Aeroporto de Reserva
Estás a ouvir-me? disse ele, a voz baixa, quase a pedir desculpa. Quase. Lurdes, eu pergunto, estás a ouvir-me ou não?
Eu ouvia. Sempre o ouvi. Mesmo quando estava em silêncio, até quando não ligava durante semanas ouvia sempre qualquer eco da sua presença no ar do meu T2 em Campo de Ourique. Como se ele deixasse qualquer coisa suspensa: o cheiro do café dele, a marca da chávena no parapeito, a cadeira ligeiramente afastada da mesa da cozinha.
Estou a ouvir-te, António.
Então porque é que não respondes?
Estou a pensar.
Suspirou. Eu conhecia aquele suspiro de cor: pesado, com qualquer coisa presa no peito, como se lhe custasse fazer passar o ar por dentro. O António suspirava sempre assim quando queria pena, mas não sabia pedir.
Não tenho mais para onde ir disse enfim. Percebes? Acabaram-se-me as hipóteses.
Eu estava à janela a olhar para a rua. Março. Restos de neve junto ao passeio das Avenidas Novas, pombos molhados no beiral do outro lado, uma mulher a tentar desviar o carrinho de bebé de um monte de água suja. Um março banal em Lisboa, nada de especial. Mas dentro de mim, algo mudava, lentamente. Como uma página que se vira, como a lingueta que encaixa na fechadura.
Entra disse eu.
Três sílabas. E tudo, de novo, recomeçou.
O António tinha cinquenta e três anos. Eu, cinquenta e um. Conhecíamo-nos desde os tempos em que ele usava camisas aos quadrados julgando-se estiloso e eu andava com uma trança grossa, escondida na esperança de que a discrição fosse virtude.
Apresentaram-nos numa jantarada em casa de amigos comuns, vinho barato e discussão sobre autores que ninguém lera até ao fim. O António era o centro ria, gesticulava, partiu o prato de alguém numa destas. Eu apanhei os cacos. Pensei: Aqui está uma pessoa que ocupa todo o espaço. Como será isso?
Eu era o oposto. Discreta. Daquelas que passam despercebidas, até serem lembradas para sempre ou assim gostava eu de crer.
Ele apaixonou-se mas não por mim. Apaixonou-se pela Mónica. Previsível como trovoada depois de calor. Ela era exuberante, falava rápido, ria mais alto que ele e tinha o dom de entrar na sala e virar todas as cabeças. Ao lado dela, eu sentia-me uma aguarela; ela, óleo sobre tela. Não pior, só diferente.
Juntaram-se num sopro e, no instante seguinte, começaram as discussões. Vi tudo de fora anos a fio. Separavam-se, voltavam, repetiam o ciclo do costume. Mónica fazia cenas, António batia com portas, voltava e depois saía outra vez. Balanços, sempre em movimento.
E, entre um balanço e outro, estava eu.
A primeira vez que o António apareceu depois de uma briga séria devia ele ter trinta e cinco, eu trinta e três. Telefonou bastante tarde, voz trémula, pediu para passar lá em casa. Claro, disse eu. Preparei chá de lúcia-lima, arranjei qualquer coisa para picar. Ficou até às duas da manhã a desabafar. Eu sempre soube ouvir.
Dormiu no meu sofá. De manhã tomou café, agradeceu, foi-se embora. Duas semanas depois, voltou para a Mónica.
Mas não levei a mal. Dobrei a manta que tinha usado, deitei-a a lavar, segui a rotina.
E assim foi. Uma, duas, dez vezes perdi a conta. António vinha, passado um drama; às vezes só para um chá, outras ficava dias. Entre conversas e chá de lúcia-lima, acalmava, renascia, partia. Sempre de volta à Mónica, inevitavelmente.
Não chamava a isso amor. Nem queria. Mas cada vez que ele tocava à campainha, havia um aperto no peito que logo abria. Ali estava ele. Vivo. Real. Meu, por um pouco.
Às vezes imaginava-me uma torre de controlo: aviões chegam, aterram, reabastecem, partem. A torre permanece. Sempre pronta a receber.
Dessa vez chegou no final de março, mala de desporto ao ombro. Azul, gasta, com letras brancas a desfazer-se. Ao ver aquela mala, percebi logo não vinha para um ou dois dias.
É por muito tempo? perguntei enquanto tirava o casaco.
Não sei respondeu, honesto. Isso, pelo menos, nunca me faltou: frontalidade. Talvez uma semana. Logo se vê
Pronto. Vou pôr água no lume.
E pus água, lúcia-lima, elaborei o ritual doméstico. António sentou-se no sítio do costume, à janela, de costas para o frigorífico. Pousei-lhe a caneca à frente e pensei: Cá está. Outra vez. Um misto de conforto e de nostalgia morna.
Está mesmo mal? quis eu saber.
Pior era impossível respondeu, agarrando a caneca de ambas as mãos, sempre frias. Ela disse que está farta. Que assim não dá. Que só nos estragamos.
E tu?
Saí. Peguei naquilo acenou com a mala e vim embora.
Ficámos em silêncio. Da rua vinha o gotejar no beiral, som igual a metrónomo.
Lurdes Tu não estás contente, pois não?
Estou respondi. Sem mentiras. Amargo, meio envergonhado, mas verdadeiro.
Os primeiros dias foram estranhos. Não maus estranhos. Eu estava habituada ao meu ritmo: acordar às sete, café, meia hora a ler, trabalho, jantar leve, telefonema à Graça, deitar às onze.
O António baralhava o compasso. Não por mal, só porque tinha o seu ritmo próprio. Levantava-se tarde, gostava de conversar ao pequeno-almoço, deixava coisas fora do sítio, punha a televisão alto, ocupava a casa de banho mais que o meu calendário previa.
Mas, ao jantar, a companhia fazia bem. Ele trazia histórias, eu ria-me. Fiz uma lasanha à moda antiga e ele repetiu duas vezes, a melhor que comi em anos. Víamos filmes, discutíamos finais, na manhã de domingo íamos ao Mercado de Arroios comprar legumes. Ele carregava os sacos, com uma naturalidade que me fazia suspender o fôlego.
Uma semana, duas, um mês.
Numa madrugada, acordei no escuro, ouvi-lhe a respiração do outro lado da porta e pensei: E se isto for mesmo? Conhecemo-nos há tanto, a solidão já não assusta, não há segredos nem novidades. Não será esta a felicidade? Discreta, sólida como uma casa velha onde se vive anos a fio?
Disse isto à Graça, num café. Ela escutou, manteve-se calada.
Lurdes disse, e hesitou.
Já sei o que queres dizer.
Achas que sabes mesmo?
Que é por pouco tempo, que ele há de ir embora, que é costume.
Graça mexia o açúcar, pensativa.
Eu queria perguntar outra coisa: És feliz agora, não amanhã, não depois Agora?
E tive de parar e pensar, a sério.
Sim. Agora, sim.
Então vive agora respondeu a Graça. Pára de fazer contas ao futuro.
Fiz o melhor esforço.
Foram quatro meses. Abril, maio, junho, julho. Lembro-me de cada semana: a primavera, o ramo de lilases que ele trouxe, uma discussão parva de que nem recordo o tema, os sábados preguiçosos de leitura e bricolage no terraço. Uma intimidade tranquila, dava medo de perder.
Comecei a pensar por nós. Não eu vou, mas nós vamos. Não preciso, mas precisamos. Veio sem pedir licença, deixei crescer.
Ele também mudava. Menos impaciência, menos conversa sobre a Mónica, um olhar diferente, doçura que nunca foi pena ou gratidão. Talvez fosse aquilo, a palavra que esperei.
As chaves. Ele pediu as suas, as de reserva da minha casa. Fiz cópia sem hesitar, entreguei pequena peça de metal, quente por dentro.
Foi em julho.
A meio desse mês, o telefone tocou.
Estava a arrumar a cozinha, ele a ver qualquer coisa no portátil na sala. O telemóvel tocou alto, da maneira habitual. Não liguei. Ficou silêncio. Depois, mais silêncio ainda, daquele que só anuncia mudança.
Fui à sala. Lá estava ele, parado com o telefone na mão, olhar vazio.
António?
Elevou o olhar. E eu soube, antes de ele falar.
Mónica murmurou. Está em apuros. Sérios. Está sozinha, precisa de ajuda.
Só isso. Sem dramas ou explicações. Uma palavra: Mónica.
Percebi disse.
Lurdes
Vai.
Espera, deixa-me explicar
Não expliques. Está tudo explicado. Vai.
Ficou parado, olhou mais um pouco, levou a mala azul, que esteve sempre ali, recanto de que não me esqueci.
Eu telefono prometeu junto da porta.
Está bem.
A porta fechou-se. Ouvi o trinco. E restou-me o silêncio. Agora sem nenhum eco.
Três dias sem lágrimas. Estranho. Esperei-as, preparei–me, não vieram. Só vazio, como quando tiram móvel antigo e fica mancha clara no chão. Não dói, só está vazio.
No trabalho, portei-me bem. Sou contabilista numa pequena empresa de construção. Números exigem precisão e silêncio. Isso ajuda: os números nunca querem saber do que sentes.
Ao quarto dia, fiz a tal lasanha. Sem saber porquê. Ingredientes iguais, tabuleiro igual. Sentei-me, cortei uma fatia, comi. Saborosa. Intoleravelmente saborosa.
Aí, sim, chorei. As lágrimas todas, sozinha à mesa, como criança. Depois deitei um pouco de água fria na cara, acabei o chá e fui dormir.
No dia seguinte, apareceu a Graça, sem pedir licença. Tocou só lá em baixo: Abre, já cheguei. Subiu com um saco de pão e outra coisa qualquer. Pousou o saco, abraçou-me. Nem lágrimas havia já, tinham acabado com a lasanha.
Conta.
Não há nada a contar. Sabes tudo.
Sei. Mas conta. Em voz alta.
Contei. Julho, telefonema, mala azul, eu telefono. Não telefonou. Mais de uma semana.
Vais esperar? perguntou logo.
Não. Surpreende-te? Já não espero. Cansa. Passei a vida inteira à espera. Nem sei quando começou. Só esperava. Quando telefona, quando aparece, quando escolhe. E ele nunca escolhia. Só voltava quando não tinha alternativa. Sabes chamar a isto o quê?
O quê?
Aeroporto de reserva. Fui sempre o aeroporto de reserva dele. Sempre pronta, luzes acesas, pista disponível. Voava para lá, para cá. E sabia: se tudo falhasse, haveria sempre onde pousar.
A Graça fitou-me.
Tu entendeste isto há muito?
Soube há muito. Entender, só agora.
Saber é uma coisa; perceber, outra. Saber permite fingir. Perceber, já não.
Agosto foi torpor. Não sombrio, só quieto. Casa, trabalho, arranjar refeições, leituras adormecidas. Passeava ao fim da tarde pela marginal, olhando a água, reflexos das luzes, pessoas a passar aos pares ou sozinhas. Pensava em tudo e em nada.
Um dia, diante de uma montra, vi o meu reflexo. Mulher de gabardina clara, cabelo apanhado, olhar no vidro. Nem nova nem velha. Cansada, mas de pé. Passei tempo a olhar e perguntei: O que queres tu? Não ele; tu.
Não achei resposta, mas a pergunta já era importante.
Em setembro, mudei os móveis. Comecei pelo sofá. Nunca tinha pensado que ali atrapalhava a luz, deixava a sala pequena. Empurrei. Depois, mudei a estante, reorganizei tudo. Ficou outra coisa: luminoso, arejado. Porque não fiz isto antes? Talvez por medo. Agora já não tinha de quem ter.
Comprei cortinas novas linho cru, florinhas pequenas. As anteriores, azuis-escuras, pesavam, roubavam à manhã. As novas deixavam passar sol, a sala dourou-se. Finalmente, reparei. Viver cinquenta e um anos sem reparar na luz da manhã.
Em outubro inscrevi-me em italiano. Era daquelas promessas antigas: um dia, quando for altura. Agora fui. A turma era divertida, gente de todas as idades, um professor jovem, piadolas, obrigava-nos a cantar Torna a Surriento. Cantei. Sem vergonha, alto.
A Graça achou piada:
Italiano, Lurdes?
Sim.
Para quê?
Quero ir a Barcelona.
Mas lá fala-se espanhol!
Sei. Começo pelo italiano. Parecido
Era só meia-verdade. Mas animou-me o não fazer sempre o esperado. Queria novidades que fossem só minhas.
Barcelona apareceu sem aviso. Vi fotos ruas inesperadas, mercados, velhotes de jornal em banco de jardim, gatos ruivos nas ombreiras. Qualquer coisa estalou. Para lá quero ir, não em excursão, só morar um tempo, no cheiro do mar e das laranjas.
Num post-it: Barcelona. Primavera. Pus no frigorífico, lia-o cada manhã.
Novembro trouxe frio, dias curtos. Comprei mensalidade de piscina. Nadava de manhã cedo, antes do trabalho. Meia hora de água, melhor começo de dia que alguma vez conheci. Na piscina só interessa avançar lição da vida, afinal.
Pensava às vezes no António. Perguntava-me se estaria bem, se ainda com a Mónica. Não lhe desejava mal, honestamente. Era como ver uma foto antiga: reconheces, recordas, mas já não sentes.
Em dezembro, a Graça arrastou-me para comer passas com os amigos dela. Quase recusei, mas aceitei. Conheci gente nova, ri-me, bebi champagne e, às doze badaladas, foi um alívio. Não estava triste. Senti-me leve, como se tivesse pousado peso velho.
Janeiro, fevereiro. Continuava no italiano, na piscina, li livros guardados há anos. Limpei as arrumações, deitei roupa do tempo do António fora. Achei a velha manta a do sofá onde dormira naquela noite, que lavei e guardei. Doei-a. Que aqueça outro.
Chegou março. Ano certinho desde a mala azul à porta.
Estava à janela, café na mão. Rua igual: neve suja, pombos, mulher do carrinho noutra missão. Igual, mas eu mudada.
Ele telefonou num sábado, perto do meio-dia. Vi o número, senti um pontinho nem dor, nem alegria, só eco de hábito antigo.
Atendi.
Lurdes sou eu.
Vejo.
Como estás?
Bem. E tu?
Pausa.
Mal, para ser honesto. Podemos encontrar-nos?
Pensei um segundo.
Podemos. Ao fundo do prédio. Dou tempo para me despachar.
Nova pausa. Sentia-lhe o espanto do outro lado.
Pronto. Lá à entrada.
Desliguei. Acabei o café, vesti o casaco, ajustei o cachecol, vi-me ao espelho. Mulher de sobretudo claro. Tranquila. Preparada.
Ele esperava na rua. Envelhecido um pouco. Mais magro. Estava diferente, ou era eu que via de outro modo. Olhava-me misturando esperança e desconforto.
Olá.
Olá.
Caminhámos lentos pelo passeio, lado a lado.
Lurdes preciso dizer-te uma coisa importante.
Diz.
Este ano foi mau. Muito mau. Mónica não deu. Acabou tudo, ela é que foi embora. Negócios, também não tenho nada, perdi tudo. Fiquei percebes. Sem nada.
Limitei-me a ouvir, sem interromper.
Pensei muito em ti, continuou. Percebi o idiota que fui. Tinha verdade, e não dei valor. Tu foste tu és a pessoa mais real na minha vida.
António
Espera, deixa acabar. Quero tentar de novo. Sério. Mudei, repensei muita coisa. Dá-me essa chance.
Passámos junto ao grande castanheiro do jardim do costume. Brotos clarinhos, folhas quase a nascer.
Parei.
Ele também. Olhou-me.
Estás mais bonita, disse, de repente. Como é possível?
Isso acontece.
Lurdes Aperta-me a mão. Diz-me alguma coisa.
Fixei-lhe a mão. Conhecida, quente, a que desejei tanto segurar.
Soltei-a com cuidado.
António, quero que entendas. Não fiques magoado, mas entenda-me.
Diz.
Dizes que mudaste. Acredito. Um ano dá para muito. Mas isto não é sobre ti. É sobre mim.
O que há contigo?
Também mudei, mas de outro modo. Tu perdeste e buscas recuperar. Eu encontrei-me e não quero perder-me.
Notei-lhe angústia nos olhos.
O que encontraste?
A mim mesma. Simples e sincero. A mim.
Lurdes
Escuta, interrompi não estou zangada. Conhecemo-nos há demasiado para isso. Mas quero que compreendas: fui sempre o teu aeroporto de reserva.
Ia a protestar, mas prossegui.
Sempre vieste quando o resto falhava. Pousavas, ganhavas força, saías. Era à Mónica que querias sempre voltar: ela, aeroporto principal, mais luzes, mais vida. Eu, pista discreta, fiável, não titular.
Não é justo
É exacto. E sabes isso. Mas agora mudou. O aeroporto está fechado. Não por raiva, não para castigar. Só porque decidi: nunca mais sou o plano B de ninguém. Nem do melhor amigo.
Ficou calado.
E agora?
Agora tenho planos. Vou a Barcelona na Primavera. Aprendo italiano, mesmo sendo espanhol que lá se fala. Nado de manhã. Vivo numa sala nova, com cortinas novas e móveis no sítio certo. Leio os meus livros. Não há espaço para quem volta por falta de opção.
E se voltei por tua causa
Olhei-o longo. Talvez fosse verdade. Não sei, nem quero saber. A Lurdes que te esperava já cá não está.
Deu um passo, suplicante.
Dá-me ao menos uma oportunidade!
Não. Não por crueldade. Porque já sei como é. E cansei-me.
Ficámos junto ao portão. O mesmo sítio, outro ano. Eu outra.
Nem um chá? Perguntou.
Não.
Porquê?
Chá de lúcia-lima já é outra coisa. Seria recomeço. E não há início.
Baixou a cabeça, levantou-a.
Estás feliz?
Pensei. Sério.
Sim. Aqui, agora, sim.
Ainda bem. Muito bem, murmurou. Muito bem, Lurdes.
Silêncio.
Liga de vez em quando, só para conversar.
Abanei a cabeça.
Não é preciso. Cada um segue o seu caminho.
Acenou, conformado.
Disseste Barcelona?
Barcelona.
Linda cidade.
Eu sei. Nunca fui, mas sei.
Virou costas, partiu. Fiquei a vê-lo, homem que conheci trinta anos, que amei mais tempo do que a mim mesma. Agora deixava-o ir, sem dor, com serenidade.
Soltei uma asa, por fim.
Entrei no prédio, subi ao meu andar, abri a porta de casa. Cheirava a café e a linho, sol de março a dourar o sofá que nunca antes ocupara aquele canto.
Fui à cozinha. Ferveu a chaleira. Não lúcia-lima, mas hortelã o novo chá de estimação, só meu.
Arranquei o papel do frigorífico: Barcelona. Primavera. Escrevi: Abril.
Abril está perto.
O aeroporto de reserva fechou. E, finalmente, vou como piloto.
***
Mas isto não foi automático. Para chegar a este portão, a esta conversa, passei um ano a reconstruir-me. Passos pequenos, mês após mês, cada evento mudando subtilmente.
Quando o António saiu, aquele julho, não entendi logo a diferença. Sim, racionalmente. Mas no fundo não.
Nos primeiros dias, rotina de sempre: trabalho, casa, refeições leves difícil cozinhar para uma. Diminui porções, restava sempre comida a mais. Retirei a caneca dele azul, lascada. Esquecida, talvez propositadamente. Guardei no armário, não deitei fora. Não estava pronta a isso.
No quinto dia, a minha mãe ligou. Mora em Setúbal, falamos à quarta.
Está tudo bem, Lurdes?
Está, mãe.
Pareces cansada.
Trabalho
Pausa.
Ele foi-se embora, não foi?
Quase sorri. Mães sabem.
Como soubeste?
Sou tua mãe. Como estás?
Bem, mãe. Cansada, mas bem.
Vens cá?
Não, obrigada. Preciso de estar aqui, sozinha.
Vá, mas liga se precisares.
Ligo.
Não liguei. Não foi aquele desespero de que ela tinha medo. Só vazio, cansaço e uma solidão escolhida, mas pesada. Não doía. Não precisava voltar atrás. Estranhamente, não.
No fundo, sempre soube: a Mónica não era caso fechado, era planeta próprio dele. Só não queria admitir.
No final de julho, fui ao cabeleireiro a Dona Emília cortava-me o cabelo há anos, pessoa calma. Olhou-me, percebeu sem perguntas.
Que quer fazer, menina Lurdes?
Cortar. Bastante.
Quanto?
Pelos ombros, e mais claro.
Saí do salão outra. Não completamente, mas diferente. Mais leve, como se, ao cortar cabelo, livrasse peso velho.
A vizinha Maria Helena, setenteira sabedora, comentou logo na rua:
Lurdes! Estás mudada!
Cortei o cabelo, D. Maria Helena.
Ficaste dez anos mais nova. Sinal de vida nova.
Assim é.
Não penses demais, segue andando.
Sábia, a Maria Helena.
Agosto foi quente. Tive férias verdadeiras, pela primeira vez em três anos. Fiquei por Lisboa, descobri recantos do bairro, sentei-me no jardim Botânico, nunca lá tinha entrado. Tantos anos ao canto, nunca se deu. Cheirava a terra húmida, plantas sem nome. Sentei-me num banco, li, fiquei só a olhar as folhas entre a luz.
A isso chama-se viver: estar, simplesmente. Não é vazio, é vida.
Num desses dias, uma senhora da minha idade pediu licença, sentou-se a ler ao meu lado. Não era para conversar, só companhia de banco de jardim. Passámos a cumprimentar-nos quando voltava, vez ou outra trocar umas palavras. Não deu para amizade, mas era bom Lisboa tem espaço para estes laços leves.
Setembro acordou novo ano, cheiros de folhas, início de frescura. Adoro setembro, estação de recomeços sem escola. Por isso, foi nesse mês que mexi nos móveis: compasso de sexta-feira ao fim do jantar, rearranjei tudo sozinha. Suor, tropeços, mas valeu.
Ao olhar a sala nova, pensei: melhor. Muito melhor. Senti o António, uma sombra amistosa, mas sem mágoa só desejo de lhe correr tudo bem.
Em outubro, comecei o italiano. Grupo heterogéneo, professores bem-dispostos, demos boas risadas. Depois é que conheci melhor a Filomena, da minha idade, também em busca de algo novo depois de um divórcio. Tornámo-nos próximas, íamos ao cinema, a exposições. A vida afinal oferece novas oportunidades, desde que abramos a porta.
Noviembro, dezembro, janeiro: piscina, passagem de ano (onde me senti leve!), livros, limpezas à casa. Em janeiro, revi cadernos antigos: eu sonhadora e confusa aos vinte, temendo o mundo. Escrevi ali, naquela última página: Está tudo bem. Conseguiste.
Fevereiro trouxe cheiro de primavera. Passeios longos faziam-me descobrir Lisboa outra. Descobri até uma livraria nunca vista: comprei três livros sobre Barcelona, sobre arte e romance para leveza. O senhor Laurindo, dono, recomendou um: É sobre mudarmos com a vida.
Peguei nesse guia e planeei: comprei bilhetes, reservei casa no Raval, simples mas luminosa. Pela primeira vez, partida só porque sim não por obrigação ou companhia alheia.
Contei à mãe. Estranhou, depois elogiou: Tu sempre deste conta do recado. Mas manda fotos, ouviste?
No fim disto tudo, compreensão: relações depois dos cinquenta não são urgências, são escolhas. Não porque dispensemos companhia ou amor mas porque, finalmente, sabemos: amar é impossível se não nos amarmos primeiro. Eu vivi em modo espera quando ele decidir, quando ele vier. Mas a vida passou e escapou-me. Permissões não se pedem, tomam-se.
O que aprendi veio devagar, como o calor após longo inverno. Pequenas conquistas, novas alegrias. A lição da psicologia é esta: não controlamos os outros, só a porta da nossa vida o que deixamos entrar, o que fechamos.
Fechei. Sem raiva, sem teatro, só fechei. A conversa de março foi o gesto final.
Quando ele ligou, eu mexia em roupa velha. Atendi. Falámos. Caminhámos. Disse tudo aeroporto, reservas, a minha mudança. O mais difícil não foi dizer não, foi dizê-lo sem pena.
Vi-lhe a dor, vi um homem bom, apenas vulnerável ali onde estava a Mónica. Não foi crueldade, foi maturidade: sentir sem me afundar no problema alheio.
Subi para casa. O sol de março dourava as cortinas de linho. Post-it com três palavras: Barcelona. Primavera. Abril.
Chá de hortelã. Escrevi à Graça: Ele passou. Tudo bem. Ela: Orgulho.
Combinei com a Filomena cinema. Ela respondeu logo, hora e lugar?
Sorri. Liguei o computador, página dos bilhetes voos. Faltava um mês.
Aeroporto fechado. Luzes apagadas. Agora o avião é meu só meu.
A passageira? Eu. Esperei demasiado tempo. Agora comprei o bilhete, entrei no embarque. O meu nome é Lurdes. Tenho cinquenta e um anos. E vou para Barcelona.
***
A chaleira fervia. Chá de hortelã, caneca branca, fina, comprada neste dezembro.
Fui à janela. Março, igual mas outro menos sujo, mais luz, pombos felizes nos beirais, mulher qualquer a rir ao telemóvel junto ao passeio.
Fiquei ali a sorver.
No fundo é só isto: história de amor. Ou melhor, do que vem depois. Como se pode amar mal muito tempo, como se regressa a nós próprios, e como aí se descobre algo bom.
Como superar uma separação? Ninguém me perguntou, mas encontrei: move os móveis. Compra cortinas. Aprende uma língua. Nada todas as manhãs. Descobre livrarias esquecidas. Permite-te não esperar.
Não esperar.
É o mais difícil e ao mesmo tempo o mais elementar: deixar de viver em antecipação. Habituar-nos ao presente.
Perdoar ou esquecer? Para mim: perdoar, não esquecer. Zanga pesa e eu quero voar leve. Lembrar sem carregar sempre.
Pousei a caneca, abri o portátil. Bilhetes confirmados. Abril, Barcelona.
Sorri só para mim.
Um mês. Daqui a um mês, embarco. Para um sol diferente, ruas cheias de cheiros, gatos ruivos aos parapeitos, para andar devagarada, comer no passeio, sentar à sombra e deixar o mundo ser leve.
Família é palavra muito falada, mas agora, para mim, começa comigo. Nada resiste de fora sem se construir por dentro. Não saber ser só, é gastar a vida à espera que alguém aprove.
Eu esperei. Chega. Agora não espero.
A Filomena mandou mensagem com o cinema e a hora. Respondi: Perfeito, encontro-te lá.
Fui ao espelho. Mulher de roupa caseira, cabelo solto do vento, olhos calmos. Não é felicidade efusiva, é só solidez.
Acenei-me no reflexo.
Hoje há cinema com a Filomena. Amanhã italiano. Depois piscina. Daqui a um mês, Barcelona.
A vida avança. Minha, só minha. Não de fugidas, de partidas e chegadas de outros. Autêntica.
Aeroporto fechado.
E, lá em cima, por cima dos telhados, mais além das nuvens que cheiram a abril, voa o meu avião.
Estou a voar.
À noite, depois do cinema e conversa com a Filomena e risos sobre o final do filme, voltei ao meu T2. Descalcei-me, pendurei o sobretudo.
Lembrei-me a caneca azul, lascada, ainda ali estava. Abri o armário, peguei nela. Olhei.
Só uma caneca. Azul, trincada. Nada de especial.
Coloquei-a na prateleira, ao lado da branca. É só um objeto. Não precisa ser símbolo.
Fui deitar-me. Li um pouco o tal romance do Laurindo, sobre mudança. Descobri: é mesmo assim não num instante, nem num acto só. É dia após dia, página a página.
Fechei o livro. Apaguei a luz.
Chovia ligeiro, chuva calma. Não era triste, só inverno a despedir-se.
Fiquei a ouvi-la. Dentro de mim, tranquilidade. Não vazia, não solitária. Só sossegada. Como tudo no sítio certo.
Amanhã tenho italiano. O professor volta a pôr-nos a cantar, e eu canto alto, sem vergonha.
Depois, piscina. Água, avançar, cabeça vazia de pesos.
Daqui a um mês, Barcelona.
Agora, a chuva. A boa penumbra.
Fechei os olhos.
E vi-me, de manhã, num pátio luminoso, abril, uma gata ruiva no parapeito. O café na mão, olho para ela. Ela para mim. Ambas contentes.
Aeroporto de reserva está encerrado.
A pista de descolagem, essa, há muito está aberta.







