Traição sob a máscara da amizade
Dizem que os invernos antigos em Portugal tinham uma magia especial. Naquele ano longínquo, recordo-me bem, a neve caiu em tal abundância que os bairros e vielas do Porto tornaram-se autênticos postais de Natal. Os flocos brancos dançavam no ar, pousando suavemente nos telhados envelhecidos e nas calçadas de pedra, enquanto o frio limpo dava ao ar uma clareza e frescura rara.
Mas enquanto lá fora a cidade era um quadro gelado, no apartamento de Leonor e Tiago reinava outra atmosfera cálida e acolhedora. Através da larga janela, víamos desfilar o espetáculo invernal, porém, entre as quatro paredes, o silêncio era confortável. O abajur lançava um brilho ameno e dourado, afastando o frio para além do vidro.
Enroscados no sofá, sob uma manta grossa de lã, os dois partilhavam um serão simples. No televisor, passava uma comédia leve, daquelas em que se ri mais pelo hábito do que pelo guião. Leonor concentrava-se, esboçando de vez em quando um sorriso traquinas, enquanto Tiago, relaxado, acompanhava o filme sem de facto lhe ligar, preferindo espreitar o desenho das nevadas lá fora, um cenário de cortar a respiração.
A harmonia foi interrompida pelo toque musical do telemóvel de Tiago. Parecia não querer atender, valorizando aquele raro momento de paz, mas o telefone insistiu. Ele suspirou, tirando o aparelho do bolso, lançando um olhar cansado ao ecrã.
Outra vez o Rafael disse à mulher. Já vai na terceira chamada esta noite.
Leonor virou-se ligeiramente, mas o olhar ficou preso na televisão.
Deve andar a convidar-te para a casa de campo comentou com serenidade. Sabes como ficou entusiasmado com a compra lá em Guimarães O Rafael nunca aceita um não como resposta.
Tiago deslizou o dedo, atendendo à chamada.
Rafael, pá, tudo bem? Esforçou-se por soar animado.
Ó Tiago! Então quando é que vens? A voz do outro explodia de entusiasmo. Temos de celebrar a casa nova! Já aqueci a lareira, preparei o petisco, o pessoal está a chegar. Despacha-te, homem! Traz a Leonor também! Vai ser uma noite em grande!
Tiago hesitou, cogitando a resposta. Olhou disfarçadamente para Leonor, que abanou a cabeça quase imperceptível. Compreendeu de imediato: não estavam para festas barulhentas de guitarradas e conversas intermináveis. Ambos ansiavam por um fim-de-semana sossegado, sem pressas nem obrigações.
Após breve pausa, Tiago viu ali uma oportunidade e aproveitou-a:
Olha, Rafael… A Leonor foi passar uns dias a casa da mãe, em Braga. Não vou sozinho. Imagina que alguém mete conversa que não devia… Não me apetece chatices. Prometemos combinar noutra altura, pode ser?
Do outro lado, o silêncio foi curto.
A sério? Então quando volta ela?
Amanhã ao fim do dia. Nem vale a pena insistir, isto foi tudo em cima do joelho. Tínhamos planeado ir ao cinema, dar uma volta nos Clérigos enquanto a neve dura, talvez patinar Mas não aconteceu. Olha, fica para a próxima?
Rafael ficou um momento calado antes de responder, numa ligeira satisfação:
Está bem Mas avisa quando ela voltar. Que já tenho saudades vossas!
Combinado despachou Tiago. Para a semana, talvez.
Desligou, largou o telemóvel na mesa de café e respirou de alívio, a sorrir, meio cúmplice.
Ufa, foi por pouco murmurou, pegando de novo na mão de Leonor. Mas que raio, o homem não larga… Bem lhe disse que prefiro assim, contigo, sem outras confusões.
Ela aconchegou-se nele, sentindo o seu calor e o bater sereno do peito. O apartamento permanecia aquecido e tranquilo, com a luz suave, o preto e branco do filme a encher o ecrã, e o leve tic-tac do velho relógio de parede. Tudo parecia seguro.
Também prefiro sussurrou ela, erguendo o olhar. Fiquemos assim, só nós e depois cama. Não precisamos de mais nada.
Tiago sorriu, puxando-a para mais perto com ternura. Já antevia o momento em que apagariam as luzes, se enroscariam sob o edredão grosso e adormeceriam ao som longínquo do vento a levantar a neve. Mas, mal fechou os olhos, ouviu novo toque insistente do mesmo contacto.
Agora, Tiago franziu o sobrolho e atendeu, já pouco paciente:
Rafael, já te disse…
Tiago a voz do amigo estava diferente, áspera, quase ansiosa , estou aqui no Cristal, com o pessoal, a aquecer para a noite na tua ausência… E… está cá a Leonor. Com outro tipo qualquer. Estão aos beijos, a rir alto, de copos na mão. Ela não parece nada preocupada… Disseste-me que estava com a mãe dela! Isso não está certo!
Tiago ficou paralisado. Olhou incrédulo para Leonor, depois para o telefone, como se esperasse apanhar Rafael num daqueles seus disparates.
Hã? Tens a certeza? Não confundiste? Sei perfeitamente que ela está em casa respondeu, não escondendo o desconforto.
Absoluta insistiu Rafael. Está assim para o alegre, numa animação… Se quiseres, passo-lhe o telemóvel!
Tiago cerrou os olhos por um momento, tentando reorganizar os pensamentos. Como era possível? Estaria tudo a ser uma brincadeira de mau gosto?
Pronto, passa aí pediu, com curiosidade misturada com desconfiança.
Ouviram-se ruídos do bar: graves da música, gargalhadas, copos a tilintar. Depois, uma voz feminina, assustadoramente semelhante à de Leonor, soou na linha:
Sim? Quem fala? parecia hesitante, como se só agora desse conta da chamada.
Tiago engoliu em seco, sentindo o coração disparar. Olhou para Leonor ao seu lado, que arregalou os olhos, nitidamente apanhada de surpresa.
Leonor? É o Tiago. O que se passa aí?
Em resposta, a voz soltou uma risada breve, e depois falou num tom descarado, ligeiramente rouco:
Ó Tiago, que aborrecido te tornaste! Quero é aproveitar! Estou farta da tua pacatez, pá. Quero curtir enquanto posso!
Num movimento brusco, Leonor saltou do sofá, pálida, a mão no peito.
Que disparate é este? sussurrou, quase sem voz. Como é que essa mulher sabe o meu nome? E por que está a fingir que sou eu?
Onde estás?
O que te importa? troçou a voz. Sou tua mulher, mas não tenho de prestar contas. Faço o que quero!
Novamente vozes e barulho ao fundo, até que Rafael voltou a intervir.
Viste como é? Avisei-te…
Tiago cortou-o, sentindo as emoções a fervilhar.
Chega disse, firme, apesar do tremor. Amanhã trato disto. Não voltes a ligar.
Desligou rapidamente, atirando o telemóvel para o sofá. Se Leonor não estivesse ali a seu lado, até teria acreditado…
Ela largou-se no sofá ao seu lado, pasmada.
Mas era mesmo igual à minha voz! Quem é esta mulher? E porquê?
Não faço ideia respondeu Tiago, olhando para o vazio, ainda aturdido. Só sei que aquilo foi demasiado convincente. Mas isto cheira-me a armadilha…
E o Rafael, tão seguro de que sou eu… Se, de facto, eu não tivesse estado em casa, tu ias acreditar!
Tiago tornou-se mais suave, puxando-a para um abraço.
Teria desconfiado, garantidamente. Conheço-te, não eras capaz de te meter nesses sarilhos. Amanhã vou perceber quem estava naquele clube, peço as câmaras. Isto não fica assim.
Leonor deitou a cabeça no ombro dele, sentindo finalmente o calor aconchegante afastar a estranheza daquele momento.
Pois, não fui eu. Mas… quem?
Vamos descobrir juntos garantiu Tiago, decidido.
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No dia seguinte, já perto do meio-dia, Leonor estava na cozinha, bebendo chá e arrumando emails no portátil, quando o telemóvel tocou com o nome de Rafael. Hesitou antes de atender, mas a vontade de perceber o que se passava venceu.
Olá disse Rafael, a voz quase cautelosa. Falei contigo depois de ontem?
Leonor apertou o telefone na mão. Resolveu fingir, tentando arrancar dele a verdade.
Sim. Discutimos. O Tiago acusou-me de imensa coisa, nem quis ouvir explicações. Disse que lhe menti.
Silêncio breve. Depois, Rafael deixou escapar um suspiro, e a sua voz pareceu estranhamente satisfeita.
Pois. Sempre lhe disse que não te merecia. Nunca percebeu quem é que tinha à frente.
Leonor sentiu algo a revolver-lhe o peito, mas manteve-se calma para o ouvir até ao fim.
Do que falas, Rafael?
A voz dele desceu ao sussurro conspirativo:
De que tu mereces melhor. Tenho de te dizer há muito… Amo-te, Leonor. A sério. E faria tudo por ti. Se quiseres largar o Tiago, estou aqui. Sempre.
Leonor ficou em silêncio, digestando aquela confissão tardia. Pensou na encenação da noite anterior. Seria tudo um plano dele?
Respirou fundo e respondeu com firmeza:
Rafael, é estranho ouvi-lo agora. E não é altura. Amo o Tiago e isto é entre nós. Não te metas.
Desculpa se fui longe… murmurou ele, menos confiante Só queria que soubesses que podes contar comigo. Ouvi qualquer coisa do Tiago Parece-me que ele te quer deixar, procura só uma desculpa qualquer! Só quero que estejas bem!
Leonor apertou o telefone, contendo a irritação.
Sabes, Rafael disse, com uma calma gelada , ontem estive sempre em casa. E não discutimos. Aliás, já percebi tudo: foste tu que inventaste esta história toda.
Uma pausa. O silêncio denunciava a hesitação dele.
O quê? Não percebo…
Percebes bem. Arranjaste uma mulher com a voz parecida à minha, instruíste-a para encenar aquela chamada. Quiseste afastar-nos. É, ou não é?
Novamente silêncio até Rafael perder o controlo e admitir, quase aos gritos:
Sim, fui eu! Porque te amo, Leonor! Porque vejo como ele te trata. Achei que ias perceber que sou melhor para ti!
Leonor fechou os olhos. Estava mais dececionada do que zangada.
Melhor? Achas mesmo? Tu, que traíste a nossa amizade? Se fosses o último homem em Portugal, não te escolheria.
A resposta de Rafael foi sussurrada:
Achei que, se acabassem, olhavas para mim… Sou melhor amigo, melhor homem. As outras mulheres… Era só uma forma de te esquecer. Não consegui. Por amor, faria tudo…
O tom gélido de Leonor cortou:
Por mim não fazes mais nada. Traíste-nos a todos. Perdeu-se tudo. Não me voltes a ligar, nem ao Tiago. Vou mostrar-lhe esta conversa.
Desligou, pousou o telefone com mãos trémulas e olhou para a neve além da janela tão calma, soprada pela brisa como se nada tivesse acontecido.
Segundos depois, Tiago entrou na cozinha, notando-lhe o rosto fechado.
Então? perguntou, preocupado.
Leonor soltou um suspiro, desabafando, já com amargo alívio:
Fez tudo por despeito. Confessou. Nunca foi nosso amigo, Tiago. Ofereceu-me tudo, montanhas de promessas… É impressionante como as pessoas enganam.
Tiago sentou-se ao lado, apertando-lhe a mão, num gesto simples, mas seguro.
Sempre achei estranho… Mas agora sabemos com quem podemos contar.
Leonor encostou-se ao ombro dele, respirando fundo. Sentiu-se mais leve, sem mágoa, sem pesar. Só reconfortada por ali estar, livre do jogo alheio.
Pelo menos, agora temos desculpa para acabarmos com aquelas noitadas de amigos. Podes sempre dizer que alguém de quem não gostas vai estar lá…
Acabou a frase com um sorriso de quem já perdoou e já se esqueceu, abrindo espaço para a paz.
Tiago riu, genuíno:
É verdade. Fico muito melhor aqui, a beber chá contigo e a ver filmes.
Não saímos para lado nenhum brincou ela, puxando a manta.
Perfeito. E assim ficaram abraçados, a olhar o rodopiar dos flocos atrás do vidro, envoltos pelo calor da casa e a certeza de que o essencial já ali estava: confiança, afeto e a promessa bonita de mais um dia igual ao seguinte.
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Enquanto isso, em Lisboa, Rafael fitava a caneca esquecida na cozinha. O sabor amargo da rejeição enchia-lhe a boca, mas o orgulho ferido era maior.
Como é possível isto dar errado? esbracejou, varrendo restos de bolachas.
Na sua mente, rodava o fiasco da noite anterior. Lembrava-se de convencer Marina, a rapariga de sorriso fácil, a pregar a partida. Parecia perfeito ela, voz semelhante, aptidão para o teatro, vontade de se divertir. Tudo pronto, tudo preparado. Até ao momento em que tudo se desmoronou.
Agora só restava o vazio de saber que tinha perdido tudo: Leonor, Tiago, as semanas e anos de amizade fingida. E mesmo assim, em vez de remorso, sentia-se injustiçado.
Eles não entendem, nunca entenderam O Tiago não a merece como eu merecia!
Atravessou a cozinha, cerrando os punhos sobre a mesa, corroído de inveja. Lembrou-se de noites antigas a observá-los, entre a inveja e o desejo de um dia ter a mesma felicidade.
Encostou-se à janela, vendo as ruas de Lisboa salpicadas de branco, escutando o rumor da cidade lá longe.
Porque têm eles tudo e eu nada? murmurou, ressentido Porque foi Tiago, e não eu, que ficou com ela?
A ideia de pedir-lhes desculpa nem lhe ocorreu. Apenas fermentava raiva, auto-piedade e o desejo mesquinho de um dia ainda ter razão.
Que fiquem com o seu mundinho. Mas quando ela perceber… já será tarde.
Com raiva, arrasou o papel com o plano traçado para Marina, deitando os pedaços ao lixo.
Lá fora, a neve continuava a cair, branca e tranquila. E ele, sozinho, só conseguia repetir para si próprio:
Isto deveria ser meu. Tudo isto deveria ter sido meu.







