A Segunda Sogra

A segunda sogra

No início da manhã, resolvi registrar este dia estranho neste meu velho diário. Hoje, uma senhora baixa, de uniforme azul de limpeza, espreitou à porta do gabinete do Dr. Rodrigo Baía, dono da conceituada clínica de cirurgia estética Luz e Forma, em Lisboa. Ela chama-se Mariana, e a forma como se dirigiu a ele quase sussurrando denunciava já o peso da rotina e da preocupação em incomodar.

Ouvi dizer que há vaga para massagista júnior, doutor arriscou ela, tímida.

O Dr. Baía, irritado após receber notícias de que uma reunião indispensável com investidores tinha ido por água abaixo, olhou-a de soslaio.

E então, com essa esfregona na mão, pensa que pode massajar os clientes? disparou, seco.

Não… mas fiz cursos online. Até montei um currículo respondeu Mariana, encolhendo-se e tirando do bolso uma folha amassada.

Foi quando entrou o seu braço-direito, Vasco Esteves. Dr. Baía, cada vez mais tenso, rompeu:

Vasco, mas agora as mulheres da limpeza vagueiam por onde querem? Mande já esta senhora embora do meu gabinete! Pensa que é o Cristiano Ronaldo dos massagistas, só porque fez um cursito na internet? Ajude-a a encontrar a saída e que fique avisada: nada de ideias destas!

Antes que ela pudesse responder, arrancou-lhe o papel das mãos, rasgou-o e deitou os pedaços no chão.

Mariana, de olhos no chão ofuscados de lágrimas, pôs-se de joelhos a apanhar os tristes restos do sonho. Vasco conduziu-a sem meias palavras para fora do gabinete e, perante pacientes e funcionários, empurrou-a para a arrecadação dos materiais.

Lá, sentada sobre uma velha caixa de areia para incêndios, Mariana desatou a chorar.

Pouco tempo estava ela na Luz e Forma. Limpeza de pisos não era, longe disso, a sua vocação, mas pagavam acima da média, e em casa precisava-se tanto de dinheiro. Rodrigo Baía era tido por todos como um exemplo de self-made man: criou-se num lar de acolhimento, nunca conheceu família. Com enorme suor tornou-se cirurgião de renome e ergueu a própria clínica de raiz.

Talvez por isso, Mariana ousou tentar: tinha esperança em algo melhor, mesmo sem diploma oficial. Fez cursos por conta própria, estudou como pôde. O marido fugira, levando tudo e deixando-a sozinha com uma filha pequena e uma carteira vazia. Só depois se soube que Nuno, esse farsante, tinha ficha na polícia e larga criatividade para inventar currículos.

O divórcio arrastou-se, mas Mariana aguentou por amor à filha Inês, e então começaram os trabalhos humilhantes. Com criança ao colo, ninguém queria saber dela para nada. Viviam as três Mariana, Inês e a mãe, Olívia Matos num apartamentinho minúsculo dos subúrbios de Lisboa. Às vezes só mesmo a pensão de Olívia as sustentava.

A mãe era de uma teimosia inabalável, ex-ginasta e mulher de fibra: cuidou da neta para que Mariana pudesse sair para qualquer coisa mal paga. Economizando daqui e dali, Mariana fez um curso barato o tal certificado rasgado por Baía.

Chorou, limpou as lágrimas, e foi lavar o chão. As colegas olhavam de lado, cochichavam. Em casa, pelo menos, a mãe recebeu-a sorrindo: Inês ganhou um concurso de desenho no infantário. Mariana fazia questão de comprar-lhe lápis de qualidade e via naquelas pinturas um futuro.

Ao carregar o balde, o velho porteiro da clínica, Mário Tomaz, veio ao seu auxílio. O único naquele lugar que sabia de onde ela vinha e que não a tratava com desdém. Sabia também que Rodrigo Baía tinha origem semelhante e agora fazia de conta que era de berço nobre.

Mário dividia consigo os pasteis de nata que fazia nos domingos, partilhando palavras que lhe davam coragem para não desistir. Foi por isso que Mariana ousou sonhar um pouco mais no dia em que apareceu diante do patrão.

Ao vê-lo, contou-lhe o ocorrido.

Não chores mais, filha. As voltas da vida são assim mesmo.

Devia era nunca ter tentado, Mário. Só piorei tudo.

O doutor hoje nem sabe de si. Tenta noutro dia…

Mandou avisar para eu nunca mais aparecer, suspirou Mariana.

Voltou para casa, pensando em como esticar mais uns euros do ordenado, pois Inês queria uma boneca nova e não se via como comprar. Ao chegar, encontrou Olívia cabisbaixa e a esconder as lágrimas. Sentiu imediatamente que algo grave se passava.

O que foi, mãe?

Nada, querida… só um susto.

Mãe, não me mintas!

Finalmente, Olívia desabou: uma doença fora detetada num rastreio do grupo de teatro infantil onde trabalhava nos bastidores. Precisava de uma operação cara e rápida. O sistema público estava entupido de listas de espera só privado, com milhares de euros.

Essa noite passou em claro, atormentada. Ao amanhecer, tomou a decisão: mesmo correndo riscos, tentaria falar novamente com Baía. Não teve hipótese: a carta de despedimento já estava feita. Corte de pessoal, disseram, entregando-lhe três ordenados mínimos pagos em notas de euro.

Mário, o porteiro, ainda a fez guardar o seu telefone, para a apoiar. Mas agora, sem chão e já sem emprego, como sobreviveriam?

Disfarçou o desemprego em casa, procurou por todo o lado. Surgiu então um anúncio: procurava-se cuidadora de idosa. Não exigia formação, só dedicação, limpeza da casa e boa vontade.

Mariana, sem orgulho ferido a perder, concorreu. Chamaram-na logo. Deu por si, de passaporte na mão, sentada à frente de Teresa Gomes, coordenadora da agência, numa sala cheia de papelada.

Aviso desde já, não se iluda: a patroa é difícil. Já vai para décima cuidadora.

Mariana apenas assentiu.

Chama-se Leonor Soares da Cunha, mas é nome artístico. Prima-dona reformada do Teatro Nacional. Rica, viúva, muitos gatos gordos a passaram por lá. Exige disciplina férrea. Detesta crianças e animais.

Não escolho, disse Mariana baixinho.

O vencimento é bom, e após três meses de experiência o contrato duplica de valor.

O salário era o dobro do que ela recebera até então, bastava aguentar aqueles três meses. Aceitou, pronta para tudo.

Na manhã seguinte, ao entrar na mansão ao Príncipe Real, um segurança robusto abriu-lhe a porta. O vestíbulo era forrado de azulejos, cristais pendiam do tecto.

Que fixação! Estás de olho em quê? ribombou uma voz rouca.

No centro do salão, numa cadeira elétrica caríssima, estava Leonor Soares da Cunha: magra, cabelos brancos, olhos vivos, parecendo um passarinho assustado prestes a bicar.

Bom dia, dona Leonor, murmurou Mariana.

Fala alto, não suspires para dentro! E tira as mãos dos bolsos. Calça essas proteções dos sapatos, que este piso não se arranha.

Mariana as calçou e seguiu atrás.

Penteia-me o cabelo, sem puxar. E pega na rede, não sejas pateta!

Desculpe, não percebi muito bem

Já percebi o nível Foi de onde? Tem onde se faz gente ultrapassada? Chá já!

Mariana dirigiu-se para a cozinha de mansão, mas foi interrompida por mais uma ordem berrou. Quando voltou com o chá, Leonor fez questão de entornar-lhe a chávena pelas mãos.

Com essa trapalhice, queimaste-me o braço!

Aflita, Mariana manteve a compostura.

Posso ir lavar-me?

A casa de banho do pessoal fica lá em baixo, não faças ondas! E roupa para lavar, deixa na lavandaria. Anda, mexe-te!

Assim continuou: insultos, pequenas armadilhas, humilhações a rodo. Mariana percebeu que era tudo um teste. Aguentou em silêncio.

Ao fim da tarde, Leonor cansou-se dos jogos. Mariana, antes da despedida, ofereceu-lhe uma massagem nas mãos. Pela primeira vez, Leonor relaxou.

O segundo dia corrobora o primeiro: Leonor logo criticou as roupas de Mariana, dizendo que tal falta de elegância nunca lhe arranjaria marido. Mariana preparou-a, penteou o perucão, e cumpriu tudo. Pouco depois, Leonor exigiu sessão de manicure, banho de perfumes e foi instalada no boudoir da casa para receber um visitante distinto.

Após o almoço, apareceu António, amigo de longa data, homem elegante de cabelo branco, já com postura de velho bailarino. Leonor pediu café, Mariana fez os tremores denunciaram o medo de errar.

Ao fim da visita, Leonor perguntou:

O que me fizeste ontem à noite?

Uma massagem, dona Leonor.

És especialista?

Só sei o que aprendi por mim.

Continua, permitiu Leonor, num raro tom brando.

Mariana persistiu dia após dia. Passados três meses, estava totalmente dedicada à patroa e conseguia sustentar a mãe sem que esta tivesse de levantar pesos no teatro, cansando-se demais.

Surpreendeu-se quando Leonor quis saber:

Como fazes para conciliar esta vida?

Só tenho mãe e a minha Inês, respondeu. Não se pode escolher.

Quantos anos tem a tua filha? Gosta de quê?

Faz seis, adora desenhar, disse, lembrando-se das restrições.

Traz a menina. Quero ver o talento dela, decidiu Leonor.

Assim Inês começou a ir à mansão. Ficava num canto, desenhando. Um dia, pintou um retrato de Leonor tão fiel que esta mandou emoldurá-lo e pendurá-lo na biblioteca.

Foram-se aproximando: Mariana perdeu o terror de perder o emprego. O que sentia por Leonor era já uma mistura de respeito e pena.

Leonor sofria de graves problemas nas articulações; as dores só aliviavam com massagem de Mariana. A certa noite, pediu que Inês e Mariana dormissem lá. Dormir naquele casarão era um privilégio que Mariana nunca pensou possível.

No dia seguinte, Leonor sentiu-se melhor. Mandou Mariana arrumar o escritório pessoal, tarefa vetada à empregada doméstica porque “só pessoas de confiança podem tocar nos meus papéis”.

Ao limpar, Mariana encontrou um antigo álbum de fotografias, bordas comidas pelo tempo. Depois de tudo limpo, levou o álbum à sala.

Posso espreitar?

Tempos de glória, minha filha suspirou Leonor.

Sentaram-se juntas: foram vendo infância, juventude, prémios. Subitamente, Inês gritou:

Essa é a minha avó! Temos uma foto igual!

Mariana quase caiu da cadeira: era mesmo a Olívia, jovem nas páginas do álbum.

Leonor perscrutou Mariana longamente.

Filha da Olívia Matos? Não me acredito, murmurou por fim. Sempre achei-te com cara familiar.

Como tem fotos da minha mãe?

Fomos inseparáveis quando novas, riu Leonor. Ela largava o ginásio, eu escapava do conservatório, juntas íamos a todos os bailes.

Porque nunca mais se viram?

A vida separou-nos, querida. A tua mãe apaixonou-se por um treinador nosso, o Pedro. Amuei, fiquei com ciúmes, roubei-lhe o namorado. Casei com ele três meses, ficou-me o nome. Depois cada uma seguiu caminho.

Fiquei a matutar dias nisto, até que surgiu a oportunidade: Leonor pediu para dormir mais uma vez acompanhada, mas Inês tinha passeio escolar de manhã cedo. Precisei que a mãe viesse buscá-la lá.

Olívia chegou, humilde no seu velho casaco de malha. Leonor, mesmo em cadeira elétrica, saiu a receber.

Quem veio agora?

Olá, Leonor. Posso não estar feliz em te ver.

Posso dizer o mesmo, ó Olívia. Vejo que a vida te vincou.

Nada que todos não sintam, devolveu Olívia. Ao menos tenho filha e neta. E tu? O dinheiro compra companhia?

Sempre foste boa com a língua, respondeu Leonor. E nunca deixaste o apelido de solteira história velha.

Olívia esboçou um sorriso amargo.

Ah, Leonor mesmo depois de tudo, nunca te desejei mal. Até te avisei, lembras-te, há uns anos? Quando te rodeava aquele aproveitador do teatro Ia pôr a casa no nome dele.

Leonor empalideceu ao reviver o episódio.

Fui eu que telefonei de voz mascarada, para te avisar que o fulano cantava aos sete ventos que estava prestes a encostar-te num lar e viver com outra. Salvei-te, embora nem gostes de mim.

Foste tu sussurrou Leonor.

Sempre te tive pena e admiração. Nunca consegui odiar-te como devia.

Leonor respirou fundo.

Salváste-me, Olívia. Contratei logo um detetive e afastei aquele traste.

Preparavam-se para sair, mas Leonor surpreendeu-as:

Já chega de passado. Amanhã mudam-se para cá. Há quartos que nunca usei. Quero transformar um deles no ateliê de arte que Inês merece. Não aceito discussões. Se há algo que ainda posso fazer por ti, é isto.

Olívia deixou-se cair, cansada:

Faltam-me uns oito meses

Que dizes? É o coração?

E dinheiro não chega para a operação.

Amanhã mesmo trato disso. Recusas, fico zangada. Falo com o meu médico, faço tudo o que posso.

Aquela noite Leonor não dormiu. Perguntou-me pelos exames da mãe, desabafou sobre solidão e inveja das famílias das pessoas normais, confessou mágoas que nunca revelou a ninguém.

Em poucos dias o velho palacete ficou irreconhecível. Catálogos de móveis, papéis das tintas, obras e mudanças. À noite, Olívia e Leonor sentavam-se a tomar chá, contavam histórias de juventude e riam como se o mundo fosse só daquele salão.

Terminadas as arrumações, Leonor anunciou ao jantar:

Olívia, já tens consulta marcada. O cirurgião é jovem e muito promissor, filhote do grande Professor Montenegro. Prepara-te para saíres de lá nova.

Pagaste a consulta? Isso custa uma fortuna!

Uso o dinheiro para isto. Levas a vida, mas não os euros para o caixão.

Duas semanas depois, Olívia ocupava quarto privado na melhor clínica de Lisboa. O Dr. Frederico Montenegro, doce, competente, elogiava a dedicação da família enquanto eu ajustava as almofadas da mãe.

Raramente vejo tanto amor, confessou-me. Sorte da sua mãe. E seria bem afortunado quem fosse seu marido e filhos.

Só tenho a Inês, respondi, corada.

Só? Às vezes só basta uma, riu-se ele, simpático. Também casei novo, confiei demais. Deixou-me pela promessa de um futuro fácil; a verdade é que o trabalho e a garagem do hospital destruíram tudo.

Olhei-o de modo diferente não era bonito, talvez, mas revelou-se leal, verdadeiro e solidário. Descobri, sem querer, a desejar vê-lo de novo.

A reabilitação de Olívia foi rápida; durante esse tempo, Leonor tentava ser independente e até ficou responsável por Inês, a quem já chamava de neta de coração. No entanto, cada vez mais fraquejava. O corpo cedia à doença e só as massagens davam algum alívio temporário.

Numa noite, Leonor anunciou:

Está na altura de deixares este trabalho, Mariana.

Vai despedir-me? temi.

Queira Deus! Quero pagar-te um curso a sério, para te tornares massagista diplomada. Está feito.

Isso é caríssimo, dona Leonor

É para isso que serve o dinheiro. Para ver-te voar. E deixar o meu nome a alguém em quem acredito. Vou pagar o melhor curso, só me prometes não desistir.

Aceitei sem hesitar. Leonor quase sustinha toda a nossa casa, mas eu pretendia merecer cada cêntimo.

O curso era dado por Álvaro Martins, homem já com nome no mercado. Impressionou-se comigo na sessão de entrega dos diplomas, abordou-me:

Conheces o spa Raízes?

Se conheço! É o sonho de qualquer profissional, abriu há pouco tempo.

É meu. Preciso de alguém como tu. Gosto de apostar no talento.

Fiquei a chorar de emoção aceitei de imediato.

Dediquei-me ainda mais aos estudos. Álvaro financiou até outra especialização dizendo tratar-se de bolsa pessoal. Em breve, tinha lugar fixo em Raízes: horários decentes, casa estabilizada, tempo para a mãe e Inês.

Em poucos meses, começaram a procurar-me de propósito no spa. O relacionamento com o Dr. Frederico passou de amizade a algo mais terno. Ele, agora cardiocirurgião-chefe, frequentava mais a nossa sala, contribuía nas tarefas, levava Inês ao jardim zoológico ou ao teatro.

Olívia voltara ao teatro infantil, mas Leonor já mal saía da cama. As douleurs só passavam com sessões longas de massagem. Frederico começou a indicar pacientes do hospital para reabilitação comigo. Descobri o prazer de devolver bem-estar a quem sofre.

Numa dessas longas noites de dor, Leonor fixou-me com ar severo e brincou:

Nem te atrevas a tratar mal estas minhas meninas, Frederico.

Hoje, ao fechar esta página do diário, percebo o mais valioso: em Portugal, como em qualquer lado, ninguém é inferior só por começar de baixo. Aprendi a pedir ajuda, a aceitar que numa família “adotada”, pode caber muita felicidade. Não sou menos mulher nem menos portuguesa só porque limpei chãos ou recomecei tantas vezes. Talvez o segredo seja: nunca negar a mão a quem um dia nos foi estranho, pois afinal, de estranhos se fazem as segundas famílias.

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