Aconselhei-te a parares depois do terceiro filho. Até comprei-te comprimidos especiais, esperando qu…

Diário, 14 de junho

Já aconselhei a Ana a parar depois do terceiro filho. Até comprei umas pastilhas especiais, pensando que talvez a fizesse reconsiderar tudo isto. Mas, ao que parece, todo o meu esforço não serviu de nada.

Quantos filhos mais vais querer ter? perguntou a minha sogra, Dona Maria, com aquele tom irónico que só ela sabe usar.

Não precisamos recorrer ao sarcasmo, mãe. Ficaste tão incomodada desde que o Pedro te contou sobre a minha gravidez? respondeu a Ana, muito calma, como faz sempre.

Claro que sim! Bem te avisei que devias parar no terceiro. Até comprei umas pastilhas especiais, achei que te iam fazer pensar melhor nas tuas escolhas. Mas pelos vistos não adiantou, lamentou a Dona Maria, sem esconder a frustração.

Já conheces a nossa opinião, mãe. Só queremos seguir o rumo natural das coisas, disse a Ana, mantendo sempre o tom sereno.

Acham que isto é brincadeira? Então não contem mais com o meu apoio! gritou a Dona Maria, levantando a voz.

A Ana ia responder, mas nesse momento o telefone tocou.

A verdade é que a Dona Maria nunca apoiou muito os filhos. Raramente levava os netos a passear, não lhes dedicava tempo e só aparecia com prendas e doces nos aniversários. Em termos financeiros, a Ana e o Pedro sempre foram independentes. Quando a Ana ficou grávida pela terceira vez, a sogra insistiu em que ela devia abortar, mas o casal recusou. No fim, a Dona Maria acabou rendida à neta. Só que a Ana voltou a engravidar! Ela fazia questão de esconder o mal-estar provocado pela sogra no ambiente familiar, desde que ela e os miúdos estivessem bem.

O Pedro tem um bom emprego, e a Ana trabalha em part-time a partir de casa. Com o crescimento do negócio dela, até conseguiu contratar uma pessoa para ajudar com os filhos. Tudo corria como previsto, se não fosse o comportamento da Dona Maria, que nunca aceitou de verdade a nora e sempre desejou que o filho se separasse dela. Esses desejos nunca se concretizaram; logo vieram os filhos, um atrás do outro.

Segundo a Ana, o que incomoda a Dona Maria é a chegada de mais um neto, pois acredita que todos os recursos do Pedro vão para a família, deixando de lado o apoio à mãe. Antes, a Dona Maria vivia com bastante conforto. O filho pagava-lhe as consultas no dentista, mandava-a para o termas e até tratou da remodelação da casa. Agora, sente que pode perder isso tudo já não haverá aquele suporte financeiro. O simples pensamento de abrir mão de algum luxo deixa a Dona Maria cheia de revolta.

A Ana até tenta ignorar todo este negativismo, mas torna-se evidente o impacto emocional no dia-a-dia dela. De qualquer forma, acho pouco provável que a Dona Maria consiga influenciar o casal. Eles vão mesmo avançar para o quarto filho!

Como é que se lida com uma mãe que se intromete na vida dos filhos desta forma?

No final das contas, aprendi que cada família tem o seu próprio ritmo e decisões. O melhor é respeitar, mesmo que não compreenda totalmente. Por mais difícil que seja aceitar, cada geração desenha a sua própria história e o segredo está em saber dar espaço.

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