A Um Passo do Altar

Um passo do altar

A Leonor estava sozinha no quarto dela, em frente ao espelho, completamente hipnotizada pelo seu próprio reflexo. Rodava devagar, primeiro para um lado, depois para o outro, e não conseguia evitar aquele sorriso enorme a ocupar-lhe o rosto. O vestido aquele vestido, de noiva descia com uma leveza pela sua silhueta, e a saia volumosa ondulava graciosamente a cada movimento. Ora pegava levemente na bainha, ora largava, imaginando-se a caminhar até ao altar.

À porta apareceu Mariana, a irmã mais velha. Encostou-se ao batente da porta, braços cruzados, e ficou a observar a Leonor com um ar divertido.

Estás lindíssima, Leonor, não vale a pena disfarçares comentou ela entre risos. Mas olha lá, vais mesmo aguentar o dia e a noite neste vestido? Imagina: copo-dágua, bailes, convidados E tu aí cheia de camadas, sem conseguires mexer-te como deve ser!

Leonor parou imediatamente, avaliando-se com um olhar crítico no espelho. Aquilo que Mariana disse tinha toda a razão de ser como é que ainda não lhe tinha ocorrido? O vestido era perfeito para a igreja e para as fotos tal e qual como sempre tinha imaginado: elegante, festivo, verdadeiramente digno de um casamento , mas para dançar e rir com familiares e amigos Talvez fosse mesmo melhor um segundo vestido, curto, pelo joelho, simples e prático para o resto da noite.

Achas mesmo? murmurou Leonor, franzindo a testa, enquanto levantava um pouco a saia para ver o volume. Pronto, convenceste-me. Vais ajudar-me a escolher?

Nem queiras outra coisa garantiu Mariana num tom decidido. Tu sem mim perdes-te no shopping, experimentas tudo e não compras nada. Aliás, nem sei como conseguiste arranjar este vestido!

Leonor encolheu os ombros, atrapalhada:

Mandei fazer por encomenda. A modista seguiu exatamente os meus rabiscos. Se tivesse ido aos ateliês, acho que nunca mais saía de lá. São opções atrás de opções dá logo uma volta à vista!

Sentou-se na cama, cheia de esperança ao olhar para a irmã.

Amanhã tens folga? Vais comigo às lojas? Juro que sozinha acabo perdida.

Mariana aproximou-se, passou a mão pelas dobras invisíveis do vestido e sorriu com carinho.

Amanhã sou só tua. A minha mana preferida também não casa todos os dias, por isso: vamos à caça do vestido perfeito para dançares a noite toda!

*******************

Já era noite cerrada e Leonor estava na cozinha, rodeada de convites brancos empilhados. A luz quente do candeeiro iluminava os montinhos de cartões e envelopes ao seu redor, enquanto ela escrevia os nomes dos convidados com letra caprichada, demorando-se em cada um queria que cada convite fosse especial. Por isso decidiu recusar toda a ideia de enviar convites impressos preferia o toque pessoal de cada assinatura.

A mãe e a Mariana até tentaram ajudar, mas Leonor fez questão: É o meu casamento! Ao menos isto faço eu.

Só faltam mais uns poucos resmungava baixinho, virando outro cartão. Os dedos já tremiam do esforço, a mão doía de tanto escrever, mas ela insistia: Já perdi o jeito para isto Que canseira nos pulsos.

Mariana entrou na cozinha, ficou por um momento a olhar a concentração da irmã e foi-se sentar em frente dela, no outro lado da mesa. Cruzou as pernas e, sempre com aquele sorriso maroto, fitava Leonor, que ali estava tão aplicada.

Queres que te dê uma mãozinha? sugeriu Mariana com ternura, inclinando-se para a frente. Olha a quantidade que ainda te falta! E porque é que o Miguel não te dá uma ajuda, hein? Metade dos teus convidados são amigos dele!

Leonor pousou finalmente a caneta, respirou fundo e esticou os dedos dormentes:

Ele tem estado atolado no trabalho explicou, acariciando a pilha de convites prontos. Quer deixar tudo resolvido antes das férias. Sabes como é Para depois se desligar sem preocupações.

Fez uma pausa, suspirando com um sorriso sonhador.

Vamos viajar logo depois do casamento. Para algum sítio quente, sem barulho, só nós. Apetece-me mesmo começar tudo noutro ritmo.

Mas olha que, para assinar uns convites, arranjava um tempinho! retorquiu Mariana, procurando disfarçar o seu desagrado.

No fundo, Mariana não conseguia aceitar a postura aparentemente distante do futuro cunhado. Desde a primeira vez, ele pareceu-lhe um pouco forçado. Já Leonor, de olhos brilhantes, só via o lado bom.

E se sou eu que estou a exagerar? pensava ela para si própria. Talvez seja só excesso de zelo de irmã Nem toda a gente mostra emoções como eu. Ele pode ser apenas mais reservado.

Mas o desconforto não passava sempre que olhava para Miguel, aquela sensação recôndita de que ele andava com a cabeça noutro lado. A verdade é que foi ele quem insistiu no casamento, tendo apenas três meses de namoro. Foi logo dizendo que queria oficializar a relação e meteu mãos à obra com entusiasmo.

Quero que seja um dia que nunca vais esquecer dizia Miguel, estendendo fotos de decorações pastel com flores naturais pela mesa fora. Olha só este ambiente vai ser incrível.

Ele tratou de escolher o restaurante sozinho, fez questão de convidar toda a família larga e justificou o número de convidados dizendo que era injusto deixar alguém de fora.

Os meus vêm de todos os cantos do país, têm de estar todos juntos neste momento especial explicava ele. Não faz sentido fazer uma cerimónia pequena. Casa-se uma vez, é para celebrar!

Leonor, deliciada, só imaginava o grande dia sem se aperceber desses pequenos silêncios, do olhar distante do namorado sempre que falavam nos planos para o futuro.

Mariana via aquilo tudo a acontecer, sem saber o que pensar por um lado, Miguel assumia a liderança na preparação; por outro, pairava sempre no ar uma estranheza pouco natural, como se estivesse a representar o noivo perfeito.

Será só nervosismo? tentava convencer-se. Afinal, casar é grande responsabilidade. Mas porque não me passa esta ideia de que algo está mesmo mal?

Olhou para Leonor, que folheava catálogos de tecidos para as decorações, e suspirou. O que importava agora era que ela estivesse feliz. O resto só o tempo diria.

***********************

Leonor suspirava de alívio com a sorte de ter um noivo tão despachado: Miguel tratou de reservar um restaurante incrível, desenrascou um fotógrafo de renome, marcou logo uma viagem a um destino solarengo para a lua de mel. Basicamente, só lhe cabia a ela tratar do vestido, do penteado, da maquilhagem e de mais uns pormenores. Isso aliviava-lhe um peso enorme e ela apreciava mesmo o envolvimento dele.

Certa noite, enquanto as duas irmãs tomavam chá juntas na cozinha, Mariana não resistiu e fez aquela pergunta, devagarinho, mexendo no açúcar:

Leonor, não achas que estão a apressar-se? Mal se conhecem Como vai ser viverem juntos? E se discutirem por causa da rotina? Porque não vão só morar juntos antes, experimentar depois, daqui a uns meses, logo pensam nisso do casamento?

Leonor não se sentiu nada ofendida sabia bem que a irmã só se preocupava mesmo por ela. Sorria com ternura, o olhar cheio de sonhos.

Não te preocupes, Mana, vai correr tudo bem! respondeu, fitando o vazio, quase a ver já o futuro brilhante à frente. Sei cozinhar tanta coisa diferente, nunca se vai cansar. Gosto de ter a casa arrumada, gosto mesmo e sei que, com as horas extra dele, vou ter de tratar de muito sozinha, mas não faz mal, dou conta do recado. E se for preciso arranja-se ajuda.

Fez uma pausa e depois, animada:

Acho que nunca gostei assim de ninguém. É mesmo aquela sensação de que encontrei o que andava à procura e não quero perder isto!

Mariana escutava sem deixar escapar as dúvidas. Via o entusiasmo da irmã aquela luz nos olhos, aquele sorriso fácil quando falavam do Miguel. Devia ser isso o amor, não era? Ver só possibilidades felizes, tudo à frente em tons de rosa.

Tens mesmo a certeza dele? tentou Mariana ainda, à procura de algum motivo concreto para todo aquele otimismo.

Absoluta! respondeu Leonor com firmeza. É estranho, foi tudo tão depressa, mas nunca senti nada assim. Entendemo-nos tão bem, queremos o mesmo uma família feliz, estável.

Mariana sorriu, resignada. Por mais preocupações que tivesse, o que importava era apoiar.

Então, fico feliz por ti disse, cobrindo a mão de Leonor com a dela. Só quero mesmo ver-te feliz.

Leonor apertou-lhe os dedos, agradecida.

Obrigada, Mariana. Eu sei que te preocupas, mas acredita nunca estive tão feliz. E tenho a certeza de que isto é só o início.

Não havia como negar: Miguel tratava-a mesmo como uma princesa. Cada encontro era digno de um romance de cinema: flores, cartões com frases queridas, surpresas doces chocolates e os livros favoritos de infância dela.

No trabalho, as colegas de Leonor ficavam pasmadas com o café que recebia todos os dias de manhã, feito ao seu gosto: com xarope de amêndoa e chantilly, e com uma mensagem na tampa do copo: Para a mais bonita. Ela sorria, corava com gosto era um miminho delicioso.

Miguel também tinha o hábito de ir buscá-la a casa todas as manhãs e de a ir buscar ao trabalho todas as tardes, sempre pontual, sempre sorridente, a abrir-lhe a porta do carro. As colegas viam e comentavam:

Olha que namorado! Todas gostaríamos de um desses.

Leonor ria, toda contente. Às vezes nem acreditava que aquilo tudo lhe estava a acontecer.

Mariana, atenta, pensava: não será só eu a ser desconfiada? O Miguel esforçava-se, era carinhoso e presente. Mas, lá no fundo, aquele nervosismo como se algo ali não batesse certo.

Uma noite, enquanto bebiam chá, Mariana arriscou:

Olha, Leonor, ele trata-te lindamente, mas sei lá, há qualquer coisa que não encaixa. Sinto, simplesmente.

Leonor olhou para a irmã, confusa:

Mariana, mas ele é super atencioso faz tudo o que pode para eu me sentir feliz.

A irmã hesitou, tentando não ser dura:

Não digo que seja mau rapaz. Só acho tudo tão perfeito. Flores, mensagens, cafés só quero que sejas atenta. Como é que ele reage quando as coisas correm menos bem?

Leonor pensou, sorriu suave:

Tu sempre tão racional. Olha, não compliques. Estou feliz, acredita. E tenho mesmo fé que vai correr bem.

Está bem vamos vendo.

Mas Mariana não conseguia afastar aquele sexto sentido a avisá-la. E, infelizmente, não estava enganada. Ia chegar turbulência uma desilusão que nem imaginava.

***********************

Numa sexta depois do trabalho, Leonor foi até casa do Miguel, entusiasmadíssima. Trazia tudo organizado: folhas com apontamentos, planos da boda, listas de convidados e ideias para música. Imaginava os dois a discutirem tudo sentados, tranquilos, talvez pedir uma pizza e rir das indecisões.

Mas, assim que entrou, sentiu que algo estava mesmo estranho. Ele esperava por ela à entrada mas não a abraçou. O rosto, rígido, olhar frio, sem um sorriso.

O quê, Miguel Não vai haver casamento? sussurrou ela, sentindo-se sem forças para continuar. Parecia que lhe tinham tirado o chão. O que é que se passa contigo? Fiz alguma coisa mal? Miguel, diz qualquer coisa!

Ele olhou-a nos olhos, a expressão gelada, e só se ouviu aquele sorriso cínico a torcer-lhe a cara:

Fizeste só aquilo que fazem todas. Só pensas em dinheiro, em arranjar melhor. Se aparecer outro, já eras. Sabes, Leonor, começo a ter nojo disso tudo.

Leonor parou em choque, incapaz de acreditar no que ouvia. O quê? Mas alguma vez dera motivo para isto? Dedicara-lhe meses de entrega, mudou horários, recusou festas, tudo para se dedicar ao casamento!

Miguel, não entendo murmurou, a mão apertada na pasta dos papéis, com os nós brancos. Não olhei para ninguém que não fosses tu. Sabes bem o quanto te quero.

Ele virou costas, encolheu os ombros:

Sabes? Tu ou qualquer uma. Já me basta. Pior é ver como olhas para outros, como sorris quando passam.

O nó na garganta apertou. Quis explicar, defender-se mas não havia voz.

Este Miguel não era o homem que lhe mandava cafés ou colhia flores para ela. Era outro, amargo, quase irreconhecível.

Nunca voltou Leonor, a voz falhada.

Poupa-me. Achei que eras diferente. Afinal, são todas iguais.

Agora, só restava o vazio. Como é que de um momento para o outro tudo ruiu? Como é que o Miguel, que ontem lhe prometia o mundo, hoje a olhava como se fosse nada? Sufocava-lhe aquela dor de sonhos desfeitos.

Ficou ali parada, as pernas a vacilar, os lábios a tremer só queria gritar, exigir respostas, mas só conseguiu murmurar:

Só quero estar contigo, não preciso de mais nada repetiu, as mãos fechadas de angústia. Acredita!

Miguel levantou a cabeça, com os olhos cheios de mágoa antiga, incapaz de a escutar, afogado pelas suas feridas.

Já acreditei uma vez murmurou, magoado. Dei tudo. Gastei dinheiro, tempo, investi-me e na hora lá em frente de todos, ela falou: Desculpa, arrependi-me.

Ele recordava o passado noivo esperançoso, a festa, o anel. Mas, à porta da igreja, diante de toda a gente, ela deixou-o sozinho.

Dói, não é? murmurou, olhando para o vazio. Ao menos não te deixo na frente dos convidados. Vai-te embora. Chega.

As palavras caíram nela como uma estalada. Leonor cambaleou, mas levantou-se, sem uma palavra, e saiu.

A porta fechou-se devagar, deixando-o sozinho no silêncio. Sentou-se no sofá, a cabeça entre as mãos, querendo fugir dos próprios pensamentos.

Estou mesmo a precisar de ajuda pensou, com tristeza. Ela era mesmo diferente só que acabo sempre a ver fantasmas, a sentir que vai acontecer tudo outra vez.

Fez um esforço, pegou no telemóvel e ligou para o psicólogo.

Olá, doutora, sou eu. Preciso de ajuda. Tenho medo medo que tudo se repita, de terminar outra vez sozinho, envergonhado, despedaçado. Quero acabar com isto.

Do outro lado, voz calma:

Ainda bem que ligaste, Miguel. Vamos tratar disso. Quando queres marcar?

Ele olhou para o céu, no lusco-fusco do fim de tarde, e respondeu, num sussurro:

Amanhã mesmo.

**********************

Um ano depois, Leonor girava de felicidade pelo salão inundado de sol, rodeada de familiares e amigos. O vestido, finalmente, era aquele com que sempre sonhara: elegante, com mangas de renda e saia de tule leve.

A música envolveu-os e Leonor pegou na mão de Miguel, entrando com ele ao centro da sala. Ele sorriu, trouxe-a para junto de si, e começaram a dançar.

E então, marido sussurrou ela, olhando-lhe nos olhos como é que te sentes?

Estranho, confesso respondeu, meio a sério meio a brincar. É tudo igual mas agora sinto tudo diferente.

É porque agora é a valer gracejou Leonor sem receios, sem mas.

Recordou o dia, um ano antes, em que saíra de casa dele, devastada. Achou que era o fim. Mas essa queda fez-lhe descobrir uma força que nunca conhecera.

Na manhã seguinte, voltou a bater-lhe à porta. Sem acusações, só com uma vontade firme de conversar.

Não saio daqui sem falarmos, olho nos olhos disse-lhe. Porque sei: tens medo. Medo do passado, medo de sofrer outra vez. Mas não é por isso que deves deitar tudo a perder. Vamos lutar os dois.

O Miguel ficou em silêncio muito tempo. Depois murmurou:

Não quero voltar a doer.

Nem eu quero que vivas com medo disse ela. Vamos procurar uma solução, juntos.

Foram pela primeira vez ao psicólogo. Passo a passo, Miguel abriu-se, partilhou a sua ferida, aceitou o seu apoio. Leonor permaneceu ao lado dele, sem críticas ou pressas, só ouvindo e apoiando.

Agora, ali estavam, em plena pista de dança, na companhia de quem mais os amava. Nos olhos dele já não havia desconfiança só carinho, confiança e gratidão.

Sabes, Leonor disse, apertando-lhe a mão ainda bem que não desististe de mim.

Eu também respondeu ela, encostando-se ao peito dele. Agora sei mesmo: o nosso amor é mais forte do que qualquer medo.

Pouco a pouco, a música foi esmorecendo, mas eles continuaram a dançar devagarinho, em sintonia, envolvidos naquela paz única de quem, juntos, supera tudo.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

A Um Passo do Altar