A traição escondida sob o véu da amizade

A Traição Disfarçada de Amizade

Foi num daqueles invernos portuenses de outrora, quando o frio parecia ganhar vida e o nevoeiro tapava a cidade como um manto branco, que tudo aconteceu. Lembro-me bem: a geada cobria as calçadas de granito, e dos beirais das casas, prateleiras de neve se acumulavam. O cheiro a castanha assada confundia-se com o das lareiras acesas, trazendo ao coração aquela doce sensação de pertença. Porto vestia-se de conto de fadas.

Dentro do apartamento da Beatriz e do Tomás, porém, reinava outro clima. Por trás das janelas fechadas, mantinha-se um refúgio de calor e sossego. Havia fé no esmorecer do mundo ao redor; o candeeiro sobre a mesa lançava uma luz dourada e repousante, desenhando halos de aconchego na sala. Estavam acomodados no velho sofá, debaixo de uma manta de lã tricotada pela avó, a assistir, meio distraídos, a uma comédia leve e sem compromisso.

Beatriz, absorta, sorria quase imperceptivelmente, como quem ri das próprias recordações. Tomás olhava duas vezes: ora para o televisor, ora para lá da janela onde os flocos teimavam em dançar ao sabor do vento. Achava belo esse espetáculo silencioso.

O silêncio intemporal da sala foi quebrado pelo toque melódico do telemóvel de Tomás. Ele relutou em atender, como se não quisesse romper a paz desse serão mas a insistência do toque fê-lo ceder. Suspira, tira o telemóvel do bolso e olha para o nome no ecrã.

É o Duarte outra vez comentou ele para a esposa. Já é a terceira vez só hoje.

Beatriz nem despegou os olhos do filme.

Certamente para nos convidar outra vez a ir à casa de campo dele disse ela, calma. Desde que comprou o terreno em Amarante, parece que não ouve o não…

Tomás deslizou o dedo pelo ecrã e atendeu.

Olá, Duarte, já cá estou disse, esforçando-se por soar animado.

Tomás! Quando vens? Já combinei tudo, tás a ver? Lareira acesa, comida na mesa, pessoal todo a chegar. Anda lá tu e a Beatriz, está um ambiente porreiro!

Tomás hesitou, trocando um olhar de entendimento com Beatriz, que lhe respondeu com um breve abanar de cabeça. Não precisavam de palavras nenhum dos dois queria aquela balbúrdia, o folclore das canções populares, as conversas muito altas e aquele rebuliço constante. Bastava-lhes aquele pedaço de mundo, às suas mãos, onde o tempo escorria devagar.

De repente, Tomás teve uma ideia.

Duarte, olha, a Bea foi passar uns dias a casa da mãe em Aveiro, improvisou sem pestanejar. Ir sozinho não me diz nada. Sabes como é, não quero meter-me em confusões… Outro dia, pode ser?

Uma pausa breve do outro lado.

A casa da mãe? Mas quanto tempo fica? perguntou o amigo, surpreendido.

Volta amanhã à noite. Tivemos de mudar os nossos planos à última hora. Íamos passear nos Aliados, talvez dar um salto à pista de gelo lá do jardim mas que se há-de fazer? Fica para a próxima.

Duarte ainda hesitou, mas acedeu, com um entusiasmo forçado.

Vá, diz-me assim que ela voltar. Quero-vos ver!

Prometo, concordou Tomás. Talvez para a semana.

Desligou, pousando o telemóvel, e riu-se para Beatriz.

Ufa, já passou. Que mulher de cada vez. Não me apetece nada essas sessões dele! Tratar do rancho, depois aquilo acaba sempre em copos… Prefiro mil vezes estar aqui só contigo.

Aperta-a num abraço, sentindo a tensão a dissolver-se. Continuam no abrigo morno, com a neblina lá fora e o filme ainda a correr, manso, quase a embalar.

Beatriz aconchega-se a ele, ouvindo o compasso do coração de Tomás misturar-se com o tique-taque do velho relógio de parede e o som abafado da chuva que caía na Rua de Cedofeita.

Só queria mesmo isto murmurou ela, fitando-o por baixo das pestanas. Que tal vermos o resto do filme e depois dormir? Não preciso de mais nada hoje.

Tomás sorriu, jogou outra vez a manta sobre ambos, já numa antevisão dos sonos que a ventania de inverno, lá fora, facilitaria. Mas eis senão quando o telefone volta a tocar. O mesmo nome.

Tomás franziu o sobrolho, receoso.

Duarte, já te disse… começou ele, na tentativa de soar paciente, mas a irritação já se notava.

Mas a voz do Duarte tornou-se inesperadamente grave, quase tensa:

Tomás, estou agora no Cristal, aquele clube no centro, sabes? Viemos relaxar antes de irmos todos para a casa de campo. E… a Beatriz está aqui. Com outro homem. Eles estão a beber, ela tem-no a abraçar. Juro que só te digo porque te respeito. Ela disse-te que ia a Aveiro, não foi? Ela mentiu-te, pá.

Tomás gelou. Olhou para Beatriz sentada ao seu lado, tão serena como sempre e depois para o telefone.

O quê? Tens a certeza que era ela? Podes estar enganado, conheço bem a minha mulher!

Certeza absoluta respondeu Duarte, peremptório. Está animada, já meio alegre, ri-se às gargalhadas. Se quiseres, passo-lhe o telefone!

Tomás fechou os olhos um instante, a tentar organizar os pensamentos. Tudo parecia suspenso num nevoeiro de dúvidas. Aceitou:

Dá.

A voz de fundo do clube atravessou o altifalante, misturada a música e gargalhadas. A seguir, ouviu-se nitidamente uma voz feminina tão semelhante à de Beatriz que o coração lhe falhou um compasso.

Alô? Quem fala? soou do outro lado, ligeiramente arrastada.

Tomás sentiu um nó na garganta. Olhou para Beatriz que, pálida, só fitava o telefone.

Beatriz? Sou eu, Tomás. Que se passa?

Resposta: uma risada estranha, depois, a mesma voz, agora ainda mais desimpedida:

Ó Tomás, não me chateies! Quero é divertir-me! Estou farta da tua vida monótona. Vou aproveitar enquanto me apetecer!

Neste momento, Beatriz saltou do sofá, a mão ao peito.

Isto é absurdo! Como é que alguém pode saber o meu nome, conhecer-te? Quem se faz passar por mim?

Então, onde estás?

E que tens tu a ver com isso? devolveu a voz, insolente. Sou tua mulher, mas não te devo satisfações! Faço o que quero!

Em fundo, novo riso, som de copos; logo Duarte:

Ouviste? Eu avisei-te…

Tomás, lutando com a raiva, interrompeu:

Chega. Amanhã trato disto. Não voltes a ligar-me.

Desligou, largando o telemóvel, e ficou a fixar o estuque do tecto. Se Beatriz não estivesse mesmo ali ao lado… teria acreditado?

Ela deixou-se cair no sofá, perplexa. A semelhança de voz era assustadora. Mais quem dera a tal mulher todas aquelas informações? Só alguém instruído…

Santo Deus, murmurou ela. Que circo vem a ser este?

Tomás despenteou os cabelos, perdido.

Não sei… Mas a voz, Beatriz igualzinha. Até o riso…

E o Duarte disse-o com tanta certeza. Se não estivesse contigo, terias acreditado?

Tomás tomou-a nos braços, firme:

Não. Eu conheço-te. Jamais fazias isso. Isto é uma patranha muito mal montada. Vou averiguar: se for preciso, vejo as câmaras do clube. Descubro quem era aquela mulher.

Ela respirou fundo, acalmando-se naquele abraço que significava tudo. Já nada mais importava senão a confiança entre ambos.

No dia seguinte, já o nevoeiro tinha cedido espaço a um tímido sol sobre as telhas vermelhas do bairro. Beatriz sentava-se à mesa da cozinha com um chá verde, a folhear emails de trabalho, quando o telefone tocou. Era Duarte. A hesitação dela era palpável; mesmo assim, atendeu.

Beatriz, falaste com o Tomás depois de ontem?

Ela fechou os olhos e decidiu enfrentar tudo de frente.

Falámos, sim. Discutimos. Ele acredita que lhe menti.

Do lado de lá, sentiu-se um certo suspiro; depois, das palavras de Duarte sobressaiu um tom suspeito de satisfação:

Pois, sempre achei que ele não te merecia. Nunca soube dar-te valor de verdade.

Beatriz, já desconfiada, manteve-se impassível.

Do que falas?

Duarte baixou a voz, quase sussurrando, como quem faz uma confidência proibida:

Que mereces bem mais. E… eu amo-te, Bea. Se queres deixar o Tomás, eu cuido de ti. Sempre. Só preciso que me escolhas.

Beatriz ficou algum tempo calada, a compreender. Por fim, disse, clara e firme:

Duarte, nada disto faz sentido. Amo o Tomás e vamos resolver tudo entre nós. Não te metas.

Se por acaso exagerei… Só pensei que devias saber que tens alternativas. Com o Tomás fizeste mal, devia proteger-te mais! Ele anda à procura de desculpas para te deixar, só isso!

Ela agarrou o telefone, cravando os dedos.

Duarte, ontem estive todo o tempo em casa. E sei que foste tu que inventaste esta história. Agora, percebo porquê.

Nova pausa. Era quase possível ouvi-lo a engolir em seco.

Estás a delirar.

Mandaste arranjar uma rapariga parecida comigo, preparaste um teatro… Só querias separar-nos. Confessa.

Quando Duarte finalmente respondeu, era um grito disfarçado de sussurro:

Sim! Porque te amo! Não vejo como o Tomás te valoriza, e eu posso dar-te o mundo! Disse à Marina tudo para dizer… Só queria que percebesses o quanto sou melhor para ti!

Beatriz respirou fundo.

Melhor para mim? Traíste a minha confiança, traíste o nosso amigo. Nada do que fizeste é amor, é egoísmo. Nunca te perdoarei!

Perdoa… ouviu-se, mas Beatriz foi irredutível:

Não. Nunca. E esquece o número do Tomás também vou mostrar-lhe tudo.

Desligou e ficou a olhar para a neblina da manhã que, tranquila, tapava o Porto.

Tomás entrou na cozinha, inquieto.

Então?

Ela, serena, contou-lhe toda a verdade, a confissão do Duarte, o plano, os sentimentos.

Tomás baixou-se até ela, segurou-lhe a mão. Ali, naquele toque, não era preciso dizer mais nada. Só ficar, juntos.

Não era amigo nenhum, Beatriz. Esquece-o. Já suspeitava, mas nunca pensei…

Pronto, já sabemos com quem podemos ou não contar respondeu ela, encostando-se a ele. Agora já não havia mágoa, só leveza e alívio.

Olha, sorriu ela, irreverente, ao menos assim já temos desculpa para saltar essas festas todas! E tu, não vais zangar-te com os outros por causa dele, pois não?

Nunca, riu-se Tomás, sincero como dantes.

E vamos ficar aqui, ver filmes e beber chá. Ninguém nos tira daqui.

A manta cobriu-os outra vez. E assim, entre as sombras tranquilas da sala e o aroma de canela vinda da cozinha, o mundo voltou a ser só deles. Sem mentiras, só confiança. A vida, por vezes, tem destas formas estranhas de revelar quem merece pertencer ao nosso pequeno mundo.

**********

Na solidão amarga da cozinha, Duarte fitava o chá esquecido, rodeado pelo silêncio ensurdecedor. As palavras de Beatriz martelavam-lhe a cabeça: Nunca mais me ligues.

Ao invés de remorso, sentiu só raiva surda, densa, a corroer-lhe o peito. Deambulou pelo chão de tijoleira.

Porque correu tudo mal? exclamou, varrendo da mesa as migalhas de broa.

Revivia o plano ao lado da Marina, improvisando o papel de Beatriz no clube. Dirigia-lhe as falas aquela voz quase igual, o gesto teatrais. Tudo um jogo que parecia infalível. Só queria que Beatriz percebesse o quanto Tomás não era suficiente.

Agora perdera tudo: a amiga, o amigo, o sonho. E em vez de aceitar, cobria-se de um rancor infantil: Eles não percebem… um dia hão de ver.

O telefone calado já não lhe causava esperança; os papéis do plano rasgados, atirados ao lixo, eram a marca do fracasso.

Lá fora, Porto adormecia com os sinos da Sé. Para Duarte só restava o eco do que nunca teria.

E o mundo deles com todo o calor, chá, silêncio e ternura era tudo o que sempre desejara. Mas nunca seria seu.

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