A Nora

NORA

Confesso que ainda me espanta como os domingos lá em casa podem ser tão diferentes com o passar dos anos. Ontem mesmo estava eu, António Correia, a ajeitar os últimos detalhes da mesa, cuidadosamente posta com a toalha de linho, talheres polidos e um grande prato de pato assado que cheirava por toda a casa. Daqui a pouco chegariam os meus filhos com as suas esposas.

O mais novo casou-se há pouco, o casamento foi pequenino, nada de grandes festas. Hoje em dia é assim, parece que os jovens não ligam tanto a esse alarido. Em tempos eu e a minha Leonor também só fomos ao registo, uns papéis assinados e pronto. As alianças só vieram um ano depois, duas argolinhas finas de ouro. Gostava de lhes ter dado um daqueles casamentos de filme, mas cada um vive à sua maneira

A minha nora, Mafalda, é uma rapariga muito simpática, não tenho nada a apontar. Fez ao meu filho Duarte muito bem. Por causa dela, arranjou um bom emprego e agora até se interessa mais pela vida. Até aos trinta, ele vivia sempre à sombra de quem lhe resolvia tudo. Cheguei a preocupar-me, mas felizmente as coisas encaminharam-se.

Sendo franco, só tenho um senão com Mafalda: é de uma vaidade e de um cuidado consigo mesma que eu nunca vi. Está sempre nos salões, entre cortes de cabelo, madeixas, massagens, unhas, o que se lembrar. Gasta o que eu considero rios de euros. E sempre defendi que uma mulher casada, com família, tem de pôr a casa à frente das vaidades pessoais.

Penso cá comigo: quando vierem filhos, será que em vez de comprar uns sapatos para o rapaz, ela vai para um spa? No meu tempo, e ainda hoje, comecei por dar a casa e a família, só pensava em mim quando já não havia quem precisasse de mim. E quando fiquei viúvo, os rapazes, mesmo crescidos, ainda necessitavam da ajuda do pai.

Estava nessas reflexões quando ouvi a campainha aí estavam eles. Mafalda entrou na sala como uma estrela. O cabelo bem arranjado, as unhas impecáveis, maquiagem quase nada, mas aquela pele é obra de profissional.

Oh Mafalda, estás mesmo uma brasa! escapei-me, sincero, mas não consegui disfarçar um certo tom crítico. E o fato, é novo?

É sim, comprei ontem ela sorriu com aquele ar satisfeito. Tive direito a um prémio no trabalho.

Ai filha, nessas alturas o melhor é pôr o dinheiro de lado não resisti em partilhar o que aprendi. Prémios, ganhos extra, décimo terceiro, é para o dia negro. Vais precisar.

Mafalda não respondeu. Ela gostava de mim, mas eu sabia bem que ela pensava diferente para ela, o dia negro só existe para quem passa a vida a temê-lo.

O jantar decorreu bem, mas voltei a abordar ao de leve o tema dos gastos supérfluos. Percebi logo que ela percebeu que o recado era para o lado dela.

No regresso a casa, ouvi-a perguntar ao Duarte:
Duarte, a tua mãe nunca faz nada para ela própria?
Sei lá cozinha sempre, viu a mesa que preparou. Vê às vezes telenovelas, vai cuscar com as vizinhas porquê?
Porque parece-me que ela nunca viveu nada de bom. Devias levá-la ao cinema, ao teatro, ao restaurante
Olha que não, ela não liga a isso, nem inventes.

Ficou calada, mas vi que ficou pensativa. Mais tarde soube que comparou a minha vida à de sua mãe, que mesmo sem fartura nunca se privou de uns mimos: um corte, um vestido novo, sempre o bilhete anual do teatro municipal só porque gostava.

No final da semana, recebi um telefonema da Mafalda a convidar-me para um passeio e um café. E sugeriu, quase nervosa, que lhe fizesse companhia num salão de beleza ia lá ver uma coisa dela, mas convidava-me a experimentar uma massagem ou um arranjo de mãos, ao menos. Relutei, claro:
Ó Mafalda, eu espero-te lá fora, não faz falta nenhuma.
Mas para quê esperar? Em vez de perder tempo, aproveita e faz um miminho.

Lá acedi, resmungando. Mafalda já tinha avisado o salão para me receberem com todas as mordomias, sem me deixarem pagar nada: Digam que está tudo incluído, já foi pago. Façam-lhe tudo o que quiser, mas sem pressão!

A verdade é que saí de lá duas horas depois, quase nova. Fizeram-me o que não lembrava a ninguém, serviram-me café, chá de camomila, trataram-me como uma Senhora. E tudo sem um tostão.

Do salão fomos para uma cafetaria. Quando dei pela coisa, estava a rir, de mão cuidada e a sentir-me leve. Mafalda propôs:
E se começássemos a combinar saídas destas? Aqui há sempre descontos para clientes habituais. Gostou, não foi?
Muito mesmo, não fazia ideia que era tão bom confessei.
Devia ter experimentado antes!
Antes bem, antes havia crianças pequenas, o meu Mário (Deus o tenha) era muito poupado e depois já não fazia sentido.
Mas agora faz! Assim faz-me companhia.
Por ti, às vezes posso ir.

A partir desse dia, deixei-me ir nas ideias da Mafalda. Passámos a sair juntas, renovar um bocadinho o guarda-roupa, sempre com ela a esconder o preço real das coisas Conseguiu até que o Duarte me levasse ao restaurante e depois ao cinema. No Natal, tive o melhor dos presentes: ela ofereceu-me um passe anual para o Teatro Nacional.

As minhas vizinhas não se cansam de elogiar:
Nunca estiveste tão nova, Maria!
Isto é o entusiasmo da malta nova digo sempre, encolhendo os ombros e a sorrir.

A verdade é que é agora, já depois dos sessenta, mãe de dois homens feitos, que sinto que finalmente estou a viver a minha segunda juventude.

Acho que a maior lição que levo destes domingos e destes dias inesperados é que nunca é tarde para cuidarmos de nós, não importa a idade ou as preocupações. Por vezes, é preciso o olhar e o incentivo de alguém de fora para nos lembrarmos que também merecemos ser felizes.

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