AMAR COM PACIÊNCIA, SUPORTAR COM AMOR O casamento de João e Maria foi abençoado na igreja. No di…

AMAR COM PACIÊNCIA, PACIENTAR AMANDO

Olha, deixa-me contar-te uma das histórias que mais mexeu comigo. Era sobre o João e a Leonor. Eles tinham casado pela Igreja, cerimónia linda numa igreja antiga ali nas redondezas de Lisboa.

No dia do casamento, tudo ia como mandam as regras, com os convidados radiantes e eles prestes a entrar na igreja, quando se levantou uma daquelas tempestades de verão, mesmo inesperadas. O vento foi tão forte que arrancou o véu da Leonor! O véu pareceu ganhar asas, subiu, rodopiou no ar como balão na festa da aldeia, e acabou por cair numa poça de lama negra. Toda a gente ficou de olhos em bico, a fazer figas para que aquilo não fosse sinal de azar.

As velhotas sentadas na escada da igreja começaram logo com aquelas conversas: Eh pá, isto é mau presságio, vida de casados vai ser uma tempestade pegada! Mas olha, não havia tempo a perder, e lá foram comprar à pressa uma flor branca de plástico na loja do bairro, que espetaram no cabelo da Leonor não dava era para ir atrás de novo véu, senão ainda chegavam atrasados ao próprio casamento!

Pois bem, o casamento seguiu, eles com as velas na mão, prometeram-se sob o olhar de Deus. Já tinham feito o papel passado na conservatória e dado aquela festa bonita, tudo para as pessoas verem!

Três anos depois, já tinham dois miúdos: a filha Matilde e o filho Rafael. Viviam a vidinha deles, mesmo sem grandes sobressaltos.

Até que dez anos depois do casamento, bate-lhes à porta uma rapariga, um bocado fora do normal. A Leonor, sempre simpática com todos, ofereceu o bolo-rei e um chá aos visitantes, conhecidos ou não. Mas desta vez, era mesmo diferente. A visita, que se apresentou como Mariana, disse, com todas as letras: Olá, meu nome é Mariana. Venho aqui porque serei a próxima mulher do seu marido.

A Leonor ficou perplexa. Perguntou logo: Há quanto tempo é que o João anda nisto? E a Mariana respondeu, sem pestanejar: Já faz algum tempo, mas agora não posso esperar mais. Vou ter um filho dele.

A Leonor tentou impôr-se, explicou que eram casados pela Igreja para sempre, tinham filhos, que não era bem assim que a banda tocava Mas a Mariana nem se comoveu. Mas nós também nos amamos para a vida toda! Se quiser, pode-se divorciar, ninguém a julga, ele já não lhe é fiel Já me informei, é possível.

A Leonor calou a conversa ali. Olhe, minha menina, não se meta no casamento dos outros! Resolvo eu com o João aquilo que for preciso. A Mariana encolheu os ombros e foi-se embora. A Leonor estava furiosa por dentro, mas resolveu tentar acreditar no melhor vá que seja tudo ideia daquela rapariga!

O João chegou à noite e ela aproveitou o jantar para puxar conversa, como só uma mulher com o coração apertado consegue fazer.

João, andas apaixonado? Lá teve de ser direta.

O João baixou os olhos. Estou. Estou mesmo. Já não consigo viver sem a Mariana. Tentei, mas não consegui. Deixa-me ir, Leonor.

A Leonor, por dentro, sentiu-se morrer. Mas percebeu que não valia a pena insistir com dramas e chantagens: haverão de passar os dias, a vida mostra sempre o caminho.

O João, então, saiu de casa, e a Leonor procurou consolo na igreja. O padre escutou-a e disse-lhe: Filha, o amor tudo suporta, nunca falha. Podes pedir a anulação, porque o João te foi infiel, mas também podes perdoar e esperar. Os caminhos de Deus são misteriosos

Dois meses depois, a Leonor descobre que está grávida, do João, claro. Ficou contente, achou que talvez fosse um sinal de que o João acabaria por voltar para casa. A mãe dela, sempre prática, sugeriu que o bebé se devia chamar Tiago, que era o português de Santiago, porque pode ser que o João arregalasse os olhos e voltasse.

A mãe da Leonor foi um anjo: ajudava com os miúdos, dava comida, contava histórias, ensinava a vida. O João, pelos filhos Matilde e Rafael, nunca, nunca falhou: dava prendas, levava-os à Costa da Caparica e mandava uns euros por baixo da mesa para a ex-mulher.

Mas a Leonor proibiu os filhos de contarem ao pai que tinham agora um irmãozinho bebé. Mas sabes como é, basta distraires-te e já lá vai a Matilde contar tudo ao pai

O João pensou que a Leonor já tinha outra pessoa. Ficou com o coração apertado, cheio de memórias do que tinham tido. Nunca lhe passou pela cabeça que aquele filho era dele.

Enquanto isso, a Mariana perdeu a bebé ainda durante o parto; passou por duas gravidezes que acabaram em dor. O João esteve sempre do lado dela, fazia-lhe todos os gostos: frutas, doces, pedia conselhos à avó dela. Mas o azar parecia não ter fim.

A vida não parava, e num desses dias cinzentos, a Leonor reencontra no autocarro o Tiago, ex-colega dos tempos da faculdade, que nunca a esqueceu. Tinha andado anos atrás dela, mas ela nunca o viu como marido. Era demasiado certinho, muito dado à mãe, sem aquele humor de homem vivido.

Mas olha, nesse dia, estavam ambos sozinhos, tristes, e ela, sem dar por isso, convidou-o para jantar lá em casa. Ele trouxe um vinho alentejano, bolachas para as crianças e frutas. Ela desabafou com ele até ao fundo da alma, ele ouviu, sem julgar, só com aquele carinho bom de amigo. No fim, ela agradeceu-lhe com um beijo na bochecha. E ele ficou com esperança, mesmo dizendo: Olha, se é assim que tem de ser, és como uma irmã para mim.

O Tiago começou a ir à casa da Leonor, levava doces, flores, jogava com os miúdos. Mas ela foi clara: Podes cá vir, mas eu espero pelo João. Nada de confusões.

O Tiago aceitou, porque antes isso que estar sozinho.

Por fim, a Mariana e o João conseguem ter uma filha saudável. Chamaram-lhe Benedita, que significa abençoada para ficarem mais perto de Deus, talvez. A Mariana mergulhou na maternidade, mas não esqueceu as palavras da Leonor. Percebeu, no meio daquele turbilhão, que a felicidade roubada aos outros traz amargura. Chorou muito arrependida, queria ajoelhar-se e pedir perdão à Leonor.

O João adorava a Benedita: enchia-a de brinquedos, embalava-a noite após noite, dava-lhe banho, era um pai maravilhoso.

Passaram-se cinco anos, cada um foi crescendo à sua maneira. Mas eis que a Mariana adoece gravemente, muito jovem, só com trinta anos. O João correu tudo: médicos, internamentos, remédios, foi um desespero.

Quando os médicos a mandaram para casa, já sem esperança, a Mariana pediu ao João: Leva-me à tua verdadeira esposa, à tua casa antiga. Por favor!

O João ficou surpreso, mas fez-lhe a vontade.

A Leonor já sabia do que se passava a Matilde ia sempre visitar o pai, e contou tudo à mãe. Por isso, quando o João ligou a pedir, a Leonor abriu-lhes as portas. O João entrou em casa com a Mariana nos braços, tão fraca, parecia uma boneca de trapos, e todos ficaram a olhar, esperando explicações.

A Mariana pediu para ficarem a sós, e a Leonor sentou-se ao seu lado, na cama, a ouvi-la pedir desculpa: Perdoa-me, Leonor. Eu sei que causei mal a ti e à tua família. Promete-me que cuidas da Benedita, que não falta nada à minha menina

A Leonor pegou-lhe na mão com doçura: Mariana, não é Deus que nos pune, nós fazemos isso a nós próprias. Já te perdoei há muito tempo. A Benedita fica connosco, não te preocupes. E mais: fiquem aqui os três. O João precisa de apoio, tu também. Há espaço para todos nesta casa, havemos de conseguir!

Toda a família se uniu para cuidar da Mariana, e quem acabou por se destacar foi o Tiago, que tinha desenvolvido por ela um carinho especial. Estava todo o tempo ali, a conversar longas horas, a encontrar as palavras certas para dar força.

A Mariana agarrou-se à vontade de viver. Pouco a pouco, foi recuperando, já conseguia passear no quintal, sentir o sol, respirar. O Tiago, enquanto isso, foi-se apaixonando, e amou aquela menina Benedita como sua filha.

A certa altura, a Mariana percebeu, ao olhar para o Tiago, que tinha no coração um carinho novo, forjado pelo sofrimento, pela partilha, pela vida. O João, por quem ainda sentia coisas, era marido de outra. E ela não voltava a abrir essa ferida.

Então, um dia, já a comer todos juntos, a Mariana anuncia: Leonor, João, vamos partir. Eu, o Tiago e a Benedita. Obrigada por tudo. Nunca esquecerei o que fizeram por mim.

O João e a Leonor olharam um para o outro, já sabiam que entre a Mariana e o Tiago tinha crescido algo bonito, verdadeiro.

Antes de irem, o João pediu à Leonor que o aceitasse de volta, que não encontrava maior generosidade nem maior amor do que ali. E ela abraçou-o, sorridente, pronta para recomeçar, para criar juntos os três filhos. Quanto à Benedita, o João garantiu: Será sempre filha desta casa.

Na despedida, a Mariana abraçou o João: Ama bem a tua Leonor, mais do que tudo. Vou sempre lembrar-me de ti com carinho. E assim se foram.

E eu, depois de ouvir isto tudo, fiquei a pensar como a vida tem estas voltas no final, quem perdoa e quem cuida é quem mais amor tem para dar. E não é que, mesmo com tempestades e lágrimas, conseguem crescer jardins onde menos se espera?

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