“Anjo com um Segredo”

O Anjo com segredo

Lembro-me, como se fosse ontem, da tarde em que Dinis se sentou à mesa da cozinha, mãos à volta de uma chávena morna de chá. Um certo brilho inusitado animava-lhe o olhar, e um sorriso sonhador bailava-lhe nos lábios de vez em quando. Não conseguia parar de falar DELA da rapariga que há tão pouco tempo tinha surgido na sua vida e lhe trocara tudo ao avesso.

Ela é um autêntico anjo! exclamava ele, num entusiasmo ardente, olhando para mim. O encantamento transbordava-lhe da voz. Tão doce, generosa, bonita Olho para ela e não me canso. Ainda hoje me pergunto, porque é que me escolheu a mim? Sou só um rapaz simples, não sou ninguém de especial.

Eu ouvia-o com atenção, sentada em frente dele. E sorria-lhe com ternura e compreensão. Há já algum tempo que reparava que o Dinis andava diferente com outro brilho, mais leve, até mais feliz, como se nele tivesse nascido uma nova faísca. E, vendo-o assim, tive a certeza: o meu filho estava mesmo apaixonado.

Ó meu querido, tu estás é apaixonado! ri alto, recostando-me na cadeira. Então e quando é que a trazes cá a casa para a conhecermos?

Dinis hesitou um instante, baixou os olhos, dividido entre a ansiedade e aquela insegurança miudinha. Nada queria mais do que que as coisas corressem bem, que eu própria visse quão extraordinária era aquela rapariga.

Espero que seja para breve respondeu, voltando finalmente a olhar-me. Só que ela diz sempre que conhecer os pais é coisa muito séria. Primeiro quer ter a certeza do que sente.

Acenei, compreendendo a cautela dela. Sempre achei que é preciso dar tempo às coisas do coração. Nunca apressar o natural acontecer dos sentimentos.

Pois, filho, tenta que ela aceite vir! disse-lhe, estendendo a mão e despenteando-lhe o cabelo meticulosamente arranjado.

Dinis encolheu-se instintivamente, fazendo-se de ofendido:

Ó mãe! Deixa lá o cabelo, está bem? Já não sou um miúdo!

Ri-me apenas, sentindo quanto amor e calor habitava a nossa cozinha.

Venham cá sábado, sugeri, desvalorizando a picardia. Faço um bolinho. Não tenho ninguém marcado nesse dia, decidi tirar folga.

Dinis calou-se um instante, pesando tudo na cabeça, mas logo percebendo que era a oportunidade certa de dar o passo que ambos ansiávamos.

Está bem, anuiu, um pouco mais decidido. Vou tentar convencê-la. Sábado é perfeito.

Eu já há uns bons anos que ganhava a vida como manicure, em casa. Transformara a pequena salinha num verdadeiro estúdio: mesa com material arrumado, prateleira repleta de vernizes de todas as cores, poltrona confortável para as clientes. Tantas mulheres ali passaram, cada uma com seus modos, histórias e feitios.

Havia recatadas que mal diziam uma palavra sobre o que queriam nas mãos. Outras, mal entravam, já debatiam em voz alta todos os dramas da sua existência. Outras ainda, arrogantes, analisavam cada instrumento como se fossem inspectores, criticando todo o trabalho antes mesmo do fim. Para todas, eu sabia encontrar resposta educada, mas assertiva, sempre colocando limites, mudando o rumo das conversas quando era hora.

Mas houve uma cliente que nunca esqueci. Chamava-se Mafalda. À primeira vista, era a simplicidade em pessoa sempre arranjada, mas sem extravagâncias. Falava baixo, sorria com ponderação e vinha sempre escolher tons suaves, nunca discutindo preços. Cheguei mesmo a simpatizar sinceramente com ela parecia-me genuinamente simples e boa alma.

Certo dia, enquanto eu desenhava com cuidado a decoração escolhida, Mafalda começou a falar. Serena, quase a pensar alto, começou a contar-me a vida toda. E a cada frase, revelou-me um quadro completamente diferente do suposto.

Tenho três filhos, disse-me ela num tom despretensioso, olhando para as unhas.

Fiquei em suspenso, com a lima parada no ar. De todo, não esperava escutar aquilo.

A sério? E onde estão eles?

Um está com o pai, outro numa instituição respondeu da mesma forma calma. O mais novo está comigo, mas vai seguir o mesmo caminho.

Fez-se silêncio. Eu tentava digerir o que ouvira, mas ela prosseguia, sem emoção:

Sabe, filhos são uma boa maneira de arrumar a vida. O importante é saber escolher o homem certo.

Como se discutisse a receita de um bolo, Mafalda descreveu-me cada passo do seu modo de vida. O objetivo nunca fora casar. Procurava homens com posses, de preferência casados ou comprometidos. Conquistava-os, esperava que o laço se estreitasse depois engravidava.

Sabe, um homem comprometido é sempre mais generoso, explicou, ajeitando o cabelo. Não quer chatices, paga o que for preciso para que eu desapareça e a família dele nunca saiba.

Falava nisso como se fosse a coisa mais banal do mundo. O filho era apenas mais uma peça do método; quando cumprisse o propósito, deixava de servir.

É assim que arranjei a minha vida, continuou, firme, sem sombra de vergonha ou arrependimento. Pode julgar-me, se quiser. Mas aos vinte e cinco já tenho um apartamento no centro de Lisboa, carro topo de gama, um pequeno negócio que me sustenta sem problema. E a senhora? Tem quê? Nada. É o dobro da minha idade e passa os dias a servir quem foi mais esperta. Eu deixo mais euros num jantar do que a senhora ganha numa semana!

As palavras dela feriram-me, mas controlei o que sentia. Suspirei fundo e, serena mas determinada, perguntei:

Mas são os seus filhos. Como consegue simplesmente deixá-los?

A sinceridade da questão fez-me vacilar a voz. Como deixar de lado o que de mais precioso existe uma criança que chama por nós?

Mafalda encolheu os ombros, quase com desdém:

Não tenho tempo para educar filhos. Ficam melhor num lar, talvez alguém bondoso os queira um dia. Uma mãe hão de ter mas não serei eu.

Falou como quem comenta o tempo ou escolhe cor de verniz. Não pude evitar um estremecimento, mas quando notou o meu olhar, atirou de rompante:

Não me olhe assim! Nunca quis ser mãe. Isso não é para mim, paciência de santos não tenho!

Nenhum traço de remorso, só certeza e frieza. Endireitou-se, ajeitou o punho da camisola cara, como quem acaba de debater trivialidades.

Pousei devagar os instrumentos, coração tumultuado, entre a indignação e a pena. Mas o que poderia eu dizer? O que mudariam as minhas palavras?

Acredita mesmo que faz bem? perguntei por fim, ainda na esperança de ouvir dúvida.

Mas Mafalda deu um riso curto:

Bem, é tudo o que me traga conforto e dinheiro. O resto? Não interessa.

O choque era tal que fiquei sem fala. Olhava-a à procura de sinais humanos, sem entender tamanha frieza perante os próprios filhos.

Como conseguiu pensar assim? escapou-me, genuína aflição misturada com tristeza.

Mafalda apenas encolheu os ombros, como se falasse de nada. Avizinhasse-se a confidência porque, afinal, não tinha ali amigas que a julgassem, só uma profissional que ia ver pela última vez. Encontraria outra manicure qualquer dinheiro não lhe faltava. Era pena: eu fazia-lhe sempre tudo com gosto. Mas Lisboa estava cheia de bons profissionais; estranho era os caseiros serem, às vezes, melhores que os salões finos.

Olhe, tudo aconteceu naturalmente, elucidou, fitando as unhas. Apaixonei-me, era uma miúda, tinha dezanove. Fazia tudo por aquele homem e ele era casado. Para ele, eu era só uma distração.

Silenciou, mergulhada nas recordações. Eu também não falei, ouvindo-lhe a respiração.

Quando percebi, já estava com quatro meses. Já não fui a tempo de nada, nasceu o miúdo. O pai, para arrumar o assunto, deu-me uma casa. Só queria sossego. E levou o filho. Quem sabe como justificou tudo à mulher?

Sem emoção na voz, já tudo passado, apenas cálculo.

E aí percebi continuou, erguendo ligeiramente o queixo , que a vida podia ser fácil, se se soubesse aproveitar.

Demorou uns segundos, entre pensamentos, tentando mascarar alguma sombra que ainda lhe assombrasse o íntimo.

Hoje não preciso de ninguém. Vivo à minha custa, não me queixo. Se calhar, hei de encontrar homem decente, casar, ter filhos e ser feliz. Por que não?

Sorriu ao pintar o futuro, mas nos olhos lampejou algo raro apressado, logo escondido.

Ao longo da conversa fui mantendo os olhos no que fazia, sem coragem de encará-la. Dentro de mim era só turbilhão: vontade de dizer-lhe tudo, mas contive-me, agarrada aos utensílios.

Não tens medo de que descubram? Que alguém perceba o passado? Não lhe chames outra coisa é uma miséria o que fizeste, soltei por fim, sem dureza, só desilusão.

Mafalda sorriu de lado, altiva:

Deixei tudo bem tapado. Fui viver para sul, no Algarve, longe de tudo, ninguém sabe de nada. A minha mãe não fala comigo, nem eu com ela. Quem podia saber? A senhora? delineou, sarcasticamente.

Senti um aperto no peito. Larguei a lima, endireitei-me:

Tenho lá tempo de fazer esse papel! Nunca fui de mexericos. Isso é contigo. Só te digo: mais cedo ou mais tarde, tudo vem ao de cima.

Calei-me, respirei fundo, tomei postura profissional:

Pronto. Está tudo impecável.

Mafalda demorou-se a examinar as mãos, sem palavra a princípio; mas nada havia a criticar eu, nisso, não falhava nunca.

Está bom, disse, largando notas em cima da mesa. Não volto cá. Fique bem.

Levantou-se, pôs a mala ao ombro e foi-se embora. Eu fiquei a mirar-lhe o rasto, muda.

A porta fechou-se maciamente. Só o tique-taque do relógio enchia a sala. Arrumei os instrumentos, absorvida nos meus pensamentos na Mafalda, nos filhos dela, nas diferentes formas que há de entender felicidade e responsabilidade.

Mafalda nunca mais voltou. Às vezes vinha-me à memória, mas fazia por esquecer. Todos escolhem o próprio caminho. E cada um arca com o que faz.

********************

Pensei muito em como apresentar a futura nora. O apartamento na cidade parecia-me frio e impessoal. Nada como a pequena casa de campo! O verde, o cheiro a flores e relva, poderíamos pôr a mesa à sombra das árvores ou no alpendre, fazer uns grelhados, rir à vontade. Era o ambiente certo para o primeiro contacto.

Finalmente, chegou o dia. Logo pela manhã pus mãos à obra: limpei, arranjei flores frescas, preparei petiscos, sempre de olho no relógio. Aquilo era mais do que um simples convívio era o sinal de que o meu filho tinha crescido, estava a apostar em algo sério.

O Dinis não parava quieto: endireitou o portão, varreu o caminho, alinhou as cadeiras no terraço, inquieto como nunca.

Está tudo bem? Preciso de fazer mais alguma coisa? perguntava de cinco em cinco minutos.

Eu só sorria:

Está ótimo, filho. Já chega de nervos.

Hoje era mesmo especial. Dinis nunca trouxera nenhuma rapariga a nossa casa assim, com verdadeiro sentimento. Até comprara uma aliança! Contou-me, feliz e orgulhoso, na véspera.

O tempo voou. Quando os ponteiros marcavam a hora certa, Dinis vestiu a camisa nova, penteou o cabelo e anunciou:

Vou buscar a Mafalda. Daqui a pouco estamos de volta.

Fico à vossa espera, respondi, disfarçando o nervosismo.

Ainda sozinha, dei uma última volta à casa: toalha engomada, fruta na tijela, ramo de flores. Tudo perfeito. O coração batia-me no peito como há muito não sentia.

Pouco depois, eis que a carrinha do Dinis surge na estrada. Ele salta, corre ao outro lado e abre a porta. De dentro, surge uma rapariga alta, loira, de olhos claros, vestida de branco. O vento brincava-lhe nos cabelos e o vestido leve esvoaçava a cada passo.

Dinis caminhava de mão dada com ela, ambos sorridentes. Fiquei a admirar o par. O meu filho parecia feliz como nunca, e ela ela parecia feita de luz.

Chegaram perto. Olhei-lhe bem o rosto. Havia ali qualquer coisa de familiar, uma sensação distante os óculos de sol impediam a percepção. Anjo, pensei de mim para mim, concordando mentalmente com tudo o que o Dinis dissera antes.

Mãe, esta é a Mafalda, apresentou o Dinis, suavemente.

Eu sorria, já sentindo o aroma das tílias e do verão. Ia comentar a beleza simples da rapariga, mas, subitamente, ela parou.

O gesto lento e rígido, como alguém a travar interiormente. Tirou os óculos. Nesse segundo, reconheci os olhos: os mesmos que me tinham contado aquela história, a história que nunca esqueci.

Mafalda virou-se para o Dinis. Os lábios tremeram-lhe, mas a voz saiu firme, gelada:

Temos de acabar.

O Dinis esmoreceu. Deu um passo em frente, quase a querer agarrá-la, mas ela afastou-se.

Mas porquê? O que é que aconteceu?

Não quero explicar. Acabou, Dinis. Só isso.

Sem esperar reação, virou costas e caminhou para a saída. Ficámos ambos imóveis, apanhados de surpresa.

Instantes depois ouvimos um carro parar. Mafalda entrou na boleia de alguém e sumiu na estrada, sem nunca olhar para trás.

O Dinis tombou para o degrau da casa, os ombros desfeitos, olhar vazio. Sentei-me junto dele, pus-lhe a mão no ombro: não reagiu, ficou na sua dor.

Agora, mais do que nunca, entendi o sentido das minhas próprias palavras, ditas outrora àquela cliente: Tudo o que é escondido, um dia vem ao de cima, por muito que se varra para debaixo do tapete.

Foi acaso, destino ou ironia? Como é que, entre tantos homens em Lisboa, Mafalda haveria de escolher logo aquele cuja mãe sabia de cor o seu segredo? Bastou um olhar, e o castelo desmoronou-se.

Fiquei a olhar para a estrada, o coração em pedaços pelo meu filho. Agora não eram precisas palavras, só tempo. Muito tempo para ele se recompor e seguir em frente

********************

A tarde foi caindo, calada, já sem encanto. Ao longe, um cão ladrava e o barulho trouxe o Dinis de volta à realidade por um segundo. Olhou-me fundo, com a expressão dorida e surpreendida de quem nunca imaginou que a vida pudesse ser assim.

Ficou ali sentado, olhos presos à terra escura, os últimos raios de sol tremelicando no jardim. Por dentro, só vazio.

Sentei-me devagar. Não lhe pedi conversa, não lhe fiz perguntas, apenas estava como sempre estive, um porto seguro ao alcance da mão.

Passaram-se uns bons minutos até que murmurou, a custo:

Mãe Porquê? Diz-me tu, pelo menos por que é que tem de ser assim? Eu só queria fazê-la feliz

Suspirei fundo. Era hora de não mentir.

Meu filho Tenho de te contar uma coisa que não sabes. Já vi essa rapariga antes. Muito antes de tu a conheceres.

O Dinis fixou-me, perplexo:

Onde? Quando?

Veio aqui, fazer uma manicure há uns meses. E contou-me a vida toda.

Hesitei, antes de prosseguir:

Ela tem filhos, Dinis. Três. Um ficou com o pai, outro numa casa de acolhimento, outro ainda com ela, mas que também por lá irá parar. Nunca quis ser mãe. Para ela, os filhos são só uma maneira de arranjar casa, dinheiro, uma vida confortável. Anda de homem em homem, engravida, recebe o pagamento e desaparece.

As palavras custavam, doíam-me. O Dinis empalideceu, ficou de punhos cerrados.

Quando a vi hoje soube logo que era ela. E ela percebeu também. Foi por isso que foi-se embora assim.

O silêncio caiu pesado entre nós. Só se escutava o campo e, por dentro, a vida a latejar devagar.

Mas ela parecia ser tão boa pessoa. Eu já estava a pensar até no futuro.

A voz era-lhe frágil. Pousei a minha mão na dele, apertando-a.

Eu sei, meu querido. Mas é melhor saber agora do que tarde demais.

O Dinis enterrou o rosto nas mãos. Por momentos, ficou ali, estático. Depois, o corpo começou a tremer ligeiramente. Abracei-o, deixando-o encostar-se a mim como fazia em criança, depois das pequenas tristezas.

Chora, meu filho, se for preciso. Faz bem ao coração.

Ele ficou ali, sem sair, calado, e eu ia-lhe fazendo festas nos cabelos, como antigamente.

Porque é que há pessoas assim? murmurou, sem força. Porque é que brincam com o que é mais sagrado?

Nem toda a gente é assim, respondi. Há quem nunca aprenda o que é amar. Procuram só a vida fácil, o atalho para o conforto. Sentimento verdadeiro é coisa estranha para quem vive dessa forma.

O Dinis afastou-se ligeiramente, limpando os olhos. Havia ainda mágoa, mas também alguma compreensão nova.

Então, foi tudo uma mentira?

Foi. E tu não tens culpa. Apenas tropeçaste em alguém incapaz de amar de verdade.

O sol deixou de vez o jardim, caindo em penumbra. Levantei-me e puxei-o com doçura:

Anda, vamos beber um chá. Isso passa, um dia. Mas hoje hoje estamos tristes juntos.

Ele assentiu. Não sabia ainda como seguir, mas já sentia que, enquanto eu ali estivesse, haveria de conseguir recomeçar.

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