Abre a porta, que chegámos! — Julinha, é a tia Natália! — a voz no telefone soava com uma alegria t…

Abre a porta, chegámos

Leonor, é a tia Matilde! A voz ao telefone vibrava com uma alegria tão artificial que dava até arrepios. Daqui a uma semana estamos em Lisboa, precisamos tratar de uns papéis. Vamos ficar uns dias em tua casa, talvez uma ou duas semanas, está bem?

Leonor quase engasgou com o chá. Assim, sem um olá, sem um como estás, já chegavam dizendo vamos ficar aí. Nem pediam licença, nem perguntavam se dava jeito. Vamos ficar. Ponto.

Tia Matilde, esforçando-se para soar delicada, Leonor respondeu é bom ouvir-te! Mas quanto a ficarem cá Posso ajudar-vos a encontrar um hotel? Há opções boas, sem ser caro.

Que hotel qual quê? a tia bufou, como se Leonor fosse completamente despropositada. Para quê gastar dinheiro à toa? Ficaste com o T3 do teu pai! Uma casa gigante só para ti!

Leonor fechou os olhos. Era sempre este início

A casa é minha, tia.
Tua? A voz dela ganhou um tom cortante. E o teu pai, era de quem? Não é da nossa família? Sangue não é água, Leonor! Não somos estranhos, e tu queres pôr-nos num hotel como se fôssemos uns mendigos!
Não estou a pôr ninguém em lado nenhum. Só não dá para receber-vos.
E isso porquê?

Porque da última vez transformaram a minha vida num inferno, pensou Leonor, mas disse de outra forma:

São questões pessoais, tia Matilde. Não posso.
Questões pessoais! agora já irritada Três quartos vazios, e são questões pessoais! O teu pai, benza-o Deus, nunca deixou família à porta. Mas tu és como a tua mãe, igualzinha
Tia
O quê, tia? Chegamos sábado, à hora de almoço. O Rui e o Paulo vêm comigo. Recebe-nos como deve ser.
Já disse que não é possível.
Leonor! a voz tornou-se dura, autoritária. Não se fala mais nisso. Sábado aí estamos.

O telefone desligou-se abruptamente.

Leonor pousou o telemóvel devagar sobre a mesa. Ficou a olhar para o nada uma eternidade, respirou fundo e recostou-se na cadeira.

Sempre o mesmo.

Há dois anos, a tia Matilde já tinha vindo de visita. Chegaram sem aviso, prometeram estar três dias e ficaram duas semanas. Leonor nunca esqueceu o caos: o Rui, marido da tia, deitado no sofá de sapatos calçados e a ver televisão até altas horas; Paulo, o filho de vinte e poucos anos, comia tudo o que encontrava no frigorífico, sem lavar um prato. A tia Matilde reinava na cozinha, criticando tudo desde as cortinas ao azulejo errado.

Quando finalmente se foram, Leonor encontrou a cadeira do escritório queimada, uma prateleira partida na casa de banho, manchas estranhas na carpete da sala. Dinheiro? Nem um cêntimo para as compras ou para a luz. Pegaram nas malas e só disseram: Obrigada, Leonor, és um espetáculo.

Leonor esfregou as têmporas.

Não, nunca mais. Que a tia Matilde fale do pai e das obrigações familiares o quanto quiser. Que venha sábado a porta vai continuar fechada.

Pegou no telemóvel e começou a procurar hotéis. Confortáveis, bons, preço justo. Mandaria o endereço e explicaria claramente que era o único apoio que estava disposta a dar.

Se não quisessem entender, não seria problema dela.

Dois dias passaram num silêncio delicioso. Leonor trabalhou, passeou ao fim da tarde, preparou as suas refeições, quase convencida de que o telefonema da tia tinha sido um pesadelo. Talvez mudassem de ideias. Talvez arranjassem outros familiares para incomodar e exigissem hospitalidade.

Na quinta-feira, ao fim do dia, o telefone tocou. No ecrã lia-se “Tia Matilde”. O estômago de Leonor contraiu.

Leonor, sou eu! A voz enérgica cortou o silêncio do apartamento. Amanhã chegamos à cidade, o comboio chega pelas duas da tarde. Vem buscar-nos e prepara a mesa, queremos comer como deve ser depois da viagem!

Leonor sentou-se devagar no sofá, os dedos apertados no telemóvel.

Tia Matilde, disse pausadamente, separando as palavras já expliquei. Não vos vou abrir a porta. Não venham cá.
Deixa de disparates! riu-se, como se Leonor fizesse uma piada sem graça. Agora és criança outra vez? Já comprámos os bilhetes!
Não posso fazer nada.
Leonor, o que é isto? estranhou, logo voltando a exigir. És ou não és família? A família deve ajudar, isso é sagrado!
Não devo nada a ninguém.
Deves sim! O teu pai, pobre coitado
Tia, chega sobre o pai. Já disse não. É a última vez.

A tia suspirou alto, como quem acalma um miúdo rebelde:

Leonor, ninguém quer saber da tua opinião, percebes? Somos família. E tu aí feita dura, como se fôssemos inimigos. Amanhã às duas!
Já disse
Pronto, beijinhos! Até amanhã!

O silêncio caiu logo de seguida.

Leonor ficou a olhar o ecrã apagado, sentindo uma raiva a crescer no peito. Atirou o telemóvel para o sofá e começou a caminhar de um lado ao outro da sala, como um leão enjaulado.

Ninguém liga ao que ela sente. Fantástico.

Parou de repente.

Pois bem, querida tia, prepara-te

Pegou no telemóvel e abriu o contacto Mãe.

Alô? Leonor? a voz materna era calma, um pouco surpreendida. Aconteceu alguma coisa?
Mãe, olá. Preciso ir para tua casa. Amanhã. Uma semana, talvez mais.

Pausa.

Amanhã? Filha, acabaste de cá estar há um mês
Eu sei, mãe. Mas preciso mesmo. Trabalho online, não importa onde esteja. Posso ir?
A mãe pensou uns segundos. Leonor quase via sua expressão curiosa.

Claro que podes vir. Sabes que és sempre bem-vinda. Está mesmo tudo bem contigo?
Sim, mãe, está tudo bem. Só tenho saudades.

Desligou a chamada e sorriu. No sábado, tia Matilde e companhia encontrariam uma porta fechada. Podiam bater, gritar, até fazer escândalo mas Leonor estaria longe. Não no supermercado, nem com amigas, mas noutra cidade, a mais de trezentos quilómetros de Lisboa.

Abriu uma aplicação de bilhetes. Comboio da manhã, às seis e quarenta e cinco. Perfeito. Quando a tia chegasse, Leonor já estaria a tomar chá na cozinha da mãe.

Sangue é sangue, mas às vezes precisamos de dizer não até à família.

No comboio, ouvia o som dos trilhos e pensava no rosto que a tia faria ao encontrar a porta trancada. O sono vinha, a cabeça pesava, mas sentia a alma leve.

A mãe esperava-a na plataforma, abraçou-a apertado e levou-a para casa. Serviu-lhe crepes de queijo fresco e chá fumegante, e obrigou-a a descansar.

Falamos depois, disse, recolhendo a chávena vazia. Primeiro vais dormir.

Leonor adormeceu mal encostou a cabeça ao travesseiro.

Acordou com o toque estridente do telemóvel. Procurou-o na mesa de cabeceira e viu com dificuldade Tia Matilde no ecrã.

Leonor! a tia berrava tanto que quase precisou afastar o telefone. Estamos aqui há vinte minutos! Porque não abres?!

Leonor sentou-se na cama, esfregou o rosto. O sol já se punha tinha dormido quase o dia todo.

Porque não estou aí, respondeu, não escondendo a satisfação.
Como assim não estás?! Onde estás?!
Noutra cidade.

Silêncio. Depois explodiu:

Perdestes a vergonha?! Sabias que vínhamos e fugiste?! Como foste capaz?!
Com facilidade. Avisei que não abria porta. Não quiseram ouvir.
Que atrevimento! a tia quase sufocava de indignação. Tens a certeza que ninguém tem chave aí, como a vizinha?! Telefona! Abrimos e ficamos mesmo sem ti não somos crianças!

Leonor ficou surpresa com o descaramento.

Estás a falar a sério, tia?
Claro! Viemos de viagem, estamos cansados, e tu fazes este circo!
Nunca quis partilhar casa convosco. Muito menos deixar-vos entrar sem mim.
És mesmo

A porta do quarto rangeu. A mãe apareceu, de robe, cabelos despenteados e um olhar firme. Tirou o telemóvel das mãos de Leonor sem dizer palavra.

Matilde, a voz da mãe saiu gelada é a Vera. Ouve-me com atenção e não interrompas.

Da outra ponta ouviu-se um resmungo confuso.

O Júlio nunca te suportou continuou a mãe. Nem eu. Por que insistes com a filha dele? O que queres dela?

Leonor ouviu a tia tentar responder, gaguejando.

Fica assim, rematou a mãe. Não voltes a ligar à Leonor. Nunca. Ela tem a quem recorrer, e não és tu. O assunto fica encerrado.

Desligou e devolveu o telemóvel.

Leonor olhou-a admirada.

Mãe Eu nunca te vi assim.
Ela sorriu e ajeitou o robe.

O teu pai ensinou-me. Dizia: Com a Matilde é só de cortar logo. Uma vez bem dito, ela desaparece durante anos.

Riu-se e os olhos ganharam umas rugas simpáticas.

Ainda funciona, acredita?

Leonor riu, sem restrições, libertando toda a tensão dos últimos dias. A mãe acompanhou a gargalhada.

Pronto disse, acenando para a cozinha vamos beber chá e conta-me tudo direitinho

E foi nesse chá com sua mãe que Leonor percebeu: ser família não obriga a sacrificar a paz em nome de tradições. O verdadeiro respeito começa quando sabemos proteger nossos próprios limites.

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