertou-lhe a mão.

Não preciso que sejam perfeitos. Preciso que fiquem perto. E que não façam de mim pretexto para tudo.

Catarina assentiu. Doía, porque sabia que as marcas desses dias não iam desaparecer só com um desculpa. Mas alguma coisa mudara. Tinham dito em voz alta o que sempre esconderam.

Vamos combinar, sugeriu ela, tentando ser prática. Não decido tudo eu. Quero ajudar, mas preciso que peguem também. Manuel, podes passar cá uma vez por semana quando começar a vigilância? Não é quando deres, é mesmo comprometeres-te.

O irmão hesitou, depois assentiu.

Às quartas estou de folga. Venho, sim.

E eu, disse a mãe, vou deixar de fingir que consigo tudo. Se não conseguir, digo. E paro de me irritar depois.

O pai abriu um leve sorriso.

E ao médico vamos juntos, propôs. Assim evitamos equívocos.

Catarina sentiu um calor tímido, ténue, surgir-lhe no peito. Não um alívio de festa, mas algo mais real: uma possibilidade.

Depois do jantar, ajudou a mãe a arrumar a loiça. As chávenas batiam na pia, a água corria. Catarina secou as mãos e hesitou à porta da cozinha.

Mãe, sussurrou. Eu não quero ser a principal. Só tenho medo que, se largar um pouco, tudo se desfaça.

A mãe fitou-a com atenção.

Vai largando aos poucos. Não tudo de uma vez. Também estamos a aprender.

Catarina assintiu. No corredor, vestiu o casaco, verificou luzes e portas. Já fora de casa, ficou a ouvir o silêncio; não havia gritos, nem portas a bater, só vozes abafadas.

Desceu as escadas até ao carro e percebeu que ainda a tempo não é só sobre um telefonema assustador. É sobre aproveitar cada oportunidade para falar antes que o medo faça de todos completos estranhos. E esta oportunidade confirma-se menos com palavras e mais nos gestos concretos, nas quartas-feiras prometidas, e nas pequenas confissões que, apesar de doerem, seguram uma vida em comum muito melhor do que o controlo.

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