A Vizinha de Cima
Mariana, onde puseste o meu tacho grande? Aquele em que costumo fazer o cozido?
Dona Rosa, estava no meio do caminho. Guardei-o ali, na prateleira de baixo.
Na prateleira de baixo! Nem me consigo baixar lá, com as costas como tenho! Tu pensas onde pões as coisas dos outros?
Fiquei em silêncio junto ao lava-loiça, a olhar a chuva miúda de outubro pela janela. O céu acinzentado era igual ao que sentia por dentro não era bem raiva, antes o pressentimento de que isto era só o começo.
***
Dona Rosa chegou numa sexta-feira à noite. O António foi recebê-la ao elevador, trouxe-lhe duas malas pesadas e uma enorme saca aos quadrados, aquelas que toda a gente chama de saco à emigrante. Sorri-lhe com sinceridade: a senhora tem setenta e oito anos, o prédio dela entrou em obras por causa de uma inundação no andar de baixo, o condomínio demorou meses a reagir e, agora, ficou sem casa, com tudo empoeirado e só cimento à vista. Não tinha para onde ir. “Isto não é uma invasão, é temporário”, repetia para mim. A palavra temporário ganhou um significado bem especial nos dias seguintes.
Tenho cinquenta e seis anos. Não sou velha nem nova estou naquela fase em que já nos conhecemos, mas ainda somos flexíveis. Trabalho em casa: faço bordados artísticos sob encomenda para colecionadores privados e pequenas galerias. Não é passatempo, é rendimento rendimento bom. Além disso, dou aulas online a quem quer aprender bordado tradicional e em ouro. O meu canto de trabalho, no quarto, com luz fria que entra pela janela voltada para norte, linhas, bastidores e tecidos arrumados, é o meu ateliê, o que me sustenta.
Vivemos eu e o António neste T2 bem pensado há oito anos. Quando os rapazes saíram de casa, despachei tudo o que não era nosso sem dramas, sem nostalgia. Ofereci, vendi, joguei fora. Ficou só o que era necessário e bonito: paredes claras, móveis na justa medida, nada de tapetes a forrar as paredes, nem vitrinas de cristal, nem ramos secos nas jarras para a memória. Três plantas nas janelas, não mais: um ficus, uma espada-de-são-jorge, e um pequeno vaso de alecrim na cozinha. Cada prateleira sabe o que guarda, cada gaveta fecha sem esforço porque nada sobra.
O António, no início, resmungou. Depois habituou-se e agora é ele quem se enerva quando as coisas estão fora do sítio. Encontrámos o nosso ritmo, o nosso ar, o modo de convivermos a dois.
E, então, chegou Dona Rosa.
***
Os dois primeiros dias foram tranquilos. Ela instalou-se no quarto de hóspedes, o tal improvisado à pressa: sofá-cama aberto, metade do roupeiro vaga. Levei-lhe um candeeiro extra, pus um copo de água e um livro na mesa de cabeceira. Achei simpático.
Ao terceiro dia, vi uma renda redonda, creme, com um rendilhado miudinho, esticada no parapeito do corredor, debaixo do telefone dela. Como se aquele parapeito sempre lhe tivesse pertencido.
Retirei a renda, dobrei-a devagar e deixei-a na mesa do quarto de hóspedes.
No dia seguinte, lá estava ela outra vez no mesmo lugar.
Percebi que não era provocação. Era o modo dela de estar. Dona Rosa não fazia guerra, apenas vivia como sabia viver. Para ela, renda debaixo do telefone era ordem, era o conforto, era assim que tem de ser. Cresceu num mundo em que mais coisas era sinal de casa afortunada; um parapeito limpo é sinal de miséria ou desleixo; compras de grão em quantidades, em frascos de vários tamanhos, era dona de casa prendada e não desarrumação.
Eu também cresci nesse mundo mas fiz questão de o deixar para trás.
***
Ao fim da primeira semana, a cozinha era irreconhecível. Três tachos de esmalte, cada um de tamanho diferente, ocupavam a bancada porque não cabiam nos armários. Uma base para tampas, de plástico amarelo, em forma de árvore, apareceu do nada. O frigorífico virou campo de provas: frascos de picles caseiros (trazidos do quintal da filha), caixas de toucinho com alho, um saco com feijão demolhado, uma caixa embrulhada em camadas de película, cujo conteúdo temi perguntar. Os meus iogurtes mudaram para a porta, deslocados por um frasco de rábano e uma garrafa de sumo artesanal de cevada.
Voltei a pôr os iogurtes no sítio. Dona Rosa voltou a mudá-los.
Ao jantar, a casa cheirava a couve refogada, cebola frita e mais qualquer coisa robusto, pesado, à portuguesa. Não digo que era mau, mas era cheiro de outra casa, era outro ar, outro fim de dia.
O António chegava do trabalho, aspirava o ar e dizia:
Hum, cheira a comida da mãe. Que maravilha!
Eu ficava calado.
***
Quase ao fim da segunda semana, apareceu no chão da sala um tapete pequeno, sintético, com rosinhas à volta daqueles das lojas da esquina, baratuchos. Dona Rosa explicou que tem os pés frios de manhã e sempre teve um tapete junto à cama. Que havia eu de responder? Que não gostava? Parecia mesquinhez da minha parte.
Fiquei calado.
Depois foi o casaco de lã, pendurado não no armário reservado para a Dona Rosa, mas lá fora, ao pé do sobretudo do António, ocupando o mesmo cabide e caindo-lhe um bocado por cima.
Mudei o casaco para um cabide livre, junto à casa de banho.
Ela, assim que o viu, pô-lo de novo onde estava.
Lá fora é mais à mão, senão é uma estafa, disse.
Assenti.
À noite, o António perguntou-me se estava tudo bem, que parecia calada.
Está sim, menti.
Ambos sabíamos que era mentira, mas preferimos ignorar.
***
Quero falar do quarto, porque ali tudo dizia respeito ao trabalho e ao dinheiro já não era questão de gostos ou tapetes.
Junto à janela do norte fica o meu local de trabalho: uma secretária longa, clara, feita à medida em contraplacado de bétula, com prateleiras para esquemas e gavetinhas para as linhas. Por cima, uma lâmpada de luz fria ajustável, própria para distinguir bem as cores dos fios. Ali ao lado, uma estante com novelos de lã e seda, todos por ordem de cor, do frio ao quente. Não é decoração, é um sistema.
Num bastidor grande, deixei o meu trabalho mais importante: uma réplica de estandarte antigo para um colecionador de Lisboa. Bordado em ouro, com seda japonesa e fio dourado. Prazo de entrega: fim de novembro. Sinal já pago. Valor: mil e seiscentos euros.
Andava nisto há três meses.
Ninguém podia tocar no bastidor. O António respeitava. Não temos gato; os filhos moram longe. Tudo sob controlo.
Até Dona Rosa entrar em cena.
***
Era quinta-feira, à volta do meio-dia. Fui comprar fios procurava um tom terracota com brilho dourado, coisa para ver ao vivo e não pedir online. Demorei quase uma hora, ainda dei um salto à farmácia.
Entrei em casa, fui ao quarto, vi.
Dona Rosa estava junto à estante, a mexer nos meus novelos, a organizá-los como deve ser. Uma das bobinas de seda japonesa estava aberta, o fio parcialmente engelhado. Era um tom rosado e dourado que já não tinha mais nenhum. O pior: um canto do tecido no bastidor estava ligeiramente pisado, como se alguém se tivesse encostado.
Fiquei à porta sem conseguir falar.
Ela olhou-me, muito calma:
Mariana, isto estava uma desarrumação. Fui ajudar, pus tudo por cores. Bem bonito ficou.
Dona Rosa, disse, muito baixo, por favor, saia daqui.
O quê? Eu só queria ajudar…
Eu percebo. Saia, por favor.
Saiu. Com mágoa, lábios cerrados.
Fechei a porta, sentei-me de pernas cruzadas no chão e comecei a ver os estragos. O fio não se tinham puxado do tecido, graças a Deus, o tecido dava-se para esticar, mas uma parte da seda teve de ser cortada o fio tão fino que ao mínimo puxão rebentava.
Não foi um desastre, mas ali percebi: assim não podia continuar.
***
À noite, o António perguntou por que é que a mãe estava calada ao jantar.
Expliquei.
Ele escutou, mordeu o lábio:
Ela não fez por mal. Só queria ajudar.
Eu sei que não fez por mal.
Mariana, aguenta mais um pouco. A mãe está fora do sítio dela.
António, este é o meu espaço de trabalho. São os meus rendimentos.
Eu sei. Mas é só por um bocadinho.
“Por um bocadinho”, ouvia isso há duas semanas. Perguntei diretamente:
Quanto tempo mais?
Disseram-me que os pedreiros acabam em dezembro.
Dezembro. Mais mês e meio. O António olhou-me com olhar de quem amava as duas mulheres e não queria escolher. Era daquelas pessoas que acredita que sorrindo e esperando, tudo se compõe.
Vi logo que teria de resolver eu.
***
Nessa noite não dormi. Passei em revista as opções. Conversa aberta com a sogra? Ia ofender-se, chorar, contar ao António que eu a estava a enxotar. Escândalo? Só piorava. Pressão ao marido? Ia ficar no meio. Pura resignação? Nem pensar, já tinha cortado um terço do fio por isso.
Restava-me um plano. Cuidadoso. Sem pressa. Mas, para mim, o mais certo.
Era preciso resolver duas questões: entreter Dona Rosa, de modo a passar menos tempo em casa, e acelerar as obras no apartamento dela, para voltar logo e, se possível, com gosto.
Não era plano de vingança. Era plano de sobrevivência. Calmo, diplomático, honesto: eu não lhe queria mal nenhum. Só queria a minha casa de volta.
***
Comecei pelos passatempos.
Sabia que Dona Rosa, em Cascais, ia à biblioteca, à igreja, mexia na horta da filha. Aqui aborrecia-se. O tédio, nos mais velhos, vira hiperatividade dentro do espaço disponível neste caso, a minha casa.
Telefonei à minha amiga Inês, que trabalha no centro social do bairro.
Temos tanta coisa! Caminhada nórdica às manhãs, coro nas quartas e sextas, ateliê de feltro, palestras de saúde, tudo grátis, só precisa do Cartão de Cidadão.
Basta aparecer?
Aparecer, ou ligar.
Não catequizei Dona Rosa: olhe, tem isto, vá lá. Soava forçado. Fui subtil.
Ao jantar, como sem querer, disse:
Dona Rosa, a senhora sempre cantou, não foi? O António disse que tinha voz, até cantava nos serões.
Ela sorriu. De facto, cantava. Disse:
Soube que o centro social aqui tem um coro para adultos. Falam bem dele, o maestro é talentoso, as pessoas são simpáticas, e é de graça. Pensei que talvez gostasse, já que está fora do seu ambiente.
Ela encolheu os ombros: não sabia, ir sozinha era estranho.
Não insisti. Semeei, retirei-me.
Três dias depois voltei ao assunto, mencionando que o coro ia cantar num evento do município e sairia foto no jornal local. Ao ouvir o jornal, os olhos brilharam.
Na semana seguinte pediu-me indicações para ir ao centro. Expliquei, até desenhei um mapa com letras grandes.
Na quarta-feira foi às dez da manhã, voltou às três, corada, animada.
Gente muito simpática lá, disse. O maestro, o Tiago, é jovem mas leva a coisa a sério. Cantamos a Grândola e outras tradicionais. Tinha saudades.
Que bom, genuinamente contente fiquei.
Desde então, quartas e sextas Dona Rosa saía de casa durante horas. Depois aderiu às caminhadas de terça-feira, a convite de uma senhora nova amiga, a Dona Lucinda, do prédio em frente.
A casa ficou mais calma. Não vazia, mas calma.
***
A segunda parte do plano exigiu manha.
Liguei à filha da Dona Rosa, Paula. Nunca fomos além da relação civilizada de família pelo lado do António. Fui direta:
Paula, estamos contentes por ter cá a tua mãe, mas ela precisa mesmo voltar à casa dela. Está fora da rotina, sente-se deslocada.
A Paula, cansada, disse que os pedreiros prolongavam tudo, que já estava farta.
Perguntei:
Supervisionas as obras pessoalmente?
Não. Era tudo por intermédio do marido, um tal de Jorge, que tomou conta disso e só ia lá de tempos a tempos. Ou seja, sem controle.
Posso ajudar? Conheço um empreiteiro de confiança, pode avaliar o que falta e dizer quanto tempo demora realmente.
Aceitou de pronto.
Falei com o senhor Augusto, o vizinho de baixo. Reformado da construção civil, ainda ia dar uma mão aqui e ali. Expliquei-lhe. Foi lá, viu, falou com os pedreiros. Era o velho problema: andavam a saltar entre várias obras, demoravam porque já tinham parte do dinheiro adiantado.
O senhor Augusto foi bastante direto: três semanas de trabalho, não três meses. Prometeu passar lá dia sim, dia não, para fiscalizar. A Paula renegociou o contrato, exigiu datas. Os pedreiros perceberam que o engano terminara, e despacharam-se.
Nada contei ao António. Não para esconder, simplesmente não queria obrigá-lo a tomar partido. Era um trabalho meu.
***
Três semanas passaram entre altos e baixos.
Em bons dias, Dona Rosa regressava do coro radiante, contava das galhofa com a Dona Lucinda, do elogio do maestro, das tardes na pastelaria depois das aulas. A casa animava-se, jantávamos os três, ouvíamos histórias de outros tempos, era agradável.
Havia dias maus.
Uma manhã, encontrei o meu ficus deitado no chão do canto mais sombrio da sala. No seu lugar na janela, o vaso de gerânio que Dona Rosa trouxera da casa da filha, a florir com força. A explicação foi imediata: O ficus tapava a luz, o gerânio gosta do sol.
No fim do dia, pus o ficus de volta à janela e o gerânio no quarto dela. Cruzámos olhares.
Podia ter perguntado, disse ela.
Igualmente, respondi.
Foi o único momento em que faiscou. Não houve gritaria nem lágrimas. Só nos percebemos uma à outra.
Ela foi para o quarto dela, eu para a cozinha. Jantámos como de costume.
O António viu tudo e calou-se. Por vezes, o silêncio dele irritava-me mais do que os gestos da sogra. Fingir que não há rachaduras é tática tipicamente masculina: se ninguém olhar, talvez desapareça.
Não desaparece. Nunca.
***
Num daqueles serões em que Dona Rosa se deitou cedo, estava eu a bordar à luz do candeeiro. O António entrou. Sentou-se na cama.
Estás chateada comigo, disse. Não foi pergunta.
Um pouco, admiti. Não contigo. Com isto.
Eu sei que te custa.
Sabes, continuei, sem lhe olhar mas saber não é o mesmo que fazer parte.
Ficou calado.
E queres que faça o quê?
Nada, António. Estou a tratar.
Não perguntou mais. Talvez não quisesse saber, talvez não suportasse ter de escolher. Deitou-se, leu um pouco e adormeceu. Eu fiquei mais uma hora junto ao bastidor, a ouvir o tique-taque do relógio, pensando naquela senhora idosa que ali estava sem querer mal, só trazia consigo o seu modo de vida, tão diferente do meu.
Pensei: nos conflitos familiares, o que mais dói nem é o ódio. O ódio é honesto. O que dói é quando toda a gente é boa pessoa, se gostam genuinamente, e ainda assim, magoam-se na convivência.
***
As obras acabaram antes do prometido, superando as expetativas do senhor Augusto.
A Paula ligou-me a mim, não ao António numa manhã de sábado. Disse: os pedreiros terminaram, falta só um arejamento e limpar tudo.
Agradeci-lhe. Falámos mais um pouco, senti que tinha passado a olhar-me de outro modo não como cunhada, mas como mulher capaz de resolver.
Agora faltava anunciar a Dona Rosa sem lhe parecer que a estava a expulsar.
Andei o dia a pensar como o fazer.
Ao jantar, enquanto a Dona Rosa contava entusiasmada o que o coro ia cantar no Natal, sorri:
Dona Rosa, tenho uma novidade. Não se assuste é boa notícia!
Ela parou de falar, olho atento.
Já há umas semanas pedi a um conhecido para espreitar as obras. Ele pôs tudo a mexer, e a Paula já confirmou: está tudo pronto no seu apartamento. Pode voltar para casa, quando quiser.
Ela olhou para mim, depois para o António, de novo para mim.
Foste tu que trataste disso tudo?
Não, só ajudei. O vizinho Augusto teve mão forte. Só não queria que se sentisse a mais aqui, entende? A sua casa é onde pertence.
O António olhou-me como se me visse pela primeira vez.
A Dona Rosa levantou-se, pegou-me nas mãos. Mãos secas, quentes, marcadas pelo tempo.
Mariana, és uma boa pessoa.
Não soube o que responder. Só lhe apertei a mão.
***
A mudança foi ao domingo. O António levou-a, ajudou nas malas, viu se estava tudo em ordem. Fiquei e preparei o jantar, mas queria era ficar sozinha em casa.
Nos primeiros trinta minutos, deambulei de divisão em divisão, toquei nas paredes, sentei-me no meu canto, olhei para o bastidor.
Fui ao quarto de hóspedes e, calmamente, retirei o tapete das rosinhas ali jazendo, já sem dona. Tirei a última renda do parapeito, esquecida na azáfama. Abri a janela. Inspirei o ar fresco de outubro.
Na cozinha, descobri no frigorífico uma caixa, embrulhada em película. Dentro, massa de peixe, caseira, feita à moda da Dona Rosa com aquele travinho especial. Comida suficiente para dois dias.
Fechei o frigorífico e encostei-me, em silêncio.
É estranha a humanidade: três semanas a pisar-se os calos, e mesmo assim, no fim, deixar uma caixa de comida de despedida.
***
À noite, o António voltou. Jantámos, em paz. Poucas palavras, mas tudo sereno. Ele lavou a loiça, eu sequei. Tudo como antes.
Na cama, olhou o teto e murmurou:
Então estiveste a resolver as obras, sem me dizeres.
Estive.
Porquê?
Pensei um segundo.
Pediste-me para ter paciência. Eu não fiquei paciente, fiquei ativa. Achei que não ias querer meter-te, para não sentires culpa para com a tua mãe.
Ele ficou calado.
Foste astuta, disse por fim. E doeu um pouco.
Eu sei. Desculpa.
Deitados, pensei: isto não é perfeição. Faltaram conversas honestas, ninguém disse tudo. Resolveu-se por fora, por linhas paralelas, sem dramas nem gritos.
Se é bom ou mau, ainda não sei.
***
Dona Rosa telefonou uma semana depois, a voz animada. Contou que o apartamento estava lindo, com paredes bege, como queria. Encontrou as chávenas antigas, foi visitar a vizinha Dona Glória, que ficou feliz por a ver.
Vou continuar no coro, avisou vamos ao concurso municipal em fevereiro, com a Dona Lucinda.
Que bom, respondi.
Mariana, disse, mais pausadamente, eu percebo que, de certo modo, fui incómoda. Quando estive convosco.
Não lhe disse que disparate seria mentira e ambas saberíamos.
Somos diferentes, Dona Rosa. E está tudo bem assim. O importante é sentir-se em casa agora.
Ela ficou em silêncio.
Pois, é isso mesmo.
***
Por vezes penso nessas sete semanas.
No tapete das rosinhas. Nos tachos na bancada. No gerânio no meu parapeito. Na caixa de massa de peixe no frigorífico. Na mão da Dona Rosa. No doeu um pouco do António e foi a frase mais sincera de toda a história.
Não ganhei nenhuma guerra. Nem houve guerra. Era só um problema a resolver. Defendi a minha casa, sem berros nem humilhações a ninguém.
Não é proeza. É só a realidade da vida: manter a tua forma, a tua família, mesmo quando um outro entra nela, não por mal, mas porque a vida o trouxe.
Proteger o teu espaço não é erguer muros, nem armar dramas. É saber o que queres, e, calmamente, pôr as coisas no lugar.
A família é esse bicho estranho: resiste nas piores condições, respira por rachas, e às vezes deixa-te uma caixa de comida no frigorífico antes de partir.
***
Em novembro, entreguei o estandarte ao cliente. Mandou mensagem a dizer que ficou satisfeito. Pagou o resto. Comprei outro fio de seda japonesa, dourado-claro, como folha de outono, e pus na gaveta. No sítio certo.
Na janela estão as três plantas: ficus, espada-de-são-jorge, alecrim. Nada de rendas.
A casa está silenciosa. Cheira a café e um pouco a cera de uma vela acesa. O António lê na poltrona. Lá fora, quase inverno.
Tudo no sítio.
***
Um mês depois, fomos a casa da Dona Rosa. Levei-lhe uma caixa de marmelada daquela pastelaria que ela adorara com a Dona Lucinda. Abriu-nos a porta e foi logo mostrar-nos o apartamento renovado: divisões claras, paredes bege, como queria. E sim, em cada parapeito, uma renda. E o tapete das rosinhas junto ao sofá.
Olhei à minha volta e não senti nada nem irritação, nem condescendência. Apenas isto: era a casa dela.
Ao lanche, disse-nos:
Quero que venham em fevereiro ao concurso. Vamos cantar a Grândola. Quero que ouçam.
O António disse:
Claro, mãe.
Eu disse:
Claro.







