Reeducação de um marido
Tivemos um caso, Matilde. Naquela última viagem para o Porto Foi tão parvo o que aconteceu.
Bebemos depois da apresentação, e eu Não consegui controlar-me, Matilde
Então estás a contar-me isto assim tão calmamente? A voz de Matilde quase falhou de espanto e mágoa. Tomé, acabaste agora mesmo de me confessar uma traição?!
Já não aguentava mais guardar isto sussurrou ele de cabeça baixa. Perdoa-me, Matilde. Prometo que nunca mais acontece! Eu percebi tudo
Matilde pousou delicadamente o copo na mesa. Sentiu a vida a desmoronar-se.
***
O início daquele dia fora banal Matilde preparava papas para o mais novo e tentava ao mesmo tempo fazer uma trança no cabelo de sete anos da Leonor.
Mãe, estás a puxar! choramingou Leonor, fugindo-lhe com a cabeça.
Desculpa, querida, estou cheia de pressa. Onde é que anda o teu pai?! Ainda vamos chegar atrasados!
O marido apareceu a fechar os botões da camisa. Pela expressão, Matilde percebeu logo que ele estava maldisposto.
Tens café? perguntou, sem lhe olhar nos olhos.
Está na cafeteira. Serve-te, que eu tenho as mãos ocupadas.
Ele serviu-se. Bebeu de pé, virado para a janela, vendo o jardineiro a varrer as folhas na praceta.
Nem um beijo na bochecha, nem um dormiste bem há anos que pareciam dois estranhos que dividiam casa.
Matilde trabalhava como contabilista numa grande empresa de distribuição, casada há dez anos.
Apartamento T3, ainda a pagar ao banco, um SUV novinho na garagem. Os filhos tinham saúde, parecia uma vida perfeita, mas
Faltava-lhe o ar, faltava-lhe o marido aquele homem de antigamente, capaz de correr à noite para lhe comprar gelado ou de a abraçar tão forte que o peito chiava.
Por volta das duas da tarde, o telemóvel apitou em cima da secretária.
Vamos jantar fora hoje? Há quanto tempo não saímos Fica descansada, combinei com a minha irmã Sofia, ela fica com os miúdos.
Matilde leu a mensagem três vezes. O coração bateu mais depressa, como se fosse uma adolescente.
Que estranho murmurou. Será que ele nota?
O resto do dia foi um nevoeiro. Saiu do trabalho mais cedo, passou em casa, revirou o armário à procura de um vestido.
Escolheu o azul-escuro, de seda, que lhe favorecia a silhueta. Mais rímel do que o costume, uma gotinha de perfume atrás das orelhas.
Olhou-se no espelho: via ainda uma mulher que queria agradar ao marido.
O restaurante estava acolhedor velas acesas, música ao vivo em som baixo. Chegou, e Tomé já a esperava, de fato, bem barbeado.
Levantou-se quando ela chegou; nos olhos dele passou algo que parecia admiração. Ou talvez pena? Na altura, ela não percebeu.
Estás linda, Matilde disse ele, puxando-lhe a cadeira.
Obrigada. Confesso que até estranhei o convite. O que se passa?
Nada de especial Só me caiu a ficha que já nem falamos. Vivemos como vizinhos, a sério.
É verdade suspirou ela, provando o vinho. Trabalho, filhos, aquelas rotinas todas
Eu sinto o mesmo Tomé rodou entre os dedos a faca. Sinto-me a correr dentro de uma roda, mas esqueci-me para onde quero ir.
Conversaram durante horas. Relembraram como foi o casamento, os tempos no pequeno T1 alugado com a torneira a pingar e foram felizes como nunca.
Riram-se das primeiras fraldas mudadas de Leonor, quando Tomé quase desmaiou.
Aquele foi um serão extraordinário. Matilde sentia o gelo a quebrar-se entre eles.
Temos de sair assim mais vezes pensava ela. Só precisamos de descansar Estamos só exaustos.
Vamos para casa? propôs Tomé, quando chegou a conta. Passo ainda no supermercado e compro um vinho do Douro. Ficamos na conversa sem os miúdos.
Em casa, sem barulho de crianças ou brinquedos espalhados, o apartamento parecia enorme e vazio.
Sentaram-se na cozinha. Tomé serviu vinho nos copos. O ambiente estava quente, amigável, mas de repente
Matilde, precisamos mesmo de mudar alguma coisa começou ele.
Concordo, Tomé. Porque não saímos uns dias só os dois? Para os Açores, ou para um retiro. Fazíamos bem uma pausa.
Sim, mas não é só disso que falo. Tenho estado completamente perdido Já nem nos ouvimos.
Andas sempre com os miúdos, eu metido no trabalho. Quando chego, tu estás a dormir ou cansada.
Não há proximidade, percebes? Não é só física É aquela ligação de sempre.
Matilde ficou alerta:
Para onde queres chegar? perguntou-lhe, baixinho.
A que eu falhei.
E aí ele desabou tudo. Contou-lhe do Porto, da colega, da traição.
Ela só me ouvia, Matilde falou rápido, como quem não quer ser interrompido. Íamos várias vezes juntos às reuniões fora. Perguntava mesmo como eu estava, preocupava-se a sério.
Não estou a arranjar desculpas Fui um inútil, eu sei. Ainda resisti bastante, juro.
Mas nessa noite Bebemos com o pessoal e depois ficámos só os dois no bar do hotel
Matilde ficou calada. Sentiu uma explosão por dentro que lhe cortava o peito.
Se conseguires, perdoa-me continuou ele. Tenho uma vergonha tremenda. Andei estas duas semanas que nem sabia onde meter a cabeça.
Não conseguia olhar para ti sem te contar a verdade. Vocês são tudo o que tenho. Faço o que for preciso.
O que for preciso repetiu Matilde, sem emoção.
Sim. Já falei com o chefe. Pedi transferência de departamento, para nem me cruzar com ela. O senhor António disse que resolve isso no próximo mês.
Meti férias. Vamos embora quando quiseres. Amanhã mesmo compro pacotes. Só nós dois. Tentamos recomeçar, a sério.
Ele tentou pegar-lhe na mão, mas Matilde afastou-se rapidamente.
Recomeçar? sorriu, triste. Tomé, tu percebes o que acabaste de fazer?
Não foi apenas uma traição física. Arrasaste-me.
Estava feliz no trabalho, a escolher vestido, achava que me ias surpreender, que querias recuperar o nosso casamento
Eu amo-te! quase gritou ele. Por isso te contei tudo! Não conseguia mais mentir.
Se amasses, não tinhas ido para a cama com ela Que colega tão prestável. E eu é que sou sempre a amargurada
Não era o que queria dizer tentou justificar-se Tomé.
Aproximou-se para a abraçar pelos ombros.
Por favor, Matilde
Não me toques! empurrou-o. Dá-me nojo.
Saiu a correr da cozinha, fechou-se no quarto e atirou-se à cama.
As lágrimas caíram sem parar. Tomé ainda ficou tempo junto à porta, murmurando desculpas e promessas, depois calou-se Matilde ouviu-o deitar-se no sofá da sala.
***
De manhã, entrou na cozinha de rosto inchado. O marido permanecia sentado no sofá, com a mesma roupa. O café intocado na mesa.
Não fui dormir fora porque não podia deixar os miúdos com ninguém, anunciou, fria.
Matilde
Cala-te. Não quero ouvir sobre os teus sentimentos. Agora isso não me interessa.
Percebo.
Falaste em férias. Onde é que pensaste ir?
Estava a escolher algum sítio calmo. Só para descansar, conversar
Muito bem virou-se para a janela. Vamos. Mas não penses que tudo vai voltar ao normal. Não vou recomeçar. Quero perceber se consigo estar ao pé de ti sem repulsa.
Tomé assentiu, pronto para tudo.
Trato já de tudo, hoje mesmo.
E outra coisa acrescentou Matilde. O pedido de transferência. Quero uma cópia carimbada. E o teu telemóvel Agora fica sempre desbloqueado.
Claro. O que quiseres.
Ele estendeu-lhe o telemóvel, mas ela fez sinal de recusa.
Depois. Agora vai tomar banho. Preciso de pensar antes de ir buscar os miúdos à casa da Sofia. Não quero que nos vejam assim.
Assim que o ouviu na casa de banho, Matilde afundou-se na cadeira. Tinha tanta vontade de fugir, deixar para trás o homem que amara até ontem, mas não conseguia. Ou, pelo menos, não por causa dos filhos
***
Os dias antes da partida foram lentos e frios; só trocavam palavras do essencial.
Já compraste os bilhetes?
Já, estão marcados para sábado.
Vai buscar a Leonor à escola.
Vou.
As crianças pressentiam algo. Leonor ficava muda sempre que via os pais juntos, e o filho acordava mais rabugento.
Mamã, por que é que o papá dorme na sala? perguntou Leonor, já deitada na cama.
Matilde engoliu em seco, ajeitando-lhe os lençóis.
O pai anda muito cansado do escritório. Dói-lhe as costas da cadeira, no sofá descansa melhor.
Vocês zangaram-se?
Estamos só cansados, filha. Vai correr tudo bem. Em breve vamos ver o mar, lembras-te?
Ela assentiu, mas o receio continuava nos olhos. Crianças adivinham sempre tudo.
***
Sexta à tarde, véspera da viagem, Tomé chegou mais cedo trouxe papéis.
Aqui está pousou o documento. Confirmação da transferência. A partir de segunda, depois das férias, já não estou naquele departamento.
Sem viagens, nada disso. Ela fica no outro edifício. Não nos vamos cruzar mais.
Matilde olhou de relance para o carimbo.
Está bem.
Matilde hesitou, parado à porta da cozinha. Estou sempre a pensar no que fiz fui um cobarde.
Tomé, basta. Foste tu que escolheste no Porto. Agora sou eu que escolho ainda estou a decidir se fico ou não contigo!
Ela não contou que na noite anterior, quando ele adormeceu no sofá, mexeu no telemóvel dele.
Sentiu-se mal, tremia-lhe as mãos, mas não conseguiu evitar. As mensagens ainda lá estavam; a última, dele:
Acabou. Foi um erro tremendo. Não me voltes a contactar.
E ela responde-lhe: Como quiseres. Boa sorte!
Sentiu-se melhor? Não. Mas dentro de si algo mexeu: pelo menos nisto, Tomé não mentiu. Queria mesmo acabar com aquilo.
***
Sábado de manhã acordou com uma chuva miudinha. Carregaram as malas em silêncio.
O marido esmerava-se: dava-lhe a mão, fechava janelas, comprou um galão para ela na estação de serviço. E tudo isso só piorava a dor.
No aeroporto, na sala de embarque, sentaram-se juntos enquanto os miúdos viam aviões na janela gigante.
Sabes disse ele, olhando também ontem lembrei-me das nossas férias em Odeceixe, só com uma tenda. Lembras como ela quase voou?
Matilde sorriu, ainda que sem querer.
Lembro. Passaste a noite a segurar nos espetos e eu dormia a ouvir o vento.
Pensei mesmo que nunca ia encontrar melhor do que tu. Agora também penso isso, Matilde. Só me perdi Desorientei-me.
Perdemo-nos os dois, Tomé respondeu ela, pela primeira vez em dias olhando-o nos olhos.
Ele pegou-lhe na mão. Desta vez ela não a retirou, mas também não apertou de volta. Sentia-se confusa.
Provavelmente um dia o perdoaria, pelo menos para evitar o trauma do divórcio aos filhos.
Mas antes de perdoar, ele ía aprender. Para nunca mais se atrever a olhar sequer para outra mulher.
Essas férias iam marcar o início dessa reeducação
No fim deste diário, percebo que não vale a pena esperar para pedir ajuda ou mudar. O orgulho destrói muito. Às vezes, só caindo do fundo é que nos lembramos do essencial: não é apenas o amor, é a confiança que não se pode perder.







