Amor (Sem) Condições
Hoje, ao passear pela sala, vi de repente uma meia preta a espreitar debaixo do sofá. Não consegui disfarçar o riso e disse:
Afinal, o teu marido é mesmo um desleixado!
A seguir baixei-me, agarrei a meia com destreza e, abanando-a no ar, continuei com ar brincalhão:
Quem diria! Está sempre tão irrepreensível Parece mesmo acabado de sair de uma capa de revista!
Foi então que Mafalda apareceu pela porta da cozinha, ainda a secar as mãos num pano. Quando ouviu o meu comentário, levantou uma sobrancelha, intrigada, e perguntou:
Disseste isso porquê?
Sem esconder o sorriso malandro, limitei-me a apontar para a meia, como se fosse a prova definitiva do que dizia.
Mafalda corou ligeiramente e apressou-se a justificar-se:
Ah, isso Isso foi o Xavier que andou a brincar. Anda sempre a tirar coisas do cesto da roupa na casa de banho, mas ele ainda é pequeno, não consegue tirar nada maior.
Eu pisquei o olho, porque adoro gatos.
O Xavier? Ah, o vosso gatinho, certo? exclamei, entusiasmado. Por onde anda? Só o vi nas fotos, é uma fofura, derrete-me o coração!
Na minha cabeça só pensava: como é possível estar há dez minutos em casa da Mafalda e ainda não ter acariciado aquela bolinha de pelo?
Mafalda riu-se suavemente, vendo quanto eu estava animado.
Vê se ele está na poltrona ao pé do aquecedor apontou é o sítio favorito dele. Mas cuidado, que as garras dele são bem afiadas e não gosta de estranhos. Tens aqui a farmácia, logo ali na casa de banho, e eu vou fazer um café.
Fui em bicos de pés espreitar. E lá estava ele, o Xavier, enroscado num cobertor macio: branquinho, com umas listas cinzentas e as orelhas a mexer como se ouvisse sons que só existem no mundo dos gatos, o rabo a tremer de vez em quando.
Que lindo que tu és murmurei, aproximando a mão devagar para não incomodar.
O Xavier entreabriu um olho, olhou-me de soslaio, e voltou a dormir. Só que um instante depois, deu-me uma patada rápida e deixou-me um pequeno risco vermelho no pulso.
Pronto, está feita a apresentação, brinquei, rindo-me.
Mas não desisti e afaguei-o atrás da orelha. O Xavier ficou imóvel um instante, mas depois começou a ronronar baixinho e voltou ao seu sono tranquilo.
Quando Mafalda voltou da cozinha com duas chávenas de café fumegante e uma taça cheia de rebuçados, viu-me de cara alegre a esfregar a barriga do Xavier. Eu sorria de orelha a orelha, e o gato estava tão satisfeito que o seu ronronar fazia lembrar o motor de uma lambreta. No pulso, a minha marca de guerra brilhava, mas a alegria era tanta que nem dei conta.
É um amor! suspirei, fazendo-lhe cócegas no queixo. Ele pôs-se logo de barriga para cima, a pedir festas. Tenho mesmo de arranjar outro para a minha Nevinha não andar tão aborrecida!
Queres a morada do abrigo? Há por lá muitos como ele, sorriu Mafalda, pousando as chávenas.
Para já não fiquei calado de repente, parando as festas. O Xavier miou baixinho, como quem reclama, e eu ri-me e voltei a acariciá-lo. Sabes que me vou casar. Receio que o Vasco não queira mais habitantes cá em casa. Até da Nevinha só gosta assim-assim.
Não gosta de animais? Mafalda sentou-se a meu lado a bebericar o café.
Olha É muita coisa, pelo pela casa, areia do gato ao lado da caixa, os brinquedos que aparecem de surpresa nos cantos suspirei. Não penses mal do Vasco! Ele é boa pessoa, só gosta é de ordem. Tudo tem de estar no sítio, nada fora do lugar.
O sorriso de Mafalda esmoreceu. Ela mexeu distraidamente no pulso direito, como se de repente o sentisse a latejar, e ficou calada, a olhar para longe, os olhos húmidos e distantes, como se a memória lhe caísse pesada.
Mafalda? perguntei preocupado, pousando suavemente o gato na poltrona e virando-me para ela. Que se passa? Está tudo bem?
Nunca a vira assim. Em três anos de amizade, a Mafalda sempre tinha aquele brilho de quem espalha alegria, uma energia cálida e contagiante. Agora, parecia desbotada e inquieta.
Estou bem respondeu com um sorriso triste, a voz trémula. Fiquei a ouvir. Depois, mais firme: Olha, Hugo, já passei por isso. E digo-te isto de coração: antes de casar e, ainda mais, ter filhos, vive com ele pelo menos um ano. Testa como é partilhar o dia-a-dia, seguir regras que não são tuas, sentir-te a pisar ovos por medo de falhar.
Queres contar melhor? arrisquei baixinho, mas logo temi que a magoasse. Só se quiseres, claro.
Conto sim, sorriu, mas o sorriso era doloroso. Fitou-me e vi determinação nos seus olhos. Aprende pelo erro dos outros, não é isso que se diz?
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A Mafalda tinha só dezenove anos quando conheceu o Tiago. Ele era nove anos mais velho, tinha um ar sério e seguro, e fazia todos aqueles pequenos gestos que encantam. Trazia-lhe flores sem razão aparente, sabia qual era o seu chá preferido verde com hortelã e ouvia todos os seus desabafos da universidade com paciência e interesse. A Mafalda sentia-se finalmente vista, alguém verdadeiramente interessado nela. Ao fim de três meses, já aceitava casar.
Não havia ninguém para lhe tirar as ideias. O pai tinha rolado para outra família, raramente ligava, nem nos anos novos religiosamente. A mãe? Parecia já só pensar nela própria, sentia o dever cumprido: criou a filha, deu-lhe hábitos e escola, agora era cada uma por si. Mafalda compreendia e até apreciava a liberdade.
O começo foi feliz, ou assim parecia. Mas à medida que os dias passavam, os ditames do Tiago em relação à ordem da casa foram ficando mais exigentes. Claro que discutiam, mas quase sempre pela mesma razão: um livro fora do sítio, a cama mal feita, uma chávena na pia. O problema é que a Mafalda tinha exames, passava noites de volta dos apontamentos, e não tinha energia para tudo. Uma vez, já a cair de sono, ouviu:
Está pó no hall. Vai limpar, já.
Agora? São quase uma da manhã, tenho exame amanhã. Não pode esperar até de manhã?
Se passaste o dia colada ao telemóvel, podias era ter limpo! Toca a esfregar.
Ela tinha de dobrar a espinha e arrastar-se de pano na mão.
Com tempo, tudo se agravou. Era suficiente uma dobra mal feita, uma camisola a destoar no armário, para o Tiago explodir. As discussões tornaram-se frequentes, e as frases pesadas caíram-lhe em cima como pedras:
Isto? Está cheio de vincos! Não vês nada? mostrava-lhe o lençol, exasperado.
E tirava as roupas todas dos armários, atirando para o chão.
Vê a trapalhice! Lava e passa tudo, outra vez. Quero tudo impecável.
Ela, muda, pegava na montanha de roupas, sem forças já para discutir.
Uma noite, tão mergulhada estava numa tese, esqueceu-se de passar a ferro uma camisa do Tiago. Ainda tinha meia dúzia limpas e engomadas, mas foi ao ver a única amarrotada que ele rebentou:
Presta para quê? Ficaste preguiçosa de repente? A sério que agora tenho de sair todo amarrotado?
Mal acabou de falar, agarrou-lhe o pulso com força tal que ficou logo uma nódoa negra depois só usava camisolas de manga comprida. Nunca foi ao rosto, talvez com receio de dar bandeira; o pulso, esse era sempre o sacrificado, sempre marcado.
Duas ou três vezes puxou-lhe os cabelos, lágrimas a saltarem-lhe dos olhos não de dor física, mas do desastre de tudo aquilo.
Isto está sujo! Mas não tens vergonha? Não te sentes mal?
E ela olhava à volta, incrédula: a casa brilhava, os amigos sempre gabavam a limpeza. Mas o Tiago via sujidade onde não havia, e ela, confusa, sentia-se cada vez mais pequena.
Aos poucos, a Mafalda ficou nervosa, andava sempre em sobressalto, conferia tudo dezenas de vezes. Dormia mal, o sono interrompido por dúvidas e voltava à cozinha às tantas para limpar o tampo só por via das dúvidas. Não tardou em rebentar, perdendo os sentidos numa aula.
Acordou numa cama de hospital, com uma enfermeira a medir-lhe a tensão e o médico a fazer perguntas. Ali, deitada a olhar o teto branco, percebeu finalmente a pergunta que evitava: porquê aguentar aquilo? Onde estava o amor, quando o medo era o único sentimento?
O acaso apressou-a. O Tiago apareceu no hospital, mas em vez de um gesto de ternura, começou logo a resmungar:
Que figura é essa? O cabelo sujo, a bata com nódoa! Nem ali, na cama, pode estar composta?
Mafalda sentiu as lágrimas a quererem vir, mas conteve. Então, a senhora da limpeza do hospital, cabelo branco apanhado com ganchos e cara de avó, meteu-se na conversa.
Vá embora, rapaz! e brandiu-lhe o esfregão, rija. Ou ponho-lhe juízo à força! Rápido!
Ri-me, nervoso. O Tiago saiu, ofendido e a bufar.
Quando chegarmos a casa conversamos a sério! disparou, enquanto batia a porta da enfermaria.
A mulher aproximou-se e ajeitou-lhe o cobertor.
Coitadinha Tu és bonita, despachada, com certeza arranjas melhor. Homem não falta. E tens coração de ouro, alguém vai perceber, vais ver.
Nesse momento, as palavras daquela tia emprestada soaram como clarão de esperança. Havia de haver uma vida sem gritos, sem mãos apertadas com raiva, sem a permanente sensação de estar sempre a errar.
A Mafalda percebeu: tinha a casa da avó, pequena, mas sua. O dinheiro era pouco, mas podia dar explicações de matemática ou escrever trabalhos, lá se compunha. Ao menos, teria paz.
Respirou fundo, olhou o jardim do outro lado da janela, com as árvores a balançar ao vento, o sol a espreitar, e sentiu-se forte pela primeira vez em muito tempo.
Obrigada, minha senhora, conseguiu murmurar. Vou mesmo tentar.
Ela sorriu, apertou-lhe a mão, transmitindo um pouco da sua certeza.
Assim é que é. Ninguém nasceu para ser pequenina e medrosa. És muito melhor do que te faz acreditar.
A Mafalda retribuiu o sorriso. E nesse olhar houve finalmente vida e vontade.
Nessa noite, ainda no hospital, viu o vermelho-tijolo do céu ao pôr-do-sol, com tons cor-de-rosa vindos de Lisboa, e percebeu que estava pronta para avançar.
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O divórcio foi rápido. O Tiago nem compareceu, mandou só o advogado um tipo frio, seco, que quase nem a olhou nos olhos. Quando a juíza leu a sentença, nem sentiu um abanão: o que sentia era alívio. Lei-se em liberdade, finalmente sem grades invisíveis.
Saiu para a rua, respirou o ar fresco da primavera lisboeta, entre o cheiro a folhas novas e um rumor distante de miúdos a brincar, e pela primeira vez em muito tempo esboçou um sorriso largo, sem reservas. O sol batia-lhe no rosto, e sentiu: Estou livre.
Os meses seguintes foram duros, mas alegres. Levou as coisas para o tal T2 da avó, modesto mas acolhedor, com uma varanda para o jardim do bairro alto, onde as tílias antigas deixavam a luz brincar no chão logo ao amanhecer. O silêncio, que antes assustava, revelava-se ouro; as manhãs com um galão na varanda, o perfume das glicínias enchia-lhe o apartamento de doçura. Aprendeu finalmente a pensar e a ouvir-se.
Arranjou um part-time numa livraria. Não era pelo dinheiro mas sabia que fazia falta , era por gosto de estar entre livros, pousar as mãos no papel, desfolhar novidades e ajudar quem vinha à procura de um escape.
Um dia, a pôr em ordem uma mesa de novidades, deu de caras literalmente com um jovem. Ele pegava em tomos grossos de arte e história e quase se bateram com a testa.
Desculpe, soltei, rindo-me do embaraço. Podíamos ter feito tombar uma pilha de romances!
Eu também não estava a ver, respondeu, rindo, um tipo alto, olhos doces, com covinhas no sorriso. Sabe de alguma coisa recente sobre arte portuguesa? Adorava ver.
E assim começou o meu conhecimento do Ricardo. Um cliente fiel, que ao princípio ia só procurar livros, depois a conversa prolongava-se, perguntava por autores e obras, ficava só pelo prazer da companhia. Às tantas, convidou-a para um café depois do expediente.
Mafalda, desconfiada, ficou muito tempo na defensiva. O medo pesava, o eco dos dias duros demorou a passar: de qualquer gesto brusco, ela retraía-se, esperando um sermão, um grito, um não fazes nada como deve ser. Mas o Ricardo nunca apressou nada, nunca impôs nem um pedido; era só presença, paciência e uma gargalhada serena, daquelas que desenrolam nós por dentro.
Sabia respeitar o tempo dela. Se Mafalda se calava, ele brincava e desenleava a tensão; quando ela demonstrava nervoso, ele acalmava-a com uma frase simples. Tinha a sensibilidade de quem ouve de verdade.
Uma tarde, no café perto da livraria, ela contava histórias de clientes e riam-se, quando uma porta bateu com estrondo ao lado. O coração dela saltou, os dedos tremeram.
Ricardo percebeu, parou o sorriso e tocou-lhe, leve, na mão.
Passa-se alguma coisa? perguntou baixinho.
Foi aí que ela, peito apertado, sentiu que podia contar. Falou depressa, sem filtro, com lágrimas molhando as palavras, do seu casamento, do medo, do terror de não ser suficiente.
Ricardo ouviu até ao fim, em silêncio. Depois, apertou-lhe a mão e disse apenas:
Nunca te hei de magoar. E se quiseres, arranjamos alguém para tratar da casa o trabalho doméstico não serve para pesar em cima de ninguém, muito menos em cima de ti. Tu não tens de provar nada a ninguém.
A sinceridade dele desarmou-a. E foi naquele momento que a Mafalda sentiu esperança, como se dentro dela reacendesse uma luz.
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Foi assim, Hugo. Ela terminou o relato num tom frágil mas sereno, um sorriso tímido a surgir. Dos piores anos da minha vida, tirei a maior lição: nunca nos devemos sacrificar por uma ideia de perfeição familiar. Ser feliz é ser aceite com falhas, manias e tudo.
Como para confirmar, o Xavier subiu-lhe ao colo e ronronou, esticando a pata até ao rosto. A Mafalda não conteve o sorriso, passando-lhe a mão pelo pêlo macio.
Vês? Até o Xavier entende isso. Não é perfeito, às vezes esconde meias ou tenta destruir a cortina, mas continua a ser tudo para mim.
Estendi-lhe uma folha de papel, numa oferta silenciosa. E não disfarcei o orgulho por dentro: sobreviver ao que Mafalda sobreviveu era digno de admiração.
És muito forte, Mafalda. Nem imagino o que passaste, e é bom ver-te sorrir outra vez. Mesmo.
Sim, agora estou bem, assentiu, a olhar para as luzes que começavam a brilhar no céu da cidade. Quero o mesmo para ti. Por isso, sem pressas, Hugo. Vive com o Vasco, vê como reage às contrariedades, aos dias maus. Amar não é só palavras, são gestos e respeito. É poder dizer hoje não consigo, e ouvir aqui estou para ajudar.
Fiquei a passar a mão no Xavier, agora a dormir, embalado pelo calor e pelo sussurro sereno da sala. O crepitar da lareira, a sombra dourada nas paredes, o compasso do relógio antigo, tudo desenhava um aconchego.
Obrigado, Mafalda. De verdade. Vou pensar, prometo.
Ela sorriu, pegou na chávena de café já frio e bebeu um trago. E nesse instante vi nela paz talvez não perfeita, mas finalmente conquistada. O Xavier sonhava no colo, ao meu lado sentava-se uma amiga leal, e Lisboa, lá fora, brilhava de estrelas. A lição ficou: nunca vendas a tua tranquilidade por uma miragem. Aprende a escutar-te, a saber o que vales e a rodear-te de quem enxerga quem tu és. Porque só então é casa. E amor.







