A Sombra de um Pai Alheio

A Sombra de Outro Pai

O meu nome é Catarina, tenho trinta e cinco anos. Sempre vivi como achava correto: um apartamento acolhedor em Lisboa, emprego estável, um marido de confiança, António, e um filho Tiago, que acabou de completar dezasseis anos. Mas toda esta correção desfez-se numa única noite.

O Tiago andava à procura da antiga Playstation nas arrumações, mas acabou por encontrar um álbum de fotografias, escondido numa caixa de sapatos. Quando apareceu na cozinha, trazia um ar mais pálido que um lençol estendido ao sol.

Quem é este? perguntou, largando a fotografia em cima da mesa.

Na imagem, eu com dezanove anos, a transbordar de felicidade enlaçada nos braços de um rapaz alto, vestido de camuflado. No verso, estava escrito à mão: Catarina + Miguel = para sempre. Espera por mim, meu amor.

Junto disso, repousava um envelope gasto pelo tempo. O Tiago já tinha aberto.

Dá o nome de Tiago ao nosso filho, se for rapaz leu ele, com a voz trémula. Mãe O Miguel é o meu pai? E o António?

Senti as pernas a fraquejar.

Sim O Miguel é o teu pai biológico.

Mentiste-me a vida toda! gritou. E vi nos seus olhos não apenas mágoa, mas ódio profundo.

Num salto, agarrou no casaco e saiu disparado, sem sequer me deixar explicar.

Tiago (filho) Fuga no Vazio

A chuva caía-me no rosto, mas eu nem ligava. Na minha cabeça só ecoava uma coisa: A minha vida é uma mentira. Não fui para casa de ninguém. Só queria desaparecer.

Lembrei-me do António a ensinar-me a andar de bicicleta, das idas à pesca juntos. E se ele sempre soube que eu não era sangue dele? Ou foi ele também enganado pela mãe?

Rumei até ao bairro velho, perto do antigo orfanato asilo, chamavam-lhe por aqui. Era sítio de miúdos e graúdos sem para onde ir. Entrei por uma janela partida, sentei-me no chão frio e liguei o telemóvel. No envelope vinha a morada do quartel e o nome: Miguel Rodrigues da Silva.

Pesquisei no Google, e o que encontrei acabou comigo de vez.

Catarina (mãe) Verdades Amargas

O António chegou do emprego e apanhou-me feita em lágrimas.

Ele descobriu tudo, António. As fotografias, as cartas

O António sentou-se, com a respiração pesada.

Um dia isto ia acontecer, Catarina. Temos de lhe contar, com cuidado, porque deixaste de esperar pelo Miguel.

Fechei os olhos e regressei àquele pesadelo. O Miguel foi para o serviço militar, enviado para o Ultramar. As cartas vinham meses sim, meses não. Eu vivia nelas. Até que, certo dia, recebi uma carta de uma estranha, chamada Filipa.

O Miguel tinha outra prometida, ali à porta do quartel. Escrevia-lhe as mesmas palavras que a mim. Prometia voltar. Jurava amor para sempre. Vivia com pressa e medo, cada dia podia ser o último.

Depois veio a notícia: caiu em serviço. A mensagem chegou aos dois endereços de uma vez.

Senti-me esmigalhada traída em dobro: morreu sem se despedir, e morreu deixando-me grávida, mas não única. Quando o António apareceu, envolveu-me numa serenidade que só ele sabe e protegida, eu quis apagar o Miguel da minha vida. Escolhi viver sem dor.

Tiago (filho) O Asilo e o Encontro

Passei a noite naquele prédio meio em ruínas. De manhã, acordei com passos de botas grossas a ecoar na madeira podre. Polícia.

Rapaz, o que é que andas aqui a fazer? Andam à tua procura em Lisboa inteira. A tua mãe já foi à polícia.

Levaram-me à esquadra. Fiquei sentado numa sala, a olhar para o vazio, até que o agente disse:

Rodrigues, tens visita. Mas não é a tua mãe.

Entrou uma senhora idosa, com olhos iguais aos meus. Levava uma mala antiga ao peito, com mãos trémulas.

Tiago? sussurrou. Meu Deus, és o retrato do teu pai

Quem é a senhora?

Sou tua avó, mãe do Miguel. Chamo-me Leonor Rodrigues. A tua mãe ligou-me Pela primeira vez em tantos anos.

Confronto de Verdades

A tua mãe evitava-me, explicou a avó, quando saímos. Depois de saber da Filipa ela já vivia connosco, era órfã, acolhemo-la cá em casa. O Miguel foi fraco, era miúdo, tinha medo de não voltar do Ultramar. A Filipa esteve sempre lá, tratava dele. Um romance de trincheira Mas ele amava-te. Na última carta, só falava de ti e do bebé.

Nesse instante, o carro do António encostou em frente à esquadra. Saiu a correr, descabelado e branco de susto. Olhou-me, imobilizou-se.

Tiago

Olhei a minha avó, depois o homem que há dezasseis anos era o meu escudo.

Catarina (mãe) Novas Peças

Sentámo-nos os quatro à mesa pequena da cozinha: eu, o António, o Tiago e a dona Leonor. O álbum ali, aberto.

Cheguei a odiá-lo, por causa daquela rapariga, confessei a olhar o meu filho nos olhos. E temi que tu saísses como ele irrequieto, impulsivo. Quis apagar dele o teu sangue.

Não tinhas esse direito, disse o Tiago, firme, mas depois olhou para o António. E tu, pai tu sabias?

Sabia, disse o António. Mas amei-te como filho. Desde o dia em que te vi na maternidade.

Tiago (filho) Dois Pais

Passou um ano. Agora, na prateleira, tenho duas fotografias. Numa está o Miguel jovem, bonito, cheio de falhas, mas deu-me a vida. Às vezes vou ao cemitério com a avó, pôr flores.

Na outra está o António. Continua a resmungar por meias espalhadas, continua a ajudar-me com os trabalhos de desenho técnico.

Aprendi uma coisa: a verdade não é uma linha reta. É um novelo de sentimentos, traições, medo e coragem.

O Miguel é a minha origem. O António é o meu esteio. Agora sei: não sou um erro, nem uma mentira. Sou alguém amado por dois homens. Um deu-me a vida custando a sua, outro salva-me todos os dias com amor simples e fiel à nossa família.

Casa não é onde não existem segredos. Casa é onde te encontram, mesmo que te escondas no mais escuro dos asilos.

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