NORA
Hoje preparei a mesa com todo o carinho, coloquei a travessa com pato assado no centro e suspirei. Os meus filhos com as noras estavam quase a chegar. O mais novo casou-se há pouco tempo, numa cerimónia discreta. Hoje em dia, a juventude prefere assim, mas eu teria feito uma celebração em grande. O meu Manel e eu, quando casámos, foi só uma ida ao registo. Só um ano depois conseguimos comprar as alianças: uns aros dourados fininhos. Queria tanto dar uma festa verdadeira aos meus filhos, mas pronto, cada um faz como entende.
Sò tem um defeito, é tão arranjadinha demais!, confidenciei-me uma vez. Mas a minha nora já decidiu conversar comigo sobre essas coisas.
A Beatriz, a minha nora, é até uma boa rapariga, simpática e trabalhadora. Fez muito bem ao meu Gonçalo: ajudou-o a arranjar um ótimo emprego e ainda o incentiva a crescer na carreira. Até aos trinta, ele vivia à sombra de conforto, sem grandes ambições e eu comecei a preocupar-me. Mas felizmente, agora está tudo melhor encaminhado.
O problema da Beatriz é mesmo esse tal excesso de cuidado que tem consigo própria. Vai ao cabeleireiro, faz massagens, manicure e o diabo a quatro. Gasta um pipa de massa nisso. E não acho que uma mulher casada, com família, devesse dar tanta importância a essas coisas.
Quando vierem filhos, será que vai preferir um pedicure a comprar uns sapatos novos ao meu filho? Nunca apoiei muito mulheres deste género. Eu só pensava em mim depois de cuidar de todos. Principalmente depois do marido morrer os filhos, já crescidos, ainda precisavam da minha ajuda.
Os meus pensamentos foram interrompidos pela campainha chegaram os jovens. Beatriz entrou na sala a brilhar. Cabelo impecável, unhas arranjadas, quase sem maquilhagem resultado das mãos de fada de uma boa esteticista.
Beatrizinha, estás tão bonita! exclamei, de coração, mas não consegui esconder totalmente um ligeiro descontentamento. O fato é novo, não?
É sim, comprei ontem sorriu ela. Recebi um prémio bom no trabalho.
Então, era melhor poupares. Eu, quando ganhava prémio, metia sempre de lado. Nunca se sabe! Trezeº mês, trabalhos extra, prémios tudo para uma emergência. Dá sempre jeito.
Beatriz não respondeu. Sempre gostou de mim achava-me simples, dedicada à família. Mas, pelo que percebi, para ela, as desgraças só aparecem a quem passa a vida a preparar-se para elas.
A noite correu bem, mas lá tentei lançar umas indirectas sobre o gasto excessivo. Ao perceber, ela virou-se para mim:
E a dona Rosa, há quanto tempo não faz um manicure?
Eu…? Nunca! Só trato das mãos para estarem limpas. Não preciso de mais nada.
Ninguém deu atenção, mas percebi que Beatriz ficou tocada. E eu, a pensar, ela nunca tinha visto nada de mais, coitada criou dois filhos, está reformada e nem um luxo, nem uma vez.
No regresso a casa, Beatriz comentou com o Gonçalo:
Ela nunca faz nada por ela mesma?
Sei lá. Cozinha, prepara as refeições, vai às vizinhas, vê televisão. Porquê?
Porque acho uma pena. Deviam levá-la ao cinema, ao teatro, a um restaurante…
Ela nem quer, não inventes.
Beatriz ficou a pensar. Comparou a minha vida com a da própria mãe, que, mesmo com pouco, sempre arranja dinheiro para um corte de cabelo ou uma peça de roupa nova, e nunca perde uma estreia no teatro municipal.
Determinado dia, ligou-me e insistiu para irmos beber um café juntas, passear um pouco, e, se eu quisesse, passar num salão. Disse que precisava de ir à esteticista, convidando-me para uma massagem ou manicure.
Ó filha, deixa lá isso, se precisares vou contigo mas fico à espera cá fora, não vou gastar dinheiro nessas coisas.
Oh dona Rosa, não vá ficar à espera, veja lá, meia horinha sabe tão bem. Vamos, só para experimentar manicure e massagem nas mãos?
Lá acabei por ceder, um pouco contrariada. Beatriz tratou de tudo. Antes da minha chegada, avisou as funcionárias do salão:
Façam-lhe um serviço como deve ser, ok? E ofereçam mais qualquer coisa, mas com jeitinho se perguntar preços, digam que já paguei tudo, é só aproveitar!
No dia marcado, quase fui puxada para dentro do salão.
Só meia hora, está bem Beatriz? E diga lá quanto é, para depois eu pagar…
Quando fui levada por uma funcionária, a Beatriz sentou-se no sofá do hall e tirou o telemóvel. Nem veio para ela, foi só mesmo para me fazer companhia.
Acabei por ficar lá duas horas! Quando regressei, estava transformada. Fizeram-me tudo: massagem, manicure, chá de ervas, café, mimos.
Ai filha, isto deve ser caríssimo, não?
Hoje está em promoção! disse logo a administrativa do salão Se vier com uma amiga, oferecemos tudo outra vez. Por isso, hoje não paga nada!
De lá, fomos ao café em frente. Provei um cappuccino e recostei-me relaxada.
Então, dona Rosa, porque não fazer disto um hábito? Eles oferecem imensos descontos! Gostou?
Muito, nunca pensei que fosse tão agradável.
Devia ter tentado mais cedo.
Olha, antes havia sempre quem precisasse de mim, depois o meu Manuel, Deus o tenha, era mesmo muito poupado, nunca gostou de extravagâncias. Depois, já nem fazia sentido.
Agora já fazia: juntar-me à Beatriz, só para não ir sozinha.
Foi assim que comecei a deixar-me cuidar. Aos poucos, a neta levou-me ao restaurante, ao cinema com toda a família, e no Natal recebi de presente uma assinatura anual para o teatro da cidade.
As minhas vizinhas notaram diferença:
Pareces outra, Rosa! Até estás mais nova.
É a juventude cá de casa a puxar por mim respondia eu, envergonhada, mas satisfeita.
A verdade é que, agora, já reformada e mãe de dois homens crescidos, sinto que está a começar para mim uma nova juventude.
A vida ensinou-me: é preciso viver, não só para os outros, mas também para nós próprios. Agora, sei dar valor a cada momento porque cuidar de mim não é egoísmo, é sabedoria.







