Dona Leonor, faça favor de conhecer. Esta é Maristela, a nossa nova colega. Vai trabalhar no seu departamento.
Levantei os olhos do monitor e deparei-me com uma rapariga de pouco mais de vinte anos. Cabelos castanhos presos num rabo-de-cavalo limpo, sorriso aberto e um pouco tímido. Maristela balançava de um pé para o outro, segurando uma pasta fina contra o peito.
Muito prazer disse ela, inclinando ligeiramente a cabeça. Estou tão feliz por me terem aceitado. Prometo que vou dar o meu melhor.
O chefe, senhor António Coutinho, já se dirigia à porta, mas parou antes de sair.
Dona Leonor, tem já vinte anos de experiência em logística connosco. Integre a Maristela, mostre-lhe tudo: o sistema, os percursos, o trabalho com os transitários. Daqui a um mês é suposto ela conseguir gerir uma secção sozinha.
Acenei, a olhar para a nova. Com vinte e três anos, podia ser minha filha se eu alguma vez tivesse filhos. Aos cinquenta e cinco, aceitei há muito que formar família ficou pelo sonho. Só me restava o trabalho, o apartamento com gerânios nas janelas e o gato Tobias.
Senta-te ali apontei para a secretária ao lado. Vamos tratar disto.
Durante a primeira semana, Maristela baralhava os códigos dos transportadores e esquecia-se de registar os dados no sistema. Eu remediava, explicava de novo, desenhava esquemas em folhas soltas.
Olha, aqui puseste Porto, mas a carga vai para Portimão. São mais de trezentos quilómetros de diferença, percebes?
Ela corava até à raiz dos cabelos, pedia desculpa, corrigia logo. E voltava a errar, noutra coisa qualquer.
A meio da segunda semana, as coisas começaram a entrar nos eixos. Maristela apanhava tudo à primeira, anotava tudo o que eu dizia num bloco já amarrotado, com gatos na capa.
Dona Leonor, porque é que não trabalhamos com aquele transportador? Os preços são bons.
Porque já falharam nos prazos por duas vezes. A reputação vale mais do que um desconto, guarda isso.
Ela assentia, fazia a nota. Até que, de repente, perguntou:
Os bolinhos que traz faz mesmo em casa? Cheira tão bem a partir da sua lancheira.
Sorri. No dia seguinte, levei um recipiente maior com pastéis de massa tenra. Maristela deliciou-se na pausa do almoço como se aquilo fosse um manjar dos deuses.
A minha avó fazia destes apanhava as migalhas da mesa com todo o cuidado. Partiu há dois anos. Tenho tantas saudades.
Sem pensar, coloquei-lhe a mão por cima dos dedos finos. Ela não rejeitou, antes retribuiu o gesto com um sorrir de gratidão.
Depois vieram o bolo de maçã, os biscoitos de requeijão, o pão-de-ló que Maristela declarou ser o melhor que tinha provado. Dava por mim a cozinhar mais para ter sempre algo para oferecer. Um calor antigo e quase esquecido crescia-me no peito.
Dona Leonor, posso pedir-lhe um conselho? Não é de trabalho.
Diz.
O meu namorado pediu-me em casamento. Mas estamos juntos há só meio ano. Que acha, não será cedo?
Pousei os papéis que tinha na mão. Fitei Maristela, os olhos ansiosos.
Se dúvidas, ainda é cedo. Quando chega a pessoa certa, nem perguntas.
Maristela suspirou de alívio, como se lhe tivesse tirado um peso dos ombros.
Na terceira semana já era ela que tratava das negociações com os transitários, verificava os trajetos, apanhava os enganos dos colegas. Observava-a com uma espécie de orgulho silencioso. Resultou. Ensinei.
É como uma mãe para mim disse ela um dia. Mas melhor. A minha só me aponta falhas, a senhora apoia-me sempre.
Pisquei os olhos e virei-me para a janela.
Ó, vá trabalhar.
Mas não consegui esconder o sorriso o resto do dia.
Em pouco tempo Maristela floresceu. Eu reparava na firmeza com que agora falava ao telefone, na rapidez com que processava pedidos, na facilidade com que navegava no software da casa. Superou tudo o que eu esperava.
Na reunião de sexta, o senhor António Coutinho apareceu mais carrancudo do que era costume. Sentou-se à cabeceira da mesa, rodando uma caneta nos dedos, e só falou passado algum tempo.
A situação é complicada percorreu-nos com o olhar. O mercado está a encolher, três dos nossos maiores clientes mudaram para a concorrência. A administração decidiu reduzir pessoal.
Cruzei olhares com os colegas. Todos percebíamos o significado da palavra reduzir. Despedimentos.
Durante este mês, vão ser tomadas decisões para cada departamento. Até lá, seguimos normalmente.
Regressei à minha secretária e olhei, de soslaio, para Maristela. Ela também estava colada ao ecrã, com os dedos suspensos sobre o teclado.
Cinquenta e cinco anos. Eu sabia a matemática. O meu salário era dos mais altos. Muito tempo de casa, logo a indemnização seria pesada. Aos olhos da contabilidade candidata perfeita a ser dispensada. Custava, revoltava, mas eu iria desenrascar-me. A reforma não tardava, tinha algumas economias, a hipoteca já nem existia.
Mas Maristela A rapariga mudou. Deixou de falar ao almoço, não pedia mais bolo de maçã, olhava para mim como se não me visse quando lhe fazia perguntas.
Ó Maristela, que se passa? Sentei-me à beira da secretária dela. Estás preocupada com os cortes?
Tremeu, tentou sorrir.
Não, está tudo bem. Só canseira, Dona Leonor.
Mas eu via que não estava. Rapariga infeliz, mal começava a ganhar balanço na vida e veja-se. Uma injustiça.
Duas semanas passaram-se naquele nervosismo. Os colegas cochichavam, especulavam quem seria o primeiro a sair. Maristela só trabalhava, calada. Apanhei-a algumas vezes a olhar para mim, estranhamente, mas pensei que fosse só o stress.
Na quinta-feira à tarde, surgiu no email interno: Dona Leonor, dirija-se ao gabinete do diretor.
Levantei-me, ajeitei o casaco. Pronto, chegou a minha vez. Vinte anos na empresa, e agora adeus. Ia preparada.
Abri a porta e parei à entrada.
Sentada em frente ao senhor António estava Maristela. Costas direitas, pasta nos joelhos, rosto fechado.
Entre, sente-se indicou António Coutinho. Temos de conversar a sério.
Sentei-me, alternando o olhar entre o chefe e Maristela. Ela não me olhou.
A Maristela trabalhou com afinco abriu uns papéis na mesa e detetou uma série de erros graves. No seu trabalho, Dona Leonor.
Pareceu-me que o ar me fugia dos pulmões. Não encaixava: Maristela, a pasta dos gatos, a palavra erros. Aquela Maristela dos bolinhos e das confidências.
Analisei dados dos últimos oito meses falou finalmente, sempre virada para António Coutinho, como se eu nem ali estivesse e encontrei onze divergências importantes nos documentos. Códigos de rotas errados, faturas trocadas, datas de expedição baralhadas.
Abriu a pasta, de onde tirou folhas cheias de marcas amarelas. Reconheci o meu caligrafia em margens de alguns papéis.
Acho que sou capaz de tratar deste lugar melhor disse ela, muito formal, como quem lê um despacho. Dona Leonor é experiente, sem dúvida, mas a idade pesa. Para a empresa, é mais vantajoso ficar comigo salário mais baixo, mais rendimento. É só fazer contas.
António Coutinho recostou-se, tamborilando os dedos sobre a mesa.
E a Dona Leonor, que diz?
Levantei-me devagar, peguei nas folhas, corri os olhos pelas linhas marcadas. Erros que, no fundo, nem eram isso.
Não vou justificar-me devolvi os documentos. Em vinte anos aprendi que não se faz tudo perfeito. O importante é o resultado. As encomendas chegam, clientes satisfeitos, dinheiro a entrar.
Mas erros destes podem ser fatais! Maristela inclinou-se, e pela primeira vez vi-lhe algo de emoção na voz. Estou a tentar ajudar a empresa!
António Coutinho esboçou um sorriso, sem maldade, mais de cansaço de quem já viu muitos casos.
Sabe, Maristela, quem nunca cá precisamos? De quem pisa colegas para subir.
Maristela ficou branca.
Dessas falhas tenho conhecimento há muito continuou ele. Não são erros. São artimanhas de quem soube aprender a mexer nas burocracias, a desatar nós quando o sistema empaca. Sim, no papel parecem irregularidades. Mas é mestria, não falta de rigor. Você simplesmente ainda não percebe a diferença.
Ela agarrou os braços da cadeira.
Duas semanas para se despedir fechou a pasta. Quero o pedido na minha secretária até ao fim do dia. Está livre.
Por favor a voz dela, rouca. Eu não queria Preciso do emprego, tenho a prestação do apartamento, agora que comecei
Devia ter pensado antes. Pode sair.
Maristela levantou-se, deixou cair a pasta, as folhas espalharam-se. Apanhou-as apressada, cabeça baixa, escondendo as lágrimas. Saiu quase sem fazer ruído.
Foi por pouco, Dona Leonor disse António, abanando a cabeça. Aquela miúda ia mesmo tirar-lhe o tapete. Deu-lhe colo, quase trouxe víbora ao peito.
Fiquei calado. Senti um vazio enorme.
Conte ficar por cá até a porta fechar acrescentou ele. Gente como a senhora não se desperdiça. Estamos entendidos?
Assenti e saí.
Maristela estava sentada à secretária, olhos no monitor. Ao passar, levantou para mim um olhar frio, acerado, de entre as pestanas molhadas. Continuei sem olhar para trás. Sentei-me, abri o programa. Os pastéis na lancheira, no parapeito, ficaram intocados até à hora de sair.







