A traição escondida sob o véu da amizade

Traição disfarçada de amizade

Este inverno decidiu mostrar todo o seu encanto: caiu tanta neve que os jardins e ruas da cidade pareciam saídos de um conto de fadas. Os flocos brancos e macios rodopiavam lentamente no ar, pousando sobre os telhados e a calçada, e o frio dava ao ar uma clareza e frescura únicas.

No apartamento de Beatriz e Rui imperava uma atmosfera completamente diferente tão quente e acolhedora. Da ampla janela, via-se o espetáculo branco cobrir Lisboa, mas lá dentro, abrigados por vidros fechados, encontrava-se o seu pequeno refúgio de serenidade. A luz suave do candeeiro criava um círculo de aconchego ao redor de si, afastando a friagem do exterior.

Sentados no sofá, envoltos num cobertor fofo, gozávamos da companhia um do outro. A televisão passava uma comédia familiar daquelas que pouco nos marcam, mas nos fazem rir e relaxar. Eu prestava atenção ao filme, esboçando ligeiros sorrisos para pensamentos só meus. O Rui, descontraído, ora olhava para o ecrã, ora deixava o olhar perder-se pela janela onde a neve continuava a cair de forma belíssima.

O sossego foi interrompido pelo toque do telemóvel do Rui aquele som melódico que rompeu o silêncio caseiro. Ele demorou a reagir, talvez sem vontade de estragar aquele momento de tranquilidade, mas o toque repetiu-se. Suspirou, tirou o telemóvel do bolso, olhou para o visor e soltou outro suspiro:

É o Diogo outra vez disse ele para mim, com um sorriso cansado já vai na terceira chamada só esta noite.

Olhei-o de lado, sem desviar o olhar do filme.

Aposto que é para irmos lá a casa respondi, sem pressas Agora que ele comprou aquele terreno em Sintra, só pensa em inaugurar aquilo. Parece que esta pessoa não sabe ouvir um não.

O Rui passou o dedo no ecrã, atendendo à chamada.

Alô Diogo, tudo bem? disse ele, esforçando-se por parecer animado.

Rui! Então quando é que vens? a voz do amigo transbordava entusiasmo. Avisei que hoje era noite de festa! Preparei tudo: a lareira está acesa, a comida posta, e já cá estão todos os amigos. Anda lá, traz também a Beatriz, vai ser divertido!

O Rui hesitou, meditando sobre o que responder. Olhou-me, e eu só lhe acenei negativamente com a cabeça, sem qualquer palavra. Não era preciso. Os planos para aquele fim de semana passavam apenas pelo nosso cantinho, tranquilidade, zero confusões nem música alta.

O Rui demorou um pouco, mas logo aproveitou a ideia que lhe ocorreu.

Olha, Diogo aconteceu uma coisa. A Beatriz foi passar uns dias a casa da mãe. Não me apetece mesmo ir sozinho, entendes? Ainda surge alguma conversa chata e não quero chatices. A gente combina para outra altura, vá.

Do outro lado, silêncio. Mas logo veio a resposta, cheia de espanto:

Como assim, foi para casa da mãe? E quando volta?

Amanhã à noite fingiu-se triste Rui foi tudo uma decisão inesperada E tínhamos tantas coisas planeadas! Ir ao cinema, passear no jardim ao sol, quem sabe ir à pista de gelo. Mas pronto, deixou de ser possível. Fica para depois, pode ser?

Diogo calou-se brevemente, e depois respondeu com um tom estranho de satisfação:

Pronto mas avisa logo que ela voltar. Estou cheio de saudades vossas!

Claro, assim que puder aviso despachou Rui Pode ser que no próximo fim de semana dê.

Desligou, pousou o telemóvel na mesinha e soltou um suspiro de alívio, sorrindo discretamente.

Ufa, estava mesmo a ver que não conseguia esquivar-me murmurou ele, virando-se para mim. Não percebo como é que ele insiste tanto! Já lhe disse várias vezes que não me apetece ir até lá, só para os ver bêbedos a noite toda. Ele não sabe fazer uma noite diferente! Melhor esquecer. Prefiro mil vezes estar aqui contigo.

Abraçámo-nos, sentindo o calor a ocupar o silêncio da casa. Os flocos de neve continuavam a cair suavemente, a criar um pano de fundo para o nosso filme descontraído e para a serenidade que tanto prezávamos.

Eu encostei-me ao Rui, sentindo aquele calor humano tão reconfortante, acompanhada pelo ritmo calmo da sua respiração. O ambiente era de um conforto absoluto: o brilho suave do candeeiro, o filme preto e branco que rodava no ecrã, o tique-taque do relógio na parede. Uma bolha de paz que contrastava com a correria dos dias normais.

Também prefiro assim disse eu baixinho, erguendo o olhar para encontrar o dele. Vamos só ver o filme e dormir cedo. É tudo o que quero agora.

Ele sorriu, apertando-me mais. Já nos víamos abraçados dentro de horas, deitados sob o édredon quente, a adormecer ao som distante da ventania lá fora. Mas mesmo assim, mais um toque soou. E para meu espanto, novamente era o Diogo.

O Rui franziu o sobrolho. Pegou no telemóvel, já contrariado.

Diogo, já te disse que não vamos começou ele, tentando manter o tom calmo, apesar do desconforto.

Rui o tom de Diogo tornara-se estranhamente sério, quase tenso estou agora no clube Cristal. Viemos todos, para aquecer antes da noite, e aqui está a Beatriz. Com um tipo qualquer. A beberem juntos, ela cheia de abraços. Não queria meter-me, mas tinhas de saber. E tu disseste-me que ela estava na casa da mãe! Inventou-te, de certeza!

O Rui congelou. Fitou-me de olhos muito abertos, depois voltou ao telemóvel, incrédulo.

Estás a brincar? perguntou, a dúvida no rosto e no tom Tens a certeza que era a Beatriz? Não confundiste?

Absoluta respondeu Diogo, peremptório ela já está bem animada, a rir alto. A postura dela não foi nada bonita. Nem se preocupou que eu estivesse ali! Só me ignorou. Queres que a chame ao telefone?

O Rui fechou os olhos, numa tentativa de organizar os pensamentos. Mil perguntas borbulhavam-lhe no íntimo. Como é possível tal confusão? Ou será outra coisa?

Sim, passa-me o telefone disse ele, ativando o alta-voz, ansioso por perceber o que se estava a passar.

Da coluna começaram a ouvir-se sons abafados de música forte, gargalhadas misturadas com vozes. Depois, distingo uma voz feminina tão parecida com a minha que o Rui deve ter sentido um aperto no estômago.

Quem fala? ouviu-se, depois de uma breve hesitação, típica de quem não espera atender alguém.

O Rui pigarreou, a voz seca.

Beatriz? Sou eu, o Rui. O que se passa?

Do outro lado, um riso breve e uma resposta desembaraçada, quase insolente:

Epá, Rui, já chateias! Eu só quero divertir-me, percebes? Estou farta dessa tua vida aborrecida. Vou curtir até me cansar!

Eu dei um pulo no sofá, sentindo o coração descompassado no peito. Olhei para o Rui, perplexa.

Mas o que é isto? Quem é esta pessoa a imitar-me? E como sabe o teu nome? O que está aqui a acontecer?

Onde é que tu estás afinal?

O que te interessa? respondeu a voz, com atrevimento Só porque sou tua mulher não tenho de te dar satisfações! Faço o que bem me apetecer!

Mais gargalhadas, tilintar de copos e ouvi Diogo novamente:

Ouviste, Rui? Bem te disse

O Rui cortou-lhe a palavra, os sentimentos em conflito estampados no rosto.

Chega, Diogo. Amanhã trato disto. Não voltes a ligar.

Desligou de vez e atirou o telefone para o fundo do sofá, de olhos no teto sem compreender o que acabara de acontecer. Se eu não estivesse mesmo ali ao lado dele, ele poderia ter acreditado!

Atirei-me ao sofá, perplexa. A voz era mesmo parecida! Mas mais importante era tentar perceber quem sabia tanto sobre a nossa vida, ao ponto de imitar-me com tal destreza. Alguém estava claramente por trás daquilo.

Isto é surreal murmurei, sem esconder o mal-estar. Afinal, quem era aquela pessoa? Que brincadeira de mau gosto é esta?

O Rui abanou a cabeça, passou os dedos pelo cabelo já desgrenhado, sem saber o que pensar.

Não faço ideia disse ele, retirando o olhar do vazio. Mas aquela voz era mesmo igual. As expressões, os risos! Não pode ser coincidência.

E o Diogo a jurar que era eu acrescentei, com a voz a tremer. Imagina se eu realmente não estivesse aqui! Podias pensar que te estava a trair

O Rui virou-se para mim, agora mais calmo. Puxou-me para junto dele, apertando-me nos braços, transmitindo toda a confiança do mundo.

Teria desconfiado. Tu nunca ias fazer-me uma coisa dessas. Conheço-te demasiado bem. Isto é só uma parvoíce, alguém está a tentar meter-se entre nós. Vou descobrir quem foi. Se for preciso, vou ao clube ver as câmaras. Vamos ver quem era aquela mulher.

Encostei-me de novo, sentindo um calor reconfortante afastar o choque do momento. Respirei fundo, acalmando o coração.

Sim assenti, fitando-o nos olhos. Não era eu, isso é certo. Mas quem era, e porquê?

O Rui encolheu os ombros, mas o olhar já não mostrava aquela confusão agora refletia determinação. Apertou a minha mão, deixando claro com esse gesto: juntos, vamos resolver tudo.

*******************

No dia seguinte, já pela manhã, estava sentada na cozinha com uma caneca de chá quente, a dar uma vista de olhos aos emails do trabalho. O silêncio foi interrompido por um toque: Diogo. Demorei um pouco antes de atender, porque depois do que sucedera na véspera sentia-me pouco inclinada a conversar com ele. Mas a curiosidade venceu.

Olá, Beatriz começou ele devagar, como se pisasse gelo fino. Falaste com o Rui depois daquilo de ontem?

Apertei o telemóvel. Decidi que era o momento certo para chegar ao fundo da questão queria perceber exatamente o que Diogo tinha feito e porque estava tão seguro do que afirmava ontem. Fingi uma pequena pausa:

Sim. Acabámos por discutir. Ele acha que lhe menti e não quis ouvir mais nada. Diz que desconfia de mim.

Silêncio do lado de lá. Percebi um suspiro contido e, logo a seguir, um tom de satisfação mal disfarçada.

É assim, pois disse ele, sabes, eu sempre achei que o Rui não te dá o valor que mereces. Ninguém vê quem tu és na verdade.

Respirei fundo, tentando controlar as emoções. Precisava deixá-lo falar.

O que é que queres dizer com isso? perguntei, no tom mais neutro possível.

O Diogo baixou ainda mais a voz, quase um sussurro, numa tentativa forçada de criar intimidade:

Que mereces melhor! Beatriz, eu sempre sempre te amei. A sério. Quero cuidar de ti. Se algum dia quiseres deixar o Rui, eu estou aqui. Para ti. Sempre.

Fiquei em silêncio, o cérebro a processar tudo. Há quanto tempo ele pensava assim? Porque se tinha revelado agora? Ou será que tudo aquilo tinha sido planeado por ele, sabendo que eu ia estar em casa

Inspirei fundo, serena mas firme:

Diogo, não esperava isto de ti. Nem é o momento certo. Amo o Rui. Vamos resolver isto juntos não te envolvas mais.

Desculpa se disse algo a mais respondeu ele, já com menos convicção Só queria que soubesses que podes contar comigo. Ouvi-o falar ontem, achei que já te queria deixar, que precisava de um pretexto. Só quero que saibas que tens alguém que te trata melhor!

Agarrei o telefone com força, lutando para não perder a calma. O que menos queria era uma explosão.

Ouve, Diogo a minha voz saiu fria, quase cortante Ontem estive sempre em casa. Nunca fui a lado nenhum. E nunca discutimos. Aliás, sei perfeitamente que foste tu que inventaste isto tudo. Só não percebia o motivo. Agora já percebo.

Ficou mudo de repente. Senti quase fisicamente o pânico dele do outro lado do telefone, a hesitação a escolher palavras que o tirassem daquela situação.

O quê? conseguiu balbuciar, sem firmeza. Logo fez um esforço de se recompor: Não entendo

Entendes sim. Arranjaste uma rapariga, com voz parecida à minha. Pediste-lhe para fazer um teatro, fingir que era eu ao telefone com o Rui, e assim tentar gerar uma confusão. Tudo para nos separar. Confessa lá, foi isso?

O silêncio foi absoluto. Esperei calmamente, já sabendo que agora Diogo teria de escolher entre mentir ou finalmente assumir os seus actos.

Finalmente, ouvi-o suspirar. A voz saiu mais alta, quase desesperada:

Sim, inventei tudo! Porque te amo, Beatriz! Porque vejo o que o Rui não te dá, e só quero que sejas feliz comigo!

Fechei os olhos por um momento, sentindo uma amargura a crescer-me no peito, mas mantendo a voz neutra:

Feliz? o riso que saiu não teve qualquer alegria E tu achas mesmo que eu algum dia seria feliz contigo? Tu, que sempre andaste atrás de todas? Nem se fosses o último homem do mundo!

Pausa. Ele ficou silencioso, depois voltou a falar, agora num tom marcado pela derrota:

Pensei que, se vocês se zangassem, perceberias o valor que tenho. Não sou nada do que pensas. As raparigas tentei esquecer-te. Mas ninguém é como tu. Ia dar-te tudo.

Senti um frio por dentro. Não era um frio agressivo, mas glacial, um nojo imparável. A minha voz soou implacável:

Tu? Nunca. Traíste a amizade e a confiança. E porquê? Por um sonho tolo.

Falei sem mágoa nem histeria, cada palavra era um veredicto.

Desculpa disse ele, sem energia nenhuma.

Mas eu já tinha decidido. Não havia espaço para desculpas.

Não há perdão. Nem amizade. Não me ligues mais, nunca. E ao Rui também não. Vou mostrar-lhe esta chamada

Desliguei. Pousei o telemóvel cuidadosamente sobre a mesa. As mãos ainda tremiam um pouco. Respirei fundo e olhei pela janela. Lá fora, a neve continuava, indiferente ao pequeno drama humano da nossa vida.

Nessa altura, o Rui entrou na cozinha e percebeu logo o meu ar sério.

Então? perguntou, encostado à ombreira. Tentava disfarçar a ansiedade.

Virei-me para ele, deixei que um sorriso irónico me escapasse:

Agora já sabemos tudo murmurei. O Diogo planeou tudo. Veio finalmente confessar-se ainda se declarou. Propôs mundos e fundos! Ouve-se cada coisa como foi capaz de ser tão baixo?

Ele sentou-se ao meu lado, pegou na minha mão e apertou-a suavemente, deixando transparecer todo o apoio do mundo. Não precisávamos de palavras: bastava aquele gesto a garantir que tudo ia ficar bem.

Afinal, nunca foi nosso amigo de verdade disse o Rui, calmo, resignado. Esquece-o. Já notava alguns sinais há muito, mas sem provas. Agora vejo claro o que nos estava a escapar.

Pois, agora pelo menos ficámos a saber quem merece a nossa confiança acrescentei, aconchegando-me a ele.

A minha voz já só transmitia alívio. Fechei os olhos, absorvendo o cheiro familiar da nossa casa: madeira quente, chá acabado de fazer, perfume leve.

Sabes sorri, notando o brilho nos olhos do Rui agora temos uma excelente desculpa para não irmos a mais festas. Se alguém insistir, digo que vai lá alguém de quem não gosto!

Disse-o em tom de brincadeira, mas era verdade. Já não tinha que inventar desculpas, hesitar ou magoar ninguém. Tínhamos apenas a nossa pequena bolha o resto perdeu importância.

O Rui riu, genuinamente.

Perfeito. Vemos um filme, tomamos chá disse ele, juntando os olhos aos meus.

E não metemos o nariz na rua acrescentei, puxando o cobertor para cima dos ombros, enrolando-me naquele casulo quente e seguro.

É tudo o que quero respondeu ele, abraçando-me forte.

Assim, entre as lascas de neve que continuavam a cair para lá da janela e o brilho sereno do candeeiro, a nossa pequena casa voltou a ser um refúgio inteiro e seguro. Nada de mentiras, de armadilhas ou de dores do passado. Só nós, dois e a certeza do nosso amanhã ser tão tranquilo e quente quanto este dia.

*************************

O Diogo sentou-se na cozinha, sozinho, olhando para a chávena vazia, com o chá já frio. Não se lembrava sequer da última vez que nela tocara. Só conseguia ouvir, em looping, aquelas palavras finais: Não me ligues mais. Nunca.

Mas ao contrário do arrependimento ou remorso, sentia dentro de si uma raiva a crescer. Carregava no peito um nó de frustração, as mãos cerradas com força.

Porque é que tudo correu mal?! gritou, atirando com o braço sobre a mesa para afastar restos de bolachas.

Repassou na mente tudo o que sucedera na noite anterior. Recordava-se de entrar no clube, de ter acertado tudo com Mariana a rapariga que conhecera há umas semanas num café. O cabelo, o rosto, até a voz era semelhante à da Beatriz. Quando lhe expôs o plano, ela só sorriu: Adoro este género de brincadeira.

Lembrava-se do entusiasmo ao vê-la fingir-se minha, a imitar não só a voz como o jeito, as piadas, os maneirismos. E acreditava mesmo que, se funcionasse, a Beatriz veria finalmente o que tinha à frente: um homem que, ao contrário de Rui, a amava de verdade.

Agora? Agora só tinha indiferença dela e a justiça fria dos factos: tudo arruinado.

Eles é que não veem! protestava dentro de si, de pé, quase sem sentir o corpo, esbarrando numa cadeira ao passar. O Rui é banal ela nunca percebeu quem eu realmente sou!

Encostou-se à janela, viu a neve cair, tudo sereno e suspenso, branco e frio.

Porque é que eles podem ser felizes e eu não?! Porque foi o Rui e não eu?

Tinha consciência de que não perdera só a Beatriz perdera um amigo, um irmão. Rui, que sempre estivera ao lado dele. Agora, essa ponte estava destruída, de vez. Mas em vez de remorso, sentia-se apenas queimado por dentro, uma mistura de mágoa e frustração.

Olhou para o telemóvel, inerte em cima da mesa. Não ia ligar-lhe. Nem pedir desculpa, nem inventar desculpas, nem implorar. Isso seria assumir derrota. No entanto, formavam-se na cabeça dele novos pensamentos, venenosos e teimosos:

Que vivam os dois no seu mundinho. Acham que venceram. Mas eu conheço-os. Um dia, ela vai perceber, mesmo que tarde demais

Chegou-se ao vidro, olhando as ruas de Lisboa tapadas de neve, e murmurou baixinho:

Achas que ganhaste, Beatriz? Achas que está tudo resolvido? Só porque não vês para lá da tua manta quente e da tua chavena de chá. Não vês que aqui há alguém que te ama de verdade? Mas tu preferes viver na ilusão. Pois bem, aproveita

Desviou-se da janela, deitou os olhos à folha de papel com o guião que escrevera para a Mariana. Em poucos segundos, rasgou-a aos bocados e atirou-a ao lixo. Mais um símbolo do seu fracasso atirado pela janela.

A neve continuava a cair, cobrindo Lisboa de branco. Diogo fechou os olhos, imaginando a Beatriz com o Rui, enrolados no sofá, a sorrir, a beber chá, abraçados. Imaginando o calor daquela casa e aquela paz a que ele nunca pertenceria.

E, em vez de desejar-lhes felicidade, tudo o que sentia era este pensamento duro:

Devia ter sido eu. Devia ter sido comigoMas naquele instante, enquanto a neve pousava em silêncio e a cidade inteira parecia amortecida pelo seu manto frio, o eco da sua solidão tornou-se absoluto. Pela primeira vez, Diogo teve de encarar o vazio dos seus próprios gestos; não havia distração, chama, nem sequer música ou vozes à volta. Só a ausência. Só o remorso escondido sob a teimosia.

O telefone vibrava ocasionalmente, mensagens de outros amigos, convites vazios para festas onde ninguém o esperava de verdade. Ele ignorava-as, como quem teme olhar para dentro. Percebeu que, no fundo, já não era o Rui ou a Beatriz que lhe faltavam era algo há muito extraviado em si mesmo, a ilusão de que bastava ter para ser feliz.

No outro lado da cidade, Beatriz e Rui preparavam-se para sair. Aquela manhã clara, de céu aberto e neve refletindo luz dourada nas ruas antigas, convidava a recomeços. De mãos dadas, sem peso no coração, desceram devagar as escadas do prédio. Sorriam um para o outro, prometeram não mais duvidar daquilo que sabiam há muito tempo que a confiança e o respeito eram, na verdade, o segredo que tantas vezes está mesmo à vista.

Passando na rua, viram crianças a fazer bolas de neve, vizinhos a saudar-se, e sentiram a leveza de uma vida em comum recomeçada sem mácula a força singela de quem superou juntos um teste estranho e doloroso, sem perder a ternura.

Ao longe, Diogo observava os mesmos flocos a caírem do outro lado do vidro, perguntando-se se alguma vez sentiria, de novo, alguma paz. A resposta ficou suspensa entre dois invernos um que terminava para uns, outro que agora começava só para ele.

O amor verdadeiro, pensou Beatriz, não vive de grandiosos gestos nem de juras feitas em voz alta. Vive, sim, nos pequenos silêncios partilhados, nas manhãs tranquilas, no calor de um abraço onde tudo faz sentido. E foi com essa certeza tão simples e resistente como a neve que volta, ano após ano que ela apertou a mão de Rui e juntos seguiram pela cidade adormecida, deixando atrás de si não apenas pegadas fundas na neve, mas também o rasto sereno de um caminho que, a dois, se tornava sempre mais iluminado e fácil de trilhar.

E ali, entre o frio e o calor, cada um fez a sua escolha. Alguns continuarão batendo portas fechadas, outros aprenderão de vez que só quem ama de verdade é capaz de ficar e de não trair. O inverno passa. O coração, esse, se for íntegro, floresce na estação que vier.

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A traição escondida sob o véu da amizade