A Revolta Silenciosa da Maria do Carmo. Um Conto

Diário de Maria da Graça, abril

Graça, não aguento mais a voz do outro lado do telefone soava não como pedido, mas como sentença. Não tenho para onde ir… és a minha irmã, não és?

Fiquei parada, ainda com o regador das violetas nas mãos, no meio da minha cozinha imaculadamente limpa. Do lado de fora, o entardecer de abril pintava o céu num tom rosa suave. O arroz prestes a acabar de cozer no fogão, cheirava a cebola dourada. Tudo igual, silencioso, sereno, previsível. Até esta chamada.

Ana Filipa, o que aconteceu? perguntei, apesar de já saber a resposta. Sempre soube.

O Manel foi-se embora, mesmo de vez, percebes? Disse que eu o cansava. Que precisava de outra vida. E eu não sou gente também? Faltam-me duas semanas para acabar o contrato da casa, fui despedida há um mês, dinheiro nem vê-lo. Graça, vou para tua casa. Não é por muito, é só até assentar as ideias.

“Só até assentar as ideias” era uma expressão que eu já tantas vezes escutara da boca da minha irmã, que daria para compor um dicionário das nossas relações familiares, onde esta frase ficaria em primeiro lugar. Só até assentar as ideias virava uma semana, a semana virava um mês, e esse mês acabava meio ano. E tudo começava sempre com és a minha irmã.

Então, vens quando? consegui apenas perguntar, pousando o regador no parapeito, ao lado das violetas.

Amanhã ao meio-dia. Já comprei o bilhete, deu-me as últimas poupanças. Vais buscar-me à estação?

Olhei para o meu bloco de notas, onde a letra certinha organizava os afazeres do dia seguinte: centro de saúde às nove, depois passar pela Dona Lídia para entregar uns papéis e, depois de almoço, arrumar os casacos de inverno. Vida de sexagenária, reformada há três anos, mas que ainda fazia uns trabalhos de contabilidade para uma empresa local. Uma vida construída tijolo a tijolo, onde cada minuto tinha ordem e valor.

Vou, sim respondi e desliguei a chamada.

Na cozinha, o arroz borbulhava baixinho, as violetas ganhavam um tom quase púrpura com os últimos raios do sol, e senti um aperto cá dentro. Não era alegria por rever a irmã mais nova, que não via há quase um ano. Era outro sentimento. Uma antevisão de que algo cansativo se preparava para começar de novo.

No dia seguinte, de pé no cais da estação de Setúbal, reparei nas pessoas a sair dos vagões. Reconheci a Filipa de imediato, embora ela estivesse diferente: cabelo, dantes escuro e brilhante, agora tingido para um loiro estranhamente artificial, raízes escuras já a crescer. As calças de ganga demasiado justas para os seus cinquenta e poucos anos, o casaco já com muito uso, uma mochila enorme e dois sacos de plástico nas mãos.

Graça! gritou ela, abrindo um sorriso, a furar a multidão. Oh irmãzinha, que saudades!

Abraçámo-nos e senti o cheiro intenso dos perfumes baratos e a roupa demasiado gasta. Ela apertava-se a mim como se quisesse desaparecer do mundo.

Nem imaginas o que passei murmurou no caminho de regresso. O Manel era um miserável, o emprego uma miséria, a senhoria só sabia refilar, a cidade horrível. Pavoroso.

Fui ouvindo, olhando pela janela do autocarro. A mesma história, apenas mudando nomes, homens e cidades ao longo de décadas.

Só pensava no caminho como era bom ter-te. Ter quem nunca me dá as costas.

Subimos ao quarto andar. A Filipa largou a mochila no corredor, pousou os sacos, pendurou o casaco no mesmo cabide que o meu.

Que bem que se está aqui disse, olhando ao redor. Cheira a lar. Que saudades disto tudo.

O meu T2 era de facto aconchegante. Quarenta anos a cuidar daquele pequeno mundo à minha maneira, desde que vim para cá como jovem contabilista. As paredes claras, a mobília de madeira que eu própria tratei, plantas nos parapeitos, naperons de croché sobre as mesinhas, fotografias com sorrisos antigos. Tudo milimetricamente pensado, tudo herdado de uma vida solitária.

Anda, senta. Vou fazer chá.

E comida, tens alguma coisa? já descalçando-se e deixando os sapatos pelo corredor. Só tomei café de manhã, e o dinheiro, olha, já foi

Fiz umas sandes de queijo, tirei a tarte de maçã, preparei um chá forte. A Filipa devorava tudo, contando mais desgraças: o Manel, o emprego perdido por uma diretora invejosa, a senhoria insuportável, a renda absurda.

Imagina: 400 euros só por um quarto, em Almada! indignou-se ela. Isto não é vida, bolas!

Bebi o chá devagar, em silêncio. Sabia que ela nunca contava o principal: que se atrasava nos trabalhos porque dormia demais, gastava o pouco dinheiro em cremes, cafés, queiles e, por vezes, a terminar sempre a pedir dinheiro emprestado ao namorado de turno.

Graça Filipa olhou-me suplicante. Posso ficar contigo? Só um mês, até arranjar emprego. Conheces-me, sou despachada. Ponho-me a mexer logo, saio assim que conseguir.

Prometo mais um verbo recorrente no vocabulário da nossa família.

Fica, sim disse. Mas há regras. Vivo sozinha há muito, estou habituada à ordem e ao silêncio, principalmente de manhã. Levanto-me cedo.

Claro, claro! Nem vais notar que cá estou, como um ratinho! É só até me endireitar voltou ela ao refrão.

À noite preparei-lhe o sofá da sala, roupa de cama limpa, toalha acabada de lavar, jarro de água. A Filipa instalou-se como se tudo lhe fosse devido, alinhando roupas encorrilhadas pelo sofá.

Tens creme para a cara? O meu acabou e ando a descascar.

Dei-lhe o meu, o caro, que só compro em promoções. Espalhou, satisfeita, pelo rosto, pescoço, até nas mãos.

Muito bom este creme, há quanto tempo…

Demorei a adormecer naquela noite. Ouvia-a na sala, revirando-se, mexendo nos lençóis, levantando-se para beber água, a luz azul do telemóvel. A quietude tão minha da casa estava estilhaçada. E aquilo era só o começo.

Levantei-me às seis, como sempre. Lavei o rosto, exercícios suaves no tapete do quarto para não a acordar, preparei papas de aveia e sentei-me ao computador o relatório tinha de ficar pronto antes de almoço.

Às nove, ouvi-a a mexer-se e tossir, pés arrastados, apareceu de t-shirt velha e roupa interior, cabelo despenteado.

Bom dia. Tens café?

Está na prateleira.

Ela fez barulho com as chávenas, catou por bolachas.

Graça, não tens nada doce? Não consigo começar o dia sem açúcar.

Tens bolachas na estante.

Sentou-se e devorou metade do pacote enquanto via o telemóvel.

Estás a trabalhar?

Sim, preciso de acabar isto.

Muito tempo ainda?

Duas horas, talvez.

Eu vou deitar-me outra vez então, estou estourada.

Voltou para a sala. Liguei a televisão alto, a barulheira de um programa da manhã, dificultando a concentração.

Preparei o almoço já sem forças. Filipa mantinha-se na sala, sem se mexer.

Vem comer.

Já vou.

Bebi a sopa quase em silêncio.

Sempre soubeste cozinhar, eu nunca tive jeito. O Manel dizia que os meus dotes eram um desastre.

Após a refeição, entre manchas e gordura nos pratos, lavou a loiça, mas acabei a passar tudo de novo. Daí a pouco:

Que tal irmos ao centro, a um café ou ao cinema? Já que estou aqui, quero sair de casa.

Não me posso dar a esse luxo, Filipa. Estou reformada, faço uns extras mas chega por pouco.

Oh Graça, és minha irmã! Não é por uma vezinha, depois eu pago, prometo…

Outra expressão típica: “Depois pago”.

Aproveita para procurares trabalho, quanto mais cedo começares, mais cedo te levantas daí.

Pois, estou a tentar, mas está tudo difícil. Procurar um emprego decente hoje em dia é impossível

Nesta noite refugiei-me no quarto cedo, com desculpa de estar cansada. Na sala, a programação da televisão e o rumor de bolachas a desaparecerem.

Uma semana passou. A Filipa continuava a acordar tarde, vagueava pela casa com o meu robe que nunca pediu tomava o meu café, esvaziava o frigorífico, dizia mandar currículos, mas passava horas nas redes sociais. As minhas coisas eram usadas sem pedir, entrou no meu quarto uma ou outra vez, mexia em cremes, nos meus livros, até na roupa.

Certa vez insinuei, suavemente, que preferia que não usasse aquilo que era meu.

És mesmo minha irmã ou és uma forreta? Só porque tens tudo, custa-te dividir? Estou aqui sem nada, tu tens uma casa só para ti…

Não respondi. A vida inteira me ensinaram a não dizer não à família, que negar ajuda era traição.

Crescia-me uma irritação surda. Cada migalha na toalha de mesa, cada barulho, cada discussão sobre dinheiro aquilo moía-me.

Graça, podes emprestar-me 20 euros, preciso de umas meias novas, as minhas já têm buracos.

Já me custa pagar tudo para duas, Filipa.

Vá lá! Prometo que devolvo logo que arranje trabalho.

Dei-lhe. Depois pediu mais para o passe, mais para o telemóvel que se estragara. As notas saíam, os trabalhos nunca chegavam.

Num serão, tomando chá, ela puxou memórias passadas:

Lembras-te de quando éramos pequenas? Tu era a responsável, eu a traquina A mãe dizia sempre: A Graça é o pilar, a Filipa a alegria Lembras-te?

Lembro.

Tu eras o meu apoio. Continuas a ser.

Era manipulação, percebia. Uma pressão sobre a culpa, sobre laços de sangue.

Filipa, só preciso que mostres vontade. Procura mesmo trabalho. Mostra que queres mudar.

Estou a fazer o que posso! Estás sempre a exigir. Queres que eu seja uma máquina?

Voltou o silêncio.

Um mês depois estava tudo igual ou pior. Filipa não fazia (nem tentava fazer) nada em casa, exigia atenção, dinheiro, tudo. O desgaste consumia-me dores de cabeça, cansaço, até as mãos tremiam ao trabalhar.

Liguei à Dona Lídia, minha amiga de sempre.

Lídia, já não posso mais. A Filipa vive aqui há um mês, sem nada mudar. Como é que um dia se diz não a uma irmã?

Graça, ajudar a família não é igual a deixares que te usem. Ela é adulta. Não é o teu dever manter a tua irmã como se fosse filha. Não é amor, é dependência.

Mas ela diz que sou a única que tem. E se a recusar, ela perde-se.

Isso é manipulação. Tu só lhe estás a prolongar a infância. É na necessidade que ela aprende.

Desliguei, fiquei a pensar. Olhei para trás: todas as vezes que veio só uns dias, fosse do divórcio, do fim do emprego ou de conflitos com colegas de casa. Sempre repetido: comida, dinheiro e regresso ao nada. Depois silêncio, até tudo recomeçar.

Nessa noite, sentei-me na cozinha. A Filipa na sala deitada no sofá, com as bolachas e a novela aos gritos. Olhei a casa e senti algo reverter-se.

Recordei como tornei aquele espaço meu quando fiquei sozinha. Cada cortina, móvel, planta, conquistado com sacrifício e trabalho. Como resisti à tentação de pedir ajuda aos irmãos, mesmo nos piores momentos.

Agora tudo voltava a ruir pela mão de quem julga ter direito só porque é família.

Fui à sala. Ela nem levantou os olhos do ecrã.

Filipa

Hm? Espera, está a chegar ao melhor…

Tomei o comando e desliguei a televisão.

Então, estás maluca? Tinha de ver isso!

Precisamos conversar. Agora.

Havia algo diferente na minha voz, notou. Sentou-se, ainda agarrada ao pacote de bolachas.

Fala então.

Sentei-me, as mãos trémulas.

Estás aqui há um mês. Disseste que era pouco tempo, até arranjar trabalho.

E estou a tentar! Não me querem em lado nenhum.

Filipa, não procuras. Passas os dias na cama, no telemóvel, a usar tudo como se fosse teu. Estou exausta.

Vais-me mandar embora? Assim? Mesmo sendo tua irmã?

Não te mando embora. Mas isto não pode continuar. Ou procuras mesmo emprego, ou vais ter de sair. Os meus limites são importantes também.

Os teus limites? A tua vida chata é mais importante? Eu não tenho nada!

Não é isso. Amo-te, és a minha irmã, mas não posso destruir o que construí para resolver a tua vida.

Achas que tens vida? Vives como uma freira, sozinha, a contar trocos. Ao menos dei um pouco de animação à tua rotina de velha!

Acertei no olhar, fui firme pela primeira vez:

Pode ser pouco para outros, mas é a vida que escolhi. Quero paz.

E eu não tenho direito a ajuda? Vim para ti porque estou mal, preciso de ti…

Já te ajudei muito. Mas ajudar também é ser honesta. Estou a ficar doente. Não posso continuar assim.

Vais trair-me, então? A tua irmã?

Não te traio. Proponho: ficas mais duas semanas. Nesse espaço, tens de arranjar qualquer emprego loja, limpeza, café, o que for. Ajudo-te com o primeiro mês de renda de um quarto, mas depois segues sozinha.

Duas semanas?! Não sei…

Se realmente procurares, irás encontrar. Há trabalho talvez não o que gostavas, mas é um começo.

Tensão, lágrimas, silêncio.

Nunca soube viver de outra maneira sussurrou. Sempre levei tudo ao ar.

Podes aprender. Nunca ninguém te exigiu isso.

Ficámos ali, em silêncio. Via-se o céu escurecer, só o relógio marcava o tempo.

Tentar, tento. Duas semanas. Mas se não encontrar?

Vais encontrar, se realmente quiseres.

Os dias seguintes correram estranhos. A contragosto, ela começou a tentar. Mandou currículos, foi a entrevistas, mas bastava um defeito para seguir para outra opção.

Recusas tudo dizia-lhe.

Não quero qualquer coisa. Tenho direito a escolher.

Escolhes, mas não à minha custa.

O ambiente carregou-se. Recusava ceder. Se eu desafinasse agora, tudo se repetiria.

No décimo primeiro dia, voltou para casa:

Arranjei trabalho numa loja de roupa. Não me pagam quase nada, é por turnos. Estás contente?

Fico feliz por ti.

Isto é um suplício. Sorrisos, clientes, ordens… tudo por meia dúzia de tostões.

Só enquanto reorganizas a vida.

No décimo terceiro dia ajudei-a a alugar um quarto pequeno num bairro popular, com uma senhora idosa. Era básico, mas arrumado. Dei-lhe o dinheiro da primeira renda e pouco mais.

Desta vez é mesmo a última vez, Filipa. Vai sozinha a partir daqui.

Fez as malas em silêncio, levámos as coisas. Eu, alívio e tristeza. Esta fase estava a terminar, algo mudava entre nós.

À porta, pronta para sair, ela balbuciou:

Bem, estou de saída

Liga-me quando chegares e quando conseguires organizar-te. Fico preocupada.

Para quê? Assim deixas de ter de aturar-me.

Porque és a minha irmã. Vou gostar sempre de ti, mas agora de outra forma.

Um aceno. O som dos seus passos nas escadas, depois o silêncio na casa. Uma paz de que tanto sentia falta.

Abri as janelas, deixei o ar fresco entrar. Senti peso, mas também alívio. Sabia que, finalmente, tinha feito o que precisava há muitos anos. Não é negar ajuda; é ensinar outro caminho, o da responsabilidade.

Lembrei-me da Dona Lídia: A dependência só se cura com vida real. E sabia que Filipa estava, enfim, entregue a essa vida real.

Se funcionaria, se ela mudaria? Não tinha resposta. Podia voltar a cair, podia afastar-se. Talvez, um dia, fizesse as pazes consigo mesma.

Uma semana depois, o telefone tocou:

Graça, sou eu. Está tudo bem. Trabalho, a senhoria não é má.

Fico muito contente. E tu, como estás?

Cansaço, muito. Não me habituei a tanto trabalho. Mas estou a desenrascar-me.

Pausa. E acrescentou:

Pensei muito no que disseste. Vivi sempre à custa dos outros. Estava zangada contigo, mas agora percebo. Deste-me o que ninguém deu: a hipótese de crescer. Vou tentar não desapontar.

Fiquei com as lágrimas a correr-me pelo rosto.

Obrigada por dizeres isso. Tive medo que me odiasses.

Se fosse outra, talvez odiasse. Mas sei que estás certa, só que dói aceitar.

Se precisares de ajuda…

Não, Graça. Agora tenho de aprender. Aos cinquenta e quatro, já era tempo.

Combinámos falar novamente. Fiquei um longo momento à janela, sem saber o futuro. Mas saboreando aquela paz, esta liberdade, e um sentimento estranho: orgulho, finalmente, em ser irmã.

Sei que as coisas nunca serão simples entre nós. Mas, ao menos, agora sinto com a força tranquila de quem não grita: também tenho direito à minha paz.

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