Abandonada por amor
A minha mãe regressou do trabalho naquele dia diferente: trazia um brilho inusitado, o rosto mais corado e um sorriso tão franco que mal reconheci. Fazia tanto tempo que eu, Rita, não a via assim quase feliz.
Ritinha, conheci hoje uma pessoa fantástica! anunciou, enquanto dependurava o casaco atrás da porta. Ajoelhou-se diante de mim e segurou nas minhas pequeninas mãos. Chama-se Óscar. Trabalha numa empresa de construção. É um homem sério, fiável.
Eu limitei-me a acenar, sem perceber bem porque isso era tão importante. Mas a alegria da minha mãe era contagiante, e dentro de mim acendeu-se uma pontinha de esperança talvez as coisas fossem finalmente mudar para melhor.
Nas semanas seguintes, a mamã contou-me inúmeras histórias do Óscar: como tinha ajudado uma senhora idosa com os sacos do mercado em Campo de Ourique, como organizou uma angariação de fundos para o lar das crianças em Benfica, como consertava tudo o que lhe aparecia à frente. Eu escutava e sorria, mas sentia um desconforto subtil algo estava para mudar, não sabia se para bem.
A primeira vez que vi o Óscar foi num pequeno café na Avenida de Roma. Era alto, de porte atlético, cabelo muito curto e uma boca demasiado rígida. Poucas vezes sorria, e quando o fazia, os olhos permaneciam frios, distantes.
Esta é a minha Rita, disse a mamã, passando delicadamente a mão pelo meu cabelo, gesto que sempre me dava conforto. Tem oito anos, está no segundo ano.
Óscar fez um aceno vago e lançou-me um olhar rápido e calculista, parecido com quem avalia uma estante antiga. Depois virou-se logo para a mamã.
É gira. Que idade tem mesmo?
Oito, já disse, repetiu a mamã, sem notar o tom indiferente dele.
Ele falou o resto do jantar com a mamã. Para mim reservava frases curtas e secas, como se a minha presença fosse um incómodo. Pedi para ir ao aquário ver os peixinhos; ele nem disfarçou uma careta:
Mas sem fazer barulho.
A mamã, alheia a tudo, estava demasiado feliz para perceber. Eu, no entanto, intuí que aquele homem jamais seria o pai que sonhei em segredo: não ia ler-me histórias, nem ensinar-me a andar de bicicleta ou abraçar-me no fundo da noite. Nada disso.
Óscar começou a aparecer mais vezes em nossa casa. Nunca vinha de mãos vazias mas só os presentes eram para a mamã, nunca para mim, nem sequer um rebuçado. Raramente conversava comigo, e quando eu tentava contar algo, ele limitava-se a acenar sem escutar. Se eu me aproximava muito, afastava-se, desconfortável.
Uma tarde, por acidente, entornei um pouco de chá sobre a camisa dele. A resposta foi imediata e fria:
Tem mais cuidado, Rita! Que mãos trapalhonas
A mamã apressou-se a pedir desculpa:
Desculpa, Óscar. Rita, anda buscar um guardanapo.
Enquanto ia à cozinha, ouvi a voz dele, fria como mármore:
Margarida, a miúda é barulhenta e desajeitada. Só faz confusão! Já estou farto!
É uma criança respondeu a minha mãe, a voz inquieta e trémula. Precisa tanto de um pai
Mas quem disse que quero ser pai dela? murmurou com desdém. Não tenho intenção de criar filha de outro.
A mamã devia ter dado atenção àquelas palavras, mas estava cega de paixão. Em vão.
Depois do casamento, que aconteceu seis meses depois, a situação só piorou. Óscar mudou-se para nosso apartamento na Rua da Prata, e a casa, cheia de risos e histórias antes, ficou gélida.
Nunca me gritou, nem me bateu, mas a reprovação estava em cada olhar, cada gesto. Se eu ria alto, levantava a sobrancelha e o riso morria-me na garganta. Quando eu fazia uma pergunta, respondia com má vontade, ornando as palavras de irritação.
Numa noite, fingia dormir e ouvi a conversa deles ao longe.
Margarida, não suporto mais. Sempre que olho para ela, fico nervoso! Parece a cara chapada do teu ex-marido, nem sequer se parece contigo.
Mas é só uma criança Não tem culpa de nada.
Sei disso, mas não a aguento. Isto está a destruir-nos. Decide o que queres fazer.
Uma dor intensa apertou-me o peito. Afinal, a culpa era minha. Eu era o problema.
Que sugeres? perguntou a mamã, num fio de voz.
Ou ela vai viver com a tua mãe, ou eu vou-me embora. Não suporto viver com ela debaixo do mesmo teto.
Fiquei quietinha, com medo de ser descoberta.
Tudo bem. Falo com a mãe. Ela mora perto, a Rita está protegida
Perfeito, disse ele, agora mais suave. Eu sabia que perceberias. E se um dia quisermos filhos, podes dar-me um rapazinho, não é?
Quis chorar alto, mas as lágrimas rolavam devagar e quentes, queimando-me o rosto. Como podia a mamã concordar assim? Para ela, aquele homem era mais importante que eu, a sua menina.
No dia seguinte, a mamã evitou olhar-me nos olhos:
Meu amor, a avó tem tido tantas saudades tuas. Vai ser só por umas semanas, sim? Eu vou ver-te todos os dias.
Assenti entre lágrimas. Por dentro, algo gelou senti-me vazio, arrancada do meu próprio lugar.
A mudança aconteceu três dias depois. A avó abriu-me a porta com um abraço caloroso e um bolo de maçã fumegante. Mas nem o cheiro doce me conseguiu aquecer.
Sentia-me um objeto deixado numa prateleira. A mamã cumpriu a promessa, visitou-me todos os dias mas com o tempo, os encontros tornaram-se menos frequentes. Parecia que já não precisava de mim.
Só a avó me acalmava antes de dormir:
Vai correr tudo bem, minha querida. Um dia tudo se resolve.
Mas eu já sabia que tudo mudara para sempre. Fiquei com uma cicatriz invisível, dolorosa, e duvidava que algum dia fosse desaparecer.
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Nos primeiros tempos, a mamã vinha quase todas as noites. Abraçava-me, trazia amêndoas de chocolate, tentava sorrir, mas os olhos eram tristes, o sorriso desconjuntado. Comecei a vê-la como uma boneca bonita, mas fria.
Como estás, filhota? A avó trata-te bem?
Claro! Faz bolos deliciosos
Ainda bem respondia ela, mas com o olhar longe. Tenho tantas saudades tuas Mas ainda não te posso trazer de volta. Só mais um bocadinho
Eu assentia, forçando um sorriso. Via o alívio escondido no rosto dela já não precisava cruzar-se todos os dias com os olhares reprovadores de Óscar.
As visitas tornaram-se cada vez menos frequentes: primeiro dia sim, dia não; depois só ao fim de semana. Um sábado, a mamã telefonou:
Rita, hoje não posso passar. Eu e o Óscar vamos ao teatro. Amanhã levo-te um gelado, está bem?
Engoli em seco, forçando um tom alegre:
Claro, mamã. Diverte-te.
Fiquei à janela, vendo a chuva descer sobre Lisboa. E nesse momento compreendi plenamente: ela escolhera o Óscar.
A avó, sempre atenta, tentou animar-me de mil maneiras:
Vamos até ao Parque Eduardo VII dar uma voltinha? Tomamos um chocolate quente?
Vamos acenei, sabendo que não havia carrossel capaz de substituir o colo de mãe.
Também na escola me tornei mais isolada. Outrora faladora e cheia de amigas, agora preferia observar de longe, sentada à espera do toque. E, se me perguntavam por que estava a viver com a avó, encolhia os ombros, sentindo as lágrimas a espreitar.
Certo dia, ao regressar das aulas, cruzo-me com a mamã na rua. Parecia surpreendida e até atrapalhada:
Rita! Estava mesmo a ir ter contigo Queria fazer-te uma surpresa.
Caminhámos lado a lado. Ela falava do dia, das escolhas do Óscar, do novo casaco. E eu ouvia apenas o timbre da sua voz, os gestos, saboreando a presença.
Mamã Porque não vens mais vezes? perguntei, apertando-lhe a mão.
Ela parou, ajoelhou-se e olhou-me nos olhos marejados.
Meu sol, é muito difícil. Metade de mim quer estar contigo, a outra metade com o Óscar. Sinto-me dividida Quando te deixo, parece que arranco um pedaço de mim.
Mas podias não ter-me mandado embora sussurrei, rasgada pela dor.
Baixou os olhos, lágrimas a brilhar:
Achei que era o melhor. Agora percebo que foi um erro terrível
Não disse nada. Queria perdoar, mas a mágoa era funda demais.
Vou tentar vir mais, prometo. Havemos de encontrar uma solução.
Acenei, sem acreditar muito. Se quisesse mesmo, já tinha tentado antes.
Com o tempo, ela realmente veio mais vezes. Passeávamos, ríamos. E voltei a acreditar por breves semanas que tudo podia voltar ao normal.
Mas numa noite trouxe, de novo, o rosto abafado pelo remorso:
Ritinha O Óscar acha que passo tempo demais contigo e esqueço-me dele. Sugeriu que viesses à nossa casa só aos fins-de-semana.
Está bem disfarcei, mordendo a dor crescente. É mesmo mais fácil assim.
Mas sabia que nada ficava mais fácil. No fundo, a minha vida dividia-se agora entre os dias da semana com a avó e fins-de-semana com a mamã, onde tentava ser a filha perfeita e calada.
Óscar nunca mudou: perguntava, por educação, como ia a escola, mas a indiferença nos olhos era cortante. A mamã tentava agradar a ambos e, esgotada, ia-se apagando.
Os meses passaram assim. Aprendi a não mostrar sentimentos, a ser boa aluna, a ajudar em casa, a construir novas amizades mas dentro de mim a ferida ainda sangrava.
Só a avó, apertando-me todas as noites, repetia:
Não tens culpa de nada, meu anjo. És o meu maior tesouro. Estou sempre aqui.
As suas palavras embalavam, mas não curavam de todo a dor de não ter sido escolhida
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O tempo correu. Dez, onze, doze anos cresci dentro da rotina. Já não esperava milagres ou grandes mudanças.
Na escola, mantinha-me à parte; poucas amizades, e essas leves. Temia confiar, temia ser magoada outra vez. Guardava, cá dentro, o medo de voltar a ser posta de lado.
Com a avó, sim, a relação tornara-se sólida, cheia de pequenas alegrias. Ensinou-me a fazer bolos, tricotar cachecóis, bordar panos. A nossa casa cheirava sempre a baunilha e canela, havia vasos de gerânios e violetas na janela lembrando-me que o mundo é bonito, mesmo nos dias escuros.
Avó, porque nunca ralhas comigo? perguntei um dia.
Ela sorriu, ajeitando-me uma madeixa atrás da orelha, com toda a ternura do mundo:
Para quê ralhar? Tu não fazes por mal. És tão especial, Rita.
Senti as lágrimas à flor dos olhos. Com a avó, a dor abrandava.
Uma manhã de sábado, a mamã foi lá bater cedo:
Vá, dorminhoca, levanta-te. O Óscar levou-nos bilhetes para o Jardim Zoológico!
Fiquei surpreendida. Ele nunca se interessava por mim.
A sério?
Sim, quer passar o dia connosco.
No Zoo, Óscar mostrou-se afável: comprou algodão doce, tirou-nos fotografias, levou-nos ao comboio das crianças. Quase sonhei que as coisas mudavam!
Mas no regresso, ouvi de novo a conversa final:
Margarida, já fiz o possível. Mas não consigo fingir que sou pai. Que fique só connosco nos feriados.
Está bem, Óscar
Naquela noite percebi, sem ilusões: nunca haveria lugar para mim no coração dele. E a minha mãe escolheria sempre o marido.
No dia seguinte, a mamã foi sozinha buscar-me:
Rita, o Óscar prefere que venhas menos vezes.
Preferir para quem? Para ele? perguntei, fria.
Para a família, filha.
E eu? Os meus sentimentos contam?
Tu já és crescida, disse, tentando ser carinhosa.
Assenti, sentindo só gelo.
Desde então, só nos víamos em dias especiais. Tornou-se normal. Passei a estar ainda mais próxima da avó. Ajudava-a no quintal, aprendi a fazer conservas, brinquei com vizinhos novos. Descobri que havia vida além de casa dos meus pais.
Aos treze anos, disse à avó:
Acho que já perdoei a mamã. Não vale a pena sofrer para sempre ela tem a vida dela, eu tenho a minha.
Ela abraçou-me, rindo suavemente:
És uma menina sábia, Rita. Não guardes rancor. A tua mãe teve medo de ficar sozinha. Deus saberá cuidar dela
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Aos quinze, já sabia o que queria: excelentes notas, paixão por português e desenho. A professora de português, Dona Leonor, um dia comentou:
Tens talento, Rita. Devias escrever.
Comecei a escrever no diário, contos, observações. Pela escrita, reencontrei-me.
Quando a avó descobriu o caderno, tranquilizou-me de imediato:
Se quiseres, guardo-o. Um dia ainda vais ser escritora, e isto vai fazer parte da tua história.
Ganhei coragem. Inscrevi-me no curso de jornalismo, a escolha mais independente da minha vida.
A mamã, sabendo da novidade, sorriu:
Sempre soube que eras determinada.
Se fosse hoje, terias feito o mesmo? perguntei-lhe.
Olhou para a chávena, hesitante:
Não, Rita. Fui fraca. Agora sei que tu eras sempre o mais importante.
Essas palavras pesaram e, ao mesmo tempo, libertaram-me. Pude, por fim, largar a mágoa de vez.
Depois de terminar o curso, arranjei emprego num jornal local em Lisboa. Escrevia sobre a cidade, sobre gente comum. Um dia fui cobrir uma acção solidária numa casa de acolhimento em Almada. Vi bolsas de sofrimento reconhecíveis e perguntei-me: posso ajudar com as minhas palavras.
Naquele regresso, compreendi: toda a dor me tornara mais humana, mais forte, melhor.
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Anos mais tarde, casei-me com Henrique um homem de verdade, trabalhador e simples, que logo conquistou a avó. Quando foi a nossa casa, ajudou logo a consertar uma porta solta, de mangas arregaçadas e sorriso aberto. Senti, então, que estava mesmo em casa.
Quando nasceu a Leonor, prometi a mim mesma: ela nunca teria de duvidar do meu amor. Todos os serões, lia-lhe histórias, abraçava-a, beijava-a.
Pouco depois do quinto aniversário da Leonor, fomos jantar a casa da avó. Enquanto eu punha a mesa, a Leonor explorava fotografias antigas.
Quem é esta, avó?
Sou eu, querida. Com o avô, quando ainda era jovem.
Ela olhou para mim:
E tu, mãe, também foste pequenina?
Claro que sim! Vivi muito tempo aqui, com a avó.
E a avó gostava de ti?
Muito.
Ela sorriu, convicta:
Então sou mesmo feliz! Tenho a mamã, a avó e o papá.
Senti uma emoção diferente, não de tristeza mas de perfeita pertença.
A avó e a mamã entraram na sala nesse instante.
De que falam vocês? perguntou a avó, enternecida.
Falamos de felicidade, respondeu Leonor muito séria.
A mamã fixou-me e, pela primeira vez, vi nos olhos dela uma espécie de paz. E amor, desse verdadeiro, sem condições.
É isso mesmo sussurrou. Somos família. Estamos juntas.
Peguei na mão dela e, desta vez, acreditei.
Quando a noite caiu, a Leonor dormia perto de nós, e a mamã olhou-me:
Falhei muito, menina. Tive medo e quase te perdi. Perdoa-me.
Por fim dei-me conta de que já nada restava da mágoa. Só a aceitação e a vontade de recomeçar.
Agora sabemos o que é importante disse-lhe.
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O tempo correu. A Leonor crescia feliz, certa do nosso amor. A avó continuava a fazer bolos, o papá arranjava tudo, e entre todos tecia-se uma nova história, firme e doce.
Um dia, já adulta, lancei o meu livro. A Leonor, de olhos brilhantes, folheou o volume:
Mamã, é mesmo teu? Com a tua fotografia e tudo?
É. E é sobre crescer e aprender a amar.
Também posso escrever um livro quando for crescida?
Claro. Basta escreveres a verdade. E lembra-te: serás sempre amada, aconteça o que acontecer.
A Leonor acenou, muito séria.
Fui olhar as estrelas da noite lisboeta e, cheia de gratidão, pensei: a verdadeira felicidade está em quem nos ama de verdade e em sabermos amar assim também.
Finalmente, sentia: esta era a minha vida. Plena. Portuguesa. E, sem dúvida, minha.







