O Anel sobre a Toalha
Não, diz André. E neste não, curto e direto, cabe tanta coisa que Lurdes para de súbito no meio do quarto, brincos na mão. Tu não vais.
Ela olha para ele. Está ao espelho, no fato novo, azul-escuro com risca fina, que deve ter-lhe custado o equivalente a várias semanas de ordenado daqueles tempos da juventude dela. A gravata já ajustada, cabelo penteadinho com gel, cada fio no lugar. Não olha para ela através do espelho; fixa-se apenas em si.
Como assim, “não vais”? pergunta Lurdes, controlando mais a voz do que esperava.
Isso mesmo, não vais e ponto final.
Lurdes pousa o brinco na mesa de maquilhagem. O quarto é de um hotel caro, tudo ali parece demasiado sofisticado e um pouco distante: cortinados pesados cor de bronze velho, cama com cabeceira verdadeira de madeira, alcatifa tão fofa que os saltos afundam sem ruído. O Hotel Avenida é o melhor de Braga. Lurdes nunca ali tinha estado, há três horas rejubilava como uma miúda, tocando nas toalhas grossas da casa de banho, cheirando as amostras dos geis de banho.
Três horas atrás, tudo era diferente.
André, diz baixinho, combinámos isto. Comprei o vestido. Disseste que este jantar era importante, que o Dr. Simão queria conhecer as famílias dos colaboradores.
Mudei de ideias.
Porquê?
Finalmente ele vira-se e encara-a. Nos olhos dele, Lurdes reconhece algo que a faz prender a respiração. Não é raiva. É pior que isso.
Lurdes, olha para ti. Olha.
Ela obedece. No espelho, uma mulher de cinquenta e dois anos, vestido verde-escuro pelo joelho. Gostou, demorou a escolhê-lo, pediu opinião à empregada na loja do Largo do Sampaio. Penteara-se sozinha, não ficou mal. O rosto é o que é, vivido, com rugas junto aos olhos, mas presente, atento.
Estou a ver.
As mãos, Lurdes.
Baixa os olhos. As mãos descansam ao lado do corpo. Largas, pele gretada nos nós dos dedos, calos na base dos dedos. Arranjou as unhas, pintou de beige discreto, mas a forma é simples, nada das unhas impecáveis das mulheres nas fotos corporativas que às vezes o André lhe mostra no telemóvel.
O que têm as minhas mãos? sussurra, já a perceber tudo.
Lá estarão pessoas importantes. As esposas dos diretores, dos sócios. Reparam em tudo.
E o que é que vão reparar?
Lurdes, sabes bem. As tuas mãos parecem… Mãos…
…de quem trabalhou? completa ela, quase num sussurro.
André não responde. Vira-se para o espelho e ajusta a gravata já perfeita.
Não quero ter de explicar onde trabalhavas, o que fazias. É outro mundo, Lurdes. Outros assuntos, outras conversas. Não encaixas.
Trabalhei vinte anos para tu encaixares nesse mundo, diz, e a voz treme , vinte anos. Fiz turnos duplos enquanto estudavas. Lavei pratos num restaurante, estive na bilheteira de uma obra, vendi legumes no mercado para pagar a tua faculdade à noite. Estas mãos, André, pagaram os teus livros, o primeiro fato, o primeiro telemóvel para falares com as pessoas certas.
Sei disso diz ele, sem se virar. Mas agora isso não importa.
Lurdes demora alguns segundos. Olha-lhe as costas no fato. Procura o André que conheceu aquele miúdo de noventa e oito que chorava no ombro dela, quando o pai adoeceu e não havia dinheiro para os remédios. O que lhe prometeu que tudo havia de mudar, que era a pessoa mais importante do mundo.
Já não está ali.
Queres então que fique aqui fechada? confirma Lurdes.
Só não quero que me prejudiques esta noite. O jantar é decisivo. O Dr. Simão decide quem chefiará a região. Percebes? É toda a minha carreira. Oito anos.
Toda a NOSSA carreira, corrige ela.
Lurdes… A voz dele endurece, formal, fria, já com aquele tom exausto de quem fala ao telefone para distribuir ordens. Agora não venhas com “nós”. Peço-te só que fiques. Janta no quarto, vê televisão. Não vou chegar tarde.
Estás a esconder-me.
Peço-te só compreensão.
Tens vergonha de mim.
Ele não responde. E ali está o silêncio, resposta clara.
Lurdes aproxima-se da janela. Lá fora, a cidade já anoiteceu, as luzes, os primeiros flocos de neve caem e pousam nas varandas numa camada branca fina. Lindo. Sempre gostou do primeiro nevão. Em miúda, ela e a amiga Teresa corriam para o largo, apanhavam flocos na mão até eles derreterem. Teresa dizia que as neves choravam porque não queriam morrer Lurdes ria.
Pronto, diz apenas.
André suspira de alívio. Ela sente como dentro dela tudo se fecha num nó pequeno e duro, debaixo das costelas.
Sabia que ias perceber. Depois disto tudo muda, Lurdes. A sério. Vamos de férias, aonde quiseres, vou comprar-te…
Vai, André, diz ela.
Ele agarra no casaco, confirma telemóvel e carteira. Antes de sair:
Não abras a porta a ninguém. Está tudo incluído até amanhã.
Vai.
A porta fecha-se. Ouvem-se os cliques do cartão do quarto. Lurdes demora a perceber. Depois tenta abrir nada. Mais uma vez. Nada.
Fechou-a por fora talvez tenha pedido na receção para bloquear. Ou será que estes quartos têm destas fechaduras especiais para momentos destes? Não importa. O resultado é um: está ali, num quarto de hotel caro, só, num vestido verde-escuro, e a porta não dá.
Fica a olhar para o espaço uns instantes. Senta-se devagarinho na beira da cama.
Não chora. Estranhamente, sente apenas um vazio e o tal nó. Tudo muito em silêncio, como depois de uma trovoada.
Quanto tempo ali está, Lurdes não sabe. Depois levanta-se, liga a televisão. Um pivô fala qualquer coisa, as palavras soam a ruído. Desliga.
Abre o minibar, espreita garrafinhas de água, sumos. Bebe água, gelada, a ver se passa a secura da garganta.
Depois bate na porta. Devagar. Claro que ninguém responde.
Pensa: posso pedir para abrirem da receção. Mas que digo? O meu marido trancou-me? Imagina logo o rosto da recepcionista, o embaraço, os telefonemas. Depois André ficaria a saber. E depois o quê?
Sorri tristemente. As voltas da vida: mesmo aqui, ainda pensa primeiro no que ele vai pensar, antes de pensar nela.
Pega no telefone, liga-lhe. Não atende. Minutos depois, ele envia SMS: Estou no jantar, tudo bem, dorme.
Lurdes pousa o telefone, encara as mãos abertas sobre o colo. Largas, quentes, pouco delicadas. Na palma direita, um pequeno corte do ano em que cortava pão para as sandes que ela e André levavam ao exame de admissão, noutro distrito. Riram-se na altura, ela fez uma ligadura com lenço, seguiram viagem e ele passou. E foram ambos felizes naquele fim de tarde, na estação.
Na esquerda, o calo junto ao indicador. Apareceu quando se meteu a embalar caixas num armazém, para o fato do primeiro emprego dele. Ele ficou com o lugar. Festejaram com batatas fritas e canção. Ele dizia: Sem ti, nunca seria nada.
Isso foi há onze anos.
Anoitece de vez. Nevou, o céu abriu e surgiram estrelas.
Lurdes encosta a testa ao vidro.
Ouve o bater à porta. Suave.
Está alguém? chama uma voz afável. Sou a Emília, das limpezas. Precisa de alguma coisa?
A vontade era responder que não. Mas diz:
A porta não abre. Ficou trancada por fora.
Breve silêncio.
Como assim, trancada?
Não abre. Preciso de sair.
Ouve-se o barulho do cartão, o clique e a porta destranca.
Uma mulher robusta na casa dos trinta, cabelo puxado atrás, uniforme do hotel. Entra na moldura da porta, olha para Lurdes, num olhar compreensivo e sem julgamentos.
Precisa de ajuda?
Estou bem, obrigada.
Emília, chamo-me.
Lurdes.
Ficam um pouco sem falar.
Ficou muito tempo trancada? pergunta a empregada.
Umas horas, talvez.
Quer sair um bocadinho?
Quero, admite Lurdes, só agora percebendo quanto precisa.
Venha daí. No sétimo andar temos um jardim de inverno. É sossegado à noite. Levo-a.
Lurdes pega na carteira, veste um casaco leve. Assim que respira o ar do corredor sente-se melhor, como se alguém abrisse mão do torniquete.
Isto acontece mais vezes? pergunta a Emília no elevador.
Há de tudo por estes hotéis, diz ela, encolhendo os ombros.
Chegam ao sétimo. Atravessam um corredor, uma porta discreta abre para uma sala cheia de plantas, chão de mosaicos claros e teto envidraçado, de onde se veem estrelas. Palmeiras, limoeiros carregados de frutos, plantas gordas e brilhantes. Cadeiras de vime, mesinhas pequenas.
Fique aqui sorri Emília. Eu estou por perto até às dez.
Lurdes senta-se, estica as pernas, deixa-se cair para trás.
O cheiro da terra e folhas mistura-se a um travo de limão.
Pensa na padaria. O sonho antigo ter uma padaria independente, fazer pão, bolos, empadas. Aprendeu com a mãe, e antes, a avó. André, anos antes, rira-se, mas com jeito: Claro, abre a padaria, és ótima, dizia ele. Sabia que era só simpatia. Não havia tempo para devaneios: trabalho, contas, carreira dele, mudanças atrás de mudanças.
Abre os olhos, olha o limoeiro ao lado. Um fruto vibrante, amarelinho, tão pequeno.
Também se esconde aqui? pergunta uma voz masculina.
Num canto, quase tapado por folhas largas, um homem idoso observa-a. Cabelo branco, fato aberto, sorriso cansado mas franco.
Desculpe, não o vi.
Não faz mal. Este espaço dá para todos.
Fugiu do jantar? pergunta ela.
Fugi. Interessante, porque o jantar é meu. Mas cansei.
Cansou-se de quê?
Conversas. Todos querem algo. Falam as palavras certas, sorrisos ajustados. Cansa. Já não tenho paciência.
E a sua filha? arrisca Lurdes.
Foi ela que insistiu para não cancelar. Sorri com ternura. Chamo-me Simão.
Ela percebe imediatamente. Dr. Simão, aquele de quem André tanto falara o dia todo.
Simão Duarte? pergunta, tímida.
O mesmo.
Meu nome é Lurdes Pereira.
Ficam calados um tempo, sentindo a noite cair do outro lado do vidro.
Falta-lhe o ar?
Percebe então que Simão parece subitamente pálido, menor na cadeira. A mão crispa-se no braço do assento.
Daqui a pouco passa, pressão alta. Às vezes acontece diz com esforço.
Já lhe tinha acontecido?
Hoje é a primeira vez.
Ela aproxima-se, põe-lhe os dedos no pulso. Irregular, acelerado. O rosto dele suado, lábios branqueados.
Tem comprimidos? Nitroglicerina, aspirina?
Casaco, bolso interior.
Lurdes não hesita. Saca do bolso um estojo com comprimidos, dá-lhe uma debaixo da língua.
Ele aceita, agradecendo com os olhos.
Fica com ele, segura-lhe a mão mãos devem segurar-se quando a dor vem, já aprendera há muitos anos.
Melhor?
Está a passar… devagar.
Ela já liga para a receção: Homem com suspeita de princípio de enfarte, tragam médico e chamem INEM, urgente.
Enquanto esperam, fala com ele. Sobre tudo e nada: o limoeiro, neve, jardins de inverno que existem para noites assim.
Ele ouve. Respira melhor.
Que sorte a minha, encontrou-me aqui.
Não foi sorte, foi vida. Ensina muito.
A equipa do hotel e uma médica chegam rápido; logo a filha, Catarina. Mulher segura, quarenta e poucos anos. Vê o pai, vê Lurdes, percebe tudo.
Obrigada diz só.
Depois, a médica reforça: foi grave, vá já para o hospital. Simão não larga Lurdes do olhar.
Venha comigo pede.
Para onde?
Ao salão, preciso de ser visto antes do hospital.
Catarina hesita, mas concede-lhe cinco minutos.
Descem. O salão está cheio de gente, pomposo, toalhas brancas, candelabros, perfis de dinheiro. Quando Simão entra, o burburinho cessa. Todos percebem que algo se passou.
Lurdes avista André sentando-se a meio da mesa. O olhar dele vê-a, oscila entre choque e pânico.
Simão levanta um pouco a voz.
Desculpem interromper. Preciso de sair, questões de saúde. Mas antes, quero dizer algo. Esta senhora aponta para Lurdes segurou-me a mão, deu o remédio, chamou ajuda. Sem perguntas, sem saber quem eu era.
Mais silêncio.
Sei lá quem é, diz ele, mas ela não sabia quem eu era.
Uns segundos longos, depois alguém sussurra junto a André: “Acho que é a mulher dele.”
Senhor Duarte? indaga Simão.
André levanta-se, madeira seca.
Sim, é minha esposa, Lurdes Pereira.
Porque não está aqui?
André gagueja:
Não estava bem…
Eu é que estava mal. Ela não. Vira-se para Lurdes. Porque não veio ao jantar?
Num segundo, Lurdes revê tudo. Podia mentir. Dizer que não quis. Mas olha as mãos abertas.
O meu marido trancou-me no quarto. Achou que não servia para este convívio.
O silêncio corta o ar, pesado. André parece cair de um penhasco.
Lurdes tira a aliança, e, sem drama, pousa à frente do prato dele, ao lado do copo, sobre a toalha branca.
Amanhã venho buscar as minhas coisas. Vou para casa da Teresa. Envia-me os documentos quando quiseres.
Vira-se para Simão.
Rápidas melhoras. Confie nos médicos. Eles sabem.
Catarina segura-lhe a mão. Um aperto curto e firme.
Sai. No corredor encontra Emília, que ouve à descarada à porta.
Está bem? pergunta ela.
Estou, graças a Deus, responde Lurdes. E acrescenta, sorrindo: Mais do que há muito tempo.
Espere, já volto.
Aparece com um copo de chá “Na cozinha temos sempre. Aceite.”
Lurdes aceita. O chá aquece-lhe as mãos, e a leveza dentro do peito surpreende-a. Aquela carga antiga já não está.
Em que trabalhaste antes disto? pergunta.
Por aqui e por ali: caixa no Minipreço, depois num café, agora aqui há dois anos.
Gostavas do café?
Sim, gostava. Era sempre comida, nunca roupa-cama.
Lurdes ri.
Sabes fazer pão?
Um bocadinho. A minha avó ensinou-me.
Ótimo, diz ela.
Acaba o chá, vai buscar a mala.
No quarto, arruma rapidamente. Uma mala só. Tira o brinco solitário, leva-o. Foi prenda da mãe, não quer deixar.
Liga a Teresa no elevador.
Chama aí um táxi, ordena a amiga, antes de ela pedir explicações. Tenho jantar pronto amêijoas à Bulhão Pato!
Como sabes?
Lurdes, conheço-te desde a escola. Só ligas assim quando é para vires. Vem.
Lá fora, o frio queima e reconforta. Pede um táxi, motorista calado.
Vai para casa da Teresa, olha a noite, pensa na padaria. Não, já não “pensa”: vê-a. Uma loja, cheiro de pão quente, balcão velho, luz da manhã, os primeiros clientes com sono e vontade de um pouco de calor.
Vê com a nitidez de quem sabe: existe, só ainda não nasceu.
***
Oito meses depois.
A padaria Lugar Quente abriu em setembro, numa rua sossegada de Braga. Foi a Teresa que descobriu o espaço antiga florista, grandes montras, planta prática. Renovaram tudo a gosto, escolheram a dedo cada pormenor.
Lurdes fez questão das prateleiras de madeira. Teresa argumentou difícil de limpar e isso dos inspetores mas cedeu. Ficaram bonitas.
Lurdes resgatou receitas da velha caderneta da mãe páginas escritas desde os anos 60. Pão de centeio, broas, bolas de carne, bolas de maçã. Medovik, que leva três dias a fazer.
Emília apareceu um mês depois daquele jantar: ligou Ouvi dizer que ia abrir padaria, falou a sério sobre o pão?
Muito a sério.
Sabe, gostava de ajudar.
Preciso de gente de confiança.
Emília revelou-se boa pessoa e ótima padeira as mãos treinadas pela avó sabiam quando a massa está no ponto.
Catarina, filha do Dr. Simão, foi ter com Lurdes uns meses depois.
Venho agradecer, como deve ser.
Não foi nada.
Foi segurar-lhe a mão.
Tornaram-se amigas. Encontravam-se para café, conversavam. Catarina, prática e séria, sabia ouvir de verdade.
O Dr. Simão saiu do hospital bem, graças ao pronto-socorro. Ligou algum tempo depois.
Já abriu a padaria?
Vamos abrir.
Quando abrirem, avise a Catarina. Quero ir ao primeiro pão.
Vieram mesmo, primeiro dia do negócio. Dr. Simão de gabardina, olhos mais corados, feliz. Catarina ao lado, cúmplice.
O pão ainda está quente, avisa Lurdes.
Melhor assim, pão quente é pão feliz.
Provaram o pão, beberam chá. O velho dava mordidas longas e tranquilas, de puro gosto.
Está feliz? pergunta Dr. Simão.
Lurdes pensa.
Estou, diz. Verdadeiramente.
Nessa manhã, formou-se fila à porta. Escolas, vizinhos, curiosos, amigos da Teresa. O pão esgotou em três horas. Foi preciso refazer.
Emília faz horas entre o forno e o balcão, sempre animada, farinha no cotovelo. Teresa, orgulhosa, domina a caixa, mete conversa com todos. Lurdes amassa.
O cheiro de pão quente enche cada canto, vaza para a rua. As mãos dela trabalham sozinhas as velhas mãos, largas, gastas.
Pergunta-se se André sabe da padaria. No fundo, sabe: nestas cidades, tudo se ouve. Não ganhou a promoção Catarina explicou: Simão já tinha decidido antes dessa noite. O resto apenas destapou o que existia.
Não pensa nisso. Essa vida acabou, esta nasce agora, cheia de pão, conversa, amizade, chá, histórias as coisas certas.
Acorda do pensamento com Emília no balcão:
Faltam três pães de hoje?
São os últimos. Amanhã cedo há mais.
Estou cá às oito.
Eu chego às sete.
Mais uma vez, riem.
Teresa aproxima-se e sussurra:
Viste?
Vi.
E sentes o quê?
Lurdes reflete.
Nada. Só passou uma pessoa.
Ficam de mãos dadas um instante. O pão está quase.
Lá fora, neva. A cidade acalma. Há calor na Lugar Quente, cheira a pão e canela, o cheiro estende-se ao passeio. Gente para, respira fundo, segue mais leve.
Lurdes tira um pão do forno, bate no fundo. O som é perfeito, cheio.
O pão está bom.







