Amiga Imaginária

Amiga Imaginária

Há três dias que à volta da Leonor andava sempre um grupo de alunos. A rapariga tinha fama, na escola toda, de ser uma verdadeira vidente e psicóloga de mão-cheia. Todos queriam uma fatia da sua sabedoria. Apanhavam-na à porta da casa-de-banho, sentavam-se com ela à mesa da cantina e traziam-lhe rebuçados, cadernos com os trabalhos de casa e outros presentes, aos quais ela, por algum motivo, sempre dizia não.

Eu gosto do Diogo, do 5.º B. Achas que um dia posso casar com ele? suspirava, sonhadora, a colega Beatriz.

Não te aconselho. O Diogo parece todo certinho, mas passa a vida a cutucar o nariz e a comer as porcarias que lá tira. Nunca passará fome, é certo, mas para por aí. Assim, vai-se arrastando a vida toda respondeu Leonor, trincando uma fatia de broa e bebendo chá.

Credo, que nojo! E o Tomás? Tira boas notas, anda a aprender guitarra continuou a Beatriz, com um sorriso sonhador.

O Tomás maltrata gatos. Prende-lhes latas ao rabo e põe-se a persegui-los pelas ruas. Há de se tornar cruel, e, ainda por cima, vai acabar a beber muito.

Porque dizes isso?

Já viste algum guitarrista que não goste de uns copos? E escusas de pensar nisso agora vive para ti mesma. Os rapazes não fogem. Cuida é da matemática e deixa de roer as unhas, senão ainda apanhas bichos.

Eu não tenho amigos. Todos dizem que sou gordo e ninguém me chama para nada desabafou o Paulo do 4.º ano, empurrando, de forma brusca, a apaixonada Beatriz para o outro lado do banco.

Na próxima quarta-feira abrem inscrições para judo. Basta deixares o teu nome no gabinete do professor de educação física. Não vais emagrecer, mas ao menos param com as bocas. E, olha, não atires mais as tuas futuras esposas assim.

Leonor levantou-se e levou o tabuleiro à zona da loiça.

Leonor, achas que vale a pena tirar a carta este ano ou deixo para o próximo? perguntou a professora de geografia, fingindo que era ao acaso enquanto lavava as mãos.

Professora Helena, para tirar carta de condução convém ter carro, e o seu é o Renault velho do seu pai. Veja lá se entende a diferença.

Eu acho que percebo

Leonor revirou os olhos e, depois de lavar bem as mãos, acrescentou:

Venda o carro, compre uma boa bicicleta e uns calções. Daqui a dois meses já tem boleia para ir trabalhar. Ou então, invista num empréstimo habitação as taxas estão baixíssimas, e viver com os pais aos trinta e cinco não é propriamente decente. Digo-lhe isto de quem percebe do assunto.

Sob o olhar tonto da professora, Leonor lá seguiu para a aula de Educação Tecnológica.

Em quarenta minutos, enquanto as colegas aprendiam sobre moldes e tentavam enfiar a linha na agulha, Leonor remendou umas calças trazidas de casa, apertou a saia e ainda fez umas meias de lã, oferecidas à professora de ET, dizendo que as grávidas precisam de ter sempre os pés quentinhos. Pela manhã, a professora correu à farmácia comprar um teste de gravidez. No dia seguinte, toda a turma comeu bolo de chocolate caseiro foi a forma de agradecimento à Leonor.

Em casa também se portava de modo peculiar. Repreendeu a mãe por comprar carne picada no supermercado e pôs mãos à massa a fazer uns rissóis. À noite, em vez de ver vídeos no telemóvel, pegou nos Três Mosqueteiros e, de vez em quando, falava sozinha aos sussurros. O pai, meio escondido atrás do computador, olhava-a de lado. Leonor não se ficou: chamou-lhe a atenção por estar encurvado e sugeriu ir sacudir o tapete à varanda, em vez de andar pelos sites duvidosos.

Na escola, os rumores começaram a circular, e os professores preocupados chamaram a psicóloga. Marcaram uma sessão durante o horário das aulas; juntou-se o conselho diretivo e a diretora.

Leonor, querida, alguém te anda a tratar mal aqui na escola? começou o psicólogo, de barbas à moda e óculos grossos.

O que me magoa é saber que deram milhares de euros à escola e só compraram um velho banco sueco e dois metros de corda para o ginásio respondeu ela, impávida.

Todos olharam para a diretora, que se esgueirou pela janela alegando ter uma reunião urgente.

Não tens amigos?

A amizade é abstrata, senhor doutor Leonor suspirou, brincando com as tranças. Hoje, brincas às escondidas ao intervalo; amanhã, a tua melhor amiga lava a loiça em tua casa, enquanto tu preenches a declaração do IRS.

Espera, que IRS, que loiça? Quem te pôs essas ideias na cabeça?

A minha amiga.

Pois aí está o problema! Podes chamá-la aqui?

Ela já cá está respondeu a Leonor, tranquila, deixando todos encolhidos de surpresa.

Não a vemos. Como se chama?

Dona Amália.

Valha-me Deus, e quantos anos tem?

Setenta.

E o que mais te diz ela?

Que devo escovar sempre os dentes, que o cão do nosso prédio não é mau, só assustado e faminto, que nunca devemos esquecer os familiares. E também que, doutor, tem andado a calcular mal o IMI nos últimos cinco anos! Deve ir ao registo predial pedir uma avaliação ao preço de mercado, porque a conta foi feita pelo valor patrimonial.

O psicólogo apontou tudo, o último conselho, então, encarnou-o a vermelho.

Chamaram então os pais pelo telefone do colégio.

Esperem! gritou o pai ao telefone, a voz trémula. A minha mãe também se chamava Amália! Morreu há dez anos.

Ouviram-se suspiros e murmurinhos de oração pelo gabinete.

Pois é… Dez anos e nem sequer fomos lá visitá-la, a relva já cobre tudo, e até a vedação está caída resmungou Leonor, magoada.

Pois… eu queria, só nunca dá jeito o pai balbuciava.

Acabou a sessão.

No dia seguinte, toda a família foi ao cemitério. Leonor nunca conhecera a avó, só ouvira pequenas histórias contadas pelo pai. Não foi fácil achar a campa, tal é o matagal que tomou conta daquele campo de mármore, outrora pinhal.

A rapariga levou um ramo de tulipas amarelas, que colocou numa garrafa de plástico cortada. O pai ajeitou a vedação, a mãe fez limpeza.

Pai, a avó diz que és bom homem, mas perdeste-te no trabalho e na internet, não tens tempo para nada nem para mim.

O pai ficou corado, assentindo em silêncio.

Diz que nos vamos esforçar mais, ele passou a mão pelo cabelo da filha e depois na fotografia já desbotada do túmulo.

Agora ela está descansada e não vai voltar a aparecer-me, ainda que lhe vá sentir muito a falta. Era tão bondosa, divertida e sabia tudo.

Era sim. A avó era incrível, lia as pessoas com um olhar. Ela disse-te mais alguma coisa?

Disse, sim. Que a tua dieta das sopas não presta. Se queres perder peso, vai ao ginásio. E que abrir conta em francos suíços foi um disparate. Há decisões que precisam de ser pensadas, pai. Ah, e aquele cimento barato para a garagem disse que vais arrepender-te…

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