– Os papéis que quer empurrar-me para assinar, já os vi, Dona Rosalina. Não vai resultar outra vez.
Ela nem pestanejou. Ficou ali, na porta da minha própria cozinha, com o seu casaco bege de botões perolados, a mala pendurada no braço, como se viesse a um chá de senhoras e não com planos para arruinar a vida alheia. Cheirava a perfume caro, aquele mesmo que o Tiago lhe trouxe de Lisboa quando fez anos, e que ela agradeceu com beijinhos em excesso, para logo depois comentar que ele sim, tinha bom gosto, ao contrário de certas pessoas.
– Mafaldinha, isso não é bem assim disse, naquele tom macio por fora e duro como granito por dentro. Só quero o teu bem. Sempre quis.
Pousei a chávena na mesa. As mãos já não tremiam coisa nova, porque há um ano bastava ela olhar para mim para me gelar até aos pés.
– Já me desejou tanto bem, Dona Rosalina, que precisei de um ano inteiro para sair do buraco. Acho que chega.
Ela semicerrrou os olhos. Um desses olhares que sempre precedia sarilhos. Sete anos de convívio chegam para reconhecer.
– Estás cansada, claro. Esses tratamentos, esses médicos, essa correria interminável pelos consultórios. Por isso mesmo vim ajudar. Aqui está um papelinho, só falta assiná-lo
– Para quê?
– Uns documentos. Uns assuntos financeiros. É para tua proteção, percebes?
Olhei para as mãozinhas dela, anéis finos, e para a pasta que segurava como quem oferece um ramo de flores.
– Dê cá isso.
Ela hesitou, pela primeira vez na vida.
Acabou por estender a pasta. Abri-a sem sequer me sentar. Primeiro folha, segunda. À terceira, li duas vezes, a ver se estava a ver bem.
Era uma declaração de divórcio. Impecavelmente preenchida, só faltava a minha assinatura.
O silêncio na cozinha era tal que ouvi uma mota passar na rua e uma criança gritar lá longe.
– Portanto… nem consegui encontrar palavras vem cá à minha casa pedir que assine o divórcio com o meu próprio marido. E isto é para meu bem.
– Mafaldinha, tu não percebes, o Tiago precisa é de uma família. Uma verdadeira família. Com filhos. Já lá vão anos, tanto dinheiro, tantas esperanças, e nada! Andas a moer-te e a moê-lo. Liberta-o, faz um gesto digno.
Fechei a pasta. Devagar, quase com carinho, enquanto por dentro tudo ardia.
– Saia da minha casa.
– Mafalda…
– Faça-me o favor. Saia.
Ela saiu. E eu fiquei sozinha naquele cheiro a perfume caro, com uma pasta em cima da mesa e uma sensação de quem esteve à beira do abismo e pisou mesmo só um centímetro para trás, no último instante.
Eu tinha trinta anos. Tiago, trinta e dois. Casados cinco, quatro a tentar ser pais. Por fora parece simples: não conseguem. Como se soubessem o que isso significa. Esperança todos os meses e sempre o vazio. Análises, protocolos, injeções na barriga, nada de lágrimas porque o stress faz mal, nada de raiva porque o stress faz mal, é preciso estar zen e pensar em coisas boas.
Pensava em coisas boas, eu. Fazia por isso. Mas a sogra andava por aí a dizer que eu tinha problemas da cabeça e que me tinha deixado cair na rotina. Sabia, claro vila pequena, tudo corre depressa.
Tiago estava em trabalho. Engenharia civil, obras por todo o distrito. Telefonava todos os dias, ouvia-lhe o cansaço, e eu ali, a fingir normalidade. Talvez para o poupar. Ou a mim. Já nem sei.
Naquele dia, depois da visita da Rosalina, fiquei muito tempo à janela. Via as folhas a cair, o céu carrancudo, as pessoas com sacos das compras. Uma mãe, de mão dada com uma miúda de fato vermelho, pulava pocinhas e ria. A mãe só lhe apertava a mão, meio divertida.
Olhei-as. Era isto. Só queria isto. Uma criança a saltar nas poças. Uma mão na minha.
Não contei nada ao Tiago, naquela noite. Não era longe, era mesmo noutra freguesia, mas senti-o a mil quilómetros. Só disse que tinha saudades. Ele disse que voltava em breve, dali a uma semana. E que me amava. E acreditei. Sempre acreditei.
Depois veio a tal semana que virou tudo do avesso.
Quarta-feira, toca o telefone. A Olívia, amiga desde a primária, voz cautelosa, como quem carrega um vaso de porcelana.
– Mafalda, já ouviste o que andam a dizer?
– O quê?
– De ti. Lá no centro de saúde. E na cabeleireira da Dona Graça. Dizem que tens um… amigo. Outro homem.
Calada fiquei uns segundos. Foi o tempo de perceber quem plantou isso. Escusado pensar muito.
– Sabes de onde vem, Olívia?
Hesitou.
– Dizem que foi a tua sogra, contou à Paula… Mafalda, eu não acredito, sabes bem. Mas achei que devias saber.
– Pois, obrigada.
Nem chorei. Sentei-me no sofá, só a pensar: porquê? Nunca lhe fiz mal. Nunca lhe faltei ao respeito, nunca discuti, oferecia-lhe prendas escolhidinhas, chamava-lhe sempre Dona Rosalina, até sozinha em pensamentos.
Porquê tanto ódio? Era só por ser mulher dele? Ou porque não lhe dei netos? Ou porque não prestava para senhora do engenheiro? Tiago era chefe de obra, cheio de futuro, e eu só professora primária da Escola do Largo da Misericórdia. Talvez fosse por aí.
Nunca descobri. Nem mais tarde.
Sexta-feira, fui de rotina à clínica Esperança. A doutora Helena já era quase família, depois de tantas sessões juntas. Explicava sempre tudo, procurava soluções, nunca encontrou causas. Tudo normal. Os médicos diziam: infertilidade inexplicada. Mãos ao ar. Continuem a tentar.
Esperava no corredor, a folhear uma revista sem ler nada. Ao lado, uma grávida toda contente. Não tinha inveja, juro, só queria aquilo. Igualzinho.
Foi aí que ouvi a voz dele. Olhei Tiago na receção, mala às costas, a tal gabardina cinza que lhe comprei.
– Tiago?
Virou-se, surpreso, e correu a abraçar-me.
– Ainda faltavam três dias…
– Consegui vir antes. Queria surpreender-te. Cheguei a casa, não estavas. Telefonei, não atendias.
– O telemóvel ficou na bolsa.
– Imaginei-te aqui.
Sentou ao meu lado e desatei a contar tudo. Daquela pasta do divórcio. Dos boatos. De já não aguentar o teatro.
Ele ouviu. Silêncio pesado. Conheço-lhe as caras: quando serra as mandíbulas, está a conter tudo.
– Porquê não contaste logo?
– Não queria preocupar-te.
– Mafalda.
– Estavas fora, cansado, eu…
– Mafalda, e naquele Mafalda percebi que não era zanga, era desalento. Já devíamos ter enfrentado a minha mãe a sério. Eu sei que ela nem sempre…
– Odeia-me, Tiago.
Não respondeu logo. Isso já dizia tudo.
A Helena chamou-me. Entrou comigo. E ali aconteceu a surpresa.
A médica estava tensa. Olhou para o ecrã do computador, depois para mim, depois para o Tiago.
– Mafalda, preciso que seja sincera. Entre os nossos tratamentos teve algum medicamento não receitado por mim?
– Não. Nunca. Sempre segui a risca.
Ela acenou com a cabeça.
– Houve alguém, há dois anos, que propôs ajustar resultados teus, por dinheiro. Recusei. Mas noutra clínica onde fizeste os primeiros tratamentos, não recusaram. Não posso provar oficialmente… Mas uma colega que lá estava contou-me tudo agora. Não aguentou calada.
Tiago levantou-se.
– Quem propôs isso?
A doutora encolheu os ombros.
– Voz feminina, madura, muito segura.
Ouvi Tiago suspirar devagar ao meu lado. Fitei a janela um patamar, um banco velho e uma árvore despida de folhas.
Achei que devia estar maluca. Quem poderia ser assim? Uma mãe fazer aquilo à nora? Nem nos livros.
Mas cá dentro, num cantinho, sempre soube. Não queria era admitir.
– Precisamos falar, Mafalda disse ele.
Saímos. Sentámo-nos no carro. Ele olhou fixo para a rua chuvosa.
– Tiago…
– Fica calada um instante, por favor.
Fiquei. A chuva caía devagarinho.
– Foi ela afirmou. Nem perguntou.
– Não tenho certezas…
– Tenho eu. Porque sou um idiota. Porque há um ano ela disse-me que tinha médicos amigos preocupados connosco e eu só pensei que era mania das grandezas. Não imaginei…
Parou de falar.
– Meu Deus, Mafalda. Quatro anos.
Não chorei. Já sabia não chorar quando tudo pedia lágrimas. Peguei-lhe na mão. Palma com palma.
– E agora?
– Primeiro, diz-me: acreditas que nunca soube?
Olhei-lhe nos olhos. Castanhos, cansados, vermelhos de sono e andanças.
– Acredito disse. Era verdade.
Ficámos ali, a pensar, a pensar. Para onde? Polícia? Só tínhamos palavras da médica, o papel do divórcio por assinar. Não eram provas.
Precisávamos de provas.
Lembrei-me da Olívia. Da casa de campo dela, no Pinhal Novo, a uns trinta quilómetros. Lá tinha umas chaves, emprestadas do verão passado.
– Devíamos sumir por uns tempos.
– Para onde?
– Onde ela não chega já. Onde possamos pensar e preparar-nos. Se formos já, ela dá a volta ao texto, sabes disso.
Ele sabia. Concordou.
Fomos a casa. Em vinte minutos fiz as malas. Roupa, carregadores, papéis. Tiago levou o portátil e alguns dossiers. Ninguém viu, ou se viu, azar.
Liguei à Olívia do carro.
– Olívia, ainda funcionam as chaves do Pinhal?
– Claro. Precisas de ajuda? Está tudo meio ao abandono, cuidado com os ratos!
– Obrigada, querida. Depois falo.
– Tem cuidado, está bem?
Sabia ao que ela se referia.
Atravessámos a estrada à noite já cerrada, chuva a sério. Tiago calado ao volante, eu a olhar para os postes a passar. Tinha medo. Não da estrada, mas do que uma pessoa é capaz de fazer a outra. Como é que uma mãe, ao ver meses, anos de injeções, lágrimas na casa de banho, pode pagar para sabotar tudo?
Lia artigos sobre famílias tóxicas nas revistas, parecia assunto de outros. Afinal, calhou-me a mim.
O casebre estava frio, mas estava inteiro. Cheirava a madeira velha e chuva. Tiago acendeu a salamandra, eu desencantei cobertores grossos de cheiro a naftalina. Bebemos chá nas chávenas com desenhos de moinhos da Olívia e conversámos. Pela primeira vez em muito tempo, de verdade.
– Conta-me tudo, – pediu ele. Tudo, desde o início.
E contei. Das picadelas pequeninas que nunca liguei. Das chamadas dela nos dias mais sensíveis e eu sempre a atender, por respeito. Na primeira clínica, o Dr. Machado sempre distraído, protocolos a falhar por motivos idiotas Achei tudo azar.
Tiago ouviu. Olhos fechados, às vezes.
– Ela disse-me que não seguias bem a dieta. Que stressavas sem razão, que os médicos sussurravam que a culpa era tua.
– Acreditaste?
– Não. Nem deixei de acreditar. Só esperei que tudo se resolvesse. Fui cobarde, Mafalda.
– Não é cobardia, é amor. São coisas diferentes.
Olhou-me com um ar que me atravessou.
No dia seguinte, começámos a engendrar um plano. Se fôssemos até ela, negava tudo. Sabia bem dar a volta à conversa.
Precisávamos de prova. Voz dela.
– Ela aparece cá disse Tiago. Quando vir que desaparecemos e voltei antes do tempo, ela mexe-se, sabe sempre tudo.
– Como sabes?
– Porque sou filho dela. Conheço-lhe de trás para a frente. Precisa de controlar tudo.
Preparámos tudo. Tiago gravador do telemóvel, discreto. Combinámos: eu puxava por ela, perguntas diretas, deixá-la falar.
Três dias de espera. Três dias de silêncio rural, crepitar de lareira, cheiro a pinho. Falámos muito, cozinhámos, fomos passear ao mato. Já não éramos exactamente os mesmos. Já não havia máscaras.
Uma noite, Tiago abraçou-me na cozinha:
– Vamos mudar de cidade, depois disto tudo. Quero recomeçar noutro sítio.
– A sério?
– Sim. Propuseram-me trabalho numa empresa em Faro. Tive receio por causa dela. Agora não.
Só lhe cobri as mãos com as minhas.
No quarto dia, domingo à tarde ouvimos carro. Tiago com o telemóvel pronto no bolso da camisa.
– Pronta?
– Pronta.
Ela entrou porta adentro sem cerimónia.
– Tiago. Não sabia que estavas aqui.
– Claro. Pensaste que ainda estava fora.
Virou-se para mim. Olhar cirúrgico.
– Mafalda, o que andaste a dizer-lhe? Para quê o arrastaste aqui?
– Só contei o que sei, Dona Rosalina.
– O que sabes? Tens dessas ideias porque estás frágil, dizem os próprios médicos…
– Que médicos? Aqueles a quem pagou para sabotar os tratamentos?
Pausa curtinha vi logo.
– Que disparate! agora voz mais áspera.
– Disparate? Na clínica Santa Maria a doutora Marina estava lá, lembra-se?
Silêncio.
– Ela contou tudo à Helena. Inclusive que alguém lhe pagou. E não quero rodeios: é verdade?
– Estás maluca.
– Mãe, interrompeu Tiago, e aquele mãe vinha das profundezas sabes que detecto só pela voz quando mentes. Responde diretamente.
Nela quebrou-se qualquer coisa. Por fora, continuava direita. Por dentro notei.
– Fiz por ti disse, não a mim, mas ao Tiago. Nunca foi mulher para ti. Sem nome, sem préstimo, professora de aldeia… Tu vales mais. Dei tudo por ti…
– Mãe.
– Só não queria conflitos. Assim era melhor para ti, sem dramas. Que mal há? Ninguém se magoou…
– Ninguém?! ecoei, sem reconhecer a minha própria voz. Quatro anos, Dona Rosalina. Quatro anos de esperança e lágrimas, injeções, exames, protocolos. A achar que era eu que falhava. Ninguém se magoou?
Ela olhou-me, e pela primeira vez em sete anos vi-lhe nos olhos um lampejo de algo não era pena, era… alguma coisa.
– Roubou-me quatro anos disse. Não é amor ao filho, isso.
– Sou mãe dele sussurrou, quase resignada.
– Eu sou a mulher dele.
Tiago veio para junto de mim. Ombro com ombro.
– Gravámos a conversa, mãe. Está tudo aí. Já não é só a nossa palavra.
Ela olhou-o longamente. Como se o visse pela primeira vez.
– Vais entregar à polícia?
– Vou.
– Sou tua mãe.
– Eu sei.
Ficou mais um pouco. Saiu, calada.
– Espera, chamei-lhe, sem saber porquê.
Não se virou.
– Alguma vez o amou mesmo? Ou só queria tê-lo ao seu jeito?
Nenhuma resposta. Só a porta a fechar.
Tiago desligou a gravação.
– Vou ligar ao Paulo Paulo, amigo de infância agora na PJ. Logo vemos o que fazer.
Saí à varanda. Cheirava a folhas molhadas e resina. O carro dela sumia estrada fora, só as marcas dos pneus na terra.
O resto já não era connosco. Entregámos a gravação. As médicas confirmaram. A Marina assumiu tudo parece que a consciência não aceita subornos vitalícios.
Detiveram a Rosalina em casa, duas semanas depois. Paulo avisou o Tiago. Ele ficou a olhar o telefone muito tempo.
– Estás bem? perguntei.
– Não sei.
– É normal não saberes.
– É a minha mãe, Mafalda.
– Eu sei.
Andava pela casa meio perdido.
– O pior nem foi a surpresa confessou. O pior é saber que sempre soube, lá fundo, de que ela era capaz. E mesmo assim quis ignorar. Porque é a mãe.
– Assim funcionam relações tóxicas, expliquei. Não é à bruta. Vai minando. Chega um dia em que já duvidas do que vês.
Olhou-me.
– Sempre entendeste tudo?
– Nem por isso. Só estava mesmo farta. E o cansaço às vezes faz-nos mais perspicazes… ou mais frios. Não sei.
Mudámo-nos para Faro três semanas depois. Não voltámos ao apartamento. Tiago foi buscar as últimas coisas enquanto eu estava com a Olívia. Depois entregámos as chaves e seguimos viagem.
Em Faro, o outono era diferente. Mais quente, luzinha boa, palmeiras onde nem batia a bota. Arrendámos casa numa zona tranquila. Tiago começou logo a trabalhar. Eu fiquei a arrumar-me, a explorar o mercado, a fazer sopas e a habituar-me ao espaço novo.
A doutora Helena recomendou-nos à colega em Faro, doutora Rita. Pragmática mas simpática, logo me animou: é possível, não desista.
Repetimos todos os exames. Tudo novo, sem vozes alheias, sem sabotagens.
O terceiro tratamento funcionou.
Fevereiro. Teste positivo na mão, Tiago no sofá. Só lhe passei o teste.
Olhou-o muito tempo. Quando me olhou, já tinha os olhos húmidos.
– Mafalda…
– Sim.
Apertou-me tanto que quase me faltou ar. Não pedi que me largasse.
O André nasceu em outubro. Três quilos e meio, cinquenta e dois centímetros, cabelo escuro e expressão tão séria que até as enfermeiras brincavam: nasceu sábio.
Chorei, não (só) de dor, mas porque quando o puseram ao peito, aquele peso dos últimos quatro anos ficou mais leve.
Não desapareceu, não. Só deixou de ser insuportável.
Tiago ficou ao meu lado. Dava-me sempre a mão. Ainda faz isso. Como naquele dia no carro, à porta da clínica.
Quando o André fez três meses, tivemos finalmente um serão calmo. Dormia como um anjinho. Nós, chá a duas mãos, vela acesa no peitoril, Faro outonal lá fora.
– Pensas nela? perguntei.
Nem precisei especificar.
– Às vezes. Cada vez menos.
– Eu também. Às vezes pergunto como é possível tudo aquilo. Depois olho para ele acenei para o quarto e penso: olha. Estamos vivos.
– Estás zangada comigo? perguntou, baixinho, como quem precisa de coragem.
– Porquê?
– Por não ter visto. Ou não querer ver. Tanto tempo.
Pensei. Sinceramente, não para resposta bonita.
– Não. Não estou zangada. Mas há ali uma coisinha. Pequena, mas ficou. Como uma farpa. Não dói, mas sei que está lá.
Ele acenou, sem desculpas. Aceitou.
– É justo.
– Tento ser justa. Cansei de fingir que está tudo perfeito quando não está.
– Está tudo bem?
– Quase tudo. Ele saudável, tu aqui, temos casa. Só já somos outros, Tiago. Não sei se é bom ou mau. É só o que é.
Ele fitou a vela. A chama vacilou.
– Lembras-te, no Pinhal, daquele dia em que ela foi embora e ficaste à porta?
– Lembro.
– Olhei-te da janela. Pensei como aguentas, tantos anos e ainda ali, de pé.
– Quebrei, Tiago. Só não viste.
– Eu sei. Desculpa.
– Tiago, ambos podíamos ter feito diferente. Agora deixa estar. Não vale a pena pesar culpas como legumes na balança.
Do quarto veio um ruído. O André fez um som, meio grunhido de bebé. Nós de orelha em pé.
Só silêncio.
– Está a dormir riu Tiago.
– Está.
Ficámos calados. Um silêncio bom, daqueles de família, em que não falta nada.
– És feliz? perguntou.
Pensei mesmo, resposta honesta.
– Sou. Só que a felicidade agora tem outro sabor. Achava que era quando não havia dor nenhuma. Mas descobri que é quando, apesar de tudo doer um bocadinho, só queremos que o dia não acabe nunca.
Ele sorriu, devagarinho, como quem já não sabia como era.
– Bom gosto, o teu.
– Pois. Deixa um travozinho, mas é felicidade à portuguesa.







