Amiga Imaginária

Amiga Imaginária

Já lá vão três dias que a Inês se tornou o centro das atenções lá na escola. Toda a gente queria ouvir os conselhos dela diziam que era uma verdadeira vidente e que percebia das pessoas como ninguém. Colegas de todas as turmas andavam atrás dela: tentavam apanhá-la à porta da casa de banho, sentavam-se ao pé dela no refeitório, traziam-lhe pastéis de nata, cadernos de TPC e outras prendas, mas ela recusava sempre tudo.

Gosto do Hugo do 5.º B. Achas que algum dia podíamos casar e ter filhos? suspirou sonhadora a minha colega de carteira, Mariana.

Não te aconselho, Mariana. O Hugo só parece um anjinho, mas passa a vida a mexer no nariz e a comer as ramelas. Olha, fome nunca vais passar, mas passar a vida ao lado de um assim, não recomendo disse Inês, a bebericar um chá e a mordiscar uma broa.

E o Pedro? É bom aluno e anda a aprender guitarra voltou a suspirar a Mariana.

O Pedro gosta é de assustar os gatos da vizinhança. Amarra-lhes latas na cauda e depois anda a persegui-los na rua. Vai crescer um bruto e ainda há-de começar a beber.

Porque é que dizes isso?

Já viste algum guitarrista português que não goste de um copo? E és nova para te preocupares com isso. Aproveita, preocupa-te é com a matemática e para de roer as unhas ou ainda acabas cheia de bichos por dentro!

Não tenho amigos. Chamam-me gorda e nunca me convidam para nada queixou-se o Artur do 4.º C, enquanto afastava a Mariana com um encontrão que quase a atirou para o outro lado do banco.

Na quarta-feira abre a inscrição para o judo. Podes deixar lá o teu nome na sala do professor de Educação Física. Não vais ficar mais magro, mas pelo menos ninguém te volta a chatear. E não voltes a empurrar futuras esposas, ouviste?

A Inês levantou-se e levou o tabuleiro à copa.

Achas que este ano deva tirar a carta ou deixo para o próximo? perguntou casualmente a professora de Geografia, Dona Teresa, enquanto lavavam as mãos.

Para tirar a carta, era bom primeiro teres carro, Dona Teresa. Tens só o velho Fiat do teu pai. Vês a diferença?

Acho que vejo…

Inês revirou os olhos, secou as mãos e completou:

Vende antes o carro do teu pai, compra uma bicicleta e uns calções. Dentro de dois meses vais ter boleia para o trabalho, não te preocupes. O melhor era mesmo investir numa casa. As condições do crédito estão óptimas e viver com os pais até aos 35 não tem graça. Digo-te isto porque sei do que falo.

Com os professores e colegas todos a olhar para ela às arrecuas, a Inês lá seguiu para a aula de Educação Tecnológica.

Em quarenta minutos, enquanto as outras aprendiam a traçar moldes e a enfiar linhas na máquina de costura, a Inês costurou as calças que trouxe de casa, apertou a saia e ainda fez umas meias de lã à professora. Disse-lhe que era importante as grávidas manterem os pés quentes. A professora quase que saiu a correr para a farmácia e no dia seguinte apareceu com um bolo de chocolate que toda a turma devorou em agradecimento à Inês.

Em casa, o comportamento dela também era peculiar. Chamou a atenção da mãe por ter comprado carne picada já feita, e preferiu ir fazer os rissóis de raíz. À noite, desligou o YouTube e pôs-se a ler Os Três Mosqueteiros, e de vez em quando dava-lhe para murmurar com alguém invisível. O pai espreitava-a por cima do computador, e ela lá lhe dizia que estava sempre curvado. Insinuou até que ele devia ir sacudir o tapete em vez de perder tempo em sites duvidosos pela internet.

Pelos corredores da escola já se ouviam rumores, os professores estavam aflitos e decidiram que era necessário convocar um psicólogo. Organizaram uma sessão especial durante o horário das aulas, com todos os professores e até o diretor.

Inês, querida, diz lá, fazem-te mal na escola? começou o psicólogo, que usava barba e óculos da moda.

O que me custa é saber que a escola recebeu financiamento de milhares de euros e tudo o que compraram para o ginásio foi uma velha trave e dois metros de corda.

Toda a gente olhou para o diretor que, de repente, teve que sair pela janela aberta.

Não tens amigos?

A amizade é uma coisa muito abstrata disse com ar aborrecido, enquanto enrolava as duas tranças. Num dia estás a jogar apanhada com a tua amiga, no outro ela está a lavar a loiça lá em casa enquanto tu regulas os impostos.

Mas que parvoíce de impostos e loiça é essa? Quem te disse isso tudo?

A minha amiga.

Ah, então aí está o problema! Podes chamá-la aqui?

Mas ela está aqui respondeu Inês, sem pestanejar, deixando todos pasmados.

Não a vemos. Como se chama?

Dona Rosa Fernandes.

E quantos anos tem?

Setenta.

O que é que ela te diz?

Que devemos lavar os dentes desde a gengiva, que o cão do nosso prédio não é mau, está é assustado e com fome, que nunca se esquece a família. E também, que vocês têm andado a pagar IMI mal calculado há cinco anos, deviam ir às Finanças pedir revisão segundo o valor real, não pelo cadastral.

O psicólogo tudo rabiscou no bloco e pôs muito sublinhado na última nota.

Chamaram os meus pais pela escola. O telefone tocava nas suas secretárias.

Esperem! gritou o meu pai, aflito, do outro lado. Esse era o nome da minha mãe! Ela faleceu há dez anos.

Senti um silêncio pesado e alguns cochichos de rezas.

Pois! Dez anos e ninguém vai ao cemitério cuidar do jazigo. Está tudo cheio de ervas e a grade torta resmunguei amuada.

Pois… queria, mas nunca arranjei tempo… desculpava-se o meu pai.

A sessão terminou.

No dia seguinte, toda a família lá foi ao cemitério. Eu nunca tinha conhecido a minha avó, só ouvira pequenas histórias. Até demorámos a encontrar a campa, que o cemitério de mármore cresceu tanto que até parecia que nunca ali fora um pinhal.

Levei um ramo de tulipas amarelas e cortei uma garrafa de água para servir de jarra. O meu pai endireitou a grade, a minha mãe arrancou as ervas.

Pai, a avó diz que és um bom homem, só estás demasiado enterrado no trabalho e nas tecnologias, e depois não te sobra tempo nem para mim.

Ele corou e assentiu, envergonhado.

Vamos fazer melhor prometeu-nos, fazendo-me festas no cabelo e depois passando a mão na foto desbotada da avó.

Agora está em paz e não vai voltar a aparecer-me, mas vou sentir saudades. Era tão simpática, divertida e tão esperta.

Sempre foi assim, sim. Via logo quem valia a pena. Ainda te disse mais alguma coisa?

Disse que a tua dieta dos pepinos não vale nada, se queres emagrecer vai ao ginásio. E que abrir conta em dólares foi parvo, deves pensar bem em decisões dessas. E sobre aquele cimento barato que mandaste vir para a obra da churrasqueira…

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