A Vida Vazia da Daniela

O frio já não queimava os pés descalços a Deolinda já nem os sentia. Só o vento cortava-lhe o rosto, os braços, o pescoço, atravessando tudo, mesmo por baixo da camisa de noite fina. O cabelo grisalho, cheio de neve, estava tão pesado que parecia ficar duro como gelo. A ventania uivava e batia forte, e Deolinda já não sabia para onde ia, perdida dentro do seu próprio quintal. Encostou-se às tábuas geladas da cerca, cruzou os braços sobre o peito e começou a lamentar-se:

Que morra eu já! Leva-me, Senhor… Ai que morra…

Tinha mesmo morrido nessa noite, não fosse a dona Guilhermina da casa ao lado ir espreitar a vaca, achando que ela ia parir. A vizinha reparou que a porta da Deolinda estava aberta e com luz a sair pela frincha.

Deolinda! Estás aí às voltas na escuridão?

Mas a Deolinda estava ali, encostada num canto do quintal, tapada pelas árvores e o vento, e com os olhos fechados só murmurava, num enrosco: “morrer”, “morrer”…

Dona Guilhermina correu do quintal, entrou pelo portão da Deolinda adentro.

Deolinda, onde estás tu?! Deolinda, ó cabeça de vento! Deolinda!

Mesmo que quisesse, a Deolinda já não conseguia responder. Suspirou fundo, escorregou pela cerca abaixo e, a resmungar, pousou a cabeça desgrenhada e grisalha nos joelhos. Ficou encolhida. Pelas suas faces magras e cinzentas escorriam lágrimas. Depois alguém agarrou nela, tentou puxá-la, mas não havia força a velhota ficou quase rija de frio.

Ó santa ignorante! Espera aí! berrou a vizinha, e foi chamar o marido. Os dois arrastaram a Deolinda para dentro da casa.

Ficou de cama desde esse dia. Na manhã seguinte, apareceu a enfermeira nova, espantada por, com noventa e um anos, não apanhar ela nem uma gripe só os pés é que tinham apanhado mau. Inclinou-se sobre a Deolinda e disse-lhe:

Fazia-lhe bem ir ao hospital. Quer que chame a ambulância?

A velha olhou para o cabelo negro da rapariga, as bochechas rosadas do frio, e abanou a cabeça com teimosia.

Não, não preciso de nada. Vou ficar aqui. Filha, não percas tempo comigo. Não preciso, vai-te embora.

Deolinda ficou duas semanas na cama. Porque raio tinha ela ido ao quintal aquela noite, descalça e só com a camisa? Toda a gente achava que foi tontice dela, mas a Deolinda via ali qualquer coisa misteriosa, quase de destino. Na véspera, tinha-se sentado na cama e, à luz amarelada do candeeiro, ia desmanchando uma meia tricotada. Os dedos, já velhos, mexiam-mes com uma manha quase automática. Mas os pensamentos estavam longe. Fixava um ponto na parede e sorria, meio estranha para si própria, a pensar em memórias.

A vida dela nunca foi dado a coisas boas. Só trabalho duro, sempre a passar necessidades, e apenas uma réstia de luz em tudo aquilo o instante único, fugaz do amor.

Chamava-se Gonçalo.

Gonçalo… meu Gonçalinho… murmurava a velha deolinda, a boca entreaberta num sorriso estranho.

Não sabia se era delírio, se sonho, mas naquela noite pareceu-lhe ver-se a caminhar nos campos, para trás daquele pedaço onde acabava a quinta da patroa. Deolinda tapava os olhos do sol com a mão, ficava ali à espera ele prometeu que vinha. Sentia um medo e esperança ao mesmo tempo. E via, no calor do campo de trigo, a figura do homem. Corria para ele, feliz, a gritar: Gonçalo! Gonçalo!

E foi assim, a sonhar, que adormeceu. De repente, pelas tantas da noite, acordou sobressaltada, mexendo-se inquieta na cama. Espreitou pela janela lá fora a tempestade fazia o vidro tremer. Deolinda atirou fora o cobertor, esticou as mãos e às apalpadelas, nas paredes do quarto em escuridão, dirigiu-se à porta.

Volto já, é num saltinho…

Saiu de casa, empurrou a porta com o pé, descalça, sem se lembrar de si. Olhou para o branco da tempestade na aldeia. De novo estendeu a mão, quase a pedir:

Gonçalo…

O frio queimou-lhe o corpo, deixou-lhe o interior gelado. Sentiu o gelo nos degraus sob os pés, desceu para o caminho. Sempre a olhar em frente, para além da cerca, caminhava contra o vento.

Gonçalo! Estou aqui! Gonçalo!

Chegou à cerca, espreitou, correu de um lado para outro… Só aí sentiu os pés adormecerem do frio, que, se ficasse mais um minuto, já nem mexia as pernas. Com pressa, correu pela cerca até ao portão, ainda a sorrir.

Eu volto rápido… Vou só espreitar deste lado…

Mas já não encontrou o portão. Ficou às voltas pelo quintal. Perdeu todas as referências. Onde punha o pé era árvore, depois cerca, por vezes enterrava-se na neve até quase ao joelho… Perdeu-se. E desesperou. Assim a encontraram os vizinhos.

Dona Guilhermina ia lá a casa levar comida, acender o lume, falava com ela. A enfermeira vinha fazer-lhe os curativos aos pés, punha-lhe a pomada malcheirosa, mandava-a medir a febre. Tudo o que lhe mandavam fazer, a Deolinda fazia, mas quando ficava só, fitava o teto com uns olhos completamente vazios. Escutava barulhos vindos da rua: cães a ladrar, o chiar das carroças, o burburinho dos miúdos a chegar da escola.

Passava a maioria do tempo meio a dormir. Os dias passavam-lhe a voar, ou então a noite caía sem aviso. O lume estalava no fogão. Da telha pingava devagar. Senhor, quando é que me levas? Morra eu de vez… pensava Deolinda, sempre a mesma ideia.

Desde pequenina aprendeu uma verdade dura e simples: o destino dela era sempre ladeira abaixo, íngreme, com argila escorregadia e silvas. Só dava para cair, bater nos calhaus, arranhar-se nos arbustos. Ninguém levantava ombro, ninguém travava o tombo, nunca ninguém a ajudava a subir ao sol. Toda a aldeia vivia igual, e ela nunca esperou diferente. Habituou-se à vida como um cair demorado, cansativo, onde só restava aguentar calada, com os dentes cerrados, sem dar um grito.

Naquele ano, a primavera foi tardia e má. Não chegou com calor suave, mas sim com ventania fria e chuvadas, desfazendo os caminhos em lama sem fim. A neve só derreteu em maio, puxando à vista um chão encharcado, velho, sem vida, como pele gasta. Nem as folhas das bétulas brotavam, e os jardins estavam todos negros, de tronco nu. Deolinda, a ajeitar um lenço pesado e húmido na cabeça, ia pela estrada de terra desde o poço. Os baldes, pendurados no cambito, baloiçavam, deitando água fria nos pés gretados. Do outro lado, encostados à vedação torta, os homens fumavam, curvados debaixo do chuvisco chato. Resmungavam uns com os outros, a espreitar-lhe o passo, mas Deolinda passava sem levantar os olhos. Desde há muito que se fazia invisível, parte cinzenta daquela paisagem triste.

Deolinda! gritou a avó Benedita, mulher do campo, com quem serviu a mesma senhora rica, rompendo o ar húmido com voz manda-chuva. Vai depressa à venda! Diz ao Joaquim da loja para dar chita à menina. Do mais bonito, cor-de-rosa! E não te demores! Hoje há convidados de Lisboa, é para pôr mesa logo. E não te esqueças de apanhar flores!

Deolinda pousou os baldes na entrada, a poupar água. Limpou as mãos no avental e foi pela beira da povoação. Tinha vinte e dois anos, mas parecia que a vida já lhe tinha passado ao lado, sem sequer roçar a saia. Doze anos antes, ao morrerem pai e mãe, a viúva rica levou-a a servir, só por pão e uma malga de caldo. Era miúda, frágil, pisada, sempre assustada, arrepiada ao mínimo barulho ou palavra torta. Cresceu magra mas rija, braços fortes do trabalho, os olhos sempre baixos, onde já não cintilava nada desde criança.

De manhã à noite, só labuta. Lenha ao frio, leite às cabras no curral gelado, a mexer barro para o forno, roupa no rio até ficar com os dedos dormentes. Arrancava ervas na horta com sol a pino, sentindo o cheiro doce das groselhas e framboesas à mão e sem poder provar a senhora contava os frutos, e por cada um a menos havia vergastada e insulto: Não é para ti, preguiçosa! Deolinda fingia não ver nada, calava. Arrancava as malditas ervas, mordia o lábio para não chorar, só queria ser boa, que a patroa a deixasse em paz. Era até ao pôr do sol, sempre de molho na horta, os frutos ali a tentar, mas ela aguentava.

Ao sábado, aquecia o forno a lenha, ia ao rio buscar água, punha pedras a escaldar, até ficar tonta do bafo. Naquele braseiro, lavava o corpo murcho da senhora, de joelhos, a esfregar costas caídas de tanto peso, enquanto sentia a cabeça rodar, a vontade de vomitar. A mulher resmungava, mandava, beliscava, e se por acaso a apanhava num dia melhor dava-lhe estalos na cara e chamava-lhe burra de carga. Deolinda já estava resignada. Não conhecia outra vida, nem sonhava com mais. Havia um muro invisível entre ela e o resto do mundo feito de resignação, cansaço e uma esperança esquecida. Tanto lhe fazia como se vestia, quem falava com ela, que trapos lhe davam. Nem se animava com convívios das raparigas, nem ligava aos comentários ou piadas dos rapazes. Já não conseguia estar sem fazer nada, e a patroa habituou-se tanto à serventia que já não passava sem a Deolinda.

Numa tarde, enquanto Deolinda se pendurava num banco a limpar um espelho alto, a patroa, de olhar matreiro, lançou:

Ó Deolinda, porque não te casamos? Que dizes?

Deolinda desceu do banco, torceu o pano, respondeu sem ver a cara dela:

Como quiser, senhora.

Ou ficas para tia, que é mais descanso?

Dá-me igual.

Pois, pois! bateu-lhe no braço a mulher Antes tia, melhor. Para ter uma carrada de miúdos às costas, já basta a minha Filomena…

Quis-se benzer lembrando-se da filha, mas esqueceu. Gostava de a despachar, mas perder aquela força de trabalho custava-lhe. Franziu o sobrolho, como fazia para decidir alguma coisa, mas logo gritaram da casa, a filha a chamar, e deixou-se para depois.

Nada disso mexeu com a Deolinda. Aquela alma dela dormia calma, mansa, meio apagadota. Era robusta, cheia de saúde, sem sonhos, sem querer nada para ela, mesmo sendo natural sentir desejos. Havia um muro estranho, a separá-la do resto. Lá dentro, até vivia sossegada. Os homens acostumaram-se à beleza fria dela e, não achando ali paixão, perderam interesse. O venerando João da estrebaria chegou a dizer: Esta rapariga, a beleza dela não é de homem, é coisa do Senhor. E assim andava a vida, se não fosse que um dia, de repente, Deolinda deu um passo fora desse muro.

Aconteceu no início de junho, quando finalmente veio o calor e os campos ficaram verdes e fartinhos. A quinta esperava visitas importantes. A donzela da casa, pálida e doente, ia receber o moço rico lá de Lisboa, dizia-se que era para casamento. Enviaram Deolinda aos campos para apanhar margaridas para a sala. Caminhava devagar no prado, descalça pelo orvalho, quando um rapaz lhe cortou a passagem na vereda. Era um jovem de colete bonito por cima da camisa bordada, botas luzidias. Tinha uns olhos atrevidos e cabelo loiro puxado atrás com brilhantina. Era Gonçalo, moço da quinta ao lado, trazido pelo rapaz da cidade. Bloqueou-lhe o caminho e olhou-a descaradamente, quase como se fosse um cavalo à venda.

Saúde à menina bonita, disse, rindo, a varrer-lhe o corpo com o olhar, atento aos braços bronzeados e ao peito bem desenhado.

Deolinda nem lhe respondeu. Passou ao lado, sem lhe tocar.

Então, como te chamas? insistiu.

Quem me nomeou já sabe, a ti não te interessa, e foi andando, como se ele fosse só um tronco no caminho.

Gonçalo não desistiu. Passou a aparecer todos os domingos, sempre atrás do senhor. Deolinda ouvia-lhe o vozeirão, sentia o olhar pesado sempre que estava a trabalhar no poço, no curral, às panelas. Ele atirava-lhe piadas, tentava beliscar-lhe o braço, mas ela ignorava, sempre firme, era como se nem desse por ele. Um dia, ao entrar na arrecadação buscar farinha, ele saltou-lhe à frente, agarrou-a forte. Deolinda nem gritou. Um impulso animal despertou nela empurrou-o com tanta força que ele foi contra o poste e bateu com a cabeça. Nem lhe pediu desculpa, olhou-o de cima, fria:

Não te embaraces, rapaz…

Arranjou o lenço, sacudiu a saia e foi-se, deixando-o no chão. Gonçalo, sentado, a coçar o galo, olhava para ela com uma mistura de dor e admiração curiosa. Não estava habituado àquilo. As outras queriam-lhe ao pescoço, esta nem lhe dava conversa.

A Deolinda? Não se pode dizer que ficasse indiferente, mas tampouco sentia aquele interesse de rapariga. O que sentiu, nem sabia nome era estranho, desconhecido, nunca tinha sentido. Gonçalo foi só o despertar de qualquer coisa lá dentro maravilhosa e assustadora.

Começou a sorrir mais. De repente, apetecia-lhe coisa simples, como ver o nascer do dia, o nevoeiro sobre as ervas do prado. Ordenhava a cabra, ficava a ver o sol despontar atrás das árvores, com o orvalho a brilhar tanto, que só lhe apetecia rebolar-se pelo verde e rir. Não sabia o que queria só queria viver. E logo lembrava-se que estava a descuidar-se e corria de novo ao trabalho. Passou-se assim um mês.

O cortejo de Gonçalo não deu grande resultado tirando um beijo roubado na cave, mas logo levou um estalo valente que lhe tirou o atrevimento. Apesar disso, a teimosia dele não foi em vão. Um dia, ao ver Deolinda despejar água, ele apareceu a querer ajudar e ela sorriu-lhe de leve. Noutro, viu-a olhar para ele à janela enquanto ele tratava dos animais. Não era nada, mas Gonçalo ganhou esperança. Só que a coisa nunca foi, de verdade, muito longe.

Um dia, Gonçalo defendeu um rapaz apanhado a roubar favas no campo do patrão. Ordenaram ao moço das éguas que o chicoteasse. Deolinda, a ver aquilo, ficou a tremer. Correu para debaixo do chicote. O moço empurrou-a. Ela pegou num pau, ia acertar-lhe, mas antes disso Gonçalo correu, arrancou-lhe o chicote e deu-lhe um grito:

Vai-te embora daqui! Eu falo à senhora! Anda, baza!

As mulheres acorreram ao miúdo, a tentar perceber o nome, a dar-lhe consolo. O rapaz lá murmurou qualquer coisa e, de repente, desabou:

Morreu-me a mãe… Ontem…

Aquelas palavras caíram em cima de Deolinda como uma pancada, como uma parede velha a desabar. Tapou a boca e aquilo foi como levar um murro. Correu ao seu quarto, atirou-se à cama e chorou como nunca. Os ombros sacudiam-lhe, os dedos apertavam o colchão. Chorou de pena, de raiva, da falta de tudo o que nunca tinha conhecido.

Gonçalo foi atrás. Entrou de fininho no quarto dela. Não disse nada. Sentou-se, abraçou-lhe os ombros trémulos. E ela, primeira vez na vida, deixou. Encostou-se a ele. Sentiu-lhe o calor, ficou quieta. As lágrimas ainda lhe caíam, mas de repente o tormento acalmou. Ficou ali, só a ouvir-lhe a respiração, e murmurou como quem pergunta ao vento:

O que há depois do monte? E mais além?

A cidade, respondeu ele, surpreendido. Uma com casas grandes, lojas, igrejas.

E além disso?

Mais cidade, a linha do comboio… Dizem que depois disso há o mar, longe…

Deolinda calou-se. Nunca tinha visto o mar. Nem atravessar o rio sabia. Mas naquele momento, apetecia-lhe ver o mar. Queria sair dali, daquele sítio onde foi sempre chicote, onde era só força de trabalho, onde lhe chamavam burra de carga e nem lembravam o nome dela. Queria ser gente. Olhou Gonçalo nos olhos, agarrou-lhe o rosto nas mãos gretadas:

Levas-me? Casavas-te comigo?

Gonçalo hesitou. Era brincalhão, gostava de contar vantagens, mas para coisa séria, já ele não era dado. Fugiu com o olhar, disse que era preciso ter dinheiro, esperar um pouco, essas coisas. Deolinda já não estava ali. Como que a represa se tinha rompido. Tornou-se outra valente, impaciente, quase frenética. Ela própria o puxou, ela própria o beijou, disse-lhe que não queria saber da opinião de ninguém, só queria fugir dali, estar com ele. Nessa noite perdeu o crucifixo de cobre que sempre trazia partiu-se a fita, caiu no escuro. Não procurou. Que fique lá, disse, com um tom de aceitação estranha.

Gonçalo ainda voltou duas vezes. Encontravam-se às escondidas no palheiro, na adega velha, ou ao pé dos salgueiros. Deolinda ganhou cor, andava direita, cabeça erguida de rapariga. O olhar brilhava, nas bochechas cor. Chegou mesmo a sorrir tímida, sem jeito, como se fosse meninice.

Depois, acabou tudo. O casamento da menina foi uma festa música, vinho, risos, e o jovem senhor levou a mulher para Lisboa. Gonçalo foi atrás. Nem avisaram Deolinda. Soube pela cozinheira: O teu foi-se. Seguiu o patrão. Não esperes mais por ele.

Deolinda esperou. Ia todas as tardes ao caminho de terra, ficava ali de braços cruzados, a olhar até o sol se apagar. Parou de comer, de dormir. O rosto emagreceu a olhos vistos, os olhos fundos ganhavam um brilho febril. Avó Benedita, farta, ralhava, empurrava-a, deitava-lhe a malga, mas Deolinda só sorria, coitada, com um sorriso vazio. Estava certa que ele voltava. Tinha de voltar. Sentia-o em cada fibra do corpo cansado.

Passou o verão abafado, vieram as chuvas e o nevoeiro do outono. Deolinda gostava de olhar ao longe, para a mancha verde para além do vale. Achava que, esperando o suficiente, Gonçalo voltava. Não perguntava a ninguém, e se por acaso alguém lhe dizia algo, ela já nem ouvia, só sorria. Sabia, no fundo, que forças más o separavam dela. Mas, se houve dias brilhantes, se partilharam um instante de felicidade, ele também devia querer voltar. Quem não quer ser feliz? Era só esperar. Dizia pouco, ficava pensativa, fazia tudo com algum ódio à pressa. Às vezes, sentava-se e olhava o nada. Os dias, meses, anos misturaram-se. Deolinda esperava.

Um dia, pelo São Martinho, quando as árvores estavam nuas e os campos negros de chuva, Deolinda, a mexer nas couves no quintal, levantou os olhos. Do lado do pinhal, uma figura solitária. O coração saltou. Parece-lhe Gonçalo. Atirou a enxada, correu sem sentir o chão, braços abertos, a chamar o nome dele:

Espera! Espera aí!

O homem nem olhou, talvez não ouviu. Deolinda correu até ao riacho, que ia cheio. Ela, sem saber nadar, ficou a andar à roda, agachada na margem. Subiu a uma tora caída, olhou com as mãos a tapar os olhos, tentando ver-lhe a cara. Queria chorar, mas não queria que ele se desfizesse ao longe, misturado nas lágrimas. O vulto foi-se diluindo até desaparecer, ficando só o campo verde.

Foi a vizinha, a Maria das Couves, quem a encontrou sentada na beira. Abanou a cabeça.

Então mulher? Que fazes aí?

Era o Gonçalo, Deolinda nem se virou.

Que Gonçalo?

O moço das cavalariças, costumava vir com os senhores…

Do monte, dizes tu? Já te esqueceste… Para que é que querias esse rapaz?

Estou à espera dele.

Esperas por quê? suspirou a vizinha. Ele já casou, ouvi dizer. Mora ali pós lados da vila, na miséria, inválido ficou ainda há pouco. Dizem que já nem sai da cama, mulher a trabalhar e filhos de mais. Gente boa… Se calhar já morreu. Que é que tens mulher, a rir?

Ahaha! Deolinda soltou uma gargalhada, sentada no chão, os cabelos em desalinho, a saia levantada, os joelhos à mostra. Era um riso alto, cortante, estranho.

Coitada, a rir-se ainda… fez o sinal da cruz a vizinha a afastar-se. Maluca, é o que é. Deus lhe dê juízo!

Ele é novo, bonito, saudável, apontou ela para o peito, os olhos brilhavam febris. Sabes como me chamo?

Quem és tu?

Sou a mulher dele. Ainda não temos filhos porque nunca fiquei de esperanças!

Ó coitada… Já lá vão que tempos, já ele é mais velho que tu imaginas! puxou-a pelo braço. Anda, larga isso.

Deolinda só ria e olhava com olhos vazios:

Porque me mentiste? Porque foi?

Pobre, pensou a Maria das Couves ao afastar-se. Só pode ser meio tolinha, Deus a perdoe! e voltou a fazer o sinal da cruz para trás.

Daí para a frente, toda a aldeia passou a dizer abertamente que a Deolinda era doida. Ela nunca mais chorou, nem esperou no sentido de antes. Trabalhava calada na sua horta, mais furiosa ainda, como se a dor não se gastasse, só mudasse de sítio. Mas, nos poucos minutos de descanso, sentava-se no alpendre, a olhar os pinheiros, imaginando que por trás deles havia o mar. E nos olhos ficou uma ausência funda, sem fim, que metia respeito.

Até enquanto não ficou mesmo velha demais, ainda no meio do verão, com o cheiro dos lírios e das tílias no ar, ela vestia a camisa lavada, penteava devagar os cabelos longos, e tirava tempo para ir ao campo espreitar o horizonte, ali onde o azul se encosta ao céu. Parava sem mexer, já sem beleza, e na postura havia uma serenidade antiga, quase como se estivesse ali há séculos, à espera de uma felicidade capaz de atravessar o tempo todo. Se alguém, por acaso, lhe perguntava quem esperava, ela respondia baixo, com um sorriso clarinho:

O meu destino feliz. Está por lá, do outro lado. O Gonçalo prometeu que vinha hoje.

Santa maluca… Coitada!

Só o vento nas copas, só o rio a passar, e, longe, muito longe para lá da floresta, dos campos, da cidade, um mar que ela nunca conheceu, só de o ouvir dizer no nome.

Rangia a porta da casa. Guilhermina vinha acender o lume. Deolinda levantava para ela os olhos gastos, já sem luz.

Então? E os pés, melhoram? perguntou.

Deolinda murmurou qualquer coisa. Guilhermina aproximou-se.

Como disseste?

… que morra eu já… Não, ele não vem mais. Só me resta morrer…

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