Arrenda-se o meu T2
Catarina Benedita Dias, agora por casamento chamada Teixeira, sempre achou que o mais trágico na vida era quando algo bom começava silencioso, como uma brisa, só para se ir extinguindo do mesmo modo discreto mas tão inexorável quanto a conta da EDP. É como com os vasos de manjerico na janela: lá se vai regando, lá estão verdinhos até que um dia, zás, meia folha amarela e pronto, nem o São João lhes vale.
O cheiro chegou antes dela ao andar.
Denso, adocicado, a lembrar aquela velha colónia Lavanda Portuguesa, imortalizada na memória de Catarina porque era exatamente assim que cheirava a casa da D. Graça toda vez que ia lá: era um cheiro pegajoso, que se entranhava na roupa, no cabelo, e, mais tarde (oh ironia!), na saudade.
Catarina parou em frente à porta, chave na mão. Quatro da tarde. Saiu do escritório mais cedo porque a D. Hermínia do departamento de contabilidade a despachou ao ver a cara dela, mais pálida que um pastel de nata sem açúcar. Desde manhã com aquela dor de cabeça, parecia que tinha levado uma cuspidela de vento norte ali direto nas têmporas. Queria tomar um comprimido, deitar-se, embrulhar-se numa manta e fingir que o IVA não existe.
Mas aquele cheiro, para além de nausear, anunciava outras festas.
Entrou.
Na entrada, três caixas de cartão, daquelas onde vem a máquina de lavar roupa. Grandes, com COFISA escrito a vermelho escarlate. Uma já estava selada com fita-cola. Nas outras duas, algo encoberto de jornais antigos do Expresso.
Da cozinha vinham ruídos: talheres a tilintar, pratos a mexer, vozes a resmungar.
***
D. Graça, disse Catarina, sem sair do tapete. Posso saber o que é isto?
O barulho cessou. Logo emoldurada no portal da cozinha apareceu a sogra. Mulher larga, mãos de cozinheira e cabelos presos num coque, vestindo avental sobre o tailleur cinzento. Luvas de borracha, pose profissional aquela gravidade solene de quem esteve, toda a vida, a tomar decisões na fila das couves.
Menina Catarina! disse, naquele tom com que as auxiliares de saúde comunicam uma má notícia suave: É só para o seu bem. Veio cedo hoje não se está a sentir bem?
O que se passa aqui? Catarina não tirou o pé do tapete.
Não venha com dramas, D. Graça tirou as luvas, uma, depois outra, com precisão cirúrgica de quem já lavou muito chão deste mundo. Estou a fazer isto por vocês, pelo meu Pedro também, não se esqueça. Sente-se, querida, já lhe explico.
Fala daqui. Estou bem.
A sogra apertou os lábios um gesto automático, adquirido em anos a mandar na receção do Centro de Saúde de Oeiras. Gente que está habituada à última palavra e ela, infelizmente para todos, não a desperdiçava.
Pronto, fez um sinal vago em direção à cozinha. Ao menos entre, que parece um carteiro ali parada. Vai chá? Faço um cházinho.
Dispenso o chá. O que está aí dentro das caixas?
D. Graça suspirou, como quem carrega fardos alheios toda a vida.
Louça. Panelas, frigideiras. Os copos de cristal embalei separados, não se apoquente. Os pratos ficam, para os inquilinos.
Catarina sentiu o mundo ficar suspenso nessa frase. Para os inquilinos. Aquilo ficou a ecoar entre o estômago e o coração.
Que inquilinos?
Arranjei umas pessoas para arrendamento, informou D. Graça, como quem anuncia que ganhou uma bola de Berlim na lotaria do Pingo Doce. Um casal jovem, miúda pequena. Ele trabalha nas obras bom rapaz; ela, licença de maternidade. Estou descansada. Vêm na sexta-feira para a mudança.
Sexta-feira. Daqui a três dias.
Pois claro, três dias. Já tratei do adiantamento. Pagam logo dois meses: um de caução e um de renda.
Catarina pousou o saco, abriu o fecho do casaco, pendurou no cabide devagar sentia a cabeça latejar mais forte, agora com um frio nas mãos, embora o ar de Lisboa estivesse abafado.
Mas falou disto com o Pedro?
Já! Imagina que não?! Foi falado há meses, quando lhe cortaram o prémio de produtividade. Até fui eu que disse: arrendamos a vossa casa, ficam comigo uns tempos, poupam uns trocos. Simples.
Nessa altura não chegámos a acordo, Catarina abanou a cabeça. Eu disse que não queria.
Disseste que ias pensar, corrigiu D. Graça, quase maternal.
Não. Disse não quero. O Pedro pediu para não discutir mais, calei-me. Não é o mesmo que concordar.
D. Graça cruzou os braços. Gesto clássico de quem está habituada a que a sua palavra fique como sentença.
Tu és rapariga inteligente, Catarina. És contabilista, fazes contas melhor que eu. Então, quanto vos custa o empréstimo à Caixa todos os meses?
Isso já não é da sua conta.
Catarina.
Não é, Catarina não se exaltou. Era só o cansaço. A vida desta casa não é da sua conta.
Fez-se silêncio, só se ouvia o rumor de carros na Avenida Infante Santo. Provavelmente, o 28 passava lá em baixo.
Tens direito à tua opinião, disse por fim D. Graça, já metálica, mas numa família não és só tu. Pedro já concordou.
Vou ligar ao Pedro, Catarina tirou o telemóvel.
***
Pedro atendeu ao terceiro toque; fundo sonoro de máquinas, vozes. O seu tom era o típico de quem está a meio de um dia puxado.
Cat, o que se passa? Vi que saíste cedo
Pedro, a tua mãe está aqui a empacotar a casa. Diz que arranjou inquilinos. Vêm na sexta-feira.
Um silêncio. Catarina sentiu o próprio pulso.
Queria ter-te contado
Sabias?
A mãe ligou ontem de noite, disse que tinha encontrado o casal. Achei que irias falar com ela
Pedro. Catarina encostou-se à parede. Sabias, e nem uma palavra. Volto para casa e estão os nossos pratos em caixas. Tens mesmo noção do que isto significa?
Sei que estás zangada.
Vem para casa.
Tenho reunião às seis
Larga isso e vem já.
Ele chegou cedo, pouco depois das cinco e meia. Catarina já estava a apalpar a caneca de chá frio. D. Graça continuava na sala, mexida nas porcelanas todas que tinha trazido da casa da Amadora para dar ambiente.
Pedro era alto, olheiras de fabricante, ar de quem está no fio da navalha. Engenheiro numa construtora, apanhava o comboio todos os dias de Oeiras a Entrecampos. Catarina sabia que se passava, mas hoje não havia desconto possível.
Vai sentar.
Ele sentou-se. Catarina pousou a caneca, apontou para os olhos dele.
Como é possível decidir coisas sobre a nossa casa sem mim?
Não foi decidido nada, foi só uma hipótese. Achei que falávamos
Falámos: ela está a guardar caixas. Isso é hipótese?
Catarina, estamos num aperto. Desde que me tiraram o prémio, não estamos a dar resposta. Empréstimo, água, luz, supermercado, prestação do Clio. Não chegamos para tudo.
Ela escutava. Tinha alguma razão. O ordenado, o supermercado, o comboio, o ginásio agora visto à lupa.
Eu sugeri fazer cortes. Nada de viagens nas férias. O ginásio suspende-se. Concordaste.
Sim, mas a mãe diz que não basta.
E tu?
O silêncio dele foi resposta.
Pedro, Catarina chegou-se mais perto. De quem é este apartamento?
Catarina
Não é Catarina. É meu. O meu pai deixou-me a casa. Está no meu nome, nos registos. Nem tu nem a tua mãe podem arrendar sem minha autorização, percebes?
Pedro abriu muito os olhos. Nunca tinha pensado nisso.
Não vais ligar à polícia, pois não?
Não é isso que está em causa, Pedro. Isto é a tua mãe a mandar, e tu a deixares.
Passos vindos do corredor. D. Graça, pronta para o embate final.
Pedro, explica à Catarina que tem de ser razoável. Os nossos inquilinos estão à espera
Mãe, espera.
Espera nada! Se dissermos que não, perdem a casa! Não se arranja outra assim.
D. Graça, Catarina virou-se para ela. Não vai haver arrendamento. Nem mudança para sua casa. Está decidido.
Olhar demorado da sogra. Depois para o Pedro.
Pedro, ouviste?
Se calhar
Passei três dias a tratar disto E agora “já não se faz”? Por causa das teimosias?
Não é teimosia dela, mãe, é…
Catarina levantou-se. Levou a chávena à cozinha.
Amanhã não vêm ver casa nenhuma, disse. Se os seus inquilinos aparecerem, faço questão de esclarecer tudo pessoalmente. Boa noite.
No quarto, fechou a porta suavemente, nada de dramas. Só fechada.
***
A noite foi um fiasco. Pedro chegou perto das onze, dormiram encostados aos limites da cama, sem um toque. Catarina lembrava-se da frase do pai: Queres resolver o problema, vê-o de longe. Ao perto, tudo mete mais medo.
O pai partira há quatro anos, mas deixara a casa. Não como coisa mas como escudo. Catarina entendia o recado. Pai sabia que a filha ficava sozinha. Mãe, lá em Coimbra, pouco podia acudir. Era necessário ter um porto.
O porto ali estava, mas encaixotado.
Na verdade, a âncora não eram os tachos na caixa; eram os papéis. Esses dormiam dentro do móvel da sala: pasta azul, cartonada, com escritura, doação, tudo com selo carimbado.
Sabia que D. Graça apareceria com os seus inquilinos. Era obstinada, nunca cedia terreno. Pior fraqueza e a maior força dela. Ao contrário: Catarina sabia recuar, mas só se valesse a pena.
Aqui não valia.
Pedro mexeu-se do outro lado da cama. Ela não se virou. Ficaram ali: um casal novo, partilhando um ginásio esquecido, o stress do IRS, a sua primeira Árvore de Natal, dois pares de chaves.
Catarina pensava: amar é sobretudo decidir. E quem ali ficava calado ao lado dela: isso era o quê?
Não sabia. Assustava mais do que as caixas.
***
Acordou às sete. Normal. Café em pé à janela: chuvinha miudinha, céu deslavado de Março sobre a Rua de São Bento. Lisboa não perdoa nesta altura a primavera de calendário e a trovoada de verdade.
Cabeça mais leve, ainda bem.
Abriu a pasta azul, conferiu: escritura em nome de Catarina Benedita Dias. Contrato de doação. Tudo bem vincado, tudo bem seu.
Às nove e meia, a mãe ligou de Coimbra:
Filha, como vai isso?
Bem, mãe.
Voz assim… algo se passa?
Tudo bem.
Pausa.
O Pedro ligou-me, revelou a mãe. Está muito baralhado.
Ele precisa decidir onde está.
Ele é bom rapaz, Catarina. Viveu trinta anos ao pé dela. As coisas não mudam tudo de uma vez.
Eu sei.
Vais conseguir?
Claro, mãe.
E não te esqueças: a casa é tua. Não é ponto de discussão.
Nunca esqueço.
Desligou. Dez horas, Pedro apareceu, café sem palavra, ela de livro aberto, mas só para fingir.
Cat, ensaiou.
Sim?
A mãe ligou. Vem com eles às doze.
Ouvi-te ontem.
Podias ao menos conhecer as pessoas…
Ela largou o livro.
Pedro. Estás a tentar convencer-me a ceder a minha casa a estranhos, num negócio feito nas minhas costas?
Só acho… A mãe esforçou-se…
A tua acção é toda sobre ela. Não nós, mas mãe. É dela? Não. É dela, a casa? A decisão?
Ele suspirou, coçou a testa.
Não sei como sair disto sem a magoar.
E eu, posso ficar magoada?
Não respondeu.
Catarina voltou ao livro. Mais fachada que leitura.
***
Vieram às doze e meia.
Catarina ouviu o cigarro electrónico na escada, depois a voz farta de D. Graça, depois o elevador.
Pedro estudava os pardais da varanda. Catarina sentada no sofá. A pasta azul visível no móvel.
Campainha.
Pedro ia avançar, mas Catarina atalhou:
Ficas, ouço eu.
Ele parou, expressão baralhada entre alívio e desconforto, agradecido, envergonhado.
Campainha outra vez.
Catarina abriu.
Na porta, D. Graça no seu melhor casaco, aquele que só saía ao domingo. Atrás, um casal jovem, ela de casaco encarnado, ele de blusão, menino de gorro e orelhas de urso decalcadas de um catálogo do Continente. O garoto olhava, sério, para Catarina.
Catarina! D. Graça passou à frente, cheia de moral. Conheçam: Francisco e Madalena. Ele empreiteiro, ela com o Martim, cinco anos. Gente decente.
Bom dia, Madalena sorria, tímida. Desculpe o incómodo
Não faz mal, Catarina mantinha o tom igual.
Entraram. O miúdo sem sorrir.
Pedro está? D. Graça nem olhou.
Sala.
Pronto, Francisco, venha cá ver. Tem janelas viradas para a frente e traseiras muito sol. E o Metro logo ali à esquina
Falava como dona da casa: altura dos tetos, tomadas novas, forno comprado pela nora, tudo argumento de venda.
Francisco acenava, Madalena agarrava o Martim, Catarina junto ao móvel.
E quanto ao valor, começou D. Graça, sempre de negociante, cinquenta mil euros por mês é o mínimo…
Esperem.
O tom de Catarina era calmo. Abriu o móvel, tirou a famosa pasta azul.
Todos olharam.
Francisco, Madalena, antes de decidirem, permitam que vos mostre um documento.
Abriu, tirou a folha.
Este é um extrato da Conservatória. Quem aparece como proprietária?
Madalena leu:
Catarina Benedita Dias.
O meu nome de solteira. Esta casa foi doada pelo meu pai, há dois anos. Sou a única dona, o meu marido não consta nos papéis. D. Graça não tem qualquer direito legal sobre ela.
Madalena deu o papel ao marido, embaraçada.
Catarina, começou D. Graça, não faça isto…
Francisco, para arrendar uma casa, precisa do consentimento do dono, em papel. Eu nunca dei consentimento, nem por escrito nem oralmente. Se assinarem com outra pessoa, será ilegal: sou obrigada a avisar.
Francisco hesitou, depois assentiu.
Não sabíamos. Disseram-nos que era seguro.
A dona sou eu, rematou Catarina. E não autorizo.
O silêncio pesou.
Então desculpem o incómodo, disse Francisco, devolvendo os papéis.
Espere! D. Graça, voz tremida, nem sombra de enfermeira: Há aqui um mal-entendido! Não vão embora.
Mãe.
Pedro, ainda encostado à janela, finalmente falou.
Mãe, eles vão. É a casa da Catarina. Devia ter dito antes. Desculpem.
D. Graça virou-se para ele, perplexa.
Vais ficar do lado dela, contra mim?
Fico do lado certo.
Certo. Agora sou a má.
Neste assunto, sim, mãe.
O casal saiu em silêncio. A porta bateu.
***
Na sala, D. Graça olhava o filho fixamente. Catarina, de pé com a pasta.
Percebes o que acabaste de fazer?
Percebo, mãe.
Escolheste-a a ela, e não a mim.
Escolhi o que é justo.
Justo A vida inteira a sacrificar-me, sozinha a criar-te, a engolir desaforos… e agora justo.
Mãe, sei disso tudo.
Sabes?! Oh filho, só queria evitar que passassem dificuldades. Arranjei pessoas, tratei de tudo
Em nome da casa de outra pessoa, mãe.
Ela virou-se de esguelha para Catarina.
Agora é dona. Vocês são família, devia ser de todos.
D. Graça, estou disponível para decidir com o meu marido, não em negociações nas minhas costas.
Só tentei ajudar!
A ajuda que não se pede é intromissão, corrigiu Catarina.
Intromissão! Pedro, ouves? Diz-me: ou ouves a tua mãe, ou ficas com ela que agora me chama intrusa. Decide.
Catarina não mexeu um músculo. Pedro, parado no meio da sala com cortinados (tortos) e estantes (mal penduradas) que ele ajudou a escolher.
Pedro engoliu em seco.
Fico. Com a Catarina. Aqui. Amo-te mãe, mas não podes continuar assim.
Ela demorou a entender.
Vais-te arrepender. Não era ameaça, era vaticínio.
Talvez. Mas agora faço o correto.
Foi à porta, pegou na mala, e saiu com dignidade de quem está habituada a vencer pela fadiga.
Ouviu-se o trinco. Depois o silêncio.
***
Ficaram na sala. Pedro ao pé da janela, Catarina junto à estante. A pasta azul nas mãos. Uma caixa selada, duas na entrada.
Lá fora, a chuva persistia.
Catarina arrumou a pasta, sentou-se no sofá. Pedro ao lado, sem se aproximar.
Catarina…
Espera um bocado.
Ficaram em silêncio. Catarina reparava na prateleira torta, ele nas pontas dos dedos.
Devia ter dito que não logo ontem. Devia ter tido coragem para lhe dizer que não se fazia. Não disse.
Porquê?
Demorou, depois:
Nunca soube contrariá-la. É muito intensa. Fica calada e parece que morre por dentro só por uma negativa. Desde miúdo é assim. Sempre foi mais fácil ceder.
Eu percebo, Pedro. Mas já não tens seis anos, pois não?
Não.
Hoje fizeste o que era certo. Mas não chega. Hoje é só um dia.
Eu sei.
Então pronto.
Olharam-se. Longamente. Catarina acabou por sorrir de lado.
Vamos desempacotar isto?
Vamos.
***
Desencaixotaram em silêncio; Catarina a tirar panelas, Pedro a resgatar cálices de cristal do plástico bolha.
A colónia antiga ainda empestava o ar, mas já dava sinais de querer fugir. Catarina abriu a janela, entrou frio molhado e cheiro a Alfama.
O rapaz com as orelhas de urso devia já ir a caminho de casa, a ver a chuva na linha de comboio ignaro de ter estado no olho do furacão da vida alheia.
Catarina lembrou-se do que disse a mãe: anos e anos a uma das pessoas, não se muda logo. Hoje Pedro disse não. Talvez amanhã precise de o repetir.
Não era garantia de vidas fáceis e lineares. Era começo.
Rangeu-se a última panela. Catarina amarrou jornais velhos, atirou ao lixo.
Faço café? perguntou Pedro.
Faz.
Ele foi à cozinha. Catarina apanhou a moldura branca que tinham na janela. Na fotografia, ela de vestido cor indefinida, ele de gravata já meio torta. Ambos a sorrir, meio patetas, mas felizes.
Passou um ano.
Repôs a moldura.
Da cozinha, veio o aroma forte do Delta. Coisa boa, caseira.
Foi até lá. Pedro pôs-lhe a chávena na mão; outra à frente dele.
Lá fora, chovia.
Beberam o café em silêncio. Um silêncio denso mas cheio. Havia muito ainda para dizer, mas hoje, podia esperar.
Café primeiro. Janela aberta. Estante torta no recanto.
Pasta azul segura no sítio.
***
Poderia acabar dizendo que tudo ficou resolvido. Mas Catarina, cinco anos a ver balancetes na Contas & Companhia, sabia bem: o balanço nunca casa logo; é ir em busca dos erros, ajustar aqui e ali, até dar certo.
Na família é igual.
D. Graça ligaria. Se não amanhã, daí a uma semana. Não era mulher de fugir: sai só para garantir retorno mais grandioso.
Pedro continuaria dividido Catarina sabia. O dinheiro, a prestação, o carro por pagar; tudo por resolver.
Dificuldades pela frente. Conversas honestas, ajustadas. Talvez estivesse um passo mais perto depois de hoje.
Pedro pousou a chávena vazia.
Catarina
Sim?
Ainda bem que ficaste. Mesmo quando fui burro. Fizeste o correto.
Ela olhou para ele.
Não sabia fazer diferente. Esta é a minha casa.
Ele assentiu.
A nossa.
Ela ficou calada um pouco.
A nossa.
A chuva abrandava. O céu, se não azul, pelo menos já menos cinzento.
Catarina levantou a chávena, sorriu só para ela o café estava frio, mas bebeu tudo.







