Sabes aquele tipo de história que parece saído de novela portuguesa? Olha, aconteceu assim, vou-te contar como se estivéssemos a conversar no sofá.
A Leonor era uma miúda gira e cheia de cabeça, prestes a acabar a licenciatura em jornalismo na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Um pouco antes dos exames finais, cruzou-se com o Vítor, um homem já com uns bons anos a mais que ela, mas ainda com energia para dar e vender. Não tarda nada, foi o Vítor Silva Pereira um nome que toda a gente conhecia cá na cidade do Porto. Vítor escrevia músicas que passavam na rádio local e nos festivais de verão, e era daqueles gajos que davam-se bem com todos, sempre entre cafés e as gravações na RTP Porto.
Rapaz esperto, não lhe custou nada meter a Leonor como apresentadora do seu programa de televisão. E passado pouco tempo, ela já estava à frente da sua própria rubrica: Conversas de Coração. No episódio de estreia trouxe o psicólogo mais falado da cidade e mais uns convidados. Era um formato em que se discutiam dilemas reais, perguntas sem papas na língua e histórias que pareciam arrancadas da vida de cada um.
Muito bem, Leonor elogiou o Vítor depois de ver o programa Isto merece uma comemoração!
Vítor já tinha 45 anos, três casamentos nas costas, e nunca soubera bem o que era sossego. Andava sempre em movimento, dizia-se quase compositor laureado, e passava metade das noites a jantar com amigos, beber copos e conversar sobre a vida. Era daqueles homens que sabia como estar com toda a gente, conhecido dos trabalhadores da televisão, dos músicos e dos empregados de cafés, mas casado nunca foi boa peça.
Com o passar dos meses, Leonor começou a ser reconhecida por toda a cidade do Porto. Casou-se com o Vítor. O programa dela já dava que falar e era visto pelos vizinhos e até pelas tias. Leonor era elegante, simpática e educada, uma daquelas mulheres que parece que nasceu para a televisão. Mas acabou a perceber que o casamento não era aquela maravilha. Passado pouco tempo, reparou que o marido andava sempre meio teso do vinho.
Vítor, não abuses avisou-lhe um dia o amigo Simão, quando Vítor, já com uns copos, tentou rebaixá-la. Esta miúda ainda te vai ensinar umas quantas coisas.
Simão, mulheres inteligentes nunca foram a minha escolha dizia Vítor, achando-se sempre o mais esperto, e beliscando Leonor na bochecha, ali no café.
Enquanto o Vítor tentava conquistá-la era um gentleman: flores, prendas e até duas músicas escritas a pensar nela. Mas assim que ela virou mulher dele… pronto, perdeu-se o encanto. Já nem lhe ligava muito mais do que ao gato da casa.
Ingénua fui eu, achando que com ele ia brilhar na TV pensava Leonor.
Aliás, no curso estudou francês, tipo coisa de menina. Vítor nunca se calava:
Aprende inglês, Leonor. Lá fora pareces saída da aldeia. E ginásio? Desperdício de tempo. Inglês é que devias usar.
Irritada, Leonor ainda tentava resistir, mas o amigo Simão, todo culto, um dia anunciou:
Saber inglês é tão natural para uma mulher de impacto como calçar uns sapatos de salto alto.
No dia seguinte, meteu-se em cursos de línguas e nem música se ouvia mais no carro, só lições de inglês.
Simão, agora tenho a minha mulher doida por gramáticas, e nem música ouço no carro! ria-se Vítor.
Moravam num apartamento enorme, herdado pelo Vítor do avô professor de medicina. Tinha uma empregada, Vera, mulher solitária de 43 anos, invejosa por dentro mas discreta. Sabia tudo da vida deles, pois passava meses em casa.
Uma manhã, Leonor acordou e o Vítor tinha passado a noite no escritório, mais uma vez trôpego de bebida. Na cozinha, Vera mostrava-lhe uma garrafa de aguardente:
Estava cheia ontem. O que lhe dou quando acordar?
Caldo das pedras resmungou Leonor, seguindo para o duche.
Sete anos casada e nunca teve filho. Vítor já tinha um rapaz do primeiro casamento e ela nem era muito virada para a maternidade: a carreira sempre em primeiro. Mandou a Vera ver o marido ao escritório. Estava de bruços, uma nódoa vermelha na almofada.
Leonor, depressa! É preciso chamar o INEM!
Mas o que se passa?
Não sei!
Quinze minutos depois, Leonor seguia na ambulância, o marido entrou directo nos cuidados intensivos. Os médicos não prometeram nada.
Ao fim do dia liga-lhe o hospital:
O seu marido morreu.
Nem consigo acreditar balbuciou ela. Ele ainda era novo!
O funeral foi um evento marcante na cidade. Simão fez questão de organizar tudo e, durante a cerimónia, discursou:
Não devemos lamentar. O Vítor viveu intensamente e merece descanso.
A Leonor ainda ouvia os murmurinhos:
Ele teve tudo o que quis.
Os primeiros dias sem o Vítor foram pesadas. A casa ficou num silêncio triste. Vera olhava-a de lado, sem saber se ia ser dispensada. Os colegas diziam:
Leonor, não há motivo para sofrimento. Estás nova, livre e com dinheiro.
O Vítor deixou duas contas bancárias generosas, uma para o filho, outra para ela. Leonor também já ganhava bem. Tentava evitar ficar em casa, ia aos cafés e procurava companhia.
Num desses dias, depois de gravar o programa, foi a uma pastelaria perto de casa. Pediu um vinho espanhol, distraída. Um homem corpulento, sorriso aberto, pediu licença para se sentar com ela.
Posso? Ela acenou. Eu sou Inocêncio disse ele, esticando a mão. Uma mulher tão bonita não devia estar triste.
Estou a sentir-me um bocadinho em baixo.
Inocêncio devia ter uns 40 anos, todo forte, cabelo castanho claro. Feio não era, mas parecia um urso de peluche. Ela até se riu com isso.
Posso pagar-lhe alguma coisa? Vinho, bolo, seja o que for.
Obrigada… então, só um pastel de nata.
O Inocêncio era um urso de peluche autêntico, simpático e com imensa graça. Sabia contar histórias e Leonor ria como há muito não fazia. Leva-a a casa e combinam sair outra vez.
No dia seguinte, Leonor despediu a Vera.
Vera, não preciso mais dos seus serviços. Consigo tratar da casa sozinha.
Mas Leonor, tantos anos juntos… para onde vou agora?
Vais encontrar outra família ou trabalho, nem que seja de porteira!
Não me faça isso… chorou Vera.
Olha, não vou ficar mais pobre por isso. Vou poder descansar das limpezas! pensou Leonor.
No fim, vendo Vera chorar, reconsiderou.
Pronto, Vera, se insistes, fica. Ela até lhe deu um beijo na face.
Ganhei carinho por vocês, parecia quase família, e agora perdi o Vítor e ia perder-te a ti também.
E assim continuou tudo, só que agora o Inocêncio que ela tratava por Kiko carinhosamente começou a visitar mais vezes. Inocêncio tratava Leonor como uma rainha. Casaram três meses depois. Ela quis uma boda pequenina, mas na lua-de-mel, olha, ele levou-a para as Maldivas! Carregado de dinheiro, empresário de sucesso.
Leonor ia convencida que ia viajar como fazia com o Vítor: voo directo, hotel decente e piscina. Mas Kiko quis ir ao luxo: primeira classe, catamarã privado, recepção VIP, fogo de artifício, cocktails e dança típica.
A villa era um sonho: quatro quartos, piscina, praia privada.
Credo, quanto terá o meu urso pago por isto tudo? pensou Leonor.
Nunca soube ao certo quanto dinheiro ele tinha, mas estava-se bem. O Inocêncio era um querido, tratava dela, cobria-a com mantas, acarinhava-a. Certificava-se que tomava pequeno-almoço a sério.
Com o Vítor eram críticas e competição. O Kiko vive por mim e escuta-me, e eu gosto disso pensava Leonor.
A Vera gabava o marido e dizia que agora vivia feliz no enorme casarão do Kiko, fora da cidade. Uma vez Leonor viu o marido a injectar-se.
O que estás a fazer?
É só insulina. Tenho diabetes, mas vivo bem.
De férias nas Maldivas, Leonor pensava: Será que dei sorte?
O único senão era mesmo a falta de jeito e forma física dele. Sonhava que ia estar com um instrutor de surf ou um tenista de olhos azuis.
Tenho de pôr o meu urso na dieta e levá-lo ao ginásio.
Falou com ele sobre isso. Kiko ficou cabisbaixo.
Eu tento, mas o meu metabolismo não deixa. Sou insulino-dependente, ser apolíneo está fora de questão.
Então, deixa lá pensou ela.
Acabado o descanso, Leonor voltou ao trabalho. Pensamentos inquietos: Será que vou encontrar o amor verdadeiro? Não amo o Kiko. Quero experimentar paixão, sentir o coração disparar. Não quero acordar ao lado de um peluche, mas de um galã musculado.
Na televisão faziam piadas:
Leonor, não dás umas voltas ao ursinho? És mesmo tão séria?
A verdade é que não era tão rigorosa assim, mas não queria magoar o bom do marido. No Natal, Leonor exagerou no vinho, e o colega Costa chamou o amigo Artur para a levar a casa.
Leonor, queres boleia? ofereceu Costa. Ela aceitou.
Artur sentou-a ao lado dele, no seu carro caro.
Costa, ainda não me apresentaste esta menina!
E ela, boca aberta, só olhava para ele. Ele deixou o amigo e levou Leonor, pedindo-lhe o número. À porta de casa, puxou-a para si e deu-lhe um beijo intenso. Leonor gostou da garra e força do Artur.
Artur era um amante fantástico. Em casa era carinhosa com o Kiko, mas com o Artur era pura paixão: na pequena casa dele, tudo se passava com urgência. Depois, deitados, dizia-lhe:
Consigo é outra coisa.
Estavam os dois satisfeitos. Kiko chegava sempre tarde a casa, nem suspeitava de nada. Um dia Leonor foi parar ao apartamento do Artur. Já estava na cama quando ouviu o intercomunicador insistentemente. Artur, irritado, foi abrir a porta. Ouviu as duas vozes: Artur e Kiko. Arrepios e confusão, a tentar vestir-se rapidamente.
Kiko entrou e ficou parado à porta do quarto. Seria melhor que tivesse gritado.
Kiko Inocêncio isto não é o que parece
Artur nada fez. Kiko respondeu:
Quem me traiu?
Agora, pouco importa. Por via das dúvidas, vim ver.
Inocêncio estava pálido, suado, caiu. Leonor correu a ver se respirava.
Chama o INEM!
Artur telefonou. Leonor procurou a caneta de insulina na roupa do marido, fez a injecção. Mas ele não reagiu. Veio a ambulância, médico decretou:
Morreu.
Leonor, só então, ficou consciente da tragédia. Artur levou-a a casa. Vera esperava por ela.
Leonor, o que se passa? Estás irreconhecível.
De repente pensou: Foi a Vera que me denunciou ao Kiko, ela sempre implicou com o Artur. Mas calou-se, ela nunca ia admitir.
Após o funeral, recebeu os documentos do óbito: paragem cardíaca. E pouco tempo depois, apareceu a filha do Inocêncio, acompanhada de advogado, que lhe exigiu abandonar a casa e ameaçou-a com tribunal. Deixou-lhe um envelope cheio de dinheiro e só três dias para se ir embora com a Vera.
Leonor não quis problemas de herança e só ficou com o apartamento do Vítor.
Passou meses a recuperar. O Artur ajudava-a com distrações, mas nunca pediu para casar, e ela sabia que nunca seria marido. Um dia, o Costa ligou-lhe:
Leonor, senta-te aconteceu o pior, o Artur morreu num acidente, foi fatal.
A Leonor ficou a pensar:
Mas porque morrem todos os meus homens? Pareço a viúva negra, vai-se me pegar esse nome Deve ser da minha aura.
Pouco tempo depois, entrevistou o jovem Mário para o seu programa. Ele não tirava os olhos dela, e depois das gravações, convidou-a para comer um pastel juntos.
Vai, aceita, está na hora de desanuviar pensou Leonor.
Mário conquistou-lhe o coração. Ela, finalmente, sentiu o que era viver apaixonada: pura felicidade!
Afinal, isto é que é amor. Sem Mário não respiro.
Ele também a amava, viviam momentos alegres, sempre com conversas interessantes. Ela nem sabia muito da vida dele, só que não tinha irmãos, falava pouco do pai. Mário vivia com ela, e Leonor, um dia curiosa, pesquisa-o na net. Primeira pesquisa, e descobre que ele está na lista dos mil mais ricos de Portugal. Ficou em estado de choque.
Nem acredito! Que grande surpresa! Mas agora até tenho medo que lhe aconteça alguma coisa.
Tranquilizou-se, foi trabalhar. Ao fim da tarde, como ele não atendia, ligou ao escritório.
Boa tarde, posso falar com o Mário?
Quem fala?
É a Leonor
Ele foi levado para o hospital
A Leonor correu para lá.
Doutor, o que se passa com ele?
O médico acalmou-a:
Tranquila. É só o coração, já está a ser tratado.
Posso vê-lo? Nem que seja por dez minutos
Ela entrou e ele sorriu-lhe.
Vai correr tudo bem, amo-te. Assim que sair daqui, quero casar contigo. Aceitas?
Claro que sim! E deu-lhe um beijo cheio de esperança. Temos uma vida inteira pela frente, cheia de felicidade. E merece!
Obrigada por ouvires esta história, amiga! Que a vida também te sorria.







